Estudo científico comentado

Terapia por ondas de choque extracorpóreas para dor lombar crônica: análise de 632 pacientes

Referência acadêmica

Periódico

Journal of Orthopaedic Surgery and Research

Ano

2023

Autores

Liu et al.

Desenho

revisão sistemática e meta-análise

Esta análise de 12 estudos com 632 pessoas mostrou que a terapia por ondas de choque pode ser uma opção eficaz para reduzir dor lombar crônica e melhorar a função das costas. O tratamento demonstrou benefícios tanto a curto prazo (4 semanas) quanto a médio prazo (12 semanas), sem causar efeitos colaterais graves. Embora os resultados sejam promissores, é importante discutir com seu médico se esta terapia é adequada para seu caso específico.

Título original do estudo: Efficacy and safety of extracorporeal shockwave therapy in chronic low back pain: a systematic review and meta-analysis of 632 patients

📊revisão sistemática e meta-análise👥n=632 participantes📈evidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Ondas de choque extracorpóreas reduzem dor e melhoram função em adultos com dor lombar crônica até 12 semanas, sem efeitos adversos graves relatados, mas não mostraram benefício para saúde mental e ainda carecem de padronização de protocolos.

O que isso significa para você?

Esta análise de 12 estudos com 632 pessoas mostrou que a terapia por ondas de choque pode ser uma opção eficaz para reduzir dor lombar crônica e melhorar a função das costas. O tratamento demonstrou benefícios tanto a curto prazo (4 semanas) quanto a médio prazo (12 semanas), sem causar efeitos colaterais graves. Embora os resultados sejam promissores, é importante discutir com seu médico se esta terapia é adequada para seu caso específico.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A terapia por ondas de choque é uma opção com evidência científica para reduzir dor e melhorar movimento em dor lombar crônica, especialmente quando exercícios e medicação não fora
  • 2O tratamento é não invasivo e não apresentou riscos graves nos estudos analisados, mas não está isento de contraindicações que devem ser avaliadas pelo médico
  • 3A melhora não é imediata nem total — espere semanas de tratamento e ainda assim pode haver limitações residuais
  • 4A saúde mental não é automaticamente beneficiada: se há ansiedade, depressão ou sofrimento emocional importante, converse sobre abordagens específicas
  • 5A decisão de usar ondas de choque deve incluir discussão sobre protocolo, custo, número de sessões necessárias e como integrar com outras estratégias de autocuidado
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Minha dor lombar se enquadra no tipo 'mecânica não específica' dos estudos, ou há alguma causa estrutural que muda a indicação?
  • 2Qual protocolo de ondas de choque será usado — radial ou focal, quantas sessões, com que frequência — e por quê?
  • 3Como vamos avaliar se está funcionando, e qual é o plano se não houver melhora em 4 a 6 semanas?
  • 4Que outras medidas (exercícios, postura, sono, manejo do estresse) devo manter ou iniciar junto com as ondas de choque?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Nenhum efeito adverso grave foi relatado nos 12 estudos com 632 pacientes, mas cinco estudos não registraram sistematicamente eventos adversos, o que pode subestimar riscos leves
  • 2Contraindicações clássicas da ESWT incluem gravidez, tumores ativos na área de aplicação, distúrbios de coagulação, uso de anticoagulantes e infecções locais — informe seu médico s
  • 3A segurança em populações especiais (idosos acamados, pacientes com múltiplas comorbidades, portadores de implantes na coluna) não foi estabelecida nestes estudos
  • 4A ausência de dados de longo prazo (além de 12 semanas) significa que não se sabe se há riscos cumulativos com tratamentos repetidos ao longo de meses ou anos

Leitura rápida para pacientes

Ondas de choque: mais uma opção para dor lombar persistente

Análise de 632 pacientes confirma alívio da dor e melhora do movimento, com boa segurança, mas não é cura e precisa de avaliação médica individualizada

