Estudo científico comentado

Como Pacientes Lidam com a Dor Crônica: O Papel das Estratégias Psicológicas

Referência acadêmica

Periódico

International Journal of Nursing Studies

Ano

2005

Autores

Dysvik et al.

Desenho

Nível não totalmente claro

Este estudo mostra que viver com dor crônica vai muito além da dor física - afeta principalmente a vida familiar e social. A forma como você enxerga seus problemas faz diferença: quem vê as dificuldades como desafios a superar tende a usar estratégias mais ativas e eficazes. Já quem vê tudo como ameaça pode ficar mais deprimido e usar estratégias menos eficazes. Isso significa que trabalhar a mentalidade e o humor pode ser tão importante quanto tratar a dor em si.

Título original do estudo: Coping with chronic pain

📊Estudo Transversal👥n=88 participantes🟡Impacto Moderado
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A forma como pacientes com dor crônica avaliam seus problemas — como ameaça ou como desafio — parece influenciar mais seu padrão de enfrentamento do que a própria intensidade da dor, sugerindo que intervenções psicológicas direcionadas podem complementar o tra

O que isso significa para você?

Este estudo mostra que viver com dor crônica vai muito além da dor física - afeta principalmente a vida familiar e social. A forma como você enxerga seus problemas faz diferença: quem vê as dificuldades como desafios a superar tende a usar estratégias mais ativas e eficazes. Já quem vê tudo como ameaça pode ficar mais deprimido e usar estratégias menos eficazes. Isso significa que trabalhar a mentalidade e o humor pode ser tão importante quanto tratar a dor em si.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Se você vive com dor crônica, saiba que suas dificuldades familiares e sociais são parte legítima da experiência — não são 'sua cabeça' nem menos importantes que a dor física
  • 2A forma como você interpreta seus problemas — como ameaças esmagadoras ou como desafios difíceis — pode influenciar se você se sente paralisado ou mobilizado para agir
  • 3Sentir-se deprimido ou com autoestima baixa em meio à dor crônica é comum, e esses sentimentos podem estar entrelaçados com como você enfrenta as situações
  • 4Programas que trabalham cognição, emoção e comportamento, não apenas a dor física, podem oferecer caminhos adicionais de manejo
  • 5Este estudo não testou tratamentos, então discuta com seu médio quais abordagens têm evidência de eficácia para sua situação específica
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base neste estudo, como posso identificar se estou avaliando minha dor mais como ameaça ou como desafio?
  • 2Existem programas de reabilitação multidisciplinar para dor crônica disponíveis para mim, que incluam apoio psicológico?
  • 3Se eu estiver com sintomas depressivos ou baixa autoestima relacionados à dor, isso deve ser tratado antes, durante ou junto com o manejo da dor física?
  • 4Quais técnicas de reestruturação cognitiva ou manejo do stress têm evidência mais robusta para dor crônica, além deste estudo observacional?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo foi puramente observacional — nenhum tratamento foi testado, portanto não fornece evidência de segurança ou eficácia de qualquer intervenção específica
  • 2A presença de depressão em 35% dos participantes alerta para a necessidade de avaliação do humor em pacientes com dor crônica, mas o estudo não indica qual tratamento seria mais se
  • 3A extrapolação dos achados para outras culturas ou contextos de saúde deve ser feita com cautela devido à amostra específica da Noruega
  • 4Qualquer mudança no manejo da dor crônica, especialmente envolvendo aspectos psicológicos, deve ser discutida com profissionais de saúde qualificados e baseada em evidências mais r

Leitura rápida para pacientes

Sua forma de ver os problemas importa tanto quanto a dor

Este estudo norueguês mostrou que, para quem vive com dor crônica, as dificuldades familiares e sociais frequentemente pesam mais que a própria dor física. E a chave para estratégi

Ponto 1

Quem vê dificuldades como desafios tende a usar estratégias mais ativas de enfrentamento

Ponto 2

Depressão e baixa autoestima se associam a padrões mais passivos, mas podem ser trabalhadas

Ponto 3

Tratar a dor crônica pode exigir atenção à vida emocional e social, não apenas ao corpo

O que este estudo acrescenta

FOCO NO CONTEXTO SOCIAL

Este estudo destacou que a maioria dos estressores de pacientes com dor crônica está fora do corpo — na família e nas relações sociais — ampliando a visão de que o manejo da dor deve transcender o tratamento físico.

