pacientes avaliados
117
amostra de unidade hospitalar espanhola
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
Annals of Behavioral Medicine
Ano
2007
Autores
Esteve et al.
Desenho
Nível não totalmente claro
Este estudo mostrou que aceitar a presença da dor crônica, ao invés de tentar controlá-la, está mais associado a manter as atividades do dia a dia e o funcionamento físico. Por outro lado, as estratégias que você usa para lidar com a dor influenciam mais o seu humor e bem-estar emocional. Os resultados sugerem que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais eficaz do que lutar constantemente contra ela.
Título original do estudo: Adjustment to Chronic Pain: The Role of Pain Acceptance, Coping Strategies, and Pain-Related Cognitions
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Aceitar a dor crônica — sem tentar controlá-la — parece proteger melhor o funcionamento físico e evitar incapacidade, enquanto estratégias ativas de enfrentamento e crenças de controle protegem mais o humor; as duas abordagens parecem complementares, não exclu
Este estudo mostrou que aceitar a presença da dor crônica, ao invés de tentar controlá-la, está mais associado a manter as atividades do dia a dia e o funcionamento físico. Por outro lado, as estratégias que você usa para lidar com a dor influenciam mais o seu humor e bem-estar emocional. Os resultados sugerem que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais eficaz do que lutar constantemente contra ela.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
A ciência sugere que aceitar a presença da dor — sem desistir de viver — pode proteger suas atividades diárias, enquanto estratégias ativas de enfrentamento protegem seu humor. As
Ponto 1
Aceitação não é resignação: é escolher viver mesmo com dor presente
Ponto 2
Estratégias ativas (manter atividades, buscar soluções) ajudam mais o emocional
Ponto 3
Catastrofizar ('não aguento', 'vai piorar') amplifica a dor e a ansiedade
O que este estudo acrescenta
Este foi um dos primeiros estudos a demonstrar claramente que aceitação e enfrentamento atuam em 'esferas' diferentes do ajustamento — não competem, mas complementam, cada qual com seu domínio de maior impacto.
Aplicabilidade clínica
O estudo usa análise estatística sofisticada e questionários validados, mas o desenho transversal impede conclusões causais. Os achados são consistentes com literatura anterior e oferecem orientação prática para abordage
Força do desenho do estudo
Este tipo de estudo descreve associações em um momento único, mas não pode provar que uma variável causa outra — serve para gerar hipóteses e orientar práticas, não para estabelece
pacientes avaliados
117
amostra de unidade hospitalar espanhola
variância da depressão explicada pelo modelo
44%
a maior proporção explicada entre todos os desfechos
variância do funcionamento explicada
31%
principalmente pela aceitação da dor
duração média da dor
11,5 anos
amostra com dor crônica bastante estabelecida
proporção de mulheres
71%
consistente com a maior prevalência feminina em unidades de dor
Ficha rápida do estudo
Condição
dor crônica de diversas etiologias (lombar, generalizada, articular, cervical, etc. )
Tipo de estudo
estudo transversal observacional
Participantes
117 pacientes, 71% mulheres, média de 54 anos, dor média de 11 anos
Duração
avaliação única, sem acompanhamento longitudinal
Sessões
nenhuma — apenas avaliação psicológica com questionários
Comparador
não aplicável — estudo correlacional sem grupo controle
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
nenhuma — estudo puramente avaliativo
avaliação única, antes de iniciar qualquer tratamento na unidade
não aplicável
bateria de 8 questionários validados em espanhol: CPAQ, VPMI, PRSS, PRCS, HADS, IFI, escala de intensidade da dor
não aplicável
Os pacientes foram avaliados antes de qualquer intervenção, o que reduz vies de tratamento, mas também significa que o estudo não testou nenhuma terapia específica
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
funcionamento físico
associado positivamente
aceitação da dor foi o principal preditor de manter atividades diárias
prejuízo funcional
reduzido
aceitação esteve ligada a menos incapacidade reportada
depressão
reduzida
enfrentamento ativo e crenças de recursos protegeram contra depressão
ansiedade
reduzida
menos catastrofização e menos enfrentamento passivo associaram-se a menos ansiedade
clareza sobre estratégias
melhorou
estudo diferenciou o que ajuda no físico (aceitação) do que ajuda no emocional (enfrentamento ativo)
O que não mudou
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Trabalhar a aceitação da dor pode ajudar a manter as atividades do dia a dia mesmo com dor presente; já o enfrentamento ativo e pensamentos mais adaptativos tendem a proteger o humor. Nenhuma abordagem elimina a dor, mas ambas podem melhora
Tempo provável
Não avaliado — estudo transversal, sem acompanhamento do tempo de resposta
Aceitação não significa resignação ou desistir de tratamentos médicos; significa direcionar energia para o que é controlável (viver) em vez do que não é (elimin
