Estudo científico comentado

Expectativas dos pacientes predizem resultados de tratamentos para dor crônica

Referência acadêmica

Periódico

Pain

Ano

2016

Autores

Cormier et al.

Desenho

estudo observacional

Este estudo grande mostrou que aquilo que você espera do seu tratamento realmente faz diferença nos resultados. Pacientes que tinham expectativas mais otimistas sobre melhora da dor e qualidade de vida apresentaram melhores resultados após 6 meses de tratamento multidisciplinar. Isso não significa que basta 'pensar positivo', mas sim que suas expectativas são uma parte importante do processo de melhora e devem ser consideradas pelos profissionais no planejamento do tratamento.

Título original do estudo: Expectations predict chronic pain treatment outcomes

📊estudo observacional👥n=2.272 participantes🎯impacto clínico moderado
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Expectativas mais positivas antes do tratamento multidisciplinar para dor crônica estiveram associadas a melhores resultados em dor, função e qualidade de vida após 6 meses, embora a causalidade definitiva não possa ser estabelecida por este estudo observacion

O que isso significa para você?

Este estudo grande mostrou que aquilo que você espera do seu tratamento realmente faz diferença nos resultados. Pacientes que tinham expectativas mais otimistas sobre melhora da dor e qualidade de vida apresentaram melhores resultados após 6 meses de tratamento multidisciplinar. Isso não significa que basta 'pensar positivo', mas sim que suas expectativas são uma parte importante do processo de melhora e devem ser consideradas pelos profissionais no planejamento do tratamento.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Suas expectativas antes do tratamento são um ingrediente ativo do processo de melhora, com efeito real sobre o resultado
  • 2Falar abertamente com sua equipe sobre o que você espera ajuda a alinhar objetivos e construir confiança
  • 3Prestar atenção nas pequenas conquistas — um dia melhor, uma atividade retomada — fortalece a percepção de progresso
  • 4Não há evidência neste estudo de que esperar muito seja prejudicial; o que importa é que a expectativa seja genuína e compartilhada
  • 5O tratamento multidisciplinar, que cuida de você como um todo, parece criar condições para que expectativas positivas se realizem
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Quais são minhas expectativas realistas para este tratamento em 6 meses — em dor, função e qualidade de vida?
  • 2Como podemos trabalhar juntos se eu tendo a ser muito pessimista ou ansioso sobre resultados?
  • 3O programa acompanha minha percepção de mudança ao longo do tempo, além de medir a dor?
  • 4Quais estratégias podem me ajudar a notar e valorizar progressos que possam parecer pequenos no dia a dia?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo não avaliou segurança de intervenções específicas; o cuidado multidisciplinar personalizado é geralmente bem tolerado, mas riscos dependem das modalidades individuais u
  • 2A ausência de eventos adversos reportados não significa ausência de riscos — a coleta não foi sistemática para este fim
  • 3Expectativas não substituem tratamento adequado: são um complemento, não uma alternativa a cuidados médicos baseados em evidência
  • 4A extrapolação para contextos diferentes dos centros universitários canadenses requer cautela

Leitura rápida para pacientes

O que você espera importa — e pode ser trabalhado

Um grande estudo canadense mostrou que pacientes com expectativas mais positivas antes do tratamento multidisciplinar para dor crônica tiveram melhores resultados em dor, função e

Ponto 1

Converse com sua equipe médica sobre suas expectativas — elas devem fazer parte do planejamento

Ponto 2

Pequenas melhoras percebidas ao longo do caminho ajudam a construir uma impressão positiva de mudança

Ponto 3

Não se trata de 'pensar positivo' sozinho, mas de um cuidado que integra corpo, mente e suas próprias crenças

O que este estudo acrescenta

MAIOR AMOSTRA DO TIPO

Primeiro estudo a demonstrar associação entre expectativas e resultados em programa multidisciplinar real de dor crônica com mais de 2. 000 pacientes, validando padrões em múltiplos subgrupos clínicos

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

Expectativas explicaram 23-24% da variância nos principais desfechos de dor e função — uma contribuição substancial para um único fator psicológico, embora a maior parte da variabilidade (76-77%) permaneça atribuível a o

