Estudo científico comentado

Modelo preditivo para identificar dor lombar com risco de persistir

Referência acadêmica

Periódico

Pain

Ano

2005

Autores

Von Korff et al.

Desenho

Nível não totalmente claro

Este estudo criou uma forma de prever quais pessoas com dor lombar têm maior chance de continuar com dor intensa no futuro. Os pesquisadores identificaram que fatores como depressão, dor em vários locais do corpo e persistência da dor ajudam a prever quem pode desenvolver dor crônica. O importante é que a dor crônica não é um estado fixo - muitas pessoas melhoram com o tempo, mesmo aquelas com dor severa no início.

Título original do estudo: A prognostic approach to defining chronic pain

📊Estudo longitudinal prospectivo👥n=1.213 pacientesImpacto metodológico alto
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A dor lombar crônica pode ser prevista com razoável precisão combinando gravidade atual da dor, sintomas depressivos, persistência da dor e dor em múltiplos sítios, permitindo identificar quem precisa de atenção mais intensiva — mas a melhora ao longo do tempo

O que isso significa para você?

Este estudo criou uma forma de prever quais pessoas com dor lombar têm maior chance de continuar com dor intensa no futuro. Os pesquisadores identificaram que fatores como depressão, dor em vários locais do corpo e persistência da dor ajudam a prever quem pode desenvolver dor crônica. O importante é que a dor crônica não é um estado fixo - muitas pessoas melhoram com o tempo, mesmo aquelas com dor severa no início.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor lombar crônica não é um destino inevitável: mais da metade dos pacientes com dor severa inicial melhorou de intensidade ao longo de um ano
  • 2Fatores como humor deprimido, dor que não dá trégua e dor espalhada pelo corpo aumentam o risco de persistência — e merecem atenção na conversa com seu médico
  • 3O modelo de risco ajuda a identificar quem precisa de acompanhamento mais próximo, mas não substitui o julgamento clínico individual
  • 4Melhora não significa necessariamente ausência total de dor: a maioria dos pacientes continuou com algum nível de dor leve ou moderada a longo prazo
  • 5A pesquisa sobre quais tratamentos funcionam melhor para cada perfil de risco ainda está em desenvolvimento
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base na minha dor atual e histórico, qual seria minha classificação de risco segundo este modelo?
  • 2Meus sintomas depressivos ou ansiosos estão sendo adequadamente avaliados como parte do manejo da dor?
  • 3Há benefício em investigar se tenho dor em outras regiões do corpo, além da lombar?
  • 4Se estou em grupo de risco elevado, quais opções de acompanhamento mais intensivo ou especializado estão disponíveis?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo não avaliou segurança de nenhum tratamento — é um estudo de predição de evolução natural, não de eficácia ou segurança de intervenções
  • 2A aplicação do escore de risco em populações diferentes da estudada (predominantemente caucasiana, bem educada, EUA) requer validação adicional
  • 3A perda de participantes ao longo do estudo, especialmente entre os mais graves, pode ter levado a uma visão ligeiramente mais otimista dos resultados reais
  • 4O modelo preditivo deve complementar, não substituir, a avaliação clínica individual e a escuta atenta à experiência de cada paciente

Leitura rápida para pacientes

Sua dor lombar tem um perfil de risco próprio

Este estudo mostra que dá para estimar quais pessoas têm mais chance de continuar com dor intensa — e que melhorar é possível, mesmo quando a dor começa forte

Ponto 1

A intensidade da dor atual não conta toda a história: depressão, dor persistente e dor em outras partes do corpo também

Ponto 2

Cerca de 6 em cada 100 pacientes tinham risco muito alto de dor persistente, e 20 em cada 100 tinham risco moderado-alto

Ponto 3

Conversar com seu médico sobre esses fatores pode ajudar a planejar um acompanhamento mais adequado à sua situação

O que este estudo acrescenta

MUDANÇA DE PARADIGMA

Substituiu a definição baseada apenas em duração do tempo por uma abordagem prognóstica baseada em probabilidade de evolução futura, integrando múltiplas dimensões da experiência da dor

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

O estudo não testou intervenções, mas forneceu uma ferramenta de estratificação de risco que pode orientar decisões clínicas sobre intensidade de acompanhamento e tipo de cuidado, especialmente em atenção primária onde r

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Acompanhou pacientes ao longo do tempo sem intervenção do pesquisador, fornecendo evidência sobre padrões naturais de evolução da doença e fatores prognósticos, embora não permita

