Estudo científico comentado

Liberação Miofascial para Dor Lombar Crônica: Revisão Sistemática e Meta-análise

Referência acadêmica

Periódico

Frontiers in Medicine

Ano

2021

Autores

Wu et al.

Desenho

Meta-análise

Esta meta-análise mostrou que a liberação miofascial pode ser útil para reduzir a dor e melhorar a função física em pessoas com dor lombar crônica. No entanto, a técnica não demonstrou benefícios para qualidade de vida, equilíbrio ou mobilidade do tronco. Os resultados são promissores, mas limitados pela qualidade dos estudos incluídos. Mais pesquisas de alta qualidade são necessárias para confirmar estes benefícios.

Título original do estudo: Myofascial Release for Chronic Low Back Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis

📊Meta-análise👥n=375 participantes🔬Evidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A liberação miofascial mostrou redução modesta mas significativa da dor e melhora da função física em adultos com dor lombar crônica, sem benefícios comprovados para qualidade de vida, equilíbrio ou mobilidade do tronco; a qualidade dos estudos é baixa e mais

O que isso significa para você?

Esta meta-análise mostrou que a liberação miofascial pode ser útil para reduzir a dor e melhorar a função física em pessoas com dor lombar crônica. No entanto, a técnica não demonstrou benefícios para qualidade de vida, equilíbrio ou mobilidade do tronco. Os resultados são promissores, mas limitados pela qualidade dos estudos incluídos. Mais pesquisas de alta qualidade são necessárias para confirmar estes benefícios.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A liberação miofascial pode ser uma opção a considerar se sua principal queixa é dor e dificuldade em atividades diárias, mas não espere milagres
  • 2Os benefícios são mais prováveis se você faz a técnica como tratamento principal, não apenas como complemento de exercícios que já realiza
  • 3Não há evidência de que a técnica melhore seu equilíbrio, flexibilidade da coluna ou qualidade de vida em geral
  • 4A segurança parece aceitável, mas informe seu médico se sentir aumento da dor nas primeiras sessões
  • 5A decisão deve ser individualizada, considerando que a qualidade das pesquisas ainda é insuficiente para recomendações firmes
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base na minha condição específica, a liberação miofascial seria mais indicada sozinha ou combinada com outros tratamentos?
  • 2Quais são minhas metas de tratamento e elas se alinham com o que a evidência mostra que melhora?
  • 3Se eu não notar melhora em 4 a 6 semanas, qual seria o próximo passo?
  • 4Existem alternativas com evidência mais robusta disponíveis para mim, como programas estruturados de exercícios terapêuticos?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Aumento temporário da dor foi o único evento adverso relatado, ocorrendo principalmente na primeira semana e se resolvendo espontaneamente
  • 2A maioria dos estudos não relatou eventos adversos de forma sistemática, o que limita a confiança na avaliação de segurança
  • 3Não há dados sobre segurança em populações específicas como idosos muito frágeis, pacientes com osteoporose grave ou condições de coagulação
  • 4A qualidade metodológica baixa dos estudos incluídos pode ter subestimado efeitos colaterais menos frequentes

Leitura rápida para pacientes

Liberação miofascial pode aliviar um pouco a dor lombar crônica

A técnica mostrou benefícios modestos para dor e função, mas não para equilíbrio, mobilidade ou qualidade de vida. A qualidade das pesquisas ainda é limitada.

Ponto 1

Redução pequena mas significativa da dor e da incapacidade física

Ponto 2

Sem comprovação de melhora no equilíbrio, flexibilidade do tronco ou bem-estar geral

Ponto 3

Segurança parece razoável, mas dados são insuficientes; converse com seu médico sobre expectativas realistas

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA META-ANÁLISE

Este é o primeiro estudo a reunir sistematicamente os ensaios clínicos sobre liberação miofascial especificamente para dor lombar crônica, quantificando pela primeira vez o tamanho do efeito em múltiplos desfechos

Aplicabilidade clínica

Sinal discreto

As diferenças padronizadas médias de -0,37 para dor e -0,43 para função física representam efeitos de magnitude pequena a moderada segundo critérios de Cohen; clinicamente, significam alívio parcial que pode ser perceptí

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos níveis mais altos de evidência científica, pois agrega resultados de múltiplos estudos experimentais; no entanto, a confiabilidade depende da qualidade dos estudos in