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Analisa associações em dados coletados na prática real, sem randomização, fornecendo evidência moderada que precisa ser confirmada por ensaios clínicos

participantes analisados

2. 272

após exclusão de 838 por dados incompletos de 4. 178 inicialmente inscritos

variância da dor explicada pelo modelo

23%

combinação de expectativas e impressão de mudança como preditores

variância da interferência explicada

24%

maior efeito preditivo observado entre os desfechos medidos

pacientes com expectativa de alívio ≥90%

23,7%

incluindo 13,7% que esperavam cura completa (100%)

consultas médias no centro de dor

5

mediana de 4, com alta variabilidade (desvio-padrão de 5,3)

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

dor crônica de diversas causas (lombar, generalizada, de membros, cervical)

Tipo de estudo

coorte observacional

Participantes

2. 272 pacientes, média de 54 anos, 60% mulheres, dor média de 6,8/10

Duração

6 meses de acompanhamento

Sessões

média de 5 consultas no centro de dor (mediana de 4)

Comparador

sem grupo controle — análise de associação entre expectativas e resultados

Grupos do estudo

todos os pacientes receberam cuidado personalizado multidisciplinar

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

média de 5 atendimentos (mediana de 4), variabilidade alta (DP 5,3)

Frequência02

não padronizada — personalizada conforme necessidade

Duração da sessão03

não especificado no artigo

Pontos / técnica04

combinação personalizada de intervenções médicas (incluindo bloqueios), psicológicas (terapia individual e em grupo) e físicas

Comparador05

sem comparador — todos receberam cuidado multidisciplinar personalizado

Nota de protocolo06

61% dos pacientes receberam pelo menos 2 modalidades de tratamento diferentes; 78% tinham retorno programado após 6 meses

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pacientes com dor crônica encaminhados a centros terciários universitários95% com dor há pelo menos 3 meses, média de 6,3 anos de duraçãoMaioria com dor intensa (60% acima de 7/10) e impacto significativo na vida diáriaDiversidade de diagnósticos: lombar (32,5%), generalizada (12%), membros (24,5%), cervical (9,7%)Pacientes que completaram avaliações na entrada e após 6 mesesAmpla faixa etária: 18 a 94 anos

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pacientes que não completaram as medidas de acompanhamento (838 excluídos por dados incompletos)Pacientes atendidos em centros não universitários ou de atenção primária/secundáriaIndivíduos com dor aguda (menos de 3 meses, na maioria dos casos)Pacientes que recusaram consentimento para uso dos dados em pesquisa

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

intensidade da dor

melhorou

expectativas positivas de alívio associadas a maior redução da dor; 23% da variância explicada pelo modelo

🏃

interferência da dor na vida diária

melhorou

24% da variância nas mudanças explicada; pacientes com alta expectativa relataram menos impacto em atividades como trabalho, sono e relacionamentos

🧠

catastrofização

melhorou

15% da variância explicada; expectativas positivas associadas a menor tendência de amplificar o negativo

😊

satisfação com o tratamento

melhorou

14% da variância explicada; quem esperava mais ficou mais satisfeito com o cuidado recebido

🎯

impressão global de mudança

melhorou

variável mediadora central: expectativas moldaram como pacientes perceberam sua própria evolução

O que não mudou

  • Sintomas depressivos não variaram consistentemente com a força das expectativas de alívio da dor
  • Expectativas de melhora no funcionamento não se mostraram preditoras significativas dos resultados

Quando a melhora apareceu

1

6 meses após início

avaliação de 6 meses

melhoras em dor, interferência, catastrofização e satisfação foram mensuradas neste único ponto de acompanhamento

Antes e depois

dor média na semana (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes6.8 pontos
Depois6 pontos

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Estudo observacional sem intervenções experimentais; nenhum evento adverso reportado
  • Cuidado multidisciplinar personalizado é abordagem estabelecida e bem tolerada
Amarelo
  • Expectativas muito altas (90-100% de alívio) foram comuns (23,7%) e não se mostraram prejudiciais, mas a longo prazo não foi avaliado
  • A associação entre expectativas e depressão foi inconsistente, sugerindo que este desfecho merece atenção especial
Vermelho
  • Segurança específica não foi um foco do estudo; dados de eventos adversos não foram sistematicamente coletados
  • Amostra de centros terciários pode não refletir a realidade de outros contextos de atenção

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pacientes com dor crônica de múltiplas causas encaminhados a programas multidisciplinares
  • Pessoas que conseguem identificar e expressar suas expectativas sobre o tratamento
  • Pacientes motivados a participar ativamente do cuidado combinado médico-psicológico-físico
  • Indivíduos com dor intensa e impacto significativo na vida diária, semelhantes à amostra estudada

