Estudo científico comentado

Como o sistema nervoso central processa a dor em pacientes com dor no ombro

Referência acadêmica

Periódico

Pain Practice

Ano

2017

Autores

Noten et al.

Desenho

revisão sistemática

Esta revisão mostra que pacientes com dor no ombro frequentemente têm alterações no modo como o sistema nervoso central processa a dor. Isso significa que a dor pode persistir mesmo quando os tecidos do ombro estão cicatrizados, porque o sistema nervoso se torna mais sensível. Compreender isso é importante para escolher o tratamento mais adequado, que pode incluir abordagens focadas no sistema nervoso além do tratamento local do ombro.

Título original do estudo: Central pain processing in patients with shoulder pain: a review of the literature

📚revisão sistemática👥18 estudos incluídos🔬evidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Pacientes com dor musculoesquelética persistente no ombro frequentemente apresentam sinais de sensibilização central, com hipersensibilidade mecânica generalizada e modulação da dor prejudicada, sugerindo que o tratamento deve considerar o sistema nervoso cent

O que isso significa para você?

Esta revisão mostra que pacientes com dor no ombro frequentemente têm alterações no modo como o sistema nervoso central processa a dor. Isso significa que a dor pode persistir mesmo quando os tecidos do ombro estão cicatrizados, porque o sistema nervoso se torna mais sensível. Compreender isso é importante para escolher o tratamento mais adequado, que pode incluir abordagens focadas no sistema nervoso além do tratamento local do ombro.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor persistente no ombro é uma experiência real e validada cientificamente, que pode envolver alterações mensuráveis no sistema nervoso central
  • 2Se você sente dor em áreas além do ombro ou nota que o toque leve causa desconforto, isso pode ser um sinal de sensibilização central e merece atenção médica
  • 3Tratamentos que funcionam bem para dor aguda do ombro podem ser insuficientes quando há sensibilização central, sem que isso signifique que não há solução
  • 4A comunicação aberta com seu médico sobre a natureza, localização e padrões da sua dor ajuda a identificar se mecanismos centrais estão envolvidos
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Minha dor se limita ao ombro ou se espalha para outras áreas do corpo? Isso pode indicar sensibilização central?
  • 2Os tratamentos que fiz até agora focaram apenas no ombro? Deveríamos considerar abordagens que também modulam o sistema nervoso central?
  • 3Existe algum teste não invasivo que possa avaliar se meu sistema de processamento da dor está sensibilizado?
  • 4Se houver sensibilização central, quais são as opções de tratamento que vão além da fisioterapia convencional e medicamentos para dor?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Os testes sensoriais quantitativos mencionados na revisão são procedimentos de avaliação seguros e não invasivos, realizados com equipamentos que aplicam estímulos controlados
  • 2Esta revisão não avaliou a segurança ou eficácia de tratamentos para sensibilização central; qualquer intervenção deve ser discutida e supervisionada por médico
  • 3A interpretação dos resultados de testes sensoriais requer formação especializada e deve ser feita no contexto clínico completo, não isoladamente
  • 4Pacientes com dor pós-AVC apresentam particularidades neurológicas que podem afetar a avaliação e exigem abordagem individualizada

Leitura rápida para pacientes

Sua dor no ombro pode envolver mais que o ombro

O sistema nervoso central pode estar contribuindo para manter a dor ativa, mesmo quando a lesão inicial já cicatrizou. Entender isso abre caminhos para tratamentos mais completos.

Ponto 1

A dor persistente no ombro frequentemente envolve sensibilização do sistema nervoso central, não apenas problemas locais

Ponto 2

Sinais como dor que se espalha ou hipersensibilidade ao toque podem indicar esse mecanismo

Ponto 3

Tratamentos que consideram o sistema nervoso central, além do ombro, podem ser necessários para alguns pacientes

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA REVISÃO SISTEMÁTICA

Este foi o primeiro trabalho a reunir e sintetizar evidências sobre processamento central da dor especificamente em pacientes com dor no ombro, consolidando a hipersensibilidade mecânica generalizada como marcador releva

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A evidência de sensibilização central em dor musculoesquelética do ombro é consistente o suficiente para justificar consideração clínica, mas a heterogeneidade dos estudos e a ausência de ensaios terapêuticos direcionado

