Total de participantes
333
pessoas com enxaqueca crônica em 9 estudos
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
Frontiers in Neuroscience
Ano
2023
Autores
Fernández-Hernando et al.
Desenho
Revisão sistemática
Esta revisão analisou se colocar eletrodos na orelha para estimular um nervo importante pode ajudar pessoas com enxaqueca crônica. Os resultados sugerem que esse tratamento pode reduzir a frequência e intensidade das crises, especialmente quando usado com frequência baixa (1Hz). É um tratamento seguro, mas os estudos ainda são de qualidade limitada, então precisamos de mais pesquisas para confirmar esses benefícios.
Título original do estudo: Management of auricular transcutaneous neuromodulation and electro-acupuncture of the vagus nerve for chronic migraine: a systematic review
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Estimulação elétrica não-invasiva na orelha (1 Hz) mostrou redução de crises em alguns estudos de enxaqueca crônica, mas a evidência é de baixa qualidade e os protocolos ainda não estão padronizados.
Esta revisão analisou se colocar eletrodos na orelha para estimular um nervo importante pode ajudar pessoas com enxaqueca crônica. Os resultados sugerem que esse tratamento pode reduzir a frequência e intensidade das crises, especialmente quando usado com frequência baixa (1Hz). É um tratamento seguro, mas os estudos ainda são de qualidade limitada, então precisamos de mais pesquisas para confirmar esses benefícios.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
A evidência é inicial, mas sugere que corrente elétrica de baixa frequência na orelha pode reduzir crises em alguns pacientes
Ponto 1
Tratamento não-invasivo e relativamente seguro, mas ainda sem protocolo padronizado
Ponto 2
Frequência de 1 Hz mostrou melhores resultados em estudos; efeitos variam muito entre pessoas
Ponto 3
Discuta com seu médico se vale a pena considerar, especialmente em centros de pesquisa
O que este estudo acrescenta
Primeira revisão sistemática dedicada exclusivamente à estimulação auricular não-invasiva do nervo vago para enxaqueca crônica, consolidando evidências dispersas e apontando a frequência de 1 Hz como parâmetro mais promi
Aplicabilidade clínica
A redução nos dias de enxaqueca foi estatisticamente significativa em alguns estudos, mas a magnitude clínica é incerta devido à baixa qualidade metodológica, amostras pequenas e falta de padronização dos protocolos. O e
Força do desenho do estudo
Síntese de múltiplos estudos, mas com evidência de baixa qualidade devido a riscos de viés e heterogeneidade entre protocolos
Total de participantes
333
pessoas com enxaqueca crônica em 9 estudos
Qualidade PEDro média
7,3/10
média dos estudos incluídos, com grande variação (2 a 8)
Efeitos adversos graves
7%
abandono por efeitos colaterais em um estudo; demais não relataram
Frequência mais estudada
1 Hz
apresentou resultados mais consistentes que 20-25 Hz
Estudos com fMRI
6 de 9
mostraram alterações cerebrais correlacionadas à estimulação
Ficha rápida do estudo
Condição
Enxaqueca crônica
Tipo de estudo
Revisão sistemática de ensaios clínicos controlados
Participantes
333 pessoas, idade média 35 anos, predominantemente mulheres, com média de 10,8
Duração
Variável: de sessão única a 12 semanas de tratamento
Sessões
Variável: 1 a 12 sessões, de 8 minutos a 4 horas por dia
Comparador
Placebo (estimulação falsa), sham em outro local da orelha, outras frequências ou terapia medicamentosa
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
Variável: 1 a 12 sessões, dependendo do estudo
1 Hz foi a frequência mais estudada; alguns usaram 2, 20 ou 25 Hz
8 minutos a 30 minutos por sessão, ou 4 horas/dia em um estudo de 12 semanas
Eletrodos na concha da orelha (lado esquerdo na maioria), com intensidade tolerável ao paciente; alguns estudos usaram pontos de acupuntura específicos como GB8, CO11, CO14, TE19
Sham com eletrodo em local sem inervação vagal, dispositivo desligado, outras frequências, ou medicamentos (flunarizina
A frequência de 1 Hz mostrou resultados mais consistentes que frequências mais altas; a maioria dos estudos avaliou apenas o período pós-tratamento imediato, sem acompanhamento de
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
Frequência de crises
reduziu
Menos dias com enxaqueca por mês em estudos com 1 Hz, especialmente após 4-12 semanas
Intensidade da dor
melhorou parcialmente
Redução no VAS em alguns estudos, mas não em todos; resultados inconsistentes
Conectividade cerebral
modulou