Pacientes acompanhados

1. 213

tamanho da coorte inicial com 72% de adesão

Taxa de manutenção da dor severa (1 ano)

43%

dos que começaram com dor severa, 43% continuavam assim após um ano — mas 57% melhoraram

Risco de dor crônica provável

6,1%

proporção de pacientes com ≥80% de chance de dor futura significativa na avaliação inicial

Risco de dor crônica possível

20,3%

proporção adicional com 50-79% de chance de dor futura significativa

Precisão da previsão (grupo de alto risco)

82%

dos classificados como 'dor crônica provável' na baseline realmente tinham dor significativa após 1

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor lombar em atenção primária

Tipo de estudo

Coorte longitudinal prospectivo

Participantes

1. 213 pacientes adultos (18-75 anos) que buscaram atendimento primário por dor l

Duração

5 anos de acompanhamento (avaliações em baseline, 1, 2 e 5 anos)

Sessões

4 avaliações por telefone ao longo de 5 anos

Comparador

Não aplicável (estudo observacional sem intervenção ou grupo controle)

Grupos do estudo

Pacientes com dor lombar acompanhados longitudinalmente

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

4 avaliações ao longo de 5 anos

Frequência02

Avaliações em baseline, 1 ano, 2 anos e 5 anos

Duração da sessão03

Entrevistas telefônicas de 20 a 30 minutos

Pontos / técnica04

Múltiplas escalas validadas: intensidade da dor (0-100), interferência nas atividades (0-100), impacto da dor (16 itens), dias de incapacidade, além de escala de depressão SCL-90 e

Comparador05

Não aplicável — estudo observacional sem intervenção

Nota de protocolo06

O estudo não testou nenhum tratamento; apenas acompanhou a evolução natural da dor e desenvolveu modelo preditivo estatístico

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos de 18 a 75 anos em atendimento primário por dor lombarPacientes de sistema de saúde integrado em Washington State, EUAPredominantemente caucasianos e com algum nível de educação superiorA maioria recebeu diagnósticos não específicos de dor lombarPessoas que concordaram em participar de entrevistas telefônicas de 20-30 minutosCerca de metade mulheres e metade homens

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes menores de 18 anosAdultos maiores de 75 anosPopulações não caucasianas e de baixa escolaridade (sub-representadas)Pacientes com dor lombar de causas específicas identificáveis (pequena minoria)Pessoas fora do sistema de saúde estudado ou de outras regiões/países

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Prevalência de dor severa

reduziu

De 30% no início para 12% após 5 anos, mostrando que melhora é possível mesmo em casos graves

🎯

Capacidade de previsão do modelo

melhorou

O escore de risco conseguiu identificar corretamente 82% dos casos de dor futura significativa no grupo de maior risco

📊

Entendimento da dor crônica

melhorou

Substituiu a visão de 'rótulo fixo' por uma abordagem dinâmica baseada em probabilidade de evolução

🔍

Identificação de fatores de risco

melhorou

Depressão, dor difusa e persistência da dor foram confirmados como preditores importantes além da intensidade atual

O que não mudou

  • A maioria dos pacientes continuou com algum nível de dor (leve ou moderada) mesmo após anos de acompanhamento
  • Não houve demarcação clara entre grupos de risco — existe um continuum de probabilidade, não categorias absolutas
  • A definição de 'dor clinicamente significativa' no futuro permaneceu baseada em critérios de gravidade, não em resposta a tratamentos específicos

Quando a melhora apareceu

1

1 ano

Primeira redução significativa na dor severa

A prevalência de dor severa e limitante caiu de 30% no baseline para 15% após um ano

2

1 a 5 anos

Estabilização da proporção com dor leve

Após aumento inicial, cerca de 35% dos pacientes permaneciam com dor leve de forma relativamente estável

3

5 anos

Maior taxa de recuperação completa

22,5% dos pacientes relataram estar sem dor após cinco anos, o maior percentual observado

Antes e depois

Prevalência de dor severa e limitante

escala máx. 100 % dos pacientes

Antes30 % dos pacientes
Depois12 % dos pacientes

Pacientes sem dor

escala máx. 100 % dos pacientes

Antes0 % dos pacientes
Depois23 % dos pacientes

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • O estudo não envolveu intervenções, portanto não há riscos diretos de tratamento a relatar
  • As entrevistas telefônicas foram bem toleradas com alta adesão inicial (72%)
Amarelo
  • A perda de participantes ao longo do tempo (32% em 5 anos) pode ter subestimado resultados negativos
  • A aplicação do escore de risco em populações diferentes da estudada requer cautela
Vermelho
  • O estudo não fornece informações sobre segurança de tratamentos — apenas predição de evolução natural da dor
  • A amostra pouco diversa limita a confiança na generalização do modelo para todas as populações