Ponto 1

Dor e função melhoram significativamente em até 12 semanas de tratamento

Ponto 2

Nenhum efeito colateral grave foi documentado, mas contraindicações existem

Ponto 3

Não substitui exercícios e cuidados gerais: funciona melhor como parte de plano integrado

O que este estudo acrescenta

MAIOR EVIDÊNCIA ATUALIZADA

Esta é a meta-análise mais abrangente e rigorosa sobre ESWT para dor lombar crônica, superando análise anterior de 2021 que incluía estudos de menor qualidade e não encontrava efeito significativo em 12 semanas

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

As reduções de 0,85 a 1,04 ponto na dor e de 4 a 4,5 pontos no ODI são clinicamente perceptíveis para muitos pacientes, especialmente considerando a segurança do procedimento, mas a alta heterogeneidade entre protocolos

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos níveis mais altos de evidência científica, pois combina resultados de múltiplos experimentos controlados e randomizados para aumentar a confiabilidade das conclusões

Total de participantes

632

318 no grupo de ondas de choque, 314 no grupo controle

Número de estudos

12

Ensaios clínicos randomizados publicados entre 2014 e 2022

Redução da dor em 4 semanas

-1,04 ponto

Diferença média ponderada na escala visual analógica (0-10) versus controle

Melhora funcional em 12 semanas

-4,51 pontos

Diferença no índice de Oswestry (0-100), indicando menos incapacidade

Efeitos adversos graves

0

Nenhum evento sério relatado em qualquer dos 12 estudos incluídos

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor lombar crônica de origem mecânica (mais de 12 semanas)

Tipo de estudo

Revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados

Participantes

632 adultos, média de idade variável entre 26 e 61 anos, ambos os sexos

Duração

4 a 12 semanas de acompanhamento

Sessões

Variável: 1 a 3 sessões por semana, total de 3 a 6 sessões em média

Comparador

Exercícios, fisioterapia convencional, medicação oral (anti-inflamatórios, relaxantes musculares) ou injeções de cortico

Grupos do estudo

Ondas de choque extracorpóreas (318 pacientes)Controle com exercícios, fisioterapia, medicação ou injeções (314 pacientes)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

3 a 6 sessões em média, variando de 1 a 3 sessões semanais conforme o estudo

Frequência02

1 a 3 vezes por semana

Duração da sessão03

Não especificada de forma padronizada; aplicações com mil a quatro mil impulsos

Pontos / técnica04

Aplicação sobre pontos gatilho, músculos paraespinhais, região lombar e glútea; energia de 0,05 a 0,28 mJ/mm² com frequências de 2 a 5 Hz; equipamentos radiais e focais utilizados

Comparador05

Exercícios terapêuticos (McKenzie, estabilização, alongamento), fisioterapia com modalidades eletrofísicas, medicação or

Nota de protocolo06

Não houve padronização de protocolo entre os estudos; diferentes tipos de equipamento (radial vs. focal), energias e pontos de aplicação foram utilizados, o que limita a reprodutib

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com 18 anos ou mais, clinicamente diagnosticados com dor lombar crônicaDor de origem mecânica, sem causa específica identificada (não específica)Sintomas persistentes há pelo menos 12 semanasParticipantes de ensaios clínicos randomizados publicados entre 2014 e 2022Estudos que avaliaram dor pela escala visual analógica (VAS) e/ou função pelo índice de Oswestry (ODI)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pacientes com dor lombar no pós-operatório de coluna, gravidez ou condições espinhais específicas (fraturas, tumores, espondilolistese, espondilite anCrianças e adolescentes menores de 18 anosPopulações com dor lombar aguda ou subaguda (menos de 12 semanas)Estudos não publicados em inglês, resumos, relatos de caso, opiniões de especialistas ou pesquisas em animais

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Intensidade da dor

reduziu

Diminuição mensurável e significativa tanto em curto prazo (4 semanas) quanto em médio prazo (12 semanas)