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um nível elevado de evidência que sintetiza múltiplos estudos, mas a qualidade final depende da robustez dos estudos primários incluídos

estudos incluídos

18

total de estudos na revisão sistemática

estudos observacionais

15

maioria dos estudos, com apenas 3 ensaios clínicos randomizados

concordância entre avaliadores

91%

agreement na avaliação da qualidade metodológica

nível de evidência

2

para presença de sensibilização central em dor musculoesquelética do ombro, segundo GRADE

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor no ombro de origem musculoesquelética ou pós-acidente vascular cerebral

Tipo de estudo

Revisão sistemática da literatura

Participantes

18 estudos incluídos, com amostras variadas de pacientes adultos com dor no ombr

Duração

Variável conforme os estudos primários (transversal ou acompanhamento de até 6 m

Sessões

Não aplicável (revisão de estudos com protocolos variados)

Comparador

Grupos controle saudáveis ou pacientes sem dor, conforme estudo primário

Grupos do estudo

Pacientes com dor musculoesquelética do ombroPacientes com dor hemiplegica pós-AVC

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Não aplicável

Frequência02

Não aplicável

Duração da sessão03

Não aplicável

Pontos / técnica04

Testes sensoriais quantitativos (algometria de pressão, limiares térmicos, estímulos mecânicos pontuais), modulação da dor condicionada (teste do imersão em água gelada), resposta

Comparador05

Grupos controle saudáveis ou pacientes sem dor no ombro

Nota de protocolo06

Os protocolos variaram entre os estudos; não houve intervenção terapêutica única, mas sim avaliação dos mecanismos de processamento da dor

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com dor no ombro de origem musculoesquelética, incluindo síndrome do impacto subacromial, lesões do manguito rotador e mialgia miofascialPacientes com dor hemiplegica do ombro após acidente vascular cerebralIndivíduos com dor unilateral ou bilateral, aguda ou crônicaAtletas de elite, como nadadores, com dor unilateral do ombroMulheres com dor crônica do ombro em alguns estudos específicos

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes menores de 18 anosPacientes com dor exclusivamente por neuropatia periférica sem componente central avaliadoIndivíduos em que apenas a sensibilização periférica foi investigada, sem avaliação centralPacientes com condições de dor crônica generalizada primária, como fibromialgia, em estudos focados exclusivamente no ombro

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🔍

Compreensão dos mecanismos de dor

avançou significativamente

Confirmou-se que a sensibilização central está presente em subgrupo de pacientes com dor musculoesquelética do ombro, com evidência de nível 2

📊

Identificação de marcadores de sensibilização

melhorou / consolidou

Hipersensibilidade mecânica generalizada e modulação da dor condicionada reduzida emergiram como indicadores consistentes de envolvimento central

🎯

Direcionamento terapêutico

tornou-se mais preciso

Pacientes com sinais de sensibilização central podem necessitar de abordagens que modulam o sistema nervoso além do tratamento local do ombro

O que não mudou

  • Os resultados foram inconsistentes em pacientes com dor hemiplegica pós-AVC, sem consenso sobre presença de sensibilização central
  • Não houve padronização dos métodos de avaliação, dificultando comparações diretas entre estudos
  • A relação causal entre sensibilização central e persistência da dor não foi estabelecida devido ao desenho predominantemente transversal dos estudos

Quando a melhora apareceu

1

3 meses pós-operatórios

Modulação da dor após cirurgia

A resposta ao calor supralimiar normalizou, mas a modulação da dor condicionada permaneceu prejudicada, sugerindo que parte da sensibilização central pode persistir mesmo após reso

Antes e depois

Limiar de pressão dolorosa (ombro afetado vs. saudável)

escala máx. 10 escala relativa de s

Antes6 escala relativa de s
Depois4 escala relativa de s

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Os testes sensoriais quantitativos são não invasivos e seguros para avaliação
  • Não há relatos de efeitos adversos significativos dos métodos de avaliação utilizados
Amarelo
  • A interpretação dos resultados requer cuidado devido à variabilidade individual na resposta à dor
  • A presença de sensibilização central pode indicar necessidade de abordagem terapêutica mais prolongada ou multidisciplinar
Vermelho
  • Não foram avaliados efeitos de intervenções terapêuticas específicas para sensibilização central nesta revisão
  • A segurança e eficácia de tratamentos direcionados à modulação central não são objeto deste estudo
  • A extrapolação para dor hemiplegica pós-AVC é fraca devido a achados inconsistentes