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com dados incompletos ou dificuldade de acompanhamento em longo prazo
  • Indivíduos atendidos exclusivamente na atenção primária, sem acesso a centros multidisciplinares
  • Pacientes com dor aguda ou condições que não se enquadram no perfil de dor crônica do estudo
  • Pessoas cuja depressão é o sintoma predominante, já que este desfecho não se associou consistentemente às expectativas

Expectativa realista

Suas expectativas são parte do tratamento

Pacientes que entraram no tratamento com expectativas mais positivas sobre alívio da dor e qualidade de vida tiveram, em média, melhores resultados após 6 meses — incluindo menos dor, menos interferência nas atividades e maior satisfação

Tempo provável

os resultados foram avaliados após 6 meses de acompanhamento

Isso não significa que 'basta pensar positivo': o estudo mostra associação, não causação comprovada, e 76% da melhora ainda depende de outros fatores

Checklist para consulta

  1. 1Conversar abertamente sobre o que você espera do tratamento: alívio de quantos por cento? Em quais áreas da vida?
  2. 2Perguntar como a equipe pode ajudar a construir expectativas realistas e baseadas em evidências
  3. 3Discutir preocupações ou pessimismo prévios — eles são compreensíveis e podem ser trabalhados
  4. 4Perguntar sobre estratégias para perceber e valorizar pequenas melhoras ao longo do caminho
  5. 5Verificar se o programa inclui acompanhamento de satisfação e impressão de mudança

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Expectativas altas demais são prejudiciais e devem ser 'baixadas'

Achado

Pacientes com expectativas de 90-100% de alívio tiveram os melhores resultados, desafiando a ideia de que otimismo excessivo é danoso

Mito

A melhora foi apenas psicológica, não real

Achado

A impressão de mudança mediou parte do efeito, mas mudanças mensuráveis em dor, função e catastrofização também ocorreram, indicando benefício clínico real

Mito

Funciona para dor, mas não para outros problemas

Achado

Benefícios foram observados em múltiplos domínios: dor, interferência, catastrofização e satisfação, embora depressão tenha mostrado associação mais fraca

Mito

Só funciona para certos tipos de paciente

Achado

Os padrões de associação se mantiveram consistentes em subgrupos por sexo, idade, duração da dor e diagnóstico

Como isso pode funcionar

💭

EXPECTATIVAS PRÉ-TRATAMENTO

Paciente forma expectativas sobre alívio da dor e melhora na qualidade de vida antes de iniciar o programa — baseadas em experiências anteriores, informações recebidas e traços pessoais de otimismo

🔄

IMPRESSÃO DE MUDANÇA (MEDIADORA PROPOSTA)

Durante o tratamento, expectativas positivas parecem moldar como o paciente percebe e interpreta sinais de melhora — mecanismo parcialmente mediador, não totalmente compreendido

🧬

POSSÍVEIS VIAS ADICIONAIS (HIPOTÉTICAS)

Autores sugerem que adesão ao tratamento, redução de ansiedade e respostas neurobiológicas de modulação da dor podem também participar — mas requerem confirmação em estudos futuros

📊

RESULTADOS CLÍNICOS

Maior redução de dor, menor interferência nas atividades, menos catastrofização e maior satisfação com o tratamento, mensurados após 6 meses

O que ainda é incerto

  • ?Causalidade não estabelecida: otimismo disposicional ou gravidade da condição podem explicar parte da associação observada
  • ?Acompanhamento de apenas 6 meses não permite saber se os efeitos se mantêm a longo prazo
  • ?Mecanismo exato permanece parcialmente especulativo — adesão, ansiedade e fatores neurobiológicos precisam de mais estudos
  • ?Todos os dados foram de autorrelato, sem validação por avaliadores independentes ou medidas objetivas
🎯

O que o estudo quis responder

investigar se expectativas antes do tratamento predizem melhora clínica em programas multidisciplinares de dor

👥

QUEM PARTICIPOU

2. 272 pacientes com dor crônica tratados em 3 centros universitários multidisciplinares

🧪

COMO FOI FEITO

medição das expectativas antes do tratamento e acompanhamento dos resultados clínicos por 6 meses

📈

O QUE MUDOU

pacientes com expectativas mais positivas tiveram melhores resultados em dor, função e qualidade de vida

🛟

SEGURANÇA

estudo observacional sem intervenções específicas, sem eventos adversos reportados