🚶

Função lombar

melhorou

Menor incapacidade para caminhar, sentar, levantar e realizar tarefas diárias avaliadas pelo ODI

⏱️

Sustentabilidade do benefício

melhorou

Efeitos mantidos por até 12 semanas, sem queda abrupta da eficácia observada

🛡️

Perfil de segurança

melhorou

Nenhum evento adverso grave documentado em 632 pacientes analisados

O que não mudou

  • Saúde mental: não houve diferença significativa entre ondas de choque e tratamentos convencionais após 4 semanas
  • Padronização de protocolos: alta variabilidade entre estudos impede conclusões sobre dose ou técnica ótima
  • Cura definitiva: a dor lombar crônica permaneceu como condição gerenciada, não resolvida completamente

Quando a melhora apareceu

1

4 semanas

Alívio inicial da dor

Redução significativa de 1,04 ponto na escala visual analógica comparada aos tratamentos convencionais

2

12 semanas

Manutenção do alívio da dor

Redução sustentada de 0,85 ponto na escala visual, indicando efeito duradouro

3

4 semanas

Melhora da função

Queda de 4,22 pontos no índice de incapacidade de Oswestry, com menos limitação nas atividades diárias

4

12 semanas

Manutenção da função

Redução adicional de 4,51 pontos no ODI, sugerindo benefício funcional progressivo

Antes e depois

Dor (escala visual 0-10)

escala máx. 10 pontos (estimado do

Antes6.5 pontos (estimado do
Depois5 pontos (estimado do

Incapacidade funcional (ODI 0-100)

escala máx. 100 pontos (estimado do

Antes35 pontos (estimado do
Depois30 pontos (estimado do

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Nenhum efeito adverso grave relatado em 12 estudos com 632 pacientes
  • Sete estudos documentaram explicitamente ausência de reações adversas
  • Tecnologia não invasiva, sem necessidade de cirurgia ou medicação sistêmica
Amarelo
  • Cinco estudos não registraram sistematicamente eventos adversos, criando possível subnotificação
  • Alta variabilidade de protocolos pode mascarar riscos de técnicas específicas mal aplicadas
  • Contraindicações clássicas da ESWT (grávidez, tumores, coagulopatias, uso de anticoagulantes) não foram testadas nesta população
Vermelho
  • Amostra ainda limitada para garantias de segurança de longo prazo
  • Ausência de dados sobre efeitos em populações especiais (idosos frágeis, com comorbidades múltiplas)
  • Não há informações sobre interações com implantes metálicos na região lombar

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor lombar crônica não específica há mais de 3 meses, sem melhora com exercícios ou medicação inicial
  • Pacientes que preferem ou precisam evitar aumento de medicamentos sistêmicos, especialmente anti-inflamatórios de uso contínuo
  • Pessoas com função lombar limitada que buscam retorno gradual às atividades diárias e ocupacionais
  • Indivíduos sem contraindicações à ESWT (sem gravidez, tumores ativos, distúrbios de coagulação ou infecções locais)

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com dor lombar de causa específica identificada (fratura, tumor, infecção, espondilolistese grave, estenose com comprometimento neurológico)
  • Grávidas ou pessoas com possibilidade de gravidez na região de aplicação
  • Indivíduos com distúrbios de coagulação, uso de anticoagulantes em dose plena ou doenças vasculares periféricas graves
  • Pacientes cuja dor lombar está predominantemente associada a comprometimento psicológico severo, dado o não-efeito sobre saúde mental encontrado no estudo
  • Pessoas com expectativa de cura completa e imediata, incompatível com a natureza crônica da condição

Expectativa realista

Alívio gradual, não milagre imediato

A maioria dos pacientes que respondem ao tratamento percebe redução da intensidade da dor e mais facilidade para movimentar-se dentro de 4 semanas, com manutenção ou leve ampliação desses benefícios até 12 semanas

Tempo provável

Primeiros sinais de melhora em 2 a 4 semanas; pico de benefício funcional avaliado entre 4 e 12 semanas

