Estudo científico comentado

Toxina botulínica tipo A para dor pélvica miofascial refratária

Referência acadêmica

Periódico

Female Pelvic Med Reconstr Surg

Ano

2013

Autores

Adelowo et al.

Desenho

estudo de coorte retrospectivo

Este estudo mostrou que injeções de toxina botulínica nos músculos do assoalho pélvico podem ser uma opção eficaz para mulheres com dor pélvica crônica que não melhoraram com outros tratamentos. A maioria das pacientes (79%) teve redução significativa da dor, com muitas relatando ausência completa de dor na primeira consulta após o tratamento. Os efeitos colaterais foram temporários e se resolveram sozinhos. Mais da metade das mulheres optaram por repetir o tratamento, indicando satisfação com os resultados.

Título original do estudo: Botulinum Toxin Type A (BOTOX) for Refractory Myofascial Pelvic Pain

📊estudo de coorte retrospectivo👥n=29 mulheres⚕️impacto clínico moderado
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Injeções de toxina botulínica nos músculos do assoalho pélvico mostraram alívio da dor em cerca de 4 em cada 5 mulheres com dor miofascial refratária, com efeitos colaterais leves e reversíveis, embora a ausência de grupo controle limite a certeza sobre o tama

O que isso significa para você?

Este estudo mostrou que injeções de toxina botulínica nos músculos do assoalho pélvico podem ser uma opção eficaz para mulheres com dor pélvica crônica que não melhoraram com outros tratamentos. A maioria das pacientes (79%) teve redução significativa da dor, com muitas relatando ausência completa de dor na primeira consulta após o tratamento. Os efeitos colaterais foram temporários e se resolveram sozinhos. Mais da metade das mulheres optaram por repetir o tratamento, indicando satisfação com os resultados.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor pélvica miofascial refratária é desafiadora, mas existem opções além das medicações orais e terapias convencionais
  • 2O Botox no assoalho pélvico é um procedimento ambulatorial, não cirúrgico, que pode ser feito até no consultório em alguns casos
  • 3Não há garantia de melhora — cerca de 1 em cada 5 pacientes não se beneficiou neste estudo
  • 4Se funcionar, o alívio tende a ser temporário, e repetições são comuns e esperadas
  • 5Conversar abertamente com o médico sobre expectativas, riscos e alternativas é essencial antes de decidir
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Eu tenho evidência de hipertonia do assoalho pélvico ao exame, ou minha dor pode ter outra causa principal?
  • 2Já esgotamos as opções conservadoras (medicações, terapia do assoalho pélvico) antes de considerar o Botox?
  • 3Qual dose seria mais adequada para mim, considerando meu histórico de retenção urinária e tolerância ao procedimento?
  • 4Como será feito o acompanhamento para avaliar se funcionou, e qual o plano se não melhorar ou se a dor voltar?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Todos os efeitos colaterais relatados foram leves e temporários, mas o estudo foi pequeno (29 pacientes) e pode não ter detectado eventos raros
  • 2A retenção urinária ocorreu apenas com a dose de 300 unidades — discutir a dose mais adequada individualmente é importante
  • 3A ausência de grupo controle e de seguimento prolongado limita o conhecimento sobre segurança a longo prazo e com múltiplas repetições
  • 4O procedimento requer experiência do médico com anatomia do assoalho pélvico e técnica de injeção transvaginal guiada por palpação

Leitura rápida para pacientes

Botox no assoalho pélvico: uma opção quando nada mais funciona

Para mulheres com dor pélvica crônica causada por tensão muscular que não melhorou com outros tratamentos, injeções de toxina botulínica podem oferecer alívio significativo — mas n

Ponto 1

Cerca de 80% das pacientes deste estudo tiveram redução da dor, muitas sem dor alguma nas primeiras semanas

Ponto 2

Os efeitos são temporários: metade das que melhoraram precisou repetir em cerca de 4 meses

Ponto 3

Efeitos colaterais foram leves e passaram sozinhos, mas o estudo foi pequeno e sem comparação com placebo