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pacientes com dor musculoesquelética persistente no ombro, especialmente quando desproporcional aos achados de imagem
  • Indivíduos com dor que se espalha além do território anatômico do ombro ou com hipersensibilidade ao toque em áreas distantes
  • Pacientes que não responderam adequadamente a tratamentos locais convencionais
  • Pessoas com histórico de dor crônica em outras regiões, sugerindo predisposição à sensibilização central

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com dor hemiplegica pós-AVC, para quem os achados são inconsistentes e requerem investigação adicional
  • Indivíduos com dor exclusivamente aguda e bem localizada, com clara correlação com lesão tecidual recente
  • Pacientes em uso de medicamentos que modulam a percepção de dor, o que pode interferir nos testes sensoriais
  • Pessoas com comprometimento cognitivo significativo que dificulte a comunicação da experiência dolorosa

Expectativa realista

Compreender a dor pode ser o primeiro passo para aliviá-la

Se você tem dor persistente no ombro, pode haver um componente de sensibilização do sistema nervoso central contribuindo para seus sintomas. Isso não significa que a lesão original não existiu, mas que o sistema de processamento da dor pode

Tempo provável

A identificação desses mecanismos pode orientar o tratamento imediatamente, embora a modulação da sensibilização central

Esta revisão não avaliou tratamentos específicos para sensibilização central; a escolha terapêutica deve ser discutida individualmente com seu médico

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se seus sintomas de dor se estendem além da região do ombro ou se há áreas de hipersensibilidade ao toque
  2. 2Questione se a intensidade da sua dor parece desproporcional aos achados de exames de imagem
  3. 3Discuta se tratamentos anteriores focados exclusivamente no ombro tiveram resultado insatisfatório
  4. 4Inquira sobre a possibilidade de abordagens que considerem a modulação do sistema nervoso central como complemento ao tratamento local

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor persistente no ombro sempre significa que há algo errado nos tecidos do ombro

Achado

A sensibilização central pode manter a dor mesmo quando os tecidos estão cicatrizados, pois o sistema nervoso central permanece hiperexcitável

Mito

Dor que se espalha é sinal de agravamento da lesão local

Achado

A hiperalgesia generalizada em áreas distantes é um marcador de sensibilização central, não necessariamente de lesão em múltiplos locais

Mito

Pacientes pós-AVC com dor no ombro sempre têm sensibilização central

Achado

Os achados em dor hemiplegica pós-AVC foram inconsistentes; a modulação da dor condicionada funcionou normalmente em alguns estudos, sugerindo mecanismos diferentes

Como isso pode funcionar

🔥

ESTÍMULO INICIAL

Lesão ou sobrecarga no ombro gera sinais dolorosos que viajam pelos nervos periféricos até a medula espinhal (mecanismo confirmado)

AMPLIFICAÇÃO CENTRAL

Com a persistência da dor, neurônios na medula e cérebro tornam-se mais excitáveis, amplificando sinais dolorosos (mecanismo proposto e com evidência de suporte)

🌐

GENERALIZAÇÃO

A hipersensibilidade se estende para áreas distantes do corpo, indicando que o processamento central, não apenas a lesão local, mantém a dor (evidência moderada em dor musculoesquelética)

🔄

MODULAÇÃO PREJUDICADA

O mecanismo natural de inibição da dor pelo cérebro funciona de forma reduzida, dificultando o alívio espontâneo (evidência preliminar, requer confirmação)

O que ainda é incerto

  • ?Não está claro se a sensibilização central é causa ou consequência da dor persistente no ombro, ou se ambos se reforçam mutuamente em um ciclo vicioso
  • ?A ausência de métodos padronizados para avaliar sensibilização central dificulta a comparação entre estudos e a definição de critérios clínicos prátic
  • ?Os mecanismos de dor em pacientes com dor hemiplegica pós-AVC permanecem pouco compreendidos, com achados conflitantes entre estudos
  • ?Não se sabe quais intervenções terapêuticas são mais eficazes para modificar a sensibilização central em pacientes com dor no ombro
🎯

O que o estudo quis responder

Investigar se existe processamento anormal da dor no sistema nervoso central em pacientes com dor no ombro

👥

QUEM PARTICIPOU

18 estudos com pacientes com dor no ombro musculoesquelética ou pós-AVC

🧪

COMO FOI FEITO

Revisão sistemática analisando testes sensoriais quantitativos e modulação da dor

