participantes totais
52
26 pacientes, 14 enfermeiros e 12 médicos
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
BMC Family Practice
Ano
2017
Autores
Becker et al.
Desenho
Nível não totalmente claro
Este estudo ouviu pacientes, enfermeiros e médicos para entender o que dificulta e o que facilita o uso de tratamentos sem remédios para dor crônica, como fisioterapia, yoga e terapia comportamental. Os principais obstáculos incluem custo alto, dificuldade de transporte, falta de motivação do paciente e ceticismo sobre a eficácia. Os facilitadores mais importantes são ter uma variedade maior de tratamentos disponíveis, melhor educação sobre os benefícios e apoio contínuo da equipe médica. Essas informações podem ajudar a melhorar o acesso a tratamentos não medicamentosos.
Título original do estudo: Barriers and facilitators to use of non-pharmacological treatments in chronic pain
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Tratamentos não farmacológicos para dor crônica enfrentam barreiras práticas sérias de acesso, custo e informação que precisam ser resolvidas no nível do sistema de saúde, não apenas na consulta individual.
Este estudo ouviu pacientes, enfermeiros e médicos para entender o que dificulta e o que facilita o uso de tratamentos sem remédios para dor crônica, como fisioterapia, yoga e terapia comportamental. Os principais obstáculos incluem custo alto, dificuldade de transporte, falta de motivação do paciente e ceticismo sobre a eficácia. Os facilitadores mais importantes são ter uma variedade maior de tratamentos disponíveis, melhor educação sobre os benefícios e apoio contínuo da equipe médica. Essas informações podem ajudar a melhorar o acesso a tratamentos não medicamentosos.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
Custo, transporte, falta de informação e pouco apoio são barreiras reais que sistemas de saúde precisam enfrentar junto com você
Ponto 1
Pergunte na consulta quais opções não farmacológicas existem e como acessá-las na sua realidade
Ponto 2
Peça explicações claras sobre o que cada tratamento envolve e quanto tempo leva para ajudar
Ponto 3
Busque saber se há acompanhamento em equipe ou grupos de apoio para manter sua motivação
O que este estudo acrescenta
Primeiro estudo a reunir pacientes, enfermeiros e médicos de atenção primária simultaneamente para mapear barreiras e facilitadores de tratamentos não farmacológicos usando método consensual estruturado
Aplicabilidade clínica
Embora não meça eficácia de tratamento, o estudo identifica barreiras modificáveis que, se superadas, poderiam aumentar substancialmente o acesso a terapias já comprovadas para dor crônica
Força do desenho do estudo
Estudo qualitativo bem estruturado que mapeia percepções e experiências, mas não estabelece causalidade nem mede resultados clínicos diretos
participantes totais
52
26 pacientes, 14 enfermeiros e 12 médicos
grupos focais
8
4 de pacientes (2 femininos, 2 masculinos), 2 de enfermeiros, 2 de médicos
pacientes com experiência prévia em tratamento não farmacoló
20 de 26
77% da amostra de pacientes
categorias de barreiras/facilitadores
5
acesso, conhecimento, interação paciente-profissional, crenças e suporte
idade média dos pacientes
55 anos
faixa etária não especificada, limite máximo de 70 anos
Ficha rápida do estudo
Condição
Dor crônica e uso de tratamentos não farmacológicos
Tipo de estudo
estudo qualitativo com técnica de grupo nominal
Participantes
n=52 (26 pacientes, 14 enfermeiros, 12 médicos de atenção primária)
Duração
sessões únicas de grupo focal
Sessões
1 sessão de grupo focal por participante
Comparador
não aplicável — estudo qualitativo sem intervenção comparada
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
1 sessão de grupo focal por participante
sessão única, com duração não especificada no artigo
não reportada
Técnica de Grupo Nominal: geração individual de ideias, consolidação em grupo e votação ranqueada anônima para barreiras e facilitadores
não aplicável — estudo qualitativo descritivo
Foram mostrados cards ilustrando cinco tratamentos não farmacológicos: terapia física, terapia cognitivo-comportamental, yoga, quiropraxia e redução de estresse baseada em mindfuln
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
mapeamento de barreiras
identificado
5 categorias de barreiras foram sistematicamente catalogadas: acesso, conhecimento, interação paciente-profissional, crenças e suporte
mapeamento de facilitadores