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

O estudo oferece insights teóricos importantes sobre mecanismos psicológicos na dor crônica, mas como é transversal, observacional e sem intervenção, não estabelece causalidade nem eficácia de tratamentos. Sua relevância

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este tipo de estudo descreve associações em um único momento, mas não consegue estabelecer se uma coisa causa a outra, nem testar se uma intervenção funciona.

n de participantes

88

tamanho da amostra, sendo 83% do sexo feminino

estressores familiares/sociais

53%

proporção que tinha como principal estressor da semana questões fora da própria saúde

estressores de saúde

38%

proporção que identificou a própria dor/saúde como principal estressor

com sinais de depressão

35%

escore acima do ponto de corte na escala de Zung

duração média da dor

22%

porcentagem da vida total com diagnóstico de dor

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica não maligna há mais de 6 meses

Tipo de estudo

Estudo transversal observacional

Participantes

88 pacientes (73 mulheres, 15 homens), idade média 46 anos, em programa multidis

Duração

Avaliação única no momento pré-tratamento

Sessões

Não aplicável — estudo observacional sem intervenção

Comparador

Não aplicável — estudo descritivo correlacional

Grupos do estudo

Pacientes com dor crônica em avaliação pré-tratamento

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Não aplicável

Frequência02

Não aplicável

Duração da sessão03

Não aplicável

Pontos / técnica04

Avaliação com questionários validados: Ways of Coping Checklist-Revised, Escala de Depressão de Zung, Escala de Autoestima de Rosenberg, Escala Visual Analógica para dor

Comparador05

Não aplicável

Nota de protocolo06

Estudo puramente observacional — nenhuma intervenção foi testada ou comparada. Os dados foram coletados como parte de avaliação de rotina antes do início do programa de reabilitaçã

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos de 18 a 67 anos com dor crônica não maligna há mais de 6 mesesPacientes que completaram investigação médica e tratamento prévioPessoas motivadas a participar de programa de reabilitação ativoIndivíduos sem processos judiciais em andamento relacionados à dorParticipantes de diferentes regiões da Noruega, representando áreas rurais e urbanasMaioria do sexo feminino (83%) com escolaridade variada

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com transtornos mentais graves ou condições médicas graves que exigissem tratamento prioritárioIndivíduos não motivados para reabilitação ativa ou em litígio por danos relacionados à dorPacientes fora da faixa etária de 18 a 67 anosPopulações fora do contexto norueguês ou de programas multidisciplinares específicosPessoas que não tinham acesso ou interesse em tratamento especializado em dor

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🧠

Compreensão dos padrões de enfrentamento

esclarecido

O estudo mapeou que avaliar situações como desafio prediz uso de estratégias ativas, enquanto avaliar como ameaça prediz estratégias emocionais passivas

👁️

Visibilidade dos estressores não-dor

ampliada

53% dos pacientes tinham como principal estressor questões familiares/sociais, não a própria dor, revelando a dimensão social da experiência

🔗

Entendimento das conexões psicológicas

melhorado

Depressão e baixa autoestima mostraram-se ligadas ao enfrentamento focado na emoção, sugerindo alvos para intervenção

O que não mudou

  • A intensidade da dor e a duração não se mostraram preditores diretos do tipo de enfrentamento utilizado
  • Variáveis sociodemográficas como idade, educação, gênero e estado civil não explicaram significativamente os padrões de coping
  • O estudo não testou intervenções, portanto não demonstrou que mudar a avaliação cognitiva leva a mudanças reais no enfrentamento

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Estudo observacional sem intervenções invasivas ou medicamentosas
  • Uso de questionários validados internacionalmente com boas propriedades psicométricas
  • Procedimento ético aprovado com consentimento informado e garantia de confidencialidade
Amarelo
  • 35% dos participantes apresentavam sinais de depressão, indicando vulnerabilidade emocional significativa na população estudada
  • Avaliação única não captura a flutuação natural do humor e da dor ao longo do tempo
  • Autorrelatos podem conter viés de memória ou desejo de apresentação social
Vermelho
  • Nenhuma intervenção foi testada, portanto não há evidência de segurança ou eficácia de tratamentos específicos neste estudo
  • A amostra pequena e de local único limita a generalização dos achados
  • A homogeneidade da população norueguesa pode não refletir experiências de dor crônica em contextos culturais mais diversos

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pessoas com dor crônica há mais de 6 meses que percebem impacto significativo na vida familiar e social
  • Pacientes que se identificam com padrão de ver problemas como ameaças e gostariam de explorar formas de reavaliação
  • Indivíduos com sintomas depressivos ou baixa autoestima associados à experiência da dor
  • Pessoas motivadas a participar de programas de reabilitação multidisciplinar ativos
  • Pacientes interessados em compreender melhor seus padrões psicológicos de enfrentamento