Participantes totais

375

187 na liberação miofascial, 188 no controle

Redução da dor

SMD = -0,37

Efeito significativo, mas de magnitude pequena a moderada

Melhora da função física

SMD = -0,43

Estatisticamente significativo, com mesmo tamanho de efeito modesto

Estudos incluídos

8

Publicados entre 2014 e 2020 em 6 países diferentes

Qualidade da evidência

Moderada

Para dor e função física; baixa a muito baixa para os demais desfechos

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor lombar crônica (mais de 3 meses)

Tipo de estudo

Revisão sistemática com meta-análise

Participantes

375 adultos (212 mulheres, 163 homens), idade média de 34 a 70 anos, de 6 países

Duração

2 a 8 semanas de intervenção; seguimento de curto prazo

Sessões

Variável: de 2 a 24 sessões totais, conforme o estudo

Comparador

Liberação miofascial simulada, exercícios terapêuticos, manipulação espinhal ou programa de fisioterapia

Grupos do estudo

Liberação miofascial (n=187)Controle: placebo, exercícios, manipulação ou fisioterapia (n=188)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Variável entre estudos: de 4 a 24 sessões totais

Frequência02

De uma vez a duas vezes por semana, dependendo do protocolo do estudo

Duração da sessão03

15 a 45 minutos por sessão

Pontos / técnica04

Técnicas manuais de pressão sobre músculos e fáscia, com variação conforme o estudo; alguns usaram liberação miofascial dinâmica, outros estática

Comparador05

Liberação miofascial simulada (placebo), exercícios terapêuticos, manipulação espinhal ou programa de fisioterapia conve

Nota de protocolo06

Quando intervenções combinadas foram usadas, ambos os grupos recebiam a mesma terapia base antes de serem considerados elegíveis para inclusão

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com dor lombar crônica confirmada há mais de 3 mesesHomens e mulheres, com idades variando de meia-idade a idosos (médias de 34 a 70 anos)Pacientes de diferentes países: Turquia, Brasil, Índia, Itália, Espanha e Coreia do SulIndivíduos que mantinham atividade funcional, sem restrição de comorbidadesParticipantes de ensaios clínicos randomizados publicados em inglês até abril de 2021

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes com dor lombarPacientes com dor lombar aguda (menos de 3 meses) ou dor de causa específica identificadaIndivíduos com indicação cirúrgica recente ou pós-operatório imediatoGestantes e puérperas, não representadas na amostraPacientes com condições neurológicas graves ou comprometimento cognitivo significativo

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Intensidade da dor

reduziu

Redução significativa com SMD = -0,37 (IC 95%: -0,67 a -0,08; p = 0,01), mais evidente contra placebo

🚶

Função física

melhorou

Melhora significativa com SMD = -0,43 (IC 95%: -0,75 a -0,12; p = 0,007), indicando menor incapacidade nas atividades diárias

🎯

Dor contra placebo

reduziu

Na subgrupo análise versus liberação miofascial simulada, efeito maior: SMD = -0,70 (p < 0,0001)

🏃

Função física contra placebo

melhorou

Na comparação direta com placebo, SMD = -0,61 (p = 0,0009), mostrando benefício mais robusto

O que não mudou

  • Qualidade de vida geral (SF-36, EQ-5D-3L, WHOQOL-OLD): sem melhora significativa
  • Equilíbrio corporal (Y-Balance Test, Functional Reach Test): sem benefício comprovado
  • Mobilidade do tronco em planos sagital e coronal: sem melhora significativa
  • Limiar de pressão para dor e saúde mental (medo de movimento, cinesiofobia): inalterados

Quando a melhora apareceu

1

4 a 6 sessões

Após 2 semanas

Estudos mais curtos já mostravam diferença significativa em dor e função física comparando liberação miofascial com placebo

2

8 a 24 sessões

Após 4 a 8 semanas

Período mais comum de intervenção, com resultados significativos mantidos para dor e função em análise agregada

Antes e depois

Intensidade da dor (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos estimados

Antes6 pontos estimados
Depois4.5 pontos estimados

Incapacidade funcional (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos estimados

Antes5.5 pontos estimados
Depois4 pontos estimados

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Aumento temporário da dor relatado em apenas um estudo, com resolução espontânea em uma semana
  • Nenhum evento adverso grave identificado na amostra agregada
Amarelo
  • Cinco dos oito estudos não relataram eventos adversos de forma sistemática, criando incerteza
  • Desconforto inicial possível, especialmente nas primeiras sessões
  • Qualidade metodológica baixa dos estudos pode mascarar eventos menos comuns
Vermelho
  • Dados de segurança insuficientes para populações específicas como idosos frágeis ou com comorbidades graves
  • Ausência de seguimento de longo prazo impede avaliação de efeitos tardios