📈

O QUE MUDOU

Confirmada hipersensibilidade mecânica generalizada em dor no ombro musculoesquelética

🛟

SEGURANÇA

Testes sensoriais são seguros e não invasivos para avaliação da dor

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

CONSOLIDAÇÃO DA HIPERSENSIBILIDADE GENERALIZADA

Pela primeira vez em uma revisão sistemática, foi confirmado que pacientes com dor musculoesquelética do ombro apresentam redução dos limiares de dor à pressão não apenas localmente, mas também em regiões distantes do co

🧭

DISTINÇÃO ENTRE TIPOS DE DOR NO OMBRO

A revisão revelou diferenças importantes entre dor musculoesquelética e dor pós-AVC: enquanto a primeira apresenta padrões mais consistentes de sensibilização central, a segunda mostrou resultados contraditórios, sugerin

📌

PERSISTÊNCIA DA MODULAÇÃO PREJUDICADA APÓS CIRUR

Um achado clinicamente relevante foi que a capacidade de inibição endógena da dor permaneceu alterada três meses após cirurgia do ombro, mesmo quando a dor local melhorou, alertando para o risco de dor crônica pós-operat

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Como o sistema nervoso central processa a dor em pacientes com dor no ombro

A dor no ombro é uma das queixas mais comuns no consultório médico, ficando atrás apenas de problemas nas costas e no pescoço em termos de prevalência. Apesar de muitos pacientes se recuperarem completamente em até um ano após o início dos sintomas, uma parcela significativa desenvolve dor persistente que resiste aos tratamentos convencionais. Esta revisão sistemática, publicada em 2017 pelos pesquisadores Noten e colaboradores, investigou um mecanismo que pode ajudar a explicar essa persistência: a sensibilização central, ou seja, alterações no modo como o sistema nervoso central processa e modula a dor.

O conceito de sensibilização central é fundamental para compreender por que algumas dores se tornam crônicas. Normalmente, a dor é um sinal de alerta que se origina quando tecidos são lesionados e os nervos periféricos transmitem essa informação até a medula espinhal e o cérebro. No entanto, quando a estimulação dolorosa se prolonga, pode ocorrer uma espécie de "memória da dor" no sistema nervoso central: os neurônios envolvidos no processamento da dor tornam-se mais excitáveis, respondendo de forma exagerada a estímulos que antes não causariam dor, ou amplificando a percepção de estímulos levemente dolorosos. Isso explica por que alguns pacientes sentem dor intensa mesmo quando exames de imagem mostram pouca alteração estrutural, ou por que a dor pode se espalhar para áreas distantes do local original da lesão.

Para investigar se esse fenômeno ocorre em pacientes com dor no ombro, os pesquisadores realizaram uma busca sistemática e rigorosa nas principais bases de dados científicas, identificando 18 estudos publicados até maio de 2015. A maioria desses estudos (15) era observacional, com apenas três ensaios clínicos randomizados. A qualidade metodológica foi avaliada por dois pesquisadores de forma independente, com concordância de 91% entre eles. Os estudos foram divididos em dois grupos principais: 13 investigaram pacientes com dor musculoesquelética no ombro, como síndrome do impacto subacromial, lesões do manguito rotador e mialgia miofascial; e 5 estudaram pacientes com dor hemiplegica do ombro, uma complicação frequente após acidente vascular cerebral (AVC).

Os métodos utilizados para avaliar a sensibilização central foram classificados em estáticos e dinâmicos. Os métodos estáticos incluíram principalmente testes sensoriais quantitativos, como a algometria de pressão, que mede a quantidade de pressão necessária para que o paciente sinta dor. Os métodos dinâmicos avaliaram a capacidade do sistema nervoso de modular a dor, incluindo a resposta ao calor supralimiar, a modulação da dor condicionada (teste do imersão em água gelada) e a analgesia endógena induzida por exercício.

Os resultados mais consistentes foram encontrados nos pacientes com dor musculoesquelética. Vários estudos demonstraram hipersensibilidade mecânica generalizada, com limiares de dor à pressão significativamente reduzidos não apenas no ombro afetado, mas também em regiões distantes, como a perna. Essa "hiperalgesia generalizada" é considerada um marcador clássico de sensibilização central, pois indica que o sistema nervoso central está amplificando sinais dolorosos de forma difusa. Além disso, a modulação da dor condicionada — um mecanismo inibitório natural do corpo — estava prejudicada nesses pacientes, sugerindo que não apenas a sensibilização está aumentada, mas também os mecanismos de contenção da dor estão comprometidos.