identificado
facilitadores correspondentes em cada categoria, com consenso entre pacientes e profissionais sobre vários itens
convergência de perspectivas
demonstrada
pacientes e profissionais identificaram barreiras e facilitadores muito similares, indicando alinhamento de percepções
base para intervenções futuras
estabelecida
resultados apontam alvos modificáveis para programas de implementação em sistemas de saúde
O que não mudou
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Este estudo ajuda a entender que dificuldades com tratamentos não farmacológicos frequentemente refletem problemas de acesso, informação e suporte, não falha pessoal
Tempo provável
não aplicável — estudo descritivo, sem acompanhamento longitudinal
As soluções identificadas exigem mudanças no sistema de saúde, não apenas esforço individual do paciente
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Pacientes não usam tratamentos não farmacológicos porque não querem se esforçar
Achado
A falta de motivação foi sim mencionada, mas barreiras de acesso (custo, transporte, distância) e falta de informação foram igual ou mais importantes
Mito
Médicos simplesmente não prescrevem terapias não farmacológicas por desconhecimento
Achado
Profissionais relataram dificuldade estrutural em promover essas terapias quando opioides já estavam iniciados, sugerindo problema de fluxo de cuidado, não apenas de conhecimento
Mito
Tratamentos não farmacológicos são mais fáceis porque não têm efeitos colaterais
Achado
Pacientes relataram preocupações reais com piora da dor, estresse do comprometimento de tempo e medo de lesão com algumas terapias
Mito
Basta informar o paciente sobre as opções para que ele as utilize
Achado
Conhecimento é necessário mas insuficiente; suporte contínuo da equipe, acesso facilitado e abordagem em equipe foram facilitadores mais votados
Como isso pode funcionar
BARREIRAS IDENTIFICADAS
Acesso limitado, custo alto, desinformação e falta de suporte criam obstáculos concretos ao uso de terapias não farmacológicas — mecanismo proposto pelos autores com base no consenso dos grupos
IMPACTO NO COMPORTAMENTO
Essas barreiras reduzem a adesão e mantêm a dependência de tratamentos apenas medicamentosos, perpetuando um ciclo de cuidado passivo — interpretação dos autores
FACILITADORES POTENCIAIS
Maior disponibilidade de opções, educação clara, abordagem em equipe com acompanhamento e filosofia institucional multimodal podem reverter esse ciclo — proposição do estudo para intervenções futuras
O que ainda é incerto
Identificar barreiras e facilitadores para o uso de tratamentos não farmacológicos em dor crônica
26 pacientes com dor crônica, 14 enfermeiros e 12 médicos da atenção primária
8 grupos focais usando técnica de grupo nominal para identificar obstáculos e facilitadores
5 categorias principais: acesso, conhecimento, interação paciente-profissional, crenças e suporte
Resultados podem orientar programas para aumentar uso de terapias não medicamentosas
Achados Interessantes
ALINHAMENTO INESPERADO
Pacientes e profissionais de saúde identificaram barreiras muito similares, sugerindo que o problema não é desacordo entre quem sente dor e quem cuida, mas sim obstáculos estruturais compartilhados
O EFEITO OPIOIDE
Médicos relataram dificuldade particular em promover terapias não farmacológicas quando o paciente já usava opioides, revelando um ponto crítico de inflexão no manejo da dor crônica
O PODER DO ACOMPANHAMENTO
Entre todos os facilitadores possíveis, o apoio contínuo da equipe e a abordagem em equipe foram dos mais valorizados, mais do que simplesmente aumentar a oferta de tratamentos
Resumo detalhado em linguagem acessível
Viver com dor crônica é uma experiência que transcende o desconforto físico, envolvendo frustrações com o sistema de saúde, incertezas sobre tratamentos, custos inesperados e, frequentemente, a sensação de isolamento ao longo dessa jornada. O estudo conduzido por Becker e colaboradores, publicado em 2017 na revista BMC Family Practice, investiga precisamente essa realidade ao examinar os fatores que facilitam e os que dificultam o uso de tratamentos não farmacológicos para dor crônica na atenção primária. O contexto clínico que motivou esta pesquisa é relevante. Desde o relatório histórico do Instituto de Medicina em 2011, há consenso crescente de que o tratamento ideal para dor crônica deve ser multimodal e biopsicossocial, promovendo a autogestão do paciente.
