Veja como chegar Ideograma chinês que simboliza "saúde e longa vida"
Ai! Que Alívio*
No tratamento da dor, a acupuntura não é mais uma alternativa peculiar, mas um instrumento da corrente principal da medicina moderna

Por Fred Guterl
Traduzido por Patricia Paura

Lei Dao está deitado de bruços, com as calças abaixadas, enquanto seu médico, Hong Na, torce e gira uma agulha em seu quadril e outra nas costas. "Doe", grita Lei - então dá uma risada, com os dentes cerrados, de onde ele foi se meter. Esse desconforto, contudo, não é nada se comparado à dor que o levou ao Hospital Wangjing, em Beijing, em primeiro lugar. Escritor de uma publicação jurídica, passa longas horas em sua mesa de trabalho, o que o faz sentir dores freqüentes e agonizantes na perna direita. Para a maioria de suas enfermidades, Lei prefere o uso de remédios e outros tratamentos convencionais, mas ainda não encontrou nada melhor do que a acupuntura para o alívio das dores musculares. "A medicina ocidental não pode fazer nada pela minha dor", declara Lei, "e a acupuntura funciona".

Numerosos estudos científicos confirmam esse julgamento e, hoje em dia, é largamente aceito que a acupuntura é um tratamento eficiente para a maioria dos tipos de dor. Entretanto, Lei pode estar enganado quanto a um aspecto: a distinção entre medicina ocidental e acupuntura está cada vez menos clara. No mundo todo, a acupuntura está se tornando um tratamento autêntico para dor - outro instrumento, junto com analgésicos e anestésicos, na maleta do médico. Cada vez mais, médicos de acupuntura apresentam-se vestidos de branco e recebem seus honorários de sistemas de saúde estatais ou até de seguros médicos particulares. Mesmo na China, cientistas estão se esforçando para fundamentar essa arte ancestral em uma base científica sólida.

No entanto, os cientistas não conseguiram propor uma teoria válida para o porquê de a acupuntura aparentemente funcionar. A medicina chinesa tradicional acredita que a acupuntura ajuda a facilitar o fluxo da força vital, ou qi, ao longo do corpo, através de 14 caminhos principais, ou "meridianos". De acordo com essa teoria, a dor é o resultado de qi bloqueado em um ou mais meridianos. Dr. Han Jisheng, diretor do Instituto de Pesquisa de Neurociência na Universidade de Beijing, gostaria de acreditar nisso, especialmente por ser esse um princípio fundamental de sua cultura. Contudo, ele diz, "não tenho provas".

Han se envolveu com acupuntura em 1965, quando ele testemunhou um procedimento cirúrgico realizado sem anestésicos - só com acupuntura para aliviar a dor. Desde então, ele tenta explicar cientificamente como ela funciona. Apesar de os "acupontos" destacados pelo mapa de meridianos do corpo não corresponderem a nenhuma parte da anatomia, parecem ser os locais mais eficientes para aplicar as agulhas ou correntes elétricas. Ele também descobriu que a acupuntura provoca a liberação de endorfinas e outras substâncias químicas bloqueadoras da dor. Han até conseguiu resultados diferentes ao aplicar diferentes freqüências de corrente alternada às agulhas: 100 hertz atuavam melhor em espasmos musculares como resultado de lesões na coluna vertebral, ao passo que dois Hz eram mais indicados para dor crônica na região lombar. Mas a despeito de seus esforços, Han não foi capaz de conseguir uma explicação científica razoável para isso.

Cientistas nos Estados Unidos que utilizaram cintigrafias do cérebro em pacientes de acupuntura foram capazes de observar que as agulhas estimulam as partes do cérebro envolvidas na percepção da dor. Zang-Hee Cho, um professor de ciências radiológicas da Universidade da Califórnia, em Irvine, interessou-se pelo assunto há dez anos, quando feriu suas costas num acidente em uma caminhada. Como o consultório do seu médico estava fechado, sua esposa sugeriu a acupuntura. "Quase fiquei furioso com ela", recorda. Mas funcionou. Desde então, Cho tem estudado pacientes através de imagens de ressonância magnética e tomografias de emissão positrônica, mas ainda não conseguiu explicar por que a acupuntura funciona. "É engraçado", revela, "como, apesar de toda esta ciência moderna, não podemos explicar esse procedimento. Ninguém conhece o mecanismo".

Naturalmente, a medicina é uma profissão pragmática. Médicos e pacientes não se importam tanto com o porquê, desde que funcione e não apresente efeitos colaterais. Quatro anos atrás, Marie Rochette, uma parisiense de 36 anos, teve um acesso de ciática particularmente doloroso, em que duas semanas de analgésicos não ajudaram. Após quatro ou cinco sessões de acupuntura, sentiu um alívio enorme. "Passei de acamada com dores a totalmente ativa, até retomei os exercícios", regozija-se. Ela tem sido uma adepta das agulhas desde então.

E está em boa companhia. A acupuntura está na moda na Europa. Cherie Blair, esposa do primeiro ministro da Inglaterra, tem sido vista com uma agulha de estanho na orelha. Mais de 2.000 médicos de acupuntura são licenciados na França - doutores em clínica médica cujos serviços são reembolsados pelo sistema de saúde estatal. Na Alemanha, 50.000 médicos praticam acupuntura e os números estão aumentando. A maioria dos hospitais e clínicas de tratamento da dor inclui a acupuntura como regime padrão. E o governo está atualmente financiando experiências clínicas em 150.000 pacientes que sofrem de dor crônica nas costas, enxaqueca e artrite; como um prelúdio para a acupuntura fazer parte da previdência social do país no fim do ano. Até algumas seguradoras de saúde particulares nos Estados Unidos, hoje em dia, oferecem pelo menos metade do reembolso para tratamentos de acupuntura.

Talvez o sinal mais claro de que a acupuntura tornou-se importante na medicina ocidental é o de que ela está sendo usada para cortar as despesas com assistência médica. Apesar de os tratamentos se estenderem por muitas semanas, são freqüentemente mais baratos que regimes de remédios. Os hospitais estão aderindo. Esta semana, o Dr. Peter Tassani, um anestesiologista da Clínica Cardíaca da Universidade Técnica de Munique, começará a utilizar a acupuntura em pacientes submetidos a cirurgias de ponte de safena. Em vez de os doparem com drogas anestésicas potentes, insere agulhas de 3cm em suas orelhas e braços 30 minutos antes do início da cirurgia e amplia o efeito com uma corrente elétrica de 90 volts. Ainda assim, administra drogas, é claro, mas as dosagens foram cortadas em 75 por cento. O retorno vem depois da cirurgia, pois os pacientes não ficam inconscientes pelo resto do dia, ao ocupar uma cama valiosa na terapia intensiva - em vez disso, são levados para o quarto pouco depois da sutura do tórax. A clínica espera economizar aos cântaros nas mais de 2.000 cirurgias cardíacas realizadas a cada ano. "A acupuntura não se encaixa em nada que aprendi na faculdade", declara Tassani. "Tudo que sei é que funciona". Para a arte da medicina, isso é o mais importante.

Com as participações de SARAH SCHAFER em Beijing, LIZ KRIEGER em Paris, STEFAN THEIL em Berlim e JAIME CUNNINGHAM em Nova York

* Matéria publicada na NEWSWEEK 19/05/2003

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