Estudo científico comentado

Avanços no diagnóstico e tratamento da dor cervical

Referência acadêmica

Periódico

BMJ

Ano

2017

Autores

Cohen et al.

Desenho

Revisão de Estado da Arte

Esta revisão médica abrangente mostra que a dor cervical é muito comum, afetando mais de um terço das pessoas anualmente. Entre os tratamentos não medicamentosos, o exercício tem a evidência científica mais forte, seguido pela acupuntura. A maioria dos episódios agudos melhora naturalmente, mas fatores psicossociais podem influenciar a cronificação. É importante distinguir entre dor mecânica e neuropática para escolher o tratamento adequado.

Título original do estudo: Advances in the diagnosis and management of neck pain

📖Revisão de Estado da Arte🌍População GlobalAlto Impacto Clínico
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A dor cervical é extremamente comum e geralmente autolimitada no curto prazo; entre as opções não cirúrgicas, o exercício tem o melhor respaldo científico, enquanto intervenções mais invasivas devem ser consideradas com reserva diante da evidência limitada dis

O que isso significa para você?

Esta revisão médica abrangente mostra que a dor cervical é muito comum, afetando mais de um terço das pessoas anualmente. Entre os tratamentos não medicamentosos, o exercício tem a evidência científica mais forte, seguido pela acupuntura. A maioria dos episódios agudos melhora naturalmente, mas fatores psicossociais podem influenciar a cronificação. É importante distinguir entre dor mecânica e neuropática para escolher o tratamento adequado.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor cervical é extremamente comum e, na grande maioria das vezes, não representa ameaça grave à saúde
  • 2O exercício regular é a intervenção mais bem fundamentada cientificamente, com melhor relação de custo-benefício e segurança
  • 3Exames de imagem avançados nem sempre são necessários no início do tratamento e podem mostrar alterações irrelevantes
  • 4A recuperação completa pode levar semanas a meses, e pequenas recaídas são normais durante o processo
  • 5Cirurgia e procedimentos invasivos devem ser considerados apenas quando abordagens conservadoras bem conduzidas falham
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base nos meus sintomas e histórico, qual tipo de dor cervical eu provavelmente tenho (mecânica, neuropática ou mista)?
  • 2Quais exercícios específicos seriam mais adequados para minha condição atual, e como devo progredir?
  • 3Quais sinais de alerta devo observar que indicariam necessidade de reavaliação urgente?
  • 4Quais são as opções terapêuticas se eu não quiser ou não puder usar medicamentos regularmente?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1As terapias integrativas discutidas na revisão são geralmente seguras, mas qualquer programa de exercício deve ser iniciado de forma progressiva e individualizada
  • 2Procedimentos intervencionistas cervicais, incluindo injeções e técnicas de radiofrequência, carregam riscos significativos e devem ser realizados por profissionais com treinamento
  • 3A segurança de longo prazo de muitas intervenções não é bem estabelecida devido à falta de estudos com seguimento prolongado
  • 4A revisão não fornece dados detalhados sobre perfis de segurança específicos por população, o que limita recomendações personalizadas para grupos vulneráveis como idosos frágeis ou

Leitura rápida para pacientes

Sua dor no pescoço provavelmente vai melhorar

A maioria dos episódios passa, e você pode acelerar isso com movimento e exercício regular

Ponto 1

Movimente-se: o repouso prolongado piora; exercício leve e regular é o tratamento mais provado

Ponto 2

Não se prenda apenas aos exames de imagem: degeneração é comum e nem sempre explica a dor

Ponto 3

Considere abordagens integrativas antes de procedimentos invasivos: acupuntura e massagem podem ajudar com menos riscos

O que este estudo acrescenta

SÍNTESE ATUALIZADA

Consolidação de evidências sobre terapias integrativas com ênfase no exercício como intervenção de maior grau de evidência para dor cervical