No entanto, na prática, a assistência permanece frequentemente restrita a medicamentos, excluindo modalidades não farmacológicas com evidência comprovada de eficácia, como terapia cognitivo-comportamental, yoga, mindfulness e tratamentos baseados em exercícios. A preocupação com os riscos da terapia exclusivamente medicamentosa, especialmente com opioides, tornou-se mais acentuada nos anos que antecederam o estudo, reforçando a urgência de compreender por que essas alternativas permanecem subutilizadas. Para responder a essa questão, os pesquisadores convidaram 52 participantes para oito grupos de discussão separados: 26 pacientes com dor crônica (14 mulheres e 12 homens, com idade média de 55 anos), 14 enfermeiros e 12 médicos de atenção primária, com idade média de 45 anos entre os profissionais. A metodologia escolhida foi a Técnica de Grupo Nominal, um formato estruturado que promove participação equilibrada, evitando que vozes mais dominantes monopolizem a conversa.
Cada sessão seguiu três etapas: primeiro, os participantes escreveram individualmente suas ideias sobre barreiras e, posteriormente, sobre facilitadores; em seguida, compartilharam e consolidaram as respostas em uma lista coletiva; por fim, votaram anonimamente nos três itens mais importantes de cada categoria. Os grupos de pacientes foram separados por sexo para garantir maior conforto na participação, refletindo a organização das clínicas do sistema de saúde onde o estudo foi realizado. Os resultados se organizaram em cinco grandes temas. O primeiro, e mais proeminente para os pacientes, foi o acesso.
Custo elevado, dificuldade de transporte, distância para chegar aos tratamentos e escassez de horários convenientes surgiram como obstáculos centrais. Muitos pacientes simplesmente não conseguiam arcar com terapias não cobertas pelo plano de saúde, ou não dispunham de meios para se deslocar até os centros de tratamento. Para os profissionais, o deslocamento exigido dos pacientes também foi a barreira de acesso mais mencionada. O segundo tema envolveu conhecimento e informação: tanto pacientes quanto profissionais admitiram não compreender adequadamente o que cada tratamento não farmacológico envolvia, quais eram seus benefícios reais ou mesmo quais opções estavam disponíveis no sistema.
Essa névoa de desinformação alimentava desconfiança recíproca. O terceiro tema tratou da interação entre paciente e profissional. Os médicos relataram dificuldade em promover terapias não farmacológicas quando o paciente já estava em uso de opioides, como se houvesse uma espécie de ponto de não retorno medicamentoso. Já os pacientes mencionaram falta de motivação própria, dificuldade em advogar pelos tratamentos que preferiam, medo de não serem acreditados e estigma associado à condição de dor crônica, incluindo a percepção de que a indicação de tratamentos não farmacológicos poderia significar que sua dor não era levada a sério.