O que este estudo acrescenta

OPÇÃO PARA CASOS REFRATÁRIOS

Este estudo reforçou que o Botox pode ser considerado quando tratamentos convencionais falham, contribuindo para a literatura que apoia seu uso em mulheres selecionadas com hipertonia do assoalho pélvico documentada

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A melhora da dor foi grande na maioria das pacientes e clinicamente perceptível, mas a ausência de grupo controle, a amostra pequena e a variabilidade na dose e técnica reduzem a certeza de que o efeito se deve exclusiva

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Os pesquisadores analisaram prontuários já existentes sem planejar intervenções ou aleatorização, o que gera evidência mais fraca que ensaios clínicos controlados para estabelecer

n de pacientes analisadas

29

após exclusão de 2 perdas de seguimento de 31 elegíveis

melhora da dor relatada

79,3%

na primeira consulta de acompanhamento

redução mediana da dor

9,5 → 0

escala 0-10, primeira consulta pós-injeção

sem dor à palpação

51,7%

na primeira consulta, versus 0% antes do tratamento

que repetiram o tratamento

51,7%

mediana de 4 meses até a repetição

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor pélvica miofascial refratária com hipertonia do assoalho pélvico

Tipo de estudo

coorte retrospectiva

Participantes

29 mulheres, mediana de idade 55 anos, todas com falha de tratamentos conservado

Duração

seguimento em duas visitas: <6 semanas e ≥6 semanas após injeção

Sessões

1 injeção inicial, com opção de repetição conforme resposta clínica

Comparador

nenhum — estudo sem grupo controle ou placebo

Grupos do estudo

Grupo único com injeção de Botox (100-300 unidades)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

1 injeção inicial, com mediana de 1 repetição (intervalo 1-2) para 51,7% das pac

Frequência02

repetição conforme necessidade clínica, com mediana de 4 meses entre injeções

Duração da sessão03

não especificado; procedimento ambulatorial mesmo no centro cirúrgico

Pontos / técnica04

Injeções de 1-3 cc (10-30 unidades) por grupo muscular, em pontos dolorosos identificados por palpação digital, com agulha 20G guiada por tromba de pudendo através da mucosa vagina

Comparador05

nenhum — sem grupo controle

Nota de protocolo06

Dose variou de 100 a 300 unidades conforme número de áreas, cobertura de seguro e desejo de minimizar efeitos colaterais; 69% receberam 300 unidades

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Mulheres com dor pélvica miofascial documentada por pelo menos 5 anosPacientes com hipertonia objetiva do assoalho pélvico (fibras contraídas em cordão, dolorosas à palpação)Mulheres que falharam tratamentos prévios: múltiplas medicações para dor, terapia do assoalho pélvico e neuromodulaçãoMaioria pós-menopausa (65,5%) e com histórico de cirurgia ginecológica (69%)Quase todas com dispareunia (92,3% das sexualmente ativas) e urgência urinária (62,1%)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Mulheres sem evidência de hipertonia do assoalho pélvico ao exame físicoPacientes que não tentaram ou não falharam tratamentos conservadores préviosHomens (estudo exclusivamente feminino)Gestantes ou puérperas imediatas (não relatadas na amostra)Mulheres com dor pélvica de causa exclusivamente não miofascial (ex: endometriose pura, aderências sem componente muscular)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Dor à palpação dos músculos do assoalho pélvico

melhorou significativamente

Mediana de 9,5 para 0 na primeira consulta; mantida em 3,0 na segunda; redução estatisticamente significativa (p<0,0001)

📉

Categoria de dor (severa/moderada/leve/sem dor)

melhorou

De 89,7% com dor severa para 51,7% sem dor e apenas 13,8% com dor severa na primeira consulta

📉

Incontinência urinária relatada

reduziu

De 41,4% para 13,8% na primeira consulta (p=0,008) e 11,1% na segunda (p=0,03)

Satisfação e adesão ao tratamento

melhorou

51,7% optaram por repetir a injeção, indicando percepção de benefício duradouro o suficiente para justificar nova sessão