fMRI mostrou alterações no locus coeruleus, tálamo, cingulado anterior e outras áreas de modulação da dor
Incapacidade por enxaqueca
melhorou
Redução nos escores HIT-6 e MIDAS em um estudo de 12 semanas com 1 Hz
Ansiedade e depressão
sem melhora clara
Escores SAS e SDS não mostraram diferença significativa nos estudos que os avaliaram
O que não mudou
Quando a melhora apareceu
Imediato pós-tratamento
Após sessão única
Alguns estudos com fMRI mostraram alterações cerebrais e redução da dor já após uma sessão de 8-30 minutos
12 sessões de 30 minutos
Após 4 semanas
Redução significativa nos dias de enxaqueca e número de crises em um estudo chinês
4 horas/dia de uso contínuo
Após 12 semanas
Melhora em dias com dor e escores de incapacidade (HIT-6, MIDAS) no estudo alemão
Antes e depois
Dias de enxaqueca por mês (estudo Straube 2015)
escala máx. 31 dias
Escore HIT-6 (impacto da cefaleia)
escala máx. 78 pontos
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Algumas pessoas podem experimentar menos dias de enxaqueca e menor intensidade da dor após semanas de uso regular, mas a resposta é individual e imprevisível
Tempo provável
Melhoras clínicas relatadas entre 4 e 12 semanas de tratamento; alterações cerebrais detectadas já após sessão única
A evidência é de baixa qualidade e os protocolos variam muito — não há garantia de que funcionará para você, nem qual a melhor forma de aplicar
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Estimular a orelha cura a enxaqueca
Achado
A evidência sugere apenas redução parcial na frequência e intensidade das crises em alguns pacientes, não cura
Mito
Qualquer frequência de estimulação funciona igual
Achado
Os estudos indicam que 1 Hz teve resultados mais consistentes que 20-25 Hz; os parâmetros técnicos importam
Mito
É totalmente seguro porque é natural e não-invasivo
Achado
Embora geralmente bem tolerado, houve abandono por efeitos adversos em 7% em um estudo, e a maioria não relatou eventos de forma sistemática
Mito
O efeito é comprovado pelo fMRI
Achado
A neuroimagem mostra alterações cerebrais correlacionadas, mas isso não prova eficácia clínica nem estabelece causalidade terapêutica
Como isso pode funcionar
PASSO 1
Estimulação elétrica na concha da orelha ativa fibras do ramo auricular do nervo vago (estrutura anatômica conhecida)
PASSO 2
Sinais viajam para o trato solitário e locus coeruleus no tronco cerebral — áreas de modulação da dor e regulação autonômica
PASSO 3
Modulação de redes cerebrais (tálamo, cingulado anterior, amígdala) observada em fMRI — mecanismo proposto, não totalmente elucidado
PASSO 4
Possível redução da sensibilização central e neuroinflamação — hipótese baseada em correlações, não em demonstração causal direta
O que ainda é incerto
Avaliar a eficácia da estimulação não-invasiva do nervo vago na orelha para tratar enxaqueca crônica
333 pessoas com enxaqueca crônica em 9 estudos, idade média de 35 anos
Comparação de estimulação elétrica na orelha versus placebo/controle
Possível redução na frequência e intensidade das crises, especialmente com 1Hz
Apenas 7% relataram efeitos adversos, sendo considerado seguro
Achados Interessantes
FREQUÊNCIA ESPECÍFICA
A frequência de 1 Hz emergiu como potencialmente mais eficaz que 20-25 Hz, tanto para sintomas clínicos quanto para padrões de ativação cerebral no fMRI — um achado que pode orientar futuros protocolos
CONVERGÊNCIA NEUROIMAGEM-CLÍNICA
Pela primeira vez em revisão sistemática, alterações cerebrais documentadas por fMRI (locus coeruleus, cingulado anterior, tálamo) foram correlacionadas com desfechos clínicos, sugerindo um caminho neurofisiológico plaus
CUSTO-ACESSIBILIDADE
A at-VNS é apresentada como alternativa de baixo custo (dispositivos portáteis estimados em centenas de dólares) comparada a neuromodulações implantáveis que custam 30-50 mil dólares — potencial de democratização do aces
LACUNA METODOLÓGICA EVIDENTE
A revisão expõe de forma transparente que, apesar de uma década de pesquisa, a área ainda carece de ensaios clínicos de alta qualidade com protocolos padronizados, calculo amostral adequado e follow-up de longo prazo
Resumo detalhado em linguagem acessível
Esta revisão sistemática investigou a efetividade da estimulação auricular transcutânea do nervo vago (at-VNS) e eletro-acupuntura auricular no tratamento da enxaqueca crônica. Os pesquisadores conduziram uma busca abrangente em seis bases de dados médicas até junho de 2022, identificando 1. 117 publicações iniciais e selecionando nove estudos clínicos elegíveis para inclusão, totalizando 333 participantes.