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A revisão consolida evidências de múltiplas modalidades, mas a maioria dos efeitos é de magnitude modesta a moderada, com qualidade de evidência variável; o exercício se destaca como intervenção de melhor custo-benefício

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Síntese de múltiplos estudos por especialistas da área, oferecendo visão panorâmica do conhecimento atual, embora sem a rigidez metodológica de uma revisão sistemática com meta-aná

prevalência anual de dor cervical

37,2%

afeta mais de 1 em cada 3 pessoas por ano

dor neuropática ou mista

50%

metade dos casos crônicos envolve componente neuropático

custo anual nos EUA

US$ 87,6 bi

terceira condição mais onerosa, atrás de diabetes e doenças cardíacas

melhora espontânea da radiculopatia

90,5%

com dor mínima ou ausente em seguimento de médio prazo

evidência para exercício

Forte

melhor grau de evidência entre terapias complementares

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor cervical aguda e crônica, com ou sem radiculopatia ou mielopatia

Tipo de estudo

Revisão de estado da arte (narrativa sistematizada)

Participantes

População mundial com dor cervical; não há número fixo de participantes pois tra

Duração

Revisão de literatura até 2017, abrangendo estudos com diversos períodos de segu

Sessões

Variável conforme intervenção analisada

Comparador

Variável conforme estudo incluído (placebo, cuidado usual, outras intervenções ativas)

Grupos do estudo

Não aplicável (revisão de literatura)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Variável conforme modalidade terapêutica

Frequência02

Variável; exercícios geralmente realizados de forma regular e sustentada

Duração da sessão03

Não especificado de forma padronizada na revisão

Pontos / técnica04

Múltiplas abordagens: exercício terapêutico, acupuntura, massagem, manipulação, injeções de pontos-gatilho, bloqueios facetários, radiofrequência, injeções epidurais

Comparador05

Placebo, cuidado usual, lista de espera, ou outras intervenções ativas conforme estudo original

Nota de protocolo06

A revisão enfatiza que não há protocolo único; a escolha depende do tipo de dor (neuropática vs. não neuropática) e da resposta individual

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pessoas com dor cervical de origem mecânica, aguda ou crônicaPacientes com radiculopatia cervical (compressão de raiz nervosa)Indivíduos com dor neuropática, nociceptiva ou mista cervicalPacientes com mielopatia cervical espondilóticaPessoas com síndrome pós-traumática de aceleração-desaceleração (whiplash)Populações de países desenvolvidos, predominantemente adultos de meia-idade

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes (poucos dados específicos)Pacientes com causas sistêmicas de dor cervical (infecciosas, neoplásicas, vasculares)Indivíduos com dor cervical exclusivamente por trauma agudo grave com instabilidadePopulações de países em desenvolvimento (sub-representadas na literatura)Pacientes com comprometimento psiquiátrico grave não controlado (pouca evidência)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

intensidade da dor

melhorou

Com exercício, acupuntura e, no curto prazo, anti-inflamatórios tópicos e relaxantes musculares

🔄

amplitude de movimento

melhorou

Associada a tratamentos que incluem exercício e manipulação

💪

função física

melhorou

Exercício e abordagens multimodais mostram benefício funcional

😴

qualidade do sono

melhorou

Benefício indireto com redução da dor e relaxamento muscular

🧠

bem-estar psicológico

melhorou

Terapia cognitivo-comportamental e abordagens biopsicossociais ajudam na adaptação

O que não mudou

  • A degeneração radiográfica não correlaciona de forma confiável com a intensidade da dor ou prognóstico
  • A intervenção precoce versus tardia não demonstrou impacto significativo no curso natural da dor aguda
  • Injeções intra-articulares com esteroides para dor facetária não mostraram benefício em ensaio controlado

Quando a melhora apareceu

1

até 2 meses

Dor cervical aguda

A maioria dos episódios agudos resolve espontaneamente neste período

2

2-8 dias

Tratamento tópico com anti-inflamatório

Benefício de curto prazo demonstrado para dor aguda associada a músculos e articulações