O que não mudou

  • Post-void residual (residual urinário): aumentou numericamente mas sem significância estatística
  • Não houve redução da urgência urinária documentada como desfecho primário
  • Relação dose-resposta clara não foi estabelecida — pacientes com 100-200 unidades também melhoraram, e algumas com 300 unidades não melhoraram

Quando a melhora apareceu

1

mediana de 2 semanas (até 6 semanas)

Primeira consulta pós-injeção

79,3% relataram melhora da dor; mediana da dor caiu de 9,5 para 0; 51,7% sem dor à palpação

2

mediana de 8 semanas (6 semanas ou mais)

Segunda consulta pós-injeção

Mediana da dor em 3,0 — mantida abaixo do inicial, mas com retorno parcial em algumas pacientes; 66,7% ainda relatando melhora

Antes e depois

Dor à palpação (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos — primeira co

Antes9.5 pontos — primeira co
Depois0 pontos — primeira co

Dor à palpação — segunda consulta

escala máx. 10 pontos

Antes9.5 pontos
Depois3 pontos

Pacientes com dor severa

escala máx. 100 % — primeira consult

Antes89.7 % — primeira consult
Depois13.8 % — primeira consult

Incontinência urinária relatada

escala máx. 100 % — primeira consult

Antes41.4 % — primeira consult
Depois13.8 % — primeira consult

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Efeitos colaterais foram todos leves e temporários, sem eventos graves ou permanentes
  • Todos os casos de retenção urinária, incontinência fecal e constipação resolveram espontaneamente
  • Nenhuma paciente precisou de opioides após o procedimento; todas tiveram alta no mesmo dia
Amarelo
  • Retenção urinária de novo início ocorreu exclusivamente com dose de 300 unidades (10,3% das pacientes)
  • Algumas pacientes precisaram de cateterismo intermitente temporário
  • Procedimento requer sedação em cerca de 40% dos casos devido à intensidade da dor ou necessidade de procedimentos concomitantes
Vermelho
  • Estudo pequeno e retrospectivo limita a detecção de eventos raros
  • Não há dados de segurança a longo prazo (além de alguns meses) ou com múltiplas repetições prolongadas
  • Mecanismo de possível disseminação para tecidos adjacentes (como detrusor vesical) não está bem elucidado

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Mulheres com dor pélvica crônica e evidência objetiva de hipertonia do assoalho pélvico ao exame
  • Pacientes que já falharam múltiplas medicações para dor e terapia do assoalho pélvico
  • Mulheres com dispareunia associada à tensão muscular pélvica
  • Pacientes que toleram exame pélvico digital e possível injeção transvaginal
  • Mulheres que compreendem a necessidade potencial de repetições do tratamento

Mais cautela para extrapolar

  • Mulheres sem hipertonia documentada do assoalho pélvico ou com dor de causa predominantemente não muscular
  • Pacientes que não tentaram ou não tiveram acesso a tratamentos conservadores prévios
  • Mulheres com retenção urinária pré-existente ou disfunção miccional significativa (maior risco com doses altas)
  • Pacientes que buscam solução definitiva única — o efeito parece ser temporário e muitas precisam de repetições
  • Mulheres com expectativa de melhora garantida — cerca de 20% não relataram benefício

Expectativa realista

Alívio possível, mas não garantido

Cerca de 4 em cada 5 mulheres com dor pélvica miofascial refratária podem experimentar redução significativa da dor após injeção de Botox no assoalho pélvico, com muitas relatando ausência completa de dor nas primeiras semanas. Porém, o efe

Tempo provável

Melhora geralmente perceptível nas primeiras 2 semanas; avaliação de eficácia inicial recomendada em até 6 semanas

A ausência de grupo controle com placebo neste estudo significa que não se sabe com precisão quanto da melhora se deve ao Botox em si versus efeitos naturais da

