Estudo científico comentado

Auriculoterapia mostra-se segura para depressão, mas são necessários estudos maiores para confirmar eficácia

Referência acadêmica

Periódico

JAMA Network Open

Ano

2023

Autores

Rodrigues et al.

Desenho

Ensaio Clínico Randomizado

Este estudo testou se a auriculoterapia (agulhas semipermanentes na orelha) pode ajudar pessoas com depressão. Embora ambos os grupos tenham melhorado, quem recebeu o tratamento específico para depressão teve mais chance de ficar livre dos sintomas após 3 meses. O tratamento mostrou-se muito seguro, causando apenas dor leve no local das agulhas. Os resultados são promissores, mas estudos maiores são necessários para confirmar se a técnica realmente funciona melhor que outras opções.

Título original do estudo: Efficacy and Safety of Auricular Acupuncture for Depression: A Randomized Clinical Trial

🎯Ensaio Clínico Randomizado👥n=74 participantes⚖️Evidência preliminar
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Auriculoterapia específica para depressão foi segura e mostrou vantagem na remissão completa dos sintomas aos 3 meses (46% vs 13%), mas o efeito principal de melhora sintomática não foi estatisticamente significativo em um estudo pequeno com alta perda de segu

O que isso significa para você?

Este estudo testou se a auriculoterapia (agulhas semipermanentes na orelha) pode ajudar pessoas com depressão. Embora ambos os grupos tenham melhorado, quem recebeu o tratamento específico para depressão teve mais chance de ficar livre dos sintomas após 3 meses. O tratamento mostrou-se muito seguro, causando apenas dor leve no local das agulhas. Os resultados são promissores, mas estudos maiores são necessários para confirmar se a técnica realmente funciona melhor que outras opções.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Auriculoterapia específica mostrou-se segura como complemento ao tratamento de depressão moderada, com boa tolerabilidade
  • 2O benefício mais consistente foi a remissão completa dos sintomas aos 3 meses, não a melhora imediata durante as sessões
  • 3A técnica exige comprometimento: duas sessões semanais por 6 semanas mais estimulação manual 3 vezes ao dia em casa
  • 4Não é substituto de medicamentos ou psicoterapia; todos os participantes do estudo continuaram seu tratamento habitual
  • 5A evidência ainda é preliminar; converse com seu médico sobre se faz sentido para seu caso específico
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Esta auriculoterapia será feita por profissional com experiência equivalente à do estudo (mínimo 10 anos) e usando agulhas semipermanentes com localizador de pontos?
  • 2Como vamos monitorar meus sintomas depressivos e sinais de piora, especialmente nas primeiras semanas?
  • 3Auriculoterapia vai complementar ou substituir meu tratamento atual? O estudo mostrou segurança apenas como complemento
  • 4Se eu sentir dor excessiva ou notar inflamação no local das agulhas, qual é o protocolo de comunicação e ajuste?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Auriculoterapia foi segura neste estudo, mas a amostra pequena e o seguimento incompleto limitam a detecção de eventos raros
  • 2Dor leve no local é esperada e quase universal; dor intensa ou inflamação persistente exigem remoção das agulhas e avaliação
  • 3Monitoramento de ideação suicida é essencial, pois depressão pode piorar independentemente do tratamento; 7 participantes tiveram ideação suicida durante o estudo
  • 4Não há dados de segurança para depressão severa, gestantes, pessoas com distúrbios de coagulação ou que usam anticoagulantes

Leitura rápida para pacientes

Auriculoterapia pode ajudar, mas ainda é cedo para certeza

Estudo brasileiro mostrou segurança e sinal promissor de remissão da depressão, com resultados mais claros após 3 meses

Ponto 1

12 sessões em 6 semanas, com agulhas na orelha e estimulação caseira 3x ao dia

Ponto 2

Quase metade (46%) atingiu remissão completa aos 3 meses com pontos específicos, contra 13% com pontos genéricos

Ponto 3

Tratamento seguro, mas não substitui acompanhamento psiquiátrico; estudos maiores são necessários

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRO ENSAIO DESTE TIPO

Primeiro estudo randomizado a comparar auriculoterapia específica vs. não específica para depressão usando agulhas semipermanentes, consideradas mais eficazes que outros estímulos auriculares

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A diferença de 33 pontos percentuais na remissão (46% vs 13%) é clinicamente relevante, pois remissão completa está associada a melhor funcionamento e prognóstico. No entanto, o desfecho principal (recuperação de 50%) nã

