Veja como chegar Ideograma chinês que simboliza "saúde e longa vida"

Gurus da saúde
Com dicas simples, preparadores físicos, nutricionistas e médicos ajudam paulistanos a abandonar vícios, sair do sedentarismo, melhorar hábitos alimentares e, assim, conquistar a tão sonhada qualidade de vida

Marcella Centofanti

Dormir oito horas e acordar sem despertador. Cheirar a comida e pegar as folhas com as mãos. Numa crise de ansiedade, em vez de se entupir de chocolate, boceje e espreguiiiiiiiice. Antes de trocar as cortinas ou o piso da casa, instale um simples comedouro para pássaros na janela e observe o movimento dos animais. Ah, tem ainda o banho frio: dois por dia. Essas recomendações, que caberiam bem na boca da vovó, encabeçam a lista dos mandamentos de alguns médicos, preparadores físicos e nutricionistas paulistanos. Eles lotam seus consultórios – há quem atenda até trinta pessoas por dia – vendendo receitas de como alcançar a tão propagada qualidade de vida. "Saúde não é sinônimo de condicionamento físico. Ter saúde é acordar de manhã, ver que está chovendo, respirar fundo e pensar: 'Que dia romântico!'", prega o preparador físico Nuno Cobra Ribeiro, o mais popular dos gurus do bem-estar.

Cobra ficou famoso na década de 80 graças a um seguidor especial: Ayrton Senna. Seu currículo acumula outros nomes conhecidos do esporte, como os pilotos Mika Hakkinen, Rubens Barrichello, Gil de Ferran e Christian Fittipaldi e o tenista Jaime Oncins. Pacientes não estrelados pagam entre 1 200 e 2 000 reais por mês pelo "método Cobra", que preconiza a superação física como o caminho para uma mente sã e feliz. Esse valor dá direito a um encontro semanal com um de seus "discípulos" (leia-se a mulher, Silvia, e os quatro filhos, todos com formação na área esportiva). Segundo sua teoria, o exercício aumenta a circulação sanguínea, o que melhora a oxigenação do cérebro e, por conseqüência, o raciocínio e a criatividade. Seus conceitos encontram-se detalhados no livro A Semente da Vitória, lançado em janeiro de 2001. Há 106 semanas na lista dos mais vendidos de VEJA, o best-seller está na 49ª edição e ultrapassou a marca dos 230 000 exemplares.

Na quarta-feira (20), ele deve inaugurar na cidade mais um lugar para difundir suas receitas de auto-ajuda, o Centro de Treinamento Nuno Cobra, no novo Hotel Gran Estanplaza, no Brooklin. O local terá aparelhos de ginástica, parede de escalada, barras e paralelas para atividades de equilíbrio – seu exercício preferido é colocar os executivos para andar sobre um arame esticado. "Ao superarem seus limites físicos, eles percebem que podem fazer o que parecia impossível", afirma Cobra, que nos anos 50, quando era estudante, completava o orçamento trabalhando num circo como equilibrista. A mensalidade do centro será em torno de 400 reais, mais do que se paga numa academia.

Cobra é o que se pode chamar, com propriedade, de um homem de hábitos espartanos. Acorda às 5 da manhã, janta às 6 da tarde, dorme às 8 da noite, toma dois banhos gelados por dia e garante que não coloca um gole sequer de bebida alcoólica na boca há quarenta anos. Felizmente para seus pacientes, não exige semelhantes sacrifícios – embora recomende alguns. "Não sou durão, só faço elogios", diz ele, aos 65 anos que nem de longe aparenta, exceto pela cabeleira branca. "Quando o aluno percebe modificações no organismo, sente-se vitorioso e tem disposição para realmente mudar seu estilo de vida." Foi o que aconteceu com o publicitário Átila Francucci. Ao iniciar o tratamento, Francucci era sedentário, estava acima do peso e tinha os níveis de colesterol e triglicérides altos. Em quatro meses de treinamento, sem nenhum remédio, os exames sanguíneos ficaram estáveis. Hoje, 8 quilos mais magro, o publicitário corre cinco vezes por semana. No ano passado, completou a São Silvestre. "Meu humor e minha disposição melhoraram", conta. "Todo mundo percebe as mudanças e isso alimenta o espírito."

O endocrinologista Alfredo Halpern é outro campeão das prateleiras e queridinho dos paulistanos que precisam fazer as pazes com a balança. Seus quatro livros somam mais de 120.000 exemplares vendidos. No início da década de 70, ele criou a famosa "dieta dos pontos", um regime no qual os alimentos ingeridos contam pontos – cada 1 equivale a 3,6 calorias. O paciente que desembolsa 390 reais pela consulta deve fazer com que a soma dos pontos fique dentro do limite diário estabelecido (em média, 1.100 calorias para mulheres e 1.400 para homens). Há dois anos, a dieta está disponível na internet e pelo telefone. O usuário paga uma taxa mensal de 50 reais e conta com o acompanhamento de uma nutricionista.

"Qualquer dieta faz emagrecer", admite Halpern. "Só que, pelo sistema que criei, o indivíduo não passa sufoco. Ele escolhe o que vai comer, aprende a se alimentar e a manter o peso." O endocrinologista foi fundador do Ambulatório de Obesidade do Hospital das Clínicas, o primeiro do país. "Dei minha contribuição para tornar a obesidade um assunto sério", diz ele, vaidoso assumido. Pelo que calcula, cerca de 200.000 pessoas perderam quilos com sua ajuda.