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se já foram tentados e falhados tratamentos conservadores (medicações, terapia do assoalho pélvico, neuromodulação)
  2. 2Discutir se há evidência de hipertonia do assoalho pélvico ao exame físico — o Botox parece funcionar principalmente nesse mecanismo
  3. 3Questionar sobre histórico de retenção urinária ou dificuldade para micção, que pode aumentar riscos com doses maiores
  4. 4Esclarecer que o efeito é temporário e que cerca de metade das pacientes precisa de repetição em alguns meses
  5. 5Avaliar preferência por procedimento no consultório versus centro cirúrgico com sedação

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Botox para dor pélvica é um tratamento experimental sem nenhuma base

Achado

Há mais de uma década de estudos sobre Botox para dor pélvica miofascial, incluindo um ensaio clínico randomizado controlado publicado em 2006, embora ainda faltem estudos maiores e mais rigorosos

Mito

Quanto mais Botox, melhor o resultado

Achado

Neste estudo, todas as pacientes com doses menores (100-200 unidades) tiveram redução da dor, enquanto algumas com 300 unidades não melhoraram — não houve relação dose-resposta clara

Mito

Botox no assoalho pélvico causa incontinência permanente

Achado

Os efeitos colaterais urinários e fecais foram todos temporários e reversíveis, sem nenhum caso de dano permanente relatado

Mito

Se não melhorar na primeira vez, não adianta tentar de novo

Achado

Duas pacientes que não melhoraram inicialmente optaram por segunda injeção e tiveram resultados variados, sugerindo que a resposta individual pode não ser previsível na primeira tentativa

Como isso pode funcionar

⚙️

PASSO 1: Bloqueio da liberação de acetilcolina

A toxina botulínica impede a liberação do neurotransmissor acetilcolina na junção neuromuscular — mecanismo bem estabelecido, que causa paralisia flácida reversível do músculo injetado

🧘

PASSO 2: Relaxamento muscular local

Com a redução da contração muscular, diminui a tensão nos pontos-gatilho dolorosos do assoalho pélvico — este efeito foi demonstrado em estudos com manometria, embora este estudo específico não tenha medido a pressão dir

🔄

PASSO 3: Possível redução do ciclo dor-contração

Há hipótese de que o relaxamento muscular interrompe o ciclo vicioso em que a dor causa contração e a contração causa mais dor — mecanismo proposto, mas não comprovado diretamente neste estudo

PASSO 4: Efeito sobre a micção (incerto)

A melhora da incontinência urinária observada pode estar relacionada ao relaxamento pélvico e redução da dor, mas o mecanismo exato é especulativo; não se sabe se há ação direta sobre a bexiga

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe qual dose ideal oferece melhor relação risco-benefício, já que doses menores também funcionaram e a maior dose não garantiu melhora
  • ?A duração exata do efeito é variável — a mediana para repetição foi 4 meses, mas o intervalo variou de 2 a 30 meses entre pacientes
  • ?Não está claro se a melhora da incontinência urinária é efeito direto do Botox ou consequência indireta do relaxamento pélvico e alívio da dor
  • ?Falta saber se múltiplas repetições ao longo de anos mantêm a mesma eficácia e segurança observadas nas primeiras aplicações
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar injeções de toxina botulínica nos músculos do assoalho pélvico para tratar dor pélvica crônica que não melhorou com outros tratamentos

👥

QUEM PARTICIPOU

29 mulheres com dor pélvica miofascial refratária e hipertonia do assoalho pélvico

🧪

COMO FOI FEITO

Injeção de 100-300 unidades de botox diretamente nos pontos dolorosos dos músculos do assoalho pélvico

📈

O QUE MUDOU

79% das pacientes relataram melhora da dor, com redução significativa na escala de dor de 9,5 para 0

🛟

SEGURANÇA

Efeitos colaterais leves e temporários: retenção urinária (10%), incontinência fecal (7%) e constipação (10%)

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

MELHORA RÁPIDA DA DOR

A queda da mediana de dor de 9,5 para zero em poucas semanas chama atenção, mesmo sabendo que parte pode ser explicada por fatores além do próprio medicamento