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

EXPECTATIVAS 'ALTAS DEMAIS' NÃO FORAM PREJUDICIA

Contrariando a crença clínica comum, pacientes que esperavam 90-100% de alívio tiveram os melhores resultados, não os piores — sugerindo que moderar artificialmente as esperanças pode não ser benéfico

🧭

IMPRESSÃO DE MUDANÇA COMO MEDIDORA CENTRAL

O estudo revelou que grande parte do efeito das expectativas passa pela percepção subjetiva de melhora, não diretamente pela redução da dor — destacando a importância de como avaliamos nossa própria evolução

📌

CONSISTÊNCIA ATRAVÉS DE DIFERENTES PERFILS

Os padrões se mantiveram em análises separadas por sexo, idade, tempo de dor e tipo de diagnóstico — indicando que o papel das expectativas transcende características individuais específicas

🔍

LACUNA: FUNCIONAMENTO E DEPRESSÃO

Expectativas de melhora no funcionamento não predisseram resultados, e depressão não variou com expectativas de alívio — pontos que ainda precisam de esclarecimento

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Expectativas dos pacientes predizem resultados de tratamentos para dor crônica

Quando você está prestes a iniciar um tratamento para dor crônica, o que você espera que aconteça? Essa pergunta, aparentemente simples, esconde um dos fatores mais intrigantes da medicina moderna: as expectativas dos pacientes não são apenas pensamentos passageiros — elas parecem moldar, em parte, os resultados reais do tratamento. O estudo de Cormier e colaboradores, publicado em 2016 na revista Pain, mergulhou profundamente nessa questão, analisando dados de 2. 272 pacientes atendidos em três centros universitários de tratamento multidisciplinar de dor no Canadá.

O contexto clínico é importante para entender por que esse estudo faz sentido. A dor crônica afeta milhões de pessoas e os programas multidisciplinares — que combinam abordagens médicas, psicológicas e físicas personalizadas — são considerados o padrão-ouro de tratamento. No entanto, nem todos os pacientes se beneficiam igualmente. Alguns melhoram significativamente; outros, não tanto.

Os pesquisadores queriam entender se parte dessa variabilidade poderia ser explicada pelo que os pacientes esperavam antes mesmo de começar o tratamento.

O desenho do estudo foi observacional, o que significa que os pesquisadores não interferiram no tratamento oferecido — apenas acompanharam o que aconteceu naturalmente. Todos os 2. 272 participantes tinham dor crônica, na maioria dos casos com mais de três meses de duração, e foram encaminhados aos centros por seus médicos assistentes. A idade média era de aproximadamente 54 anos, com quase 60% de mulheres.

A dor lombar era o diagnóstico mais comum, presente em cerca de um terço dos pacientes, mas havia também dores generalizadas, de membros e cervicais. A gravidade era considerável: mais da metade relatava dor intensa, acima de 7 em uma escala de 0 a 10, e cerca de 44% apresentavam níveis moderados a graves de depressão.

Antes do primeiro atendimento, os pacientes responderam a questionários sobre suas expectativas. Eles indicaram o percentual de alívio da dor que esperavam obter em seis meses — numa escala de 0 a 100% — e também avaliaram o quanto esperavam melhorar sua qualidade de vida e seu funcionamento. Os resultados revelaram um espectro amplo de esperanças: quase 24% dos pacientes esperavam alívio de 90% a 100%, incluindo 13,7% que esperavam cura completa. Cerca de 60% tinham expectativas moderadas, entre 40% e 80% de melhora, enquanto 16% esperavam pouco ou nada.

Seis meses depois, os pesquisadores compararam essas expectativas iniciais com os resultados reais, usando análises estatísticas sofisticadas chamadas modelagem de equações estruturais. Os achados foram consistentes. Pacientes com expectativas mais positivas sobre alívio da dor e melhora na qualidade de vida apresentaram, de fato, melhores resultados em praticamente todas as medidas: redução da intensidade da dor, menor interferência da dor nas atividades diárias, menos catastrofização (aquela tendência de pensar no pior cenário possível) e maior satisfação com o tratamento. As expectativas explicaram 23% da variância nas mudanças de dor e 24% da variância na interferência da dor — números clinicamente relevantes, especialmente considerando que a dor crônica é influenciada por dezenas de fatores.