O quarto tema abordou crenças sobre tratamento: a percepção generalizada de que medicamentos são mais eficazes, a desconfiança em relação a abordagens consideradas alternativas, a ideia de que tratamentos não farmacológicos seriam inferiores ou inadequadas para idosos, e a preferência por uma solução rápida, simbolizada pela expressão "pílula mágica". A carga desses tratamentos também foi mencionada, incluindo o compromisso de tempo exigido, a dor ou estresse que poderiam acompanhar a participação, e a necessidade de licença do trabalho para comparecer a múltiplas consultas. Finalmente, o quinto tema foi o suporte, ou sua ausência: falta de incentivo da família, pouco reforço positivo da equipe médica após a indicação inicial, e sensação de abandono no processo. Quanto aos facilitadores, os pacientes mais valorizaram a disponibilidade de uma variedade maior de tratamentos, abordagem em equipe com acompanhamento contínuo, e melhor explicação sobre o que esperar de cada terapia, incluindo sua lógica e racional.
A possibilidade de sessões mais próximas de casa ou até domiciliares foi igualmente bem avaliada por pacientes e profissionais. Os profissionais, por sua vez, destacaram a importância de uma filosofia institucional clara a favor do tratamento multimodal, de educar os pacientes sobre riscos e benefícios comparativos entre medicamentos e terapias não farmacológicas, e de aumentar a própria divulgação sobre a disponibilidade desses serviços. A empatia e a comunicação aberta, bem como a tomada de decisão compartilhada, foram identificadas como elementos facilitadores do relacionamento terapêutico. A questão da segurança, embora não seja o foco central deste estudo qualitativo, emerge indiretamente nas preocupações expressas por pacientes sobre potenciais efeitos adversos ou agravamento da dor com tratamentos não farmacológicos, e na crença de que medicamentos, apesar de seus riscos conhecidos, seriam mais previsíveis.
O estudo reforça que a percepção de segurança está intimamente ligada à confiança no sistema e na informação recebida. É fundamental interpretar esses achados com prudência. O estudo foi realizado em um único sistema de saúde americano, a Veterans Health Administration, que atende principalmente veteranos militares e possui características organizacionais específicas, o que limita a generalização para outros contextos, especialmente para sistemas de saúde universais como o brasileiro. Além disso, a maioria dos pacientes (20 de 26) já tinha alguma experiência prévia com tratamentos não farmacológicos no ano anterior, o que pode ter subestimado barreiras enfrentadas por quem nunca teve contato com essas abordagens.
O fato de todos os tratamentos não farmacológicos terem sido agrupados como um bloco único também obscurece diferenças importantes — as barreiras para praticar yoga, por exemplo, podem ser bastante distintas das barreiras para terapia cognitivo-comportamental. A possibilidade de viés de desejabilidade social nas respostas, embora mitigada pela votação anônima, não pode ser completamente descartada. Para pacientes, o valor prático deste estudo está em dar nome a obstáculos que muitas vezes são vividos como falha pessoal. Não conseguir manter um tratamento não farmacológico raramente se deve apenas à falta de vontade: pode refletir problemas reais de acesso, informação insuficiente, ou ausência de apoio do sistema.
Reconhecer essas barreiras é o primeiro passo para conversar melhor com a equipe de saúde, buscar alternativas viáveis na própria realidade, e construir um plano de tratamento que funcione no dia a dia. O estudo também reforça que mudanças estruturais — como maior oferta de horários flexíveis, transporte facilitado, atendimento mais próximo ao domicílio, e acompanhamento em equipe com seguimento contínuo — são tão importantes quanto a escolha do tratamento em si.
Pacientes
26 pessoas
grupos focais sobre barreiras e facilitadores
Enfermeiros
14 pessoas
grupos focais sobre barreiras e facilitadores
Médicos
12 pessoas
grupos focais sobre barreiras e facilitadores
Categorias de barreiras identificadas
Pacientes que já tentaram tratamento não farmacológico
Idade média dos pacientes
Idade média dos profissionais
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
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