A metodologia utilizada seguiu as diretrizes PRISMA e incluiu avaliação da qualidade metodológica através das escalas PEDro, ROB-2 Cochrane e Oxford. A maioria dos estudos apresentou qualidade metodológica moderada, com pontuações PEDro variando de 6 a 8 pontos (média 7. 3). O risco de viés foi considerado alto na maioria dos estudos, principalmente devido a limitações no mascaramento e randomização.
Os resultados indicaram evidência de baixa qualidade sugerindo alguns efeitos positivos da at-VNS para enxaqueca crônica. A estimulação com frequência de 1Hz mostrou-se mais eficaz que frequências mais altas (20-25Hz) na redução da intensidade da dor e frequência dos ataques. Três estudos demonstraram resultados positivos para intensidade da dor, ataques de enxaqueca, frequência e duração no pós-tratamento. A área de estimulação mais utilizada foi a concha cymba auricular esquerda, onde se localiza o ramo auricular do nervo vago.
Os estudos de neuroimagem (fMRI) forneceram evidências neurobiológicas interessantes, mostrando alterações na conectividade funcional entre o locus coeruleus, córtex frontal e outras áreas cerebrais superiores durante a estimulação vagal auricular. Estes achados sugerem um mecanismo neurológico plausível para os efeitos terapêuticos observados, envolvendo modulação de circuitos de dor e áreas relacionadas ao processamento sensorial.
Quanto à segurança, apenas 7% dos participantes relataram eventos adversos, indicando que a técnica é geralmente bem tolerada. A maioria dos efeitos colaterais foram leves e transitórios, relacionados à sensação de estimulação elétrica no local de aplicação.
As implicações clínicas sugerem que a at-VNS pode representar uma opção terapêutica não farmacológica promissora para pacientes com enxaqueca crônica, especialmente considerando os custos elevados e efeitos adversos dos tratamentos medicamentosos convencionais. A técnica oferece vantagens como baixo custo, facilidade de aplicação e potencial para uso domiciliar com dispositivos portáteis.
Entretanto, a revisão identificou limitações importantes, incluindo heterogeneidade nos protocolos de tratamento, períodos de seguimento inconsistentes, pequeno número de estudos disponíveis e variabilidade nos parâmetros de estimulação utilizados. A falta de padronização impediu a realização de meta-análise, limitando a força das conclusões.
Os autores enfatizam a necessidade de estudos futuros com maior rigor metodológico, incluindo ensaios clínicos randomizados adequadamente mascarados, protocolos padronizados de estimulação e períodos de seguimento mais longos. Também recomendam o desenvolvimento de diretrizes específicas para parâmetros ótimos de estimulação (frequência, intensidade, duração) e identificação dos candidatos ideais para o tratamento.
Estimulação auricular 1Hz
167 pessoas
Estimulação elétrica na concha da orelha com frequência de 1Hz
Controles/Sham
166 pessoas
Placebo ou estimulação falsa em outras áreas
Redução em dias de enxaqueca
Melhora na intensidade da dor
Efeitos adversos
Qualidade metodológica média
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
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