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com dor aguda ou condições de recente início que ainda buscam diagnóstico e tratamento médico direcionado
  • Indivíduos com transtornos mentais graves que necessitam atenção psiquiátrica especializada prioritária
  • Pacientes em litígio ou processos de indenização, cuja dinâmica motivacional difere da amostra
  • Pessoas que não têm acesso a programas multidisciplinares de reabilitação em sua região
  • Indivíduos que esperam solução exclusivamente farmacológica ou cirúrgica para a dor crônica

Expectativa realista

Entender seu padrão de enfrentamento é o primeiro passo

Este estudo sugere que refletir sobre como você avalia suas dificuldades — como ameaças ou como desafios — pode ajudar a identificar caminhos para estratégias mais ativas de manejo da dor, em conjunto com seu tratamento médico.

Tempo provável

Não aplicável — estudo observacional sem acompanhamento longitudinal ou intervenção

O estudo não prova que mudar sua avaliação cognitiva melhora os resultados; apenas mostra associações que merecem ser testadas em pesquisas futuras com interven

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte ao seu médico se há programas de reabilitação multidisciplinar disponíveis para dor crônica em sua região
  2. 2Discuta como a dor tem afetado suas relações familiares e sociais, não apenas seus sintomas físicos
  3. 3Mencione se você tem se sentido deprimido ou com autoestima baixa — esses fatores podem influenciar seu enfrentamento
  4. 4Pergunte sobre técnicas de reestruturação cognitiva ou manejo do stress que possam complementar seu tratamento
  5. 5Questione se seria útil uma avaliação mais detalhada de seus padrões de coping por um profissional de saúde mental

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

A dor crônica é apenas um problema médico que precisa de mais remédios ou cirurgias

Achado

Para a maioria dos pacientes neste estudo, os principais estressores eram familiares e sociais, não a própria dor, sugerindo que o manejo precisa ser mais amplo

Mito

Quanto mais intensa a dor, mais provável que a pessoa use estratégias passivas de enfrentamento

Achado

A intensidade da dor não predisse o tipo de coping usado — a forma como a pessoa avalia a situação foi mais importante que a dor em si

Mito

Pessoas com dor crônica que parecem 'desistir' simplesmente não querem se esforçar

Achado

Avaliar situações como ameaça, estar deprimido e ter baixa autoestima formaram um padrão associado a enfrentamento emocional — fatores que podem ser trabalhados, não falta de vontade

Mito

O importante é apenas tratar a dor física; o resto se resolve sozinho

Achado

O estudo indica que trabalhar a mentalidade, o humor e a autoimagem pode ser tão relevante quanto o manejo da dor, pois esses fatores se entrelaçam no enfrentamento

Como isso pode funcionar

ESTRESSOR

Situações difíceis surgem — que podem ser relacionadas à dor, família, trabalho ou vida social

🔍

AVALIAÇÃO (provável mecanismo central)

A pessoa interpreta a situação como desafio (foco em crescimento) ou como ameaça (foco em perda) — esta avaliação parece moldar o que vem a seguir

🛤️

CAMINHO ATIVO

Se avaliado como desafio: tendência ao enfrentamento focado no problema, com ações direcionadas a gerenciar a situação — associado a melhor adaptação em estudos anteriores

🌊

CAMINHO PASSIVO

Se avaliado como ameaça, especialmente com depressão e baixa autoestima: tendência ao enfrentamento focado na emoção, tentando apenas reduzir a angústia — associado a maior dificuldade de adaptação

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se mudar a avaliação cognitiva de ameaça para desafio de fato altera o padrão de coping ao longo do tempo, pois o estudo não testou interv
  • ?A direção da causalidade entre depressão e enfrentamento passivo permanece incerta: será que a depressão leva ao coping emocional, ou será que esse pa
  • ?Não está claro se os achados se aplicam a populações mais diversas culturalmente, já que a amostra era de uma sociedade relativamente homogênea
  • ?Falta saber quais intervenções específicas seriam mais eficazes para promover avaliações de desafio e fortalecer a autoestima nesta população
🎯

O que o estudo quis responder

Investigar como pacientes com dor crônica avaliam situações estressantes e quais estratégias usam para lidar com elas

👥

QUEM PARTICIPOU

88 pessoas com dor crônica há mais de 6 meses, em programa de reabilitação multidisciplinar

🧪

COMO FOI FEITO

Avaliação de estratégias de enfrentamento, depressão, autoestima e intensidade da dor através de questionários validados