A dor lombar crônica raramente desaparece completamente; o tratamento visa controle e melhora da qualidade de vida, não cura definitiva, e a resposta individual

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se minha dor lombar se enquadra no tipo 'não específico' estudado ou se há causa estrutural que exija abordagem diferente
  2. 2Discutir se já tentei exercícios e medicação por tempo suficiente antes de considerar ondas de choque
  3. 3Questionar qual protocolo específico será usado (tipo de equipamento, energia, número de sessões) e como será avaliada a resposta
  4. 4Informar sobre uso de anticoagulantes, histórico de câncer, gravidez ou implantes na região lombar antes de iniciar
  5. 5Combinar como a ESWT se integra a outras estratégias (exercícios, educação, cuidado com postura) para resultado mais duradouro

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Ondas de choque são apenas para pedras nos rins

Achado

A tecnologia foi adaptada para condições musculoesqueléticas e mostrou eficácia específica para dor lombar crônica em análise rigorosa de 632 pacientes

Mito

O tratamento elimina a dor lombar definitivamente

Achado

A dor diminui significativamente, mas a condição permanece crônica; o benefício é de controle e melhora funcional, não de cura

Mito

Se alivia a dor, também melhora a depressão e ansiedade

Achado

O estudo não encontrou efeito significativo da ESWT sobre saúde mental, indicando que o sofrimento emocional associado à dor crônica requer abordagem específica

Mito

Quanto mais sessões, melhor o resultado

Achado

Não há consenso sobre protocolo ideal; os estudos variaram muito em número de sessões, frequência e energia, e ainda não se sabe qual combinação é mais eficaz

Como isso pode funcionar

🎯

ESTÍMULO MECÂNICO

As ondas de choque geram tensão e compressão nos tecidos, o que pode promover relaxamento muscular e melhora da microcirculação local — mecanismo proposto, ainda em estudo

🫧

CAVITAÇÃO TERAPÊUTICA

Microbolhas formadas e colapsadas pelo pulso acústico podem reabrir microvasos sanguíneos e liberar adesões teciduais — efeito sugerido, não diretamente observado nestes pacientes

🧬

MODULAÇÃO INFLAMATÓRIA

Estudos pré-clínicos indicam redução de mediadores inflamatórios (IL-1, TNF-α) e aumento de substâncias analgésicas endógenas, mas esta via ainda não foi confirmada especificamente em dor lombar crônica

🧠

CONTROLE DA SENSIBILIDADE

Há hipótese de que a estimulação das fibras nervosas não mielinizadas ative mecanismos de 'porte analgésico', bloqueando parcialmente a transmissão da sensação dolorosa — explicação teórica, não comprovada nesta populaçã

O que ainda é incerto

  • ?Qual protocolo de ESWT é ideal? A energia, frequência, número de sessões e tipo de equipamento variaram enormemente entre estudos, sem consenso sobre
  • ?A segurança de longo prazo permanece incerta: o acompanhamento máximo foi de 12 semanas, e não se sabe se há riscos acumulados com reaplicações ao lon
  • ?O não-efeito sobre saúde mental deixa em aberto como integrar melhor o tratamento físico com o cuidado psicológico em pacientes com dor crônica e sofr
  • ?A comparação direta entre equipamentos radial e focal não foi possível nesta análise, e estudos em outras condições musculoesqueléticas mostram result
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar se terapia por ondas de choque reduz dor e melhora função em pessoas com dor lombar crônica

👥

QUEM PARTICIPOU

632 adultos com dor lombar crônica (dor há mais de 12 semanas) em 12 estudos

🧪

COMO FOI FEITO

Comparou ondas de choque com exercícios, fisioterapia, medicação ou injeções

📈

O QUE MUDOU

Redução significativa da dor e melhora da função lombar em 4 e 12 semanas

🛟

SEGURANÇA

Nenhum efeito adverso grave foi relatado nos estudos analisados

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

CONFIRMAÇÃO DO EFEITO EM 12 SEMANAS

Diferente de meta-análise anterior que não encontrava benefício duradouro, este estudo com mais dados e critérios mais rigorosos confirmou que o alívio persiste por pelo menos 3 meses

