As agulhas também tratam o baixinho
A Acupuntura ganhou, nos últimos anos, o status de especialidade médica. Nesta entrevista, o médico Hong Jin Pai mostra como a terapia pode ser usada nos seus filhos
Embora provoque arrepios em muita gente, essa técnica que emprega agulhas para curar problemas que vão de dores musculares a distúrbios neurológicos pode, sim, ser usada em crianças. "Os pacientes mirins são muito melhores que os adultos", garante o médico Hong Jin Pai, do Instituto da Criança. Além de eles serem mais receptivos à terapia, os resultados aparecem mais rapidamente. "Mas é preciso ganhar a confiança dos pequenos e mostrar aos pais a importância de não transmitir apreensão nos momentos em que o tratamento estiver sendo realizado", ensina o médico. E, com isso, dá para garantir às crianças uma forma de tratamento que muitas vezes dispensa o uso de remédios.
Meu Nenê - A Acupuntura é diferente em crianças?
Hong Jin Pai - É, sim. Sempre procuramos opções mais confortáveis. Principalmente para os pequenos até 5 anos. Eles suportam menos as dores e são emocionalmente mais instáveis. Por isso, usamos o raio laser ou estímulos elétricos. Este segundo recurso é composto por várias placas, colocadas no corpo da criança com adesivos. Quando o aparelho é ligado, ele emite vibrações com intensidade variável e aceitável. A técnica não provoca dor, apenas um pequeno desconforto. Entretanto, em crianças com problemas mais graves e crônicos e após os 6 anos, podemos usar as agulhas.
M. N. - E elas são as mesmas que as usadas em adultos?
Hong - São. Mas há uma diferença. Como a criança é mais sensível à terapia, aplicamos as agulhas de forma superficial. O tempo das sessões também é menor. Varia entre 5 a 10 minutos. E não estimulamos mais do que dez pontos.
M.N - E em que tipo de problemas o médico deve aprofundar mais as agulhas nas crianças?
Hong - No caso de sequelas neuromusculares causadas por lesões cerebrais, por exemplo. Essas crianças precisam de fortes estímulos para apressar a melhora da função neuromuscular. E, se isso acontece, até os exercícios de reabilitação também passam a ser mais bem aproveitados. Em geral, com quatro ou seis sessões pode-se notar os resultados positivos. Porém, irá depender do caso.
M.N - A presença dos pais no consultório é importante?
Hong - É, mas desde que eles não transmitam ansiedade ao pequeno. Muitos pais têm medo de agulhas ou acreditam que o tratamento é sinônimo de tortura. Daí, acabam se assustando quando os filhos estão em tratamento. Nesses casos, procuro salientar a importância de eles passarem tranquilidade para os filhos. Se a tarefa no início for muito difícil, recomendo que não fiquem muito próximos, ou até mesmo em outra sala.
M.N - E o profissional, como deve tratar os pequenos?
Hong - É essencial ganhar a confiança deles. Muitas vezes, inicio o tratamento com sessões que tenho certeza de que não vão provocar nenhum tipo de desconforto. Além disso, é importante descontrair. Passear com eles pelas salas e mostrar outros pacientes pequenos que também vão ser tratados é primordial para a aceitação da terapia.
M.N - Como a acupuntura age no organismo?
Hong - Ao aplicar uma agulha, várias reações são desencadeadas. Quando ela é inserida, há a liberação de um neurotransmissor conhecido como somastina, que tem um efeito analgésico local. A partir daí, outras ações são provocadas. Substâncias que promovem a estimulalção do sistema imunológico também são liberadas, além de outros neurotransmissores com efeitos terapêuticos, como a endorfina, serotonina, dopamina. E mais: a glândula supra-renal também aumenta a produção do cortisol, um antiinflamatório natural fabricado pelo corpo.
M.N - A acupuntura é indicada para que tipo de doença?