📈

O QUE DESCOBRIU

Pacientes que veem problemas como desafio usam estratégias ativas; quem vê como ameaça usa estratégias passivas

🛟

SEGURANÇA

Estudo apenas observacional, sem intervenções - apenas aplicação de questionários

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

O ESTRESSOR INVISÍVEL

A descoberta de que a maioria dos pacientes (53%) tinha como principal estressor da semana problemas familiares e sociais, não a própria dor — deslocando o foco do corpo para o contexto de vida

🧭

A MENTALIDADE SOBRE A DOR

A intensidade e duração da dor não predisseram o tipo de coping; quem importou foi a avaliação cognitiva — desafio versus ameaça — sugerindo que intervenções psicológicas podem ter papel relevante

📌

O TRIÂNGULO DA VULNERABILIDADE

Ameaça + depressão + baixa autoestima formaram um padrão associado a enfrentamento emocional passivo, identificando um perfil que pode precisar de atenção especial em programas de reabilitação

🔮

O QUE FALTA PROVAR

O estudo deixa claro que ainda não sabemos se treinar pessoas a reavaliarem ameaças como desafios de fato muda seus resultados — este é um convite para pesquisas futuras, não uma conclusão definitiva

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Como Pacientes Lidam com a Dor Crônica: O Papel das Estratégias Psicológicas

Viver com dor crônica representa uma experiência que transcende o desconforto físico, envolvendo múltiplas dimensões da vida pessoal, familiar e social. Para compreender melhor essa realidade complexa, pesquisadores noruegueses liderados por Elin Dysvik conduziram um estudo com 88 pacientes que buscavam tratamento em um programa multidisciplinar de manejo da dor. O trabalho, publicado em 2005 no International Journal of Nursing Studies, teve como objetivo central investigar como essas pessoas avaliam as situações estressantes de suas vidas e quais estratégias utilizam para lidar com elas, fundamentando-se no modelo teórico de stress e enfrentamento desenvolvido por Lazarus e Folkman em 1984.

O estudo adotou um desenho transversal, o que significa que todos os dados foram coletados em um único momento específico — durante a avaliação pré-tratamento de rotina dos pacientes. Os participantes eram adultos entre 18 e 67 anos, com dor crônica não maligna há mais de seis meses, que já haviam completado investigação médica e demonstrado motivação para participar de um programa de reabilitação ativo. A maioria era do sexo feminino (83%), com idade média de 46 anos, e a duração média da dor correspondia a 22% da vida total dos participantes — um dado que ilustra a natureza verdadeiramente prolongada e invasiva dessa condição.

Para capturar a complexidade da experiência vivida, os pesquisadores utilizaram uma bateria de questionários validados internacionalmente. O Ways of Coping Checklist-Revised avaliou as estratégias de enfrentamento, distinguindo entre o enfrentamento focado no problema — que engloba ações direcionadas a resolver ou gerenciar a situação de forma ativa — e o enfrentamento focado na emoção, que envolve tentativas de controlar a angústia emocional quando a situação é percebida como inalterável. A escala de depressão de Zung e a escala de autoestima de Rosenberg completaram a avaliação, permitindo explorar como o humor e a autoimagem se relacionavam com o modo de lidar com a dor. A intensidade da dor foi medida por uma escala visual analógica de 0 a 100, oferecendo uma medida contínua da experiência dolorosa.

Os resultados revelaram padrões que desafiam uma visão puramente biomédica da dor crônica. Apenas 38% dos participantes identificaram a própria saúde como seu principal estressor da semana anterior. A maioria, 53%, apontou problemas familiares e sociais como a fonte principal de stress — um achado que reforça a dimensão multidimensional da dor crônica e como ela irradia para todas as esferas da existência, afetando relacionamentos, dinâmicas familiares e participação social. Questões de trabalho ou estudos apareceram em apenas 9% dos relatos, sugerindo que, para essa população, os conflitos no ambiente laboral ou acadêmico eram secundários frente às demandas do convívio familiar e social.

Outro dado preocupante emergiu da análise: 35% dos participantes apresentavam escores compatíveis com depressão, evidenciando a sobrecarga emocional significativa que acompanha a vivência com dor persistente.