🧭

PRIMEIRA ANÁLISE DE SAÚDE MENTAL

Ao incluir depressão e qualidade de vida mental como desfecho, os autores revelaram uma lacuna importante: tratar a dor fisicamente não necessariamente melhora o sofrimento emocional associado

📌

SEGURANÇA DOCUMENTADA, COM RESSALVAS

A ausência de eventos adversos em mais de 600 pacientes é reconfortante, mas a falta de padronização no registro de efeitos colaterais entre os estudos sugere que a vigilância deve continuar

🔍

HETEROGENEIDADE COMO DESAFIO CLÍNICO

A grande variação de protocolos — de 1 a 4 mil impulsos, de 1 a 3 sessões semanais, energias distintas — mostra que ainda não sabemos 'a dose certa', exigindo cautela na replicação dos resultados

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Terapia por ondas de choque extracorpóreas para dor lombar crônica: análise de 632 pacientes

A dor lombar crônica é uma das condições mais comuns e incapacitantes em todo o mundo, afetando entre 13% e 20% da população global. Quando a dor persiste por mais de 12 semanas, ela deixa de ser um episódio passageiro e se torna um problema de saúde que interfere profundamente na qualidade de vida, no sono, no trabalho e até no bem-estar emocional. Para milhões de pessoas, a busca por alívio envolve uma rotina de medicamentos, exercícios e terapias que nem sempre trazem o resultado esperado — e que, em alguns casos, podem causar efeitos colaterais indesejados. Foi nesse cenário que pesquisadores chineses decidiram investigar com rigor uma tecnologia que vem ganhando espaço: a terapia por ondas de choque extracorpóreas, conhecida como ESWT.

O estudo, publicado em 2023 no Journal of Orthopaedic Surgery and Research, reuniu e analisou dados de 12 ensaios clínicos randomizados, totalizando 632 participantes adultos com dor lombar crônica de origem mecânica. Essa abordagem de revisão sistemática com meta-análise é considerada um dos níveis mais altos de evidência científica, pois permite combinar resultados de múltiplos estudos para obter conclusões mais robustas do que qualquer pesquisa isolada poderia oferecer. Os autores compararam pacientes que receberam ESWT com outros que foram tratados com exercícios, fisioterapia, medicamentos orais, injeções ou terapia manual — todas opções convencionais amplamente utilizadas no manejo da dor lombar.

A metodologia seguiu rigorosos padrões internacionais, incluindo registro prévio do protocolo de análise e busca em quatro grandes bases de dados científicas. Dois pesquisadores independentemente selecionaram os estudos e extraíram os dados, com um terceiro mediando discordâncias. A qualidade dos estudos incluídos foi avaliada com ferramentas reconhecidas, e a força global da evidência foi classificada pelo sistema GRADE, que considera fatores como risco de viés, consistência dos resultados e precisão dos efeitos estimados.

Os resultados principais trouxeram boas notícias para quem convive com dor lombar persistente. Quatro semanas após o início do tratamento, os pacientes que receberam ondas de choque relataram redução média de 1,04 ponto na escala visual de dor — uma diferença estatisticamente significativa e clinicamente relevante em comparação aos grupos controle. Esse benefício se manteve às 12 semanas, com redução de 0,85 ponto, sugerindo que o efeito não é apenas imediato, mas sustentado ao longo do tempo. Além do alívio da dor, a função lombar também melhorou mensuravelmente: o índice de incapacidade de Oswestry, que avalia quão limitante é a dor para atividades do dia a dia, caiu em média 4,22 pontos às 4 semanas e 4,51 pontos às 12 semanas nos grupos de ondas de choque.