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor lombar não específica em atenção primária
  • Pacientes com dor de intensidade moderada a severa que desejam entender seu prognóstico
  • Pessoas com sintomas depressivos associados à dor lombar
  • Indivíduos com dor em múltiplas regiões do corpo além da lombar
  • Pacientes e médicos que buscam uma abordagem mais individualizada de estratificação de risco

Mais cautela para extrapolar

  • Crianças, adolescentes e idosos acima de 75 anos (fora da faixa etária estudada)
  • Pacientes com dor lombar de causa específica identificável (fratura, tumor, infecção)
  • Populações de baixa renda, baixa escolaridade ou não caucasianas (sub-representadas na amostra)
  • Pacientes fora de sistemas de saúde organizados similares ao estudado
  • Quem busca informação sobre qual tratamento específico funcionará melhor (o estudo não testou intervenções)

Expectativa realista

A dor pode mudar de intensidade ao longo do tempo

Mesmo com dor lombar severa no início, há chance real de melhora — cerca de metade dos pacientes com dor severa não a mantêm após um ano. Por outro lado, a recuperação completa é menos comum, e muitos continuam com dor leve ou moderada cron

Tempo provável

Mudanças mais significativas tendem a ocorrer no primeiro ano; após isso, os padrões se estabilizam

O modelo preditivo ajuda a estimar riscos, mas não garante resultados individuais nem indica qual tratamento será mais efetivo para cada pessoa

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar ao médico sobre sua avaliação de risco pessoal com base na intensidade da dor, sintomas depressivos, persistência da dor e presença de dor em outras áreas
  2. 2Discutir se há necessidade de avaliação mais detalhada caso esteja no grupo de maior risco
  3. 3Questionar quais estratégias de autocuidado e acompanhamento são mais adequadas para seu perfil de risco
  4. 4Solicitar esclarecimentos sobre o que significa 'dor clinicamente significativa' e como isso se aplica à sua situação
  5. 5Conversar sobre plano de acompanhamento e quando reavaliar se houver mudanças na condição

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor crônica é simplesmente qualquer dor que dura mais de 3 ou 6 meses

Achado

O estudo propõe que 'crônica' deve significar alta probabilidade de dor futura significativa, não apenas tempo decorrido — e essa probabilidade varia muito entre pessoas

Mito

Quem tem dor severa vai sempre piorar ou permanecer assim

Achado

Apenas 43% dos pacientes com dor severa inicial continuavam nessa categoria após um ano; a maioria melhorou pelo menos um nível de gravidade

Mito

Dor crônica é um rótulo permanente que define a pessoa

Achado

Os autores enfatizam que a dor crônica é um 'estado dinâmico', não uma 'característica estática' — as categorias de risco são 'possível' e 'provável', reconhecendo a incerteza

Mito

A intensidade da dor sozinha é suficiente para prever o futuro

Achado

A combinação de intensidade da dor com depressão, dor difusa e persistência da dor melhorou substancialmente a previsão em comparação com a gravidade isolada

Como isso pode funcionar

🩺

AVALIAÇÃO INICIAL

Médico avalia intensidade da dor, interferência nas atividades e incapacidade — fatores que definem a classe de gravidade atual

🔍

IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DE RISCO

Para pacientes com dor mais severa, investiga-se depressão, dias com dor nos últimos 6 meses e dor em outros locais do corpo — fatores que aumentam a probabilidade de persistência

📊

CÁLCULO DO ESCORE

Pontuação combinada gera estratificação de risco: baixo (<20%), intermediário (20-49%), possível dor crônica (50-79%) ou provável dor crônica (≥80%)

🎯

PLANEJAMENTO DO CUIDADO

O nível de risco orienta a intensidade do acompanhamento e possíveis encaminhamentos — embora o estudo não tenha testado quais intervenções funcionam melhor para cada grupo (mecanismo proposto, não comprovado neste estud

O que ainda é incerto

  • ?O modelo foi desenvolvido em população específica (caucasiana, bem educada, sistema de saúdo americano) e sua validade em outras populações ainda prec
  • ?Não se sabe se intervenções direcionadas aos diferentes níveis de risco levam a melhores resultados — o estudo não testou tratamentos
  • ?A perda de participantes ao longo do tempo, especialmente entre os mais graves, pode ter subestimado a persistência da dor
  • ?A escolha de 50% e 80% como limiares de risco foi arbitrária e baseada em dados deste estudo; outros limiares podem ser mais apropriados em contextos
🎯