3

semanas a meses

Exercício terapêutico

Efeito cumulativo com prática regular sustentada

4

até 263 dias (mediana)

Radiofrequência para dor facetária

Melhora significativa em estudo controlado, embora evidência geral seja fraca

Antes e depois

prevalência anual de dor cervical

escala máx. 100 % da população (não

Antes37 % da população (não
Depois37 % da população (não

resposta a radiofrequência facetária (dor livre)

escala máx. 100 % de pacientes sem d

Antes8 % de pacientes sem d
Depois58 % de pacientes sem d

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Exercício terapêutico é seguro para a maioria das pessoas
  • Terapias integrativas como acupuntura e massagem possuem boa tolerabilidade
  • Anti-inflamatórios tópicos apresentam menor risco sistêmico que os orais
Amarelo
  • Relaxantes musculares podem causar sonolência e não devem ser usados por longos períodos
  • Manipulação cervical requer cuidado em pacientes com risco vascular
  • Injeções de pontos-gatilho e procedimentos intervencionistas exigem técnica adequada
Vermelho
  • Injeções epidurais cervicais e procedimentos invasivos carregam riscos significativos se mal executados
  • Cirurgia cervical, embora mais efetiva no curto prazo, não mantém vantagem a longo prazo para a maioria
  • A qualidade de evidência para muitas intervenções é baixa, criando incerteza sobre relação risco-benefício

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pessoas com dor cervical mecânica aguda ou subaguda sem sinais de alarme
  • Indivíduos com estilo de vida sedentário que podem se beneficiar de programa de exercícios
  • Pacientes com dor crônica estável interessados em abordagens não farmacológicas
  • Pessoas com fatores psicossociais identificáveis que podem ser abordados de forma integrada
  • Pacientes com radiculopatia cervical sem indicação cirúrgica urgente

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com sinais de alarme (red flags) sugestivos de patologia grave (infecção, tumor, fratura)
  • Indivíduos com instabilidade cervical documentada ou risco de comprometimento medular
  • Pessoas com expectativa de cura rápida ou exclusivamente por intervenções passivas
  • Pacientes que não aderem a programas de exercício regular
  • Indivíduos com contraindicações específicas a certas modalidades (ex: coagulopatia para procedimentos invasivos)

Expectativa realista

A maioria melhora com o tempo e movimento

Para dor cervical aguda, espontaneamente a maioria das pessoas recupera significativamente em poucas semanas. Para a dor crônica, o exercício regular oferece a melhor chance sustentável de redução da dor e melhora funcional, embora não exis

Tempo provável

Melhora inicial em 2-8 semanas com exercício consistente; episódios agudos geralmente resolvem em até 2 meses

A cronificação é influenciada por múltiplos fatores além da estrutura cervical, incluindo genética, sono, estado emocional e contexto social de trabalho

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar sobre sinais de alarme: febre, perda de peso inexplicada, fraqueza progressiva, alterações de marcha ou controle de esfíncteres
  2. 2Discutir histórico completo: início da dor, fatores agravantes e atenuantes, traumas prévios, trabalho e atividades diárias
  3. 3Solicitar avaliação do sono, estado emocional e fatores de estresse que possam perpetuar a dor
  4. 4Questionar sobre uso de medicamentos já tentados e sua eficácia ou efeitos colaterais
  5. 5Explorar disposição para programa de exercícios e abordagens de autocuidado ativo

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor cervical sempre indica problema sério na coluna que precisa de cirurgia

Achado

A maioria dos episódios agudos resolve espontaneamente; cirurgia é mais efetiva no curto prazo, mas não a longo prazo para a maioria dos pacientes

Mito

O que aparece na ressonância magnética explica a dor e determina o tratamento

Achado

Achados degenerativos são comuns em pessoas assintomáticas; a correlação entre imagem e sintomas é fraca, e o tratamento deve basear-se na avaliação clínica completa