É importante interpretar esses números com a devida prudência. A melhora na dor e na função é real e mensurável, mas não significa cura. A dor lombar crônica é uma condição multifatorial, raramente causada por um único problema estrutural, e sua gestão exige abordagem integrada. O estudo não encontrou, aliás, benefício significativo para a saúde mental dos participantes — um achado que ressalta a complexidade da condição e a necessidade de atenção também ao aspecto psicológico, que frequentemente acompanha a dor persistente.

A segurança do tratamento foi outro ponto positivo. Nenhum efeito adverso grave foi relatado nos 12 estudos analisados. Sete deles documentaram explicitamente a ausência de reações indesejadas, enquanto cinco não registraram eventos adversos. Essa ausência de complicações sérias é reconfortante, mas os autores alertam que o tamanho amostral ainda é limitado para garantias definitivas, e que a segurança de longo prazo precisa de mais investigação.

Há, contudo, limitações importantes a considerar. A heterogeneidade entre os estudos foi alta — ou seja, os protocolos de ondas de choque variavam consideravelmente em termos de energia aplicada, frequência, número de sessões e tipo de equipamento (radial versus focal). Os participantes também diferiam em idade, duração da dor e características individuais. Além disso, todos os desfechos foram medidos por questionários subjetivos, o que introduz algum viés de percepção.

Não houve, por exemplo, avaliação por exames de imagem ou marcadores biológicos objetivos.

Na prática clínica, o que isso significa para o paciente? A terapia por ondas de choque emerge como uma opção promissora, especialmente para quem não obteve alívio suficiente com tratamentos convencionais ou deseja reduzir a dependência de medicamentos. Não é, porém, uma solução universal. A decisão de utilizá-la deve ser individualizada, considerando o perfil específico de cada pessoa, a etiologia da dor, as contraindicações próprias da tecnologia e a disponibilidade de equipamentos e protocolos adequados.

O estudo reforça que a ESWT pode fazer parte de um arsenal terapêutico mais amplo, combinada com educação, atividade física orientada e, quando necessário, abordagem multidisciplinar.

O avanço mais relevante desta análise é justamente sua abrangência atualizada: uma meta-análise anterior, de 2021, havia encontrado resultados menos conclusivos, possivelmente por incluir estudos de menor qualidade e populações não representativas, como mulheres no pós-parto. Ao restringir a análise a ensaios clínicos randomizados bem conduzidos e ao triplicar quase o número de participantes, os autores oferecem uma visão mais clara e confiável do potencial real dessa tecnologia. Para o paciente com dor lombar crônica, isso traduz-se em mais uma ferramenta fundamentada em evidências para discutir com seu médico — com esperança realista, mas sem promessas exageradas.

O que fortalece a leitura

  • 1Meta-análise abrangente com 632 pacientes
  • 2Análise de múltiplos desfechos incluindo dor e função
  • 3Nenhum efeito adverso grave relatado
  • 4Benefícios sustentados por até 12 semanas
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Alta heterogeneidade entre os estudos
  • 2Diferentes protocolos de ondas de choque utilizados
  • 3Medidas de resultado baseadas em questionários subjetivos
  • 4Poucos dados sobre efeitos na saúde mental

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

632pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Ondas de choque

318 pessoas

Terapia por ondas de choque extracorpóreas

Controle

314 pessoas

Exercícios, fisioterapia, medicação ou injeções

⏱️ Tempo de acompanhamento: 4 a 12 semanas

📊 Resultados em números

-1.04 pontos

Redução da dor em 4 semanas

-0.85 pontos

Redução da dor em 12 semanas

-4.22 pontos

Melhora da função em 4 semanas

-4.51 pontos

Melhora da função em 12 semanas

📊 Comparação de Resultados

Redução da dor (escala visual)

Ondas de choque
8
Controle
6

📅 Linha do tempo da evidência

2014Primeiros estudos controlados de ondas de choque para dor lombar
2018Crescimento do interesse científico na técnica
2021Meta-análise anterior com resultados limitados
2023Esta análise abrangente confirma eficácia e segurança

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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