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um estudo experimental com alocação aleatória, que oferece evidência de maior qualidade que estudos observacionais, mas ainda é preliminar devido ao tamanho amostral reduzid

Participantes incluídos

74

37 em cada grupo, menor que a meta de 80 planejada

Remissão aos 3 meses

46% vs 13%

Diferença estatisticamente significativa favorável à auriculoterapia específica

Recuperação aos 3 meses

58% vs 43%

Diferença numérica, mas não estatisticamente significativa

Dor leve no local

94%

Efeito colateral mais comum no grupo específico, bem tolerado

Abandono por eventos adversos

5 pacientes (7%)

3 por dor local no grupo específico, 1 por dor e 1 por inflamação no controle

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Depressão moderada a moderadamente severa

Tipo de estudo

Ensaio clínico randomizado

Participantes

74 adultos (84% mulheres, mediana de 29 anos)

Duração

6 semanas de tratamento com seguimento de 3 meses

Sessões

12 sessões

Comparador

Auriculoterapia não específica com pontos superficiais não relacionados à saúde mental

Grupos do estudo

Auriculoterapia específica para depressãoAuriculoterapia não específica (controle)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

12 sessões

Frequência02

2 vezes por semana, alternando orelha direita e esquerda

Duração da sessão03

15 minutos por sessão

Pontos / técnica04

6 pontos específicos (Shenmen, subcórtex, coração, pulmão, fígado, rim) com agulhas semipermanentes de 2,5 mm, localizadas com dispositivo EL11

Comparador05

Pontos não específicos (orelha externa, bochecha/face, 4 pontos na hélice) com agulhas mais curtas de 1,0 mm

Nota de protocolo06

Todos os participantes continuaram tratamento habitual por questões éticas; estimulação manual domiciliar 3x ao dia (deqi) foi exigida em ambos os grupos

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos de 18 a 50 anosDepressão moderada (PHQ-9: 10-14) ou moderadamente severa (PHQ-9: 15-19)Maioria feminina (84%), predominantemente branca (82%)Residentes em Santa Catarina, Brasil, recrutados em centros universitáriosAlguns já usavam medicação antidepressiva (22% no grupo específico, 11% no controle)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com depressão severa (PHQ-9 > 20)Indivíduos com risco de ideação suicidaQuem já havia feito auriculoterapia anteriormenteCrianças, adolescentes menores de 18 anos e adultos acima de 50 anosQuem fazia uso de medicina complementar no momento da triagem

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Remissão de sintomas depressivos

melhorou

46% do grupo específico atingiu remissão completa (PHQ-9 < 5) aos 3 meses, contra 13% do controle — diferença estatisticamente significativa

📊

Recuperação sintomática (redução ≥50%)

melhorou numericamente

58% vs 43% aos 3 meses, mas sem atingir significância estatística devido ao tamanho amostral limitado

🧘

Escores de depressão ao longo do tempo

reduziu em ambos os grupos

Mediana do PHQ-9 diminuiu progressivamente em ambos os grupos, com valores consistentemente menores no grupo específico

Efeito tardio diferenciado

surgiu após o término do tratamento

A vantagem do grupo específico na remissão só se manifestou no seguimento de 3 meses, não durante as 6 semanas de tratamento ativo

O que não mudou

  • Não houve diferença significativa na taxa de eventos adversos entre os grupos, indicando que a auriculoterapia específica não foi menos segura que a n
  • Não houve diferença no sucesso do cegamento: participantes não conseguiram adivinhar corretamente qual tratamento receberam, e a percepção de eficácia
  • A melhora na escala contínua PHQ-9 não atingiu diferença estatisticamente significativa entre os grupos em nenhum momento

Quando a melhora apareceu

1

4 semanas

4 semanas

Proporções de recuperação e remissão já eram numericamente maiores no grupo específico, mas sem diferença estatística significativa

2

6 semanas

6 semanas

Recuperação de 38% vs 40% (sem diferença); remissão de 27% vs 20% (sem diferença significativa)

3

3 meses

3 meses

Remissão significativamente maior no grupo específico (46% vs 13%); recuperação de 58% vs 43% (não significativa)