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Aceitar a dor significa desistir e não fazer mais nada
Achado
Aceitação, no contexto científico, é o oposto de resignação: é direcionar esforços para atividades valoradas e metas pessoais, mesmo com dor presente — o estudo mostrou que isso protege o funcionamento físico
Mito
O importante é sempre tentar controlar ou reduzir a dor
Achado
O estudo sugere que tentar controlar a dor a todo custo pode ser menos efetivo para o funcionamento do que aceitá-la; estratégias de controle ajudam mais o humor emocional, mas não necessariamente a atividade física
Mito
Catastrofizar é apenas 'pensar negativo' e não afeta o corpo
Achado
A catastrofização mostrou influência direta na intensidade da dor percebida e na ansiedade, com efeitos em cascada sobre depressão e incapacidade — é um processo com consequências reais, não apenas 'na cabeça'
Mito
Homens e mulheres precisam de abordagens completamente diferentes para dor crônica
Achado
O estudo não encontrou diferenças de gênero nos padrões de ajustamento psicológico, sugerindo que os mesmos princípios de aceitação e enfrentamento ativo se aplicam a ambos
Como isso pode funcionar
PASSO 1: AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA
A pessoa experimenta dor crônica e desenvolve formas de interpretá-la — possivelmente como ameaça total (catastrofização), como algo controlável (recursos) ou como parte da vida que não precisa dominar tudo (aceitação)
PASSO 2: CAMINHOS DIVERGENTES (PROPOSTO)
Aceitação pode desvincular a sensação dolorosa da ação — permitindo continuar atividades apesar da dor. Estratégias ativas de enfrentamento podem modificar o contexto emocional. Catastrofização amplifica a atenção para a
PASSO 3: DESFECHOS DIFERENCIAIS
Aceitação predomina no funcionamento físico e prejuízo funcional; enfrentamento e cognições predomina no humor (ansiedade, depressão). A intensidade da dor parece mais ligada à catastrofização do que à aceitação
PASSO 4: FEEDBACK E CICLOS (PROPOSTO)
Melhor funcionamento pode reforçar a aceitação; pior humor pode levar a mais enfrentamento passivo e menos atividade — criando ciclos que podem se manter ou ser interrompidos por intervenções direcionadas
O que ainda é incerto
Comparar a influência da aceitação da dor, estratégias de enfrentamento e cognições relacionadas à dor no ajustamento ao quadro crônico
117 pacientes com dor crônica há pelo menos 6 meses, atendidos em unidade de dor hospitalar
Aplicação de questionários sobre aceitação da dor, estratégias de enfrentamento, cognições e medidas de ajustamento psicológico e funcional
Aceitação da dor influenciou principalmente o funcionamento físico, enquanto estratégias de enfrentamento afetaram mais o humor
Estudo observacional sem intervenções, apenas aplicação de questionários validados
Achados Interessantes
DOIS MUNDOS, DOIS AJUDAS
Pela primeira vez de forma clara nesta literatura, o estudo mostrou que aceitação 'cuida' do corpo em movimento (funcionamento físico), enquanto enfrentamento ativo 'cuida' do coração (humor). Não é um ou outro — é os do
CATASTROFIZAÇÃO TEM ENDEREÇO CERTO
A descoberta de que catastrofização influencia diretamente a intensidade da dor percebida — e não apenas o sofrimento emocional — ajuda a entender por que 'pensar pior' pode realmente fazer sentir pior, fisicamente.
ACEITAÇÃO NÃO MUDA A DOR, MUDA A VIDA
O achado de que aceitação não reduziu a intensidade da dor, mas sim aumentou o funcionamento, é um divisor de águas: o objetivo pode não ser sentir menos, mas fazer mais do que importa, mesmo sentindo.
HOMEM E MULHER, MESMA REGRA
A ausência de diferenças de gênero nos padrões de ajustamento foi inesperada dado que a literatura frequentemente destaca diferenças no uso de estratégias de coping — sugerindo que os princípios de aceitação e enfrent
Resumo detalhado em linguagem acessível
Viver com dor crônica é uma realidade que milhões de pessoas enfrentam diariamente, e uma das grandes questões que surge nessa jornada é: o que realmente ajuda a viver melhor? Seria tentar controlar a dor a todo custo, ou aprender a conviver com ela de forma mais leve? Este estudo, conduzido por Rosa Esteve e colaboradores na Universidade de Málaga, na Espanha, e publicado em 2007 no Annals of Behavioral Medicine, trouxe respostas importantes sobre essa questão, comparando duas abordagens psicológicas distintas: a aceitação da dor e as estratégias tradicionais de enfrentamento.
O estudo contou com 117 pacientes atendidos em uma unidade especializada de dor do Hospital Universitário Carlos Haya, em Málaga. Para participar, os pacientes precisavam ter dor crônica há pelo menos seis meses. A amostra era majoritariamente feminina (71,3%), com idade média de 54 anos, e representava bem o perfil típico de quem busca atendimento em unidades de dor: a maioria estava aposentada, usava múltiplos medicamentos (em média quatro), e quase metade já havia passado por pelo menos uma cirurgia para tentar aliviar a dor. Os principais tipos de dor relatados eram lombalgia (29,8%), dor generalizada (25%) e dor articular (20,2%), com duração média de mais de 11 anos.