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor lombar crônica não específica há mais de 3 meses
  • Pacientes que preferem abordagens não farmacológicas e não invasivas
  • Indivíduos com função física preservada que buscam melhorar capacidade de realizar atividades diárias
  • Pessoas que já não obtiveram alívio satisfatório com exercícios isolados e desejam tentar alternativa

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com expectativa de melhora no equilíbrio corporal ou mobilidade articular específica
  • Indivíduos que buscam melhora significativa na qualidade de vida geral ou bem-estar emocional
  • Pessoas com dor lombar aguda ou de causa identificável que requer tratamento específico
  • Pacientes que necessitam de evidência de alta qualidade antes de iniciar tratamento, dada a limitação dos estudos

Expectativa realista

Alívio parcial da dor e da incapacidade

Você pode experimentar uma redução modesta na intensidade da dor e alguma facilidade para realizar atividades como caminhar, sentar ou se vestir, mas não espere melhoras no equilíbrio, flexibilidade do tronco ou qualidade de vida em geral

Tempo provável

As primeiras mudanças podem aparecer após 2 a 4 semanas de tratamento regular

Os benefícios são mais claros quando a técnica é comparada com um placebo, e não quando é adicionada a exercícios ou outras terapias que você já faz; além disso

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se há evidência de que a liberação miofascial funciona melhor sozinha ou combinada com exercícios no seu caso específico
  2. 2Discuta se seus objetivos de tratamento (redução de dor, melhora de função, equilíbrio, qualidade de vida) se alinham com o que a pesquisa mostrou
  3. 3Questione sobre a experiência do profissional com a técnica e se há protocolo definido de avaliação de progresso
  4. 4Peça orientação sobre sinais de desconforto excessivo e quando interromper o tratamento
  5. 5Verifique se há alternativas com evidência mais robusta disponíveis para sua condição

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

A liberação miofascial melhora o equilíbrio e a mobilidade do tronco

Achado

Nenhum desses desfechos mostrou melhora significativa na meta-análise; os valores de p foram 0,29 para equilíbrio e 0,07 para mobilidade do tronco

Mito

Adicionar liberação miofascial a exercícios ou fisioterapia sempre amplia os benefícios

Achado

Quando combinada com outras terapias e comparada a essas terapias sozinhas, a liberação miofascial perdeu a significância estatística; o benefício foi mais claro contra placebo

Mito

A técnica é totalmente segura e sem desconforto

Achado

Aumento temporário da dor foi relatado em 10 pacientes do grupo ativo em um estudo; cinco estudos sequer relataram eventos adversos de forma sistemática

Como isso pode funcionar

🔍

TEORIA PROPOSTA

A fáscia endurecida ou com tensão aumentada pode restringir a mobilidade e gerar dor; a liberação miofascial aplicaria pressão para restaurar o deslizamento tecidual — mecanismo ainda não completamente comprovado

🧠

MODULAÇÃO NEURAL

Estudos sugerem que a técnica pode estimular receptores na fáscia, provocando mudanças neuromusculares e possivelmente alterando a percepção de dor pelo sistema nervoso central

🔥

EFEITO ANTIINFLAMATÓRIO

Pesquisas in vitro indicam redução da produção de citocinas inflamatórias, mas ainda não há confirmação de que esse mecanismo ocorre clinicamente em humanos com dor lombar crônica

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se os benefícios observados se mantêm após o término do tratamento, pois poucos estudos fizeram seguimento de longo prazo
  • ?A alta heterogeneidade entre estudos (diferentes técnicas, durações e frequências) dificulta saber qual protocolo seria ideal
  • ?A qualidade metodológica baixa dos estudos incluídos pode ter inflacionado os resultados positivos; ensaios mais rigorosos podem mostrar efeitos menor
  • ?Não foi possível avaliar se a gravidade da dor lombar ou a duração da condição influenciam a resposta ao tratamento
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar a efetividade da liberação miofascial comparada a outras intervenções em pacientes com dor lombar crônica

👥

QUEM PARTICIPOU

375 adultos com dor lombar crônica (mais de 3 meses), incluindo 212 mulheres e 163 homens de 6 países

🧪

COMO FOI FEITO

8 estudos randomizados comparando liberação miofascial com exercícios, manipulação espinhal ou liberação miofascial simulada