Mito

Repouso absoluto e imobilização aceleram a recuperação

Achado

A atividade precoce e o exercício são associados a melhores resultados; o repouso prolongado pode perpetuar a dor e a incapacidade

Mito

Injeções e procedimentos intervencionistas são a solução definitiva

Achado

A evidência para intervenções invasivas é geralmente fraca a moderada; muitos procedimentos não superam placebo de forma consistente a longo prazo

Como isso pode funcionar

⚙️

PASSO 1

Fatores biológicos (degeneração, trauma, genética) iniciam ou perpetuam sinais nociceptivos na região cervical — mecanismo estabelecido

🧠

PASSO 2

Circuitos centrais de modulação da dor são sensibilizados, amplificando a percepção — mecanismo parcialmente estabelecido

🔄

PASSO 3

Fatores psicológicos (medo-evitação, catastrofização) e sociais (apoio, satisfação no trabalho) modulam a transição para cronicidade — modelo biopsicossocial proposto

💪

PASSO 4

Exercício terapêutico provavelmente atua restaurando função muscular, reduzindo sensibilização e promovendo autonomia — mecanismo multifatorial, parcialmente elucidado

O que ainda é incerto

  • ?A qualidade dos estudos primários sobre dor cervical é notoriamente inferior à de outros sítios de dor, limitando a confiança em muitas recomendações
  • ?Não há padrão-ouro diagnóstico confiável para identificar a origem exata da dor cervical em muitos casos, especialmente para articulações facetárias e
  • ?A eficácia a longo prazo de intervenções intervencionistas como radiofrequência e injeções epidurais permanece incerta
  • ?A melhor estratégia de prevenção da transição de dor aguda para crônica ainda não está bem estabelecida
🎯

O que o estudo quis responder

Revisar epidemiologia, diagnóstico e tratamento da dor cervical, incluindo terapias integrativas e intervencionistas

👥

ABRANGÊNCIA

População mundial com dor cervical aguda e crônica, com ou sem radiculopatia

🧪

EVIDÊNCIAS

Síntese de estudos controlados, revisões sistemáticas e meta-análises sobre diversos tratamentos

📈

ACHADOS PRINCIPAIS

Exercício tem evidência mais forte entre terapias complementares; acupuntura com evidência moderada

🛟

SEGURANÇA

Terapias integrativas são seguras; injeções cervicais requerem técnica cuidadosa

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

EXERCÍCIO SOBRE TODOS

Entre dezenas de terapias analisadas, o exercício físico emerge como a única com evidência consistentemente forte, superando medicamentos e procedimentos em sustentabilidade de benefício

🧭

A CRONIFICAÇÃO É MULTIFATORIAL

A revisão reforça que a persistência da dor cervical depende mais de fatores psicossociais, genéticos e de estilo de vida do que apenas de alterações estruturais na coluna

📌

IMAGEM NÃO É DESTINO

A frequente discordância entre achados de ressonância magnética e sintomas clínicos é destacada como um dos principais desafios na prática, orientando para tratamento baseado na pessoa, não no exame

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Avanços no diagnóstico e tratamento da dor cervical

A dor cervical representa um dos maiores fardos de saúde pública entre as condições dolorosas crônicas, figurando como a quarta causa de incapacidade nos Estados Unidos, segundo o estudo Global Burden of Disease de 2010. Apesar dessa magnitude, a dor no pescoço recebe apenas uma fração dos recursos de pesquisa direcionados à dor lombar, o que limita o desenvolvimento de evidências específicas para seu manejo. Esta revisão de estado da arte, publicada no BMJ em 2017 pelos pesquisadores Steven P. Cohen e W.

Michael Hooten, sintetiza o conhecimento disponível até aquele momento sobre epidemiologia, diagnóstico e tratamento da dor cervical, com atenção especial às terapias integrativas e intervenções procedimentais.