Essa caracterização detalhada é importante porque ajuda a entender em quem os resultados se aplicam.
A metodologia consistiu na aplicação de uma bateria de questionários validados, todos em espanhol, que avaliavam diferentes aspectos psicológicos: a aceitação da dor (medida pelo Questionário de Aceitação da Dor Crônica), as estratégias de enfrentamento ativas e passivas (pelo Inventário Vanderbilt de Manejo da Dor), as cognições relacionadas à dor — incluindo catastrofização, pensamentos de enfrentamento, crenças de impotência e crenças de recursos (pelas Escalas de Autoaferições e de Controle Relacionados à Dor) — e, finalmente, os desfechos de ajustamento: ansiedade, depressão, estado funcional, prejuízo funcional e intensidade da dor. A análise estatística utilizou modelagem de equações estruturais, uma técnica avançada que permite examinar múltiplas relações simultâneas, o que confere robustez aos achados.
Os resultados revelaram um padrão fascinante e clínica-mente útil: diferentes aspectos psicológicos influenciam diferentes dimensões do ajustamento à dor. A aceitação da dor — entendida como a disposição de experimentar a dor sem tentar controlá-la ou evitá-la, enquanto se mantém engajado em atividades valoradas — demonstrou ser o fator mais determinante para o funcionamento físico e para a redução do prejuízo funcional. Ou seja, pacientes que aceitavam melhor sua dor conseguiam manter mais atividades do dia a dia, mesmo com a presença dela. Por outro lado, as estratégias de enfrentamento e as cognições tiveram maior impacto sobre o humor emocional: o enfrentamento passivo (como entregar o controle da dor a outros ou deixar que ela afete outras áreas da vida) esteve associado a mais ansiedade e depressão, enquanto o enfrentamento ativo (tentar controlar a dor ou funcionar apesar dela) e as crenças de recursos (acreditar que se tem algum controle sobre a dor) protegeram contra a depressão.
A catastrofização — aquele ciclo de pensamentos do tipo "não aguento mais", "vai piorar tudo" — mostrou-se particularmente prejudicial, influenciando diretamente a intensidade da dor percebida, a ansiedade e, indiretamente, a depressão e o prejuízo funcional.
É importante notar que a aceitação não influenciou diretamente a intensidade da dor. Isso é consistente com a própria definição do construto: aceitação não é about sentir menos dor, mas about viver melhor apesar dela. O estudo também verificou se havia diferenças entre homens e mulheres nas relações encontradas, e não encontrou: os padrões psicológicos de ajustamento foram similares entre os gêneros, embora as mulheres fossem maioria na amostra.
Do ponto de vista prático, esses achados sugerem que o caminho para o bem-estar com dor crônica pode ter duas frentes complementares. Para manter o funcionamento físico e evitar a incapacidade, trabalhar a aceitação da dor parece central — isso inclui terapias como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que ensinam a desvincular as experiências internas (pensamentos, sensações) das ações externas, permitindo que a pessoa continue se movimentando e vivenciando o que valoriza. Para cuidar do humor e da saúde emocional, investir em estratégias ativas de enfrentamento e em cognições mais adaptativas (como acreditar que ainda há algum controle sobre a vida, mesmo que não sobre a dor em si) também se mostrou valioso.
No entanto, é preciso prudência na interpretação. O desenho transversal do estudo — uma fotografia única no tempo — não permite afirmar causalidade: não sabemos se a aceitação leva a melhor funcionamento, se o melhor funcionamento facilita a aceitação, ou se ambos se influenciam mutuamente. Além disso, todos os dados foram de autorrelato, o que pode introduzir vieses e não capturar comportamentos reais. Há também alguma sobreposição conceitual entre as medidas de enfrentamento e cognição, que os próprios autores reconhecem.
Por fim, a amostra era de um único centro hospitalar espanhol, o que limita a generalização para outros contextos culturais e de atenção à saúde.
Ainda assim, o estudo oferece uma contribuição valiosa: ele desenha um mapa mais nuançado do que ajuda em diferentes aspectos da vida com dor crônica, sugerindo que não há uma única estratégia "correta", mas sim um conjunto de habilidades que podem ser cultivadas de forma personalizada, de acordo com as necessidades de cada pessoa em cada momento.
pacientes com dor crônica
117 pessoas
avaliação psicológica através de questionários
variância explicada na ansiedade
variância explicada na depressão
variância explicada no estado funcional
variância explicada na incapacidade funcional
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Conheça a equipe da clínica →Dor crônica · Avaliação especializada
Converse com quem trata dor crônica há mais de 40 anos
A equipe do Prof. Dr. Hong Jin Pai avalia seu caso em consulta presencial na Alameda Jaú, Jardim Paulista, São Paulo.
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