A análise estatística mais detalhada, conduzida por meio de regressão hierárquica em quatro etapas, trouxe insights ainda mais refinados sobre os mecanismos psicológicos envolvidos. Quando os pesquisadores investigaram quais fatores prediziam o uso de estratégias ativas de enfrentamento focado no problema, apenas um elemento se destacou de maneira estatisticamente significativa: a avaliação da situação como um desafio a ser superado, em vez de uma ameaça. Isso sugere que a mentalidade — a forma como interpretamos nossas dificuldades — pode ser mais determinante que a intensidade da dor, a duração do problema ou características demográficas para mobilizar recursos ativos de coping. Curiosamente, variáveis como idade, educação, sexo, estado civil, intensidade da dor e duração da dor não mostraram associação significativa com o enfrentamento focado no problema, reforçando o papel central da avaliação cognitiva.

Por outro lado, o enfrentamento focado na emoção foi predito por três fatores em conjunto: ver a situação como ameaça, apresentar sintomas depressivos e ter autoestima reduzida. Esses três elementos formaram um padrão coerente que os autores associam a maior dificuldade de adaptação e menor participação ativa na reabilitação. A análise mostrou que, após a inclusão dessas variáveis psicológicas, o modelo explicava 60% da variância no uso de estratégias emocionais, um valor considerável em pesquisas dessa natureza. A correlação entre depressão e autoestima foi forte (r = 0,69), indicando que esses construtos emocionais estão profundamente entrelaçados na experiência da dor crônica.

É fundamental interpretar esses achados com prudência e reconhecer as limitações do estudo. Por ser transversal, o desenho não permite estabelecer causalidade nem concluir se a depressão leva ao enfrentamento passivo ou se esse padrão de coping contribui para a manutenção da depressão — a relação provavelmente é bidirecional e dinâmica, com feedback mútuo ao longo do tempo. Além disso, a amostra foi recrutada em um único centro de reabilitação, com critérios de inclusão que exigiam motivação para tratamento ativo, o que pode não refletir a população mais ampla de pessoas com dor crônica, incluindo aquelas mais desengajadas ou com barreiras de acesso. A dependência exclusiva de autorrelatos também constitui uma limitação reconhecida pelos próprios autores, pois pode estar sujeita a vieses de memória, desejabilidade social e falta de insight sobre os próprios padrões de comportamento.

A heterogeneidade de conceitos e instrumentos na literatura sobre coping também dificulta comparações diretas com outros estudos.

Do ponto de vista prático e clínico, os resultados sugerem que intervenções que ajudem pacientes a reestruturar cognitivamente suas avaliações — transformando percepções de ameaça em percepções de desafio — podem ser tão relevantes quanto o manejo direto da dor. Os autores mencionam especificamente técnicas de reestruturação cognitiva, treinamento em relaxamento e programas de fortalecimento da autoestima como abordagens com potencial de promover mudanças benéficas. A ideia central é que, na ausência de cura ou alívio total da dor, reduzir níveis de stress e promover enfrentamento otimizado deve constituir um objetivo maior da reabilitação. A mensagem para pacientes é que a forma como encaramos nossos problemas não é fixa nem predeterminada: com apoio adequado, é possível desenvolver novas formas de avaliar e enfrentar as situações difíceis, o que pode abrir caminho para estratégias mais ativas e, potencialmente, para uma melhor qualidade de vida mesmo quando a dor persiste de maneira crônica.

O que fortalece a leitura

  • 1Uso de questionários validados internacionalmente
  • 2Amostra representativa de diferentes regiões da Noruega
  • 3Base teórica sólida em modelo reconhecido de stress e enfrentamento
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Estudo transversal - não mostra mudanças ao longo do tempo
  • 2Amostra pequena de uma única população
  • 3Baseado apenas em autorrelatos dos pacientes
  • 4Método de recrutamento pode limitar generalização

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
3/5
Amostra
3/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

88pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Pacientes com dor crônica

88 pessoas

Avaliação pré-tratamento com questionários

⏱️ Tempo de acompanhamento: Avaliação única antes do tratamento

📊 Resultados em números

0%

Principais estressores relacionados à vida familiar e social

0%

Estressores relacionados à própria saúde

0%

Pacientes com sinais de depressão

22% da vida

Duração média da dor

Destaques percentuais

53%
Principais estressores relacionados à vida familiar e social
38%
Estressores relacionados à própria saúde
35%
Pacientes com sinais de depressão
22% da vida
Duração média da dor

📊 Comparação de Resultados

Tipos de estressores principais

Família/social
53
Saúde própria
38
Trabalho
9

📅 Linha do tempo da evidência

1984Lazarus e Folkman desenvolvem modelo teórico de stress e enfrentamento
1991Jensen et al. fazem primeira revisão sobre enfrentamento em dor crônica
1999Crescente reconhecimento da dor crônica como fenômeno multidimensional
2005Dysvik et al. investigam padrões de enfrentamento em pacientes noruegueses

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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