🧭

AUSÊNCIA DE RELAÇÃO DOSE-RESPOSTA

Contraintuitivamente, pacientes com doses menores (100-200 unidades) também melhoraram, enquanto algumas com 300 unidades não tiveram benefício — sugerindo que a técnica de pontos e a seleção de pacientes podem importar

📌

BENEFICIO SECUNDÁRIO NA MICÇÃO

A redução da incontinência urinária foi um achado não esperado que merece investigação futura, embora seu mecanismo permaneça incerto

🔁

REPETIÇÃO COMO INDICADOR DE VALOR

O fato de mais da metade das pacientes optarem voluntariamente por repetir o tratamento, incluindo duas que inicialmente não haviam melhorado, sugere que a experiência clínica foi positiva para a maioria

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Toxina botulínica tipo A para dor pélvica miofascial refratária

A dor pélvica crônica é uma condição que afeta cerca de 15% das mulheres em idade reprodutiva, trazendo impacto significativo na qualidade de vida e gerando custos consideráveis com tratamentos repetidos. Dentre suas causas, a dor miofascial pélvica — caracterizada por pontos-gatilho dolorosos e hipersensíveis nos músculos do assoalho pélvico, com bandas musculares tensas que causam dor referida — representa uma parcela importante e frequentemente subdiagnosticada dos casos. Quando essa condição persiste após múltiplas tentativas de tratamento, ela é classificada como refratária, e as opções terapêuticas tornam-se mais limitadas.

Nesse contexto, um grupo de pesquisadores do Harvard Medical School e instituições afiliadas conduziu um estudo de coorte retrospectivo para avaliar se injeções de toxina botulínica tipo A (Botox) diretamente nos músculos do assoalho pélvico poderiam oferecer alívio para mulheres com essa condição resistente. O estudo, publicado em 2013, analisou 29 mulheres atendidas entre 2005 e 2010 que preenchiam critérios específicos: todas apresentavam evidência objetiva de hipertonia do assoalho pélvico, com fibras musculares contraídas em forma de cordão, palpáveis ao exame digital e dolorosas, e todas haviam falhado em tratamentos prévios que incluíam múltiplas medicações para dor, terapia intensiva do assoalho pélvico e neuromodulação.

O desenho do estudo foi retrospectivo, o que significa que os pesquisadores revisaram prontuários já existentes em vez de planejar e acompanhar um novo experimento desde o início. Essa abordagem tem vantagens práticas, mas também limitações importantes: não houve grupo controle com placebo, a dosagem e os locais de injeção não foram padronizados, e os intervalos de retorno das pacientes variaram. As mulheres receberam entre 100 e 300 unidades de Botox, diluídas em solução salina, injetadas em pontos dolorosos identificados por palpação digital nos músculos coccígeo, iliococcígeo, pubococcígeo, puborretal, obturador e piriforme. A maioria das pacientes (69%) recebeu a dose máxima de 300 unidades.

O procedimento foi realizado tanto no consultório com analgesia oral quanto no centro cirúrgico com sedação consciente, conforme a tolerância de cada paciente e a necessidade de procedimentos concomitantes.

Os resultados foram avaliados em duas visitas de acompanhamento: a primeira em até seis semanas após a injeção (mediana de duas semanas) e a segunda após seis semanas ou mais (mediana de oito semanas). Antes do tratamento, a mediana da dor relatada pelas pacientes era de 9,5 em uma escala de 0 a 10, com praticamente todas (89,7%) classificando sua dor como severa. Na primeira consulta de retorno, 79,3% das mulheres relataram alguma melhora dos sintomas, e mais da metade (51,7%) não sentiu mais dor à palpação dos pontos que antes eram dolorosos. A mediana da dor caiu para zero, uma redução estatisticamente significativa.

Curiosamente, mesmo entre as pacientes que receberam doses menores (100 ou 200 unidades), todas apresentaram redução da dor, enquanto algumas que receberam 300 unidades não melhoraram — sugerindo que não há uma relação simples de "quanto mais, melhor".