A metodologia consistiu em uma revisão abrangente da literatura realizada em fevereiro de 2017, abrangendo as bases de dados Medline, Embase, Google Scholar e Cochrane Database of Systematic Reviews. Os autores priorizaram revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos randomizados de maior porte, recorrendo a relatos de caso apenas quando a evidência de maior grau era escassa. Essa abordagem permite uma visão panorâmica, embora enfrente limitações inerentes à qualidade variável dos estudos primários e à frequente necessidade de extrapolar evidências da coluna lombar para a cervical.

Do ponto de vista epidemiológico, a dor cervical apresenta prevalência anual estimada em 37,2% da população, com picos na meia-idade e predomínio no sexo feminino. A condição acarreta custos anuais de aproximadamente 87,6 bilhões de dólares nos Estados Unidos, posicionando-se como a terceira condição mais onerosa, superada apenas por diabetes e doenças cardíacas. Fatores de risco multifatoriais incluem predisposição genética, psicopatologia, distúrbios do sono, tabagismo, obesidade, sedentarismo, histórico prévio de dor cervical ou lombar, traumas e má saúde geral. O modelo biopsicossocial é fundamental para compreender a cronificação: fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem dinamicamente, influenciando tanto o desenvolvimento da dor crônica quanto suas consequências.

A classificação mais relevante para o tratamento distingue dor neuropática de dor não neuropática. A dor neuropática cervical exige lesão identificável de nervo como causa dos sintomas, enquanto a dor não neuropática engloba as causas mecânicas como articulações facetárias, discos intervertebrais, músculos e ligamentos. Um estudo-chave encontrou que 50% dos pacientes com dor cervical crônica apresentam dor mista neuropático-nociceptiva, 43% têm dor puramente não neuropática e apenas 7% têm dor predominantemente neuropática. Essa distinção é crucial porque direciona exames complementares e estratégias terapêuticas.

Pacientes com dor neuropática ou mista tendem a apresentar maior comprometimento funcional, mais psicopatologia associada e maior probabilidade de receber intervenções procedimentais como cirurgia e injeções epidurais.

O curso natural da dor cervical aguda é geralmente favorável, com a maioria dos episódios resolvendo espontaneamente dentro de dois meses. Contudo, cerca de metade dos pacientes mantém sintomas residuais de baixa intensidade ou recorrências por mais de um ano. Para a radiculopatia cervical, embora o prognóstico seja mais reservado que para a dor axial, a maioria dos pacientes melhora: 90,5% apresentam dor mínima ou ausente em seguimento médio de 5,9 anos, embora recorrências sejam comuns (31,7%). Fatores preditivos de persistência incluem sexo feminino, idade mais avançada, presença de radiculopatia, maior intensidade da dor inicial, múltiplos sítios dolorosos, tabagismo, obesidade, má saúde geral e diversos fatores psicossociais.

Nem o tratamento precoce nem a degeneração radiográfica parecem impactar significativamente o prognóstico.

No que tange ao tratamento farmacológico da dor mecânica não neuropática, a evidência direta para medicamentos específicos é limitada, com a prática clínica frequentemente guiada por generalizações da dor lombar. Anti-inflamatórios não esteroides tópicos, como diclofenaco, demonstraram benefício de curto prazo (2-8 dias) em ensaios controlados para dor cervical aguda associada a doença muscular e articular suspeita. Relaxantes musculares, particularmente ciclobenzaprina em doses intermediárias (15 mg/dia) e altas (30 mg/dia), mostraram-se mais eficazes que placebo para dor aguda e subaguda com espasmo muscular, embora doses baixas (7,5 mg/dia) não tenham apresentado eficácia. Um ensaio clínico comparativo de três braços demonstrou que manipulação espinhal e exercícios domiciliares superaram estatisticamente o tratamento farmacológico com anti-inflamatórios, paracetamol ou relaxantes musculares até 12 meses de seguimento.