Em qualquer linha da medicina, a alimentação é considerada um ponto fundamental para o bem-estar. "Quando comecei a trabalhar, vinte anos atrás, dieta era sinônimo de emagrecimento", lembra a nutricionista Tânia Rodrigues. "Hoje, as pessoas procuram se alimentar bem para ter benefícios no sono, fortalecer a imunidade e melhorar o funcionamento do organismo." Tânia é sócia da RGNutri, clínica fundada por ela e por Patrícia Bertolucci, ex-nutricionista do São Paulo Futebol Clube. Ficou conhecida em meados da década de 90 ao cuidar da alimentação dos atletas do Corinthians. Para auxiliá-la, montou uma equipe de seis profissionais e doze estagiários.

Monitorar os altos e baixos da balança de seus pacientes levou o clínico geral e endocrinologista Mauricio Hirata a uma descoberta. "Percebi que minha missão era maior: tratar da felicidade deles", diz. Aos poucos foi ampliando sua clínica em Moema, onde seguranças e manobristas controlam o incessante entra-e-sai de carros de luxo. Circulam por ali figuras como a empresária Eliana Tranchesi, o restaurateur Sergio Arno e o arquiteto Sig Bergamin. "Ele é médico e analista ao mesmo tempo", afirma a socialite Ana Maria Velloso. "Com remédios, perdi 20 quilos. Mas foi na base de muita conversa que descobrimos a causa psicológica de minha gordura."

O médico é de fato daqueles que gostam de estudar a personalidade de quem entra em seu consultório e soltar frases como: "Pelos seus olhos, sei que você não está feliz". Sua fórmula engloba desde dicas simples até mudanças radicais, como tentar convencer grandes empresários a mudar de casa para ficar mais perto do trabalho e evitar o stress dos congestionamentos. Para receber tais conselhos, os clientes pagam 300 reais e enfrentam fila de espera de dois meses. Em sua equipe há psicólogo, ginecologista, nutricionista, professor de educação física, ortopedista, fisiologista do esporte e esteticista. Dela agora fará parte um sexólogo. "Sexo é a causa de muitos problemas, mas continua um assunto tabu."

Nem sempre quem marca um horário com esses profissionais tem alguma doença crônica. É crescente o número de pessoas que vêm se aplicando para viver bem no trabalho e fora dele e conseguem transformar carreira, vida familiar e lazer em um conjunto harmonioso. "Quando o assunto é qualidade de vida, a medicina tradicional morre na praia", acredita o reumatologista Ari Stiel Radu, sócio da Clínica do Movimento, na Vila Nova Conceição, uma das mais respeitadas no ramo da medicina esportiva, e chefe do Ambulatório de Coluna do Hospital das Clínicas. "Em nossa consulta, por exemplo, queremos saber até a distância entre a academia e a casa do paciente. Isso pode explicar aquela eterna preguiça para a ginástica."

Com a ajuda dele e da sócia, Fernanda Lima, chefe do Ambulatório de Medicina Esportiva do HC, a pedagoga Cléa Granadeiro, de 57 anos, soube que sofria de fibromialgia, uma doença reumatológica incurável não diagnosticada por exames. Enfrentou dores em articulações, músculos e tendões do corpo todo por dez anos. "Primeiro, a doutora Fernanda me entupiu de textos que explicavam a doença. Depois, receitou um tratamento que, além da parte clínica, inclui fisioterapia e psicoterapia", relata Cléa. "Hoje em dia faço ginástica regularmente, durmo bem e não sinto mais nada."

Se a qualidade de vida é uma expressão que foi incorporada ao vocabulário da medicina tradicional na última década, ela faz parte há milênios dos preceitos da medicina oriental. "Seis séculos antes de Cristo, já se falava na China que a saúde se sustenta sobre quatro pilares: atividade física regular, mente calma, respiração profunda e dieta equilibrada", explica o médico acupunturista Hong Jin Pai, que implantou a técnica no Hospital das Clínicas e diz aos pacientes o que acha que eles devem ouvir, sem meias palavras, ao estilo chinês. "Falo mesmo, porque, se o problema está nos hábitos da pessoa, ela pode fazer acupuntura quanto quiser que não vai resolver."

Para ele, no entanto, a forma de encarar o cotidiano é mais importante que a quantidade de horas dormidas à noite. Hong atende pacientes das 7h15 às 20 horas, dá aulas na USP, escreve dois livros e elabora sua tese de doutorado. No fim de semana, ministra um curso de acupuntura. Há dois anos, seu momento de folga resume-se às tardes de domingo. "É fácil dizer que a pessoa tem de trabalhar menos, mas numa sociedade como a nossa isso é inevitável", considera. "Temos de produzir mesmo, desde que a rotina não vire um martírio." Entre os ensinamentos que repete no consultório, o principal é que cada um ame o que faz e pare de reclamar à toa. "Não existe segredo para ser saudável e feliz. Basta querer."

Os cinco mandamentos de Hong Jin Pai, acupunturista

1- Reclamar da vida só causa stress. Em vez de resmungar porque faz frio, vista um agasalho

2- Passamos a maior parte do dia no trabalho. Por isso, você precisa amar o que faz

3- Aproveite o trânsito para escutar alguma música que goste, estudar um idioma ou, se não estiver dirigindo, ler

4- Seja otimista. Lembre-se de que todas as crises são passageiras

5- A terceira idade deve ser a melhor fase da vida. Estude, exercite-se e leia. Ficar parado só acelera o envelhecimento

Fonte: Revista Veja São Paulo, 20/08/03

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Ideograma chinês que simboliza "saúde e longa vida"
 

As informações contidas neste site são um aconselhamento geral.
Procure seu médico acupunturista para realizar uma avaliação. Somente ele poderá indicar o melhor tratamento.