Curiosamente, um estudo mostrou que essas alterações podem persistir mesmo três meses após cirurgia do ombro, quando a dor local já diminuiu, levantando a preocupação de que a sensibilização central possa contribuir para dores pós-operatórias crônicas.

Nos pacientes com dor hemiplegica pós-AVC, os achados foram mais heterogêneos. Alguns estudos encontraram evidências de hipersensibilidade e alodinia (dor provocada por estímulos que normalmente não causam dor), sugerindo componente neuropático e possível sensibilização central. No entanto, outros não confirmaram essas alterações, e a modulação da dor condicionada parecia funcionar normalmente nessa população. Os pesquisadores ressaltam que as limitações nos membros superiores após AVC, juntamente com alterações sensoriais decorrentes da lesão cerebral, tornam mais difícil isolar o papel específico da sensibilização central nesses pacientes.

A interpretação clínica desses achados é relevante para o manejo da dor. Se parte dos pacientes com dor no ombro apresenta sensibilização central, tratamentos exclusivamente direcionados às estruturas periféricas — como exercícios de fortalecimento, infiltrações ou cirurgia — podem ter eficácia limitada. Esses pacientes podem se beneficiar de abordagens que também considerem o sistema nervoso central, como técnicas de modulação da dor, estratégias de reprocessamento sensorial e intervenções que reduzam a sensibilização generalizada. A identificação precoce de sinais de sensibilização central, como dor que se espalha além do território anatômico esperado, hipersensibilidade ao toque ou dor desproporcional aos achados de imagem, pode ajudar a direcionar o tratamento de forma mais personalizada.

É importante reconhecer as limitações desta revisão. A heterogeneidade entre os estudos incluídos, tanto em termos de populações quanto de métodos de avaliação, dificulta generalizações. A qualidade metodológica dos estudos primários foi variável, e não há consenso sobre quais testes e critérios definem de forma mais precisa a sensibilização central em contexto clínico. Além disso, a maioria dos estudos era transversal, impedindo conclusões sobre causalidade: não se sabe se a sensibilização central é causa ou consequência da dor persistente, ou se ambos os fenômenos se reforçam mutuamente.

Para o paciente com dor no ombro persistente, esta revisão oferece uma mensagem importante e acolhedora: a dor que você sente é real, mesmo quando os exames não mostram alterações estruturais claras. O sistema nervoso pode estar "tunelado" para sentir mais dor do que o dano tecidual justificaria, e compreender esse mecanismo é o primeiro passo para encontrar estratégias de tratamento mais abrangentes e efetivas. A dor não está "na cabeça" no sentido de ser imaginária, mas envolve processos reais e mensuráveis no cérebro e na medula espinhal que podem ser modificados com o tratamento adequado.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeira revisão sistemática sobre sensibilização central em dor no ombro
  • 2Incluiu diferentes tipos de dor no ombro
  • 3Análise metodológica rigorosa dos estudos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Heterogeneidade entre os estudos incluídos
  • 2Qualidade metodológica variável dos estudos primários
  • 3Falta de métodos padronizados para avaliar sensibilização central

Leitura clínica do estudo

MODERADA
70/ 100
Desenho
3/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

18pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Estudos com dor musculoesquelética

13 pessoas

testes sensoriais quantitativos

Estudos com dor pós-AVC

5 pessoas

testes sensoriais quantitativos

⏱️ Tempo de acompanhamento: estudos variados

📊 Resultados em números

0

Estudos incluídos na revisão

nível 2

Evidência para sensibilização central em dor musculoesquelética

0%

Concordância entre avaliadores

0

Estudos observacionais

Destaques percentuais

91%
Concordância entre avaliadores

📊 Comparação de Resultados

Tipos de estudo incluídos

Observacionais
15
Ensaios clínicos
3

📅 Linha do tempo da evidência

2000Primeiros estudos sobre sensibilização central em outras condições de dor
2010Início dos estudos sobre processamento central da dor no ombro
2015Busca sistemática da literatura realizada
2017Publicação desta revisão confirmando sensibilização central em dor no ombro

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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