O que o estudo quis responder

Desenvolver um modelo que prediz quais pacientes terão dor lombar significativa no futuro

👥

QUEM PARTICIPOU

1. 213 pacientes que procuraram cuidados primários por dor lombar

🧪

COMO FOI FEITO

Avaliações da intensidade da dor, limitações funcionais e fatores prognósticos por 5 anos

📈

O QUE DESCOBRIU

Identificou quatro níveis de gravidade da dor e criou escores de risco para predizer evolução

🔮

PREDIÇÃO

Modelo conseguiu identificar pacientes com 50% a 80% de chance de dor persistente

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

DO CRONÔMETRO PARA A PREVISÃO

Pela primeira vez, um estudo de grande porte propôs definir 'dor crônica' não pelo tempo que já passou, mas pela probabilidade calculada de dor significativa no futuro — transformando um conceito descritivo em ferramenta

🧭

A DOR COMO ESTADO, NÃO TRAÇO

O estudo mostrou que pacientes mudam de categoria de gravidade ao longo do tempo de forma bastante comum, desafiando a ideia de que 'crônico' significa imutável — o termo preferido pelos autores é 'estado dinâmico'

📌

A DEPRESSÃO COMO PREDITOR INDEPENDENTE

Entre os achados: sintomas depressivos elevavam o risco de persistência da dor severa para níveis próximos de 80%, mesmo controlando a intensidade da dor atual — um alerta para não subestimar o aspecto emo

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Modelo preditivo para identificar dor lombar com risco de persistir

A dor lombar é uma das condições mais comuns que levam as pessoas a buscar atendimento médico, e uma das grandes dúvidas tanto de pacientes quanto de médicos é: essa dor vai passar ou vai se tornar um problema persistente? O estudo de Von Korff e Miglioretti, publicado em 2005 na revista Pain, propõe uma mudança importante na forma como pensamos sobre a dor crônica — não mais como um rótulo fixo baseado apenas no tempo de duração, mas como uma previsão de risco baseada em características individuais de cada paciente.

Tradicionalmente, a dor crônica era definida principalmente pelo tempo: se a dor persistia por mais de três ou seis meses, ela era considerada crônica. No entanto, essa definição tem problemas importantes. Muitas pessoas com dor de longa duração conseguem viver relativamente bem, enquanto outras com dor mais recente podem ter sofrimento e limitações muito maiores. Os pesquisadores propuseram, então, uma abordagem prognóstica: em vez de apenas contar dias de dor, prever quais pacientes têm maior probabilidade de continuar com dor clinicamente significativa no futuro.

Para desenvolver esse modelo, os pesquisadores acompanharam 1. 213 pacientes que buscaram atendimento primário por dor lombar em um sistema de saúde de Washington State, nos Estados Unidos, entre 1989 e 1990. Os participantes foram entrevistados por telefone logo após a consulta inicial e novamente após 1, 2 e 5 anos. Essa é uma das grandes forças do estudo: o acompanhamento longo, com boas taxas de resposta mesmo após cinco anos (68% dos pacientes originais continuaram participando).

A metodologia foi sofisticada. Os pesquisadores utilizaram uma técnica estatística avançada chamada Análise de Regressão de Transição Latente, que permitiu identificar, a partir de múltiplas medidas de dor e funcionalidade, quatro níveis de gravidade da dor: sem dor, dor leve, dor moderada com limitação, e dor severa e limitante. Essas categorias não foram criadas arbitrariamente, mas emergiram dos próprios dados coletados dos pacientes ao longo do tempo.

Os resultados revelaram padrões importantes. No início do estudo, cerca de 30% dos pacientes apresentavam dor severa e limitante. Após um ano, essa proporção caiu para 15%, e após cinco anos, para 12%. Isso mostra que, mesmo entre pacientes com dor intensa inicial, muitos melhoram com o tempo — uma mensagem acolhedora e importante.

Por outro lado, a maioria dos pacientes continuava com algum nível de dor (leve ou moderada) anos depois, indicando que a recuperação completa é menos comum.