Hong - Ela pode tratar vários distúrbios, como agitação, dores musculares, enurese noturna e rinites. Mas, para alguns, ela é mais conhecida. Em crianças asmáticas, por exemplo, a acupuntura ajuda de diversas formas. A técnica estimula a produção da cortisona natural, que ajuda na broncodilatação. E há também o fortalecimento do sistema imunológico. Essas reações em conjunto beneficiam cerca de 75% dos asmáticos tratados com acupuntura e fazem com que haja um intervalo maior entre as crises de asma. Além disso, a gravidade das crises diminui bastante. Mas a maior vantagem está na possibilidade de poder descartar o uso de cortisona. O remédio, apesar de ter sua eficácia comprovada, provoca alterações no sistema imunológico da criança e pode afetar seu crescimento. É possível, com o tempo, diminuir o uso do medicamento clássico e evitar os efeitos colaterais muito comuns provocados por essa substância.
M.N - Como? Ela trata dos sintomas, dos efeitos colaterais provocados por remédios ou da própria doença?
Hong - Dos três. Nos casos de criança agitada, com enurese noturna ou dores musculares, a acupuntura pode ser usada sozinha, sem nenhuma outra terapia. Em asmas, artrites ou enxaquecas, ela pode vir associada ao tratamento convencional, mas com menor quantidade de remédios. Já em crianças com câncer, a acupuntura pode diminuir a dor, o desconforto e o mal-estar provocado pela quimioterapia e radioterapia.
M.N - Há alguma contra-indicação para a acupuntura?
Hong - Nenhuma. Mas é importante escolher um médico com experiência em tratamento infantil, para que ele opte pelo método correto. Até pacientes com Aids podem ter benefícios com o tratamento. Lembrando sempre que o objetivo principal, nesse caso, é melhorar a qualidade de vida do paciente: provocando um efeito analgésico, aumentando o apetite e relaxando.
M.N - O Instituto da Criança tem um ambulatório em que são tratados pacientes por meio da acupuntura. Quais são os casos mais comuns?
Hong - Além da asma e da artrite juvenil, tratamos também tendinites, fibromialgia (doença que provoca dores musculares e cansaço), insônia, enxaquecas, leucemia, doenças crônicas e hepatite descompensada. Em meu consultório, tenho pacientes com sequelas provocadas por lesão cerebral e com Síndrome de Down que também tiveram ótimos avanços.
M.N - Como a acupuntura explica a melhora dos pacientes com lesões neuromusculares?
Hong - A ciência ainda não conseguiu explicar. Mas a evolução dessas crianças é muito boa. O mesmo digo dos pequenos com Sìndrome de Down. Nesses casos, não visamos a cura da doença. Mais uma vez, o que queremos é melhorar a qualidade de vida e recuperar o desenvolvimento psicomotor deles. E estamos conseguindo executar essa tarefa.
M.N - Quanto tempo demora um tratamento por acupuntura?
Hong - Depende do tipo de doença. O tratamento médio contra asma, por exemplo, é de dez sessões. Fazemos uma programação levando em conta a reação do pequeno, sua idade, o consumo do remédio e a gravidade do distúrbio que ele apresenta. Começamos com duas sessões semanais, depois vamos aumentando o espaço entre elas.
M.N - A aplicação provoca algum efeito colateral?
Hong - Se a técnica é bem aplicada, não. Pode ocorrer, em casos raros, um hematoma no local próximo da picada. Às vezes também a criança acaba fazendo mais xixi do que o normal ou fica um pouquinho sonolenta.
M.N - O tratamento pode ser feito de forma preventiva?
Hong - Quando a criança tem saúde perfeita, não há motivo para submetê-la à acupuntura. Mas, se ela costuma ter crises de asma, poderá, no outono, por exemplo, iniciar um tratamento preventivo para fortalecer seu sistema imunológico no inverno.
M.N - Há algum cuidado específico com as agulhas?
Hong - Devemos usar somente agulhas descartáveis. Fazer a limpeza das agulhas com álcool, fervura e formol é comprovadamente ineficaz.
FONTE: Revista Meu Nenê, Ano 2, Edição 15, Julho de 1999