| Os riscos das terapias alternativas - Promessa de milagre *
A acupuntura e a homeopatia funcionam. As ervas também podem fazer bem. Mas a maioria das terapias alternativas é inútil e pode mascarar doenças graves
Por Daniela Pinheiro
Colaborou Silvia Rogar
No último século, a medicina alcançou feitos notáveis. Foi quando se descobriu a vacina contra a poliomielite e se aprimorou o transplante de órgãos, entre outras conquistas definitivas. Porém, a promessa de uma saúde perfeita ainda é um desafio. Seu nariz ainda escorre durante uma gripe e as crianças continuam asmáticas sem que se saiba a exata razão. É certo que as pessoas estão mais saudáveis que nunca. Mas os tratamentos são os mesmos: remédio e repouso. Ao que tudo indica, o paciente parece querer algo mais. E está pagando caro por isso. As bolinhas da medicina chinesa, a massagem no pés da reflexologia, as ervas da fitoterapia e até artefatos mais exóticos que se propõem a curar o câncer a partir de campos eletromagnéticos estão disputando espaço com o clássico estetoscópio. Estima-se que 4 milhões de brasileiros lancem mão de alguma forma de terapia alternativa para tratar doenças. A Associação Brasileira de Medicina Complementar calcula que existam cerca de 50 000 terapeutas alternativos em atividade no país. Mas quando se fala em terapia alternativa no Brasil, é preciso esclarecer que se trata, na maioria dos casos, de práticas proibidas pelo Conselho Federal de Medicina. Apenas a homeopatia e a acupuntura são reconhecidas como especialidades médicas. Escolhas mais radicais, como a cromoterapia e a iridologia são vistas com imensas reservas pela classe médica. A razão é clara: muitos dos chamados terapeutas alternativos são leigos que fazem um curso de fim de semana e saem apregoando poderes curativos e de diagnóstico. A explosão da medicina alternativa se deve a diversos aspectos. Um dos mais contundentes é o ceticismo dos pacientes em relação à medicina convencional. De fato, ainda não há cura para doenças como câncer, diabetes e Aids. É nessa lacuna que os alternativos se esbaldam na conquista de novos clientes. Outro fator influente diz respeito à mudança na relação médico-paciente. Em geral, a consulta de um homeopata ou um fitoterapeuta dura mais de uma hora, enquanto a de um médico tradicional pode não chegar a quinze minutos. Essa postura faz toda a diferença para que o doente opte por um tratamento. O grande perigo da medicina alternativa é mascarar doenças graves ou acelerar seu ritmo destruidor, tratando apenas os sintomas. Alguns ramos das terapias alternativas cobrem áreas que a medicina convencional despreza. Em muitos casos, podem ser uma útil complementação ao tratamento convencional. O problema é quando o terapeuta alternativo acena com o combate seguro a doenças graves. Uma das grandes dificuldades de um paciente leigo é conseguir separar verdades (sim, elas existem) de mentiras no imenso leque de quase 800 modalidades de terapias alternativas. É tênue a linha que separa a eficácia do charlatanismo. Segundo o critério da credibilidade científica, a acupuntura, a homeopatia e a fitoterapia merecem ser respeitadas. A primeira é considerada uma ciência real, a ponto de ser usada como anestesia até em partos. A homeopatia é admitida pelos médicos tradicionais em doenças crônicas, sobretudo nas de fundo emocional. Quanto à fitoterapia, é inegável o princípio curativo de alguns chás e plantas. Cerca de 45% dos remédios usados pela medicina convencional são feitos a partir de substâncias extraídas de vegetais. Manipulações de vértebras como a quiropraxia e o shiatsu são vistas mais como técnicas de relaxamento do que como ciência. De acordo com a maioria dos médicos, não há nada no planeta que possa garantir que terapias definidas como "energia", "descoberta incrível", "cheiros e cores" sejam eficazes na cura de doenças. Como explicar a profusão de pacientes que lotam os consultórios de terapeutas alternativos? Estudos publicados em conceituadas revistas científicas, como a Science, revelaram que 30% dos pacientes melhoram com o simples fato de tomar um comprimido, mesmo que ele tenha o poder terapêutico de um copo de água com açúcar. Outro fato é que, em muitos casos, a pessoa melhoraria mesmo sem fazer nada. Mas, como a melhora veio após o tratamento alternativo, passa-se a atribuir a cura a ele. O oncologista Riad Younes, do Hospital do Câncer de São Paulo, provou o contrário. Durante dois anos, acompanhou 1 000 pacientes com câncer e descobriu que 43% deles (chegando a 70% entre os que estavam em fase terminal) recorriam a terapias não convencionais. Em nenhum dos casos em que o paciente se valeu de terapias alternativas o tumor diminuiu. Como não são práticas reconhecidas, qualquer barbeiragem ou charlatanismo passa quase sempre em branco. Não há um conselho formal ou uma esfera institucional para queixas e processos. Se o sujeito é enganado ou morre em um desses tratamentos, a família só pode se queixar à polícia.
| De olho no charlatão
É muito difícil para um paciente leigo separar o profissional sério do aventureiro. Porém, há alguns indícios que podem ajudar o doente a fazer a melhor escolha. Abaixo, alguns deles
- Fuja de terapeutas que usam termos como "descoberta científica revolucionária", "produto exclusivo" e "ingredientes secretos"
- Desconfie de receitas escritas em "mediquês" - uma terminologia de aparência impressionante para disfarçar a falta de ciência de boa qualidade
- Não acredite em produtos apresentados como tratamentos rápidos e eficazes para uma ampla gama de doenças
- Se um produto é anunciado como disponível somente a partir de um único fornecedor ou terapeuta, não compre
- Peça que o terapeuta mostre dados, pesquisas e estudos publicados em jornais e revistas conceituados sobre o tratamento que ele propõe
- Sempre solicite a um médico de sua confiança - mesmo que seja um profissional do ramo da alopatia - informações sobre o tratamento alternativo
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Fonte: Bureau of Consumer Protection, Federal Trade Commission * Matéria publicada na Revista Veja de 01/05/2002 (edição 1749, pág.: 96-103) [ voltar ]
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