📈

O QUE MUDOU

Redução significativa da dor (SMD=-0,37) e melhora da função física (SMD=-0,43)

🛟

SEGURANÇA

Apenas 1 estudo relatou eventos adversos leves (aumento temporário da dor na primeira semana)

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

BENEFÍCIO MAIS CLARO CONTRA PLACEBO

O efeito mais robusto apareceu quando a liberação miofascial verdadeira foi comparada com a simulada, sugerindo que a técnica tem ação própria e não é apenas efeito de atenção ou expectativa

🧭

ADIÇÃO A OUTRAS TERAPIAS NÃO SE MOSTROU VANTAJOS

Quando combinada com exercícios, manipulação ou fisioterapia, a liberação miofascial não trouxe ganhos extras significativos — uma surpresa que desafia a prática comum de 'mais é melhor'

📌

AUSÊNCIA DE EFEITO EM DESFECHOS FUNCIONAIS ESPER

Contrariando teorias sobre a fáscia, a técnica não melhorou equilíbrio, limiar de dor à pressão, mobilidade do tronco ou saúde mental, apesar de ser frequentemente recomendada para esses fins

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Liberação Miofascial para Dor Lombar Crônica: Revisão Sistemática e Meta-análise

A dor lombar crônica é uma das condições mais comuns que afetam a qualidade de vida de adultos, especialmente entre pessoas mais velhas. Caracterizada por desconforto persistente na região inferior das costas por mais de três meses, essa condição pode limitar atividades cotidianas simples, como caminhar, sentar por longos períodos ou até mesmo dormir bem. Diante das limitações dos tratamentos tradicionais — medicamentos que podem causar efeitos colaterais gastrointestinais e cardiovasculares, e cirurgias que nem sempre trazem o alívio esperado — muitos pacientes e médicos buscam alternativas terapêuticas menos invasivas. Uma dessas abordagens é a liberação miofascial, conjunto de técnicas manuais que aplicam pressão sobre músculos e tecidos conjuntivos com o objetivo de restaurar a mobilidade e reduzir a dor.

O estudo de Wu e colaboradores, publicado em 2021 na Frontiers in Medicine, representa a primeira meta-análise dedicada exclusivamente a avaliar se a liberação miofascial realmente funciona para quem vive com dor lombar crônica. Para isso, os pesquisadores reuniram oito ensaios clínicos randomizados, conduzidos entre 2014 e 2020 em seis países diferentes: Turquia, Brasil, Índia, Itália, Espanha e Coreia do Sul. Ao todo, 375 participantes foram analisados, sendo 187 que receberam alguma forma de liberação miofascial e 188 que constituíram os grupos de controle. A amostra incluiu 212 mulheres e 163 homens, com idades médias variando de aproximadamente 34 a 70 anos, todos com diagnóstico de dor lombar crônica de pelo menos três meses de duração.

A metodologia seguiu rigorosamente as diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas, com busca em quatro bases de dados importantes — PubMed, Cochrane Library, EMBASE e Web of Science — até abril de 2021. Os estudos incluídos compararam a liberação miofascial com diferentes abordagens: liberação miofascial simulada (placebo), exercícios terapêuticos, manipulação espinhal e programas de fisioterapia. A qualidade da evidência foi avaliada pela ferramenta GRADE, que considera fatores como risco de viés, consistência dos resultados, precisão e possibilidade de publicação seletiva.

Os resultados principais trouxeram notícias moderadamente encorajadoras. Em termos de dor, medida por escalas como a Escala Visual Analógica (EVA) e o Questionário McGill de Dor, a liberação miofascial mostrou uma redução estatisticamente significativa em comparação aos grupos controle, com diferença padronizada média de -0,37 e intervalo de confiança de 95% entre -0,67 e -0,08. O valor de p foi de 0,01, indicando que essa diferença dificilmente ocorreu ao acaso. De forma semelhante, a função física — avaliada por instrumentos como o Índice de Incapacidade de Oswestry, a Escala Quebec de Incapacidade por Dor Lombar e o Questionário Roland Morris — também melhorou significativamente no grupo de liberação miofascial, com diferença padronizada média de -0,43 e p de 0,007.

Vale notar que, nessas escalas, valores menores indicam melhor função, por isso os números negativos representam benefício.