Na segunda consulta, com 18 mulheres que retornaram, a mediana da dor permaneceu em 3,0, ainda significativamente inferior ao valor inicial, embora algumas pacientes tenham apresentado retorno parcial da dor. Notavelmente, 51,7% das mulheres optaram por repetir o tratamento, com mediana de intervalo de quatro meses entre as injeções, o que indica satisfação com os resultados. Entre as que repetiram, duas inicialmente não haviam relatado melhora, demonstrando que mesmo a resposta inicial negativa não exclui a possibilidade de benefício em nova tentativa.

Um achado secundário interessante foi a redução da incontinência urinária relatada: de 41,4% antes do tratamento para 13,8% na primeira consulta e 11,1% na segunda. Os autores especulam que esse efeito pode estar relacionado ao relaxamento do assoalho pélvico e à redução da dor, que poderiam melhorar um padrão irritativo de micção, embora o mecanismo exato não tenha sido estabelecido.

Quanto à segurança, o perfil foi favorável. Os efeitos colaterais foram leves e temporários: retenção urinária de novo início em 10,3% das pacientes (todas com 300 unidades), incontinência fecal em 6,9% e constipação ou dor retal em 10,3%. Todos esses eventos resolveram espontaneamente, sem necessidade de intervenção prolongada. Não houve eventos adversos graves ou permanentes.

A ausência de necessidade de opioides pós-procedimento e a alta no mesmo dia, mesmo para as pacientes operadas, reforçam a boa tolerabilidade do tratamento.

Para pacientes que convivem com dor pélvica crônica refratária, este estudo oferece uma mensagem de cauteloso otimismo. A toxina botulínica não é uma cura, mas pode representar uma ferramenta adicional no arsenal terapêutico, especialmente quando outras abordagens já foram esgotadas. É importante, porém, manter expectativas realistas: cerca de 20% das pacientes não relataram melhora, os efeitos parecem diminuir com o tempo (razão pela qual mais da metade das que melhoraram optou por repetição), e o estudo não permite comparar diretamente com placebo ou determinar qual dose é ideal. A decisão pelo tratamento deve ser individualizada, considerando a gravidade dos sintomas, o impacto na qualidade de vida, as preferências da paciente e a experiência do médico com a técnica.

A discussão aberta sobre probabilidades de sucesso, riscos específicos e necessidade potencial de repetições é fundamental para uma decisão informada e alinhada com os valores de cada mulher.

O que fortalece a leitura

  • 1Melhora significativa da dor na maioria das pacientes
  • 2Efeitos colaterais leves e temporários
  • 3Seguimento com duas consultas pós-tratamento
  • 4Todas as pacientes tinham falhado tratamentos conservadores anteriores
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Estudo retrospectivo sem grupo controle
  • 2Amostra pequena (29 pacientes)
  • 3Dosagem e locais de injeção não padronizados
  • 4Variação no tempo de seguimento

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
3/5
Amostra
2/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

29pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Grupo botox

29 pessoas

Injeção intralevator de toxina botulínica (100-300 unidades)

⏱️ Tempo de acompanhamento: seguimento de até 6 semanas e depois 6 semanas ou mais

📊 Resultados em números

0%

Pacientes com melhora da dor

9.5 para 0

Redução mediana da dor (primeira consulta)

0%

Pacientes sem dor na palpação (primeira consulta)

0%

Pacientes que repetiram o tratamento

4 meses

Tempo mediano para repetir tratamento

Destaques percentuais

79.3%
Pacientes com melhora da dor
51.7%
Pacientes sem dor na palpação (primeira consulta)
51.7%
Pacientes que repetiram o tratamento

📊 Comparação de Resultados

Escala de dor na palpação

Antes do tratamento
9.5
Primeira consulta pós-botox
0
Segunda consulta pós-botox
3

📅 Linha do tempo da evidência

2004Primeiros estudos piloto de botox para dor pélvica miofascial
2005Início do período de coleta de dados deste estudo
2006Primeiro ensaio clínico randomizado controlado publicado
2013Publicação deste estudo de coorte retrospectivo mostrando eficácia da toxina botulínica

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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