O aspecto mais inovador do estudo foi a criação de um escore de risco. Os pesquisadores identificaram três fatores prognósticos que, combinados com a gravidade atual da dor, ajudavam a prever o futuro: sintomas depressivos, número de dias com dor lombar nos últimos seis meses, e presença de dor em outras partes do corpo (dor difusa). Pacientes com dor severa inicial que também apresentavam esses fatores de risco tinham entre 50% e mais de 80% de chance de continuar com dor significativa um ano depois.

A partir dessas informações, os pesquisadores criaram categorias práticas: "dor crônica provável" (risco de 80% ou mais de dor futura significativa), que afetava cerca de 6% dos pacientes na avaliação inicial; "dor crônica possível" (risco de 50% a 80%), que incluía aproximadamente 20% dos pacientes; e grupos de risco intermediário e baixo, que juntos compreendiam cerca de 74% dos participantes. Essas categorias se mostraram bastante precisas na previsão: 82% dos pacientes classificados como "dor crônica provável" na avaliação inicial realmente apresentavam dor significativa após um ano, e cerca de 70% ainda a tinham após cinco anos.

A utilidade prática dessa abordagem é significativa. Para pacientes, ela oferece uma avaliação mais individualizada do próprio risco, em vez de um rótulo genérico. Para médicos, sugere uma estratégia de dois estágios: primeiro, avaliar rapidamente a intensidade da dor e o impacto nas atividades; depois, para os pacientes com dor mais severa, investigar fatores prognósticos adicionais que podem indicar necessidade de intervenções mais intensivas ou especializadas.

É importante reconhecer as limitações do estudo. A amostra era predominantemente branca, bem educada e de um único sistema de saúdo americano, o que limita a generalização para populações mais diversas. Além disso, as avaliações ocorriam em poucos pontos no tempo, podendo não capturar flutuações importantes da dor entre as entrevistas. Cerca de 32% dos pacientes foram perdidos ao longo dos cinco anos, e esses tendiam a ter condições mais graves, o que pode ter levado a uma subestimação leve dos resultados negativos.

Outro ponto de prudência: o estudo não testou tratamentos específicos, apenas previu evolução natural da dor. Saber que alguém tem alto risco não diz, por si só, qual intervenção funcionará melhor para essa pessoa. Os autores mesmos reconhecem que pesquisas futuras precisam conectar essa classificação de risco à resposta a diferentes tratamentos.

A mensagem central para pacientes é equilibrada e esperançosa: a dor lombar crônica não é um destino inevitável, mesmo para quem começa com dor intensa. Ao mesmo tempo, existem fatores identificáveis que aumentam o risco de persistência, e reconhecê-los pode ajudar a direcionar cuidados de forma mais precisa. A dor crônica, nessa visão, é melhor entendida como um estado dinâmico e incerto, não como uma característica permanente da pessoa.

O que fortalece a leitura

  • 1Seguimento longo de 5 anos com boa taxa de resposta
  • 2Modelo estatístico avançado que considera múltiplas variáveis
  • 3Abordagem inovadora focada em prognóstico ao invés de duração da dor
  • 4Validação do modelo em diferentes pontos do tempo
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1População predominantemente caucasiana e bem educada
  • 2Avaliações limitadas a poucos pontos no tempo
  • 3Perda de participantes ao longo do seguimento
  • 4Conjunto limitado de variáveis prognósticas avaliadas

Leitura clínica do estudo

FORTE
85/ 100
Desenho
4/5
Amostra
5/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

1213pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Pacientes com dor lombar

1213 pessoas

Acompanhamento longitudinal por 5 anos

⏱️ Tempo de acompanhamento: 5 anos de seguimento

📊 Resultados em números

0%

Pacientes com dor severa limitante no início

0%

Manutenção da dor severa após 1 ano

0%

Redução para dor severa após 5 anos

6,1%

Pacientes com risco alto (≥80%)

20,3%

Pacientes com risco moderado (≥50%)

Destaques percentuais

30%
Pacientes com dor severa limitante no início
43%
Manutenção da dor severa após 1 ano
12%
Redução para dor severa após 5 anos
6,1%
Pacientes com risco alto (≥80%)
20,3%
Pacientes com risco moderado (≥50%)

📊 Comparação de Resultados

Intensidade da dor característica (0-100)

Sem dor
0
Dor leve
25
Dor moderada
46
Dor severa limitante
65

📅 Linha do tempo da evidência

1989Início dos primeiros estudos prognósticos em dor lombar
1992Desenvolvimento das escalas de graduação da dor crônica
1999Reconhecimento da necessidade de melhor definição de dor crônica
2005Publicação do modelo prognóstico para dor lombar crônica

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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