No entanto, a análise de subgrupos revelou nuances importantes. Os benefícios mais consistentes apareceram quando a liberação miofascial foi comparada diretamente com a liberação miofascial simulada — ou seja, quando o controle foi realmente um placebo. Nessas comparações, tanto a dor quanto a função física mostraram melhorias mais robustas e estatisticamente mais confiáveis. Já quando a liberação miofascial foi combinada com outras terapias e comparada a essas mesmas terapias sozinhas, os resultados perderam significância estatística.

Isso sugere que a técnica pode ter efeito próprio, mas que adicioná-la a tratamentos já existentes não necessariamente amplia os benefícios.

Por outro lado, vários desfechos importantes não mostraram melhora significativa. A qualidade de vida, medida por questionários como o SF-36 e o EQ-5D-3L, não se alterou de forma relevante. O equilíbrio corporal, avaliado por testes como o Y-Balance e o Functional Reach Test, também não demonstrou ganhos consistentes. O limiar de pressão para dor — que indica a sensibilidade dos tecidos — permaneceu inalterado, assim como a mobilidade do tronco em planos sagital e coronal, e a saúde mental, avaliada por escalas de medo de movimento e cinesiofobia.

Esses achados são particularmente relevantes porque algumas teorias sobre a liberação miofascial sugeririam benefícios nessas áreas, especialmente no que tange à melhora da propriocepção e da mobilidade articular.

A segurança da técnica parece razoável, embora os dados sejam limitados. Apenas um dos oito estudos relatou eventos adversos: dez participantes do grupo de liberação miofascial e um do grupo controle experimentaram aumento temporário da dor na primeira semana de tratamento, que se resolveu espontaneamente sem necessidade de medicação. Cinco estudos não mencionaram eventos adversos, e dois relataram explicitamente que não ocorreram. Essa ausência de relato sistemático, contudo, impede conclusões definitivas sobre a segurança em diferentes populações e condições de saúde.

As limitações desta meta-análise são substanciais e devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi predominantemente baixa: apenas um dos oito ensaios apresentou baixo risco de viés em todos os domínios avaliados. Problemas comuns incluíam métodos de randomização pouco claros, falta de ocultação da alocação, e dificuldades em manter o cegamento de participantes e avaliadores — desafio inerente a intervenções manuais. Além disso, o número reduzido de estudos e a heterogeneidade considerável em algumas análises (especialmente para mobilidade do tronco, com I² de 92%) reduzem a confiabilidade das conclusões.

A ausência de seguimento de longo prazo em grande parte dos estudos também impede saber se os benefícios observados se mantêm ao longo do tempo.

Para o paciente que convive com dor lombar crônica, esses resultados sugerem que a liberação miofascial pode ser uma opção terapêutica a considerar, especialmente se o objetivo principal é reduzir a intensidade da dor e melhorar a capacidade de realizar atividades diárias. No entanto, as expectativas devem ser realistas: o efeito é modesto, não há garantia de melhora na qualidade de vida geral, no equilíbrio ou na mobilidade articular, e os benefícios parecem mais claros quando a técnica é aplicada de forma isolada e comparada a um placebo, do que quando é adicionada a outros tratamentos. A decisão de incluir essa abordagem no plano terapêutico deve ser individualizada, considerando as preferências do paciente, a disponibilidade de profissionais qualificados, e o custo-benefício em comparação com outras intervenções com evidência mais robusta, como programas estruturados de exercícios.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeira meta-análise sobre o tema
  • 2Análise de subgrupos por tipo de intervenção
  • 3Seguiu diretrizes PRISMA
  • 4Avaliou múltiplos desfechos funcionais
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Qualidade metodológica baixa dos estudos
  • 2Pequeno número de estudos incluídos
  • 3Alta heterogeneidade em alguns resultados
  • 4Falta de seguimento de longo prazo

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
3/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

375pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Liberação miofascial

187 pessoas

Técnicas de liberação miofascial

Controle

188 pessoas

Exercícios, manipulação ou liberação simulada

⏱️ Tempo de acompanhamento: 2 a 8 semanas de tratamento

📊 Resultados em números

SMD = -0,37

Redução da dor

SMD = -0,43

Melhora da função física

p = 0,01

Significância dor

p = 0,007

Significância função física

📊 Comparação de Resultados

Dor

Liberação miofascial
-0.37
Controle
0

Função física

Liberação miofascial
-0.43
Controle
0

📅 Linha do tempo da evidência

1940Origem das técnicas de liberação miofascial
1981Primeiro uso do termo 'liberação miofascial'
2014Primeiros estudos randomizados incluídos
2020Últimos estudos incluídos na análise
2021Publicação desta primeira meta-análise

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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