Um mecanismo emergiu: grande parte desse efeito parecia ser mediada pela "impressão global de mudança" dos pacientes. Ou seja, as expectativas positivas não agiram diretamente sobre a dor em si, mas moldaram como os pacientes percebiam e interpretavam suas próprias melhoras ao longo do tempo. Isso não significa que a melhora foi "apenas na cabeça" — a percepção é uma experiência real, e como interpretamos nossos sintomas influencia nosso comportamento, nossa adesão ao tratamento e nosso envolvimento ativo na recuperação. Os autores discutem que expectativas mais altas podem aumentar a motivação para seguir recomendações, reduzir a ansiedade e até ativar respostas neurobiológicas que modulam a experiência dolorosa.

Curiosamente, expectativas muito altas — aquelas consideradas "irrealistas" por alguns clínicos — não foram prejudiciais. Pelo contrário: pacientes que esperavam alívio de 90% a 100% tiveram os melhores resultados, desafiando a noção de que é necessário "moderar" as esperanças dos pacientes para protegê-los de decepções. Os resultados se mantiveram consistentes quando analisados separadamente por sexo, idade, duração da dor e tipo de diagnóstico, sugerindo uma robustez importante.

No entanto, é fundamental interpretar esses achados com prudência. Como o estudo foi observacional, não podemos afirmar com certeza que as expectativas causaram as melhoras — apenas que estavam fortemente associadas. Pode haver fatores de confusão: pessoas mais otimistas por natureza podem ter melhores resultados independentemente do tratamento, ou pacientes com condições menos severas podem ter desenvolvido expectativas mais positivas. Além disso, o acompanhamento de apenas seis meses é relativamente curto para a dor crônica, e todos os dados foram baseados em autorrelatos, sem medidas objetivas como exames de imagem ou avaliações clínicas independentes.

O estudo foi realizado em centros terciários universitários, com recursos e estruturas que podem não refletir a realidade de clínicas menores ou de atenção primária.

Para você, paciente, o que isso significa na prática? Primeiro, que suas expectativas importam — e devem ser parte da conversa com sua equipe médica. Não se trata de "pensar positivo" de forma ingênua, mas de construir, junto com seus médicos, uma compreensão realista e esperançosa do que o tratamento pode oferecer. Segundo, que a percepção da sua própria melhora é uma peça-chave do quebra-cabeça: prestar atenção nas pequenas conquistas, nos dias um pouco melhores, nas atividades que você consegue retomar, pode amplificar os benefícios do tratamento.

Terceiro, que programas multidisciplinares, que olham para você como um todo — corpo e mente —, parecem criar um ambiente onde expectativas positivas podem florescer e se traduzir em resultados concretos. Finalmente, se você tende a ser pessimista sobre tratamentos, isso não é uma sentença — mas pode valer a pena discutir essas preocupações abertamente, para que elas sejam acolhidas e trabalhadas como parte do processo terapêutico.

O que fortalece a leitura

  • 1amostra muito grande e representativa
  • 2seguimento de 6 meses com medidas padronizadas
  • 3múltiplos centros de tratamento
  • 4análise estatística robusta com modelagem de equações estruturais
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1estudo observacional não permite estabelecer causalidade definitiva
  • 2seguimento de apenas 6 meses
  • 3realizado apenas em centros terciários universitários
  • 4baseado principalmente em autorrelatos dos pacientes

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
5/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

2272pessoas avaliadas
divisão dos grupos

todos os pacientes

2272 pessoas

cuidado personalizado multidisciplinar (médico, psicológico e/ou físico)

⏱️ Tempo de acompanhamento: 6 meses de acompanhamento

📊 Resultados em números

0%

variância explicada nas mudanças da dor

0%

variância explicada na melhora da interferência da dor

0%

pacientes com alta expectativa de alívio (90-100%)

0%

pacientes que esperavam cura completa

Destaques percentuais

23%
variância explicada nas mudanças da dor
24%
variância explicada na melhora da interferência da dor
23.7%
pacientes com alta expectativa de alívio (90-100%)
13.7%
pacientes que esperavam cura completa

📊 Comparação de Resultados

intensidade média da dor (escala 0-10)

baseline
6.8

📅 Linha do tempo da evidência

1960primeiros estudos sobre expectativa e placebo em psicologia
1985teoria da expectativa de resposta de Kirsch estabelece bases teóricas
2005evidências crescentes sobre neurobiologia das expectativas na dor
2016este estudo demonstra impacto das expectativas em tratamento multidisciplinar real

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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