Entre as terapias complementares e alternativas, o exercício físico acumula a evidência mais robusta, sendo considerado eficaz tanto para tratamento quanto para prevenção da dor cervical. A acupuntura conta com evidência moderada de benefício em diferentes contextos. Massagem, yoga e manipulação espinhal possuem evidências mais fracas, embora possam ser úteis em situações específicas. Para a dor miofascial, o tratamento deve ser multimodal, incluindo correção de desequilíbrios posturais e estruturais, terapia física com massagem e exercícios de amplitude de movimento, e abordagens psicológicas como terapia cognitivo-comportamental e biofeedback.

Injeções de pontos-gatilho podem ser consideradas quando opções conservadoras falham, embora a evidência sugira que injeções com qualquer solução, incluindo soro fisiológico, sejam melhor toleradas e mais eficazes que agulhamento a seco.

Para condições específicas como radiculopatia cervical e artropatia facetária, as evidências para intervenções procedimentais são modestas. Injeções epidurais com esteroides possuem evidência fraca para radiculopatia cervical, enquanto a denervação por radiofrequência para artropatia facetária também conta com suporte limitado. A cirurgia mostra-se mais efetiva que o tratamento conservador no curto prazo para a maioria dos pacientes, mas essa vantagem não se mantém a longo prazo, tornando a observação clínica uma estratégia razoável antes da indicação cirúrgica. Para a mielopatia cervical espondilótica, o curso natural é altamente variável, com estudos mostrando que mais de 80% dos pacientes com formas leves a moderadas não apresentam progressão ou melhora em três anos, independentemente do tratamento cirúrgico ou não cirúrgico.

A utilidade clínica desta revisão para pacientes reside em seu caráter esclarecedor sobre o que funciona, com que intensidade de evidência e em que contextos. A mensagem central é que a maioria dos episódios agudos se resolve naturalmente, que o exercício é a intervenção não farmacológica mais bem fundamentada, e que abordagens invasivas devem ser consideradas com cautela, dada a limitada qualidade de evidências de suporte. A segurança das terapias integrativas é geralmente boa, embora procedimentos intervencionistas como injeções cervicais e cirurgia exijam técnica cuidadosa e seleção adequada de pacientes. A limitação mais importante a ser reconhecida é que muitas recomendações são baseadas em extrapolação de evidências de dor lombar ou em estudos de qualidade metodológica inferior, o que demanda prudência na aplicação individualizada.

O que fortalece a leitura

  • 1Revisão abrangente da literatura
  • 2Análise crítica da qualidade das evidências
  • 3Cobertura de terapias convencionais e integrativas
  • 4Orientações práticas para clínicos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Qualidade variável dos estudos primários
  • 2Poucos estudos específicos para dor cervical
  • 3Extrapolação de evidências de dor lombar
  • 4Falta de padronização diagnóstica

Leitura clínica do estudo

FORTE
85/ 100
Desenho
5/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

pessoas avaliadas
divisão dos grupos
⏱️ Tempo de acompanhamento: Revisão de literatura até 2017

📊 Resultados em números

0%

Prevalência anual de dor cervical

0%

Dor neuropática mista em cervical

Forte

Evidência para exercício

Moderada

Evidência para acupuntura

Destaques percentuais

37.2%
Prevalência anual de dor cervical
50%
Dor neuropática mista em cervical

📊 Comparação de Resultados

Força da evidência para terapias complementares

Exercício
5
Acupuntura
3
Massagem
2
Manipulação
2

📅 Linha do tempo da evidência

2010Dor cervical identificada como 4ª causa de incapacidade nos EUA
2013Atualizações em diretrizes para radiofrequência cervical
2015Múltiplas revisões sistemáticas sobre terapias integrativas
2017Esta revisão de estado da arte consolida evidências atuais

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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