Antes e depois

Mediana PHQ-9 — Grupo específico

escala máx. 27 pontos

Antes14 pontos
Depois6 pontos

Mediana PHQ-9 — Grupo controle

escala máx. 27 pontos

Antes16 pontos
Depois8 pontos

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Nenhum evento adverso grave foi registrado em nenhum dos grupos
  • Dor leve no local foi o efeito mais comum, relatada por mais de 90% dos participantes, mas bem tolerada
  • Auriculoterapia específica não apresentou mais efeitos colaterais que a não específica
Amarelo
  • 5 participantes (7%) abandonaram o estudo por eventos adversos, principalmente dor local
  • 7 indivíduos apresentaram ideação suicida em algum momento, embora não considerada relacionada à intervenção
  • Inflamação local moderada ocorreu em 1 participante, exigindo tratamento
Vermelho
  • Estudo pequeno limita a detecção de eventos raros ou tardios
  • Seguimento incompleto (36% de perdas) pode subestimar problemas de segurança em uso prolongado
  • Não há dados sobre segurança em depressão severa, gestação, ou uso concomitante com anticoagulantes

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com depressão moderada a moderadamente severa que buscam complemento ao tratamento habitual
  • Pessoas que preferem abordagens não farmacológicas ou têm dificuldade de adesão a antidepressivos
  • Pacientes com acesso a profissionais experientes em auriculoterapia (mínimo 10 anos de prática, conforme o estudo)
  • Indivíduos dispostos a realizar estimulação manual domiciliar 3 vezes ao dia durante o tratamento

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com depressão severa ou ideação suicida ativa (excluídos do estudo por segurança)
  • Quem já fez auriculoterapia anteriormente (pode haver efeito de aprendizado ou expectativa diferente)
  • Crianças, adolescentes e adultos acima de 50 anos (fora da faixa etária estudada)
  • Quem não consegue manter frequência de duas sessões semanais por 6 semanas
  • Indivíduos com hipersensibilidade cutânea grave ou infecções ativas na região auricular

Expectativa realista

Melhora gradual que pode se consolidar após o término

Se houver benefício, ele pode aparecer de forma mais clara algumas semanas após as 12 sessões, não necessariamente durante o tratamento intenso

Tempo provável

Avaliação mais realista aos 3 meses após o início

A maioria dos participantes de ambos os grupos melhorou em algum grau, então parte do efeito pode ser atribuída a fatores não específicos do acompanhamento

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se há experiência com auriculoterapia específica para depressão e uso de agulhas semipermanentes com localizador de pontos neuroativos
  2. 2Verificar se o profissional tem formação adequada e experiência clínica significativa (o estudo usou acupunturistas com mínimo de 10 anos)
  3. 3Discutir como a auriculoterapia se integrará ao tratamento atual — nunca como substituto de cuidados psiquiátricos estabelecidos
  4. 4Perguntar sobre plano de monitoramento de ideação suicida e sinais de piora, especialmente nas primeiras semanas
  5. 5Esclarecer se haverá orientação para estimulação manual domiciliar e como proceder em caso de dor excessiva ou inflamação

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Auriculoterapia cura a depressão rapidamente

Achado

O benefício mais claro apareceu apenas aos 3 meses, não durante as 6 semanas de tratamento, e mesmo assim foi em remissão parcial dos sintomas

Mito

Qualquer agulha na orelha funciona igual

Achado

O grupo com pontos específicos teve remissão significativamente maior que o grupo com pontos não relacionados à saúde mental (46% vs 13%)

Mito

Auriculoterapia é totalmente inocente, sem qualquer desconforto

Achado

Dor leve no local foi quase universal (94%), e 7% dos participantes abandonaram por eventos adversos, embora nenhum tenha sido grave

Mito

Pode substituir antidepressivos e psicoterapia

Achado

Todos os participantes continuaram seu tratamento habitual; o estudo testou auriculoterapia como complemento, nunca como substituto

Como isso pode funcionar

👂

ESTÍMULO AURICULAR

Agulhas semipermanentes são aplicadas em pontos específicos da orelha, estimulando terminações nervosas ricas na região

🧠

MODULAÇÃO DO NERVO VAGO

A concha da orelha tem distribuição do nervo vago; a estimulação pode aumentar a atividade parassimpática — mecanismo proposto, não comprovado diretamente neste estudo

⚖️

REGULAÇÃO DO EIXO HPA

Hipótese de que a auriculoterapia reduz a hiperatividade do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, possivelmente preservando serotonina — baseada em estudos experimentais, não em humanos deste ensaio

⏱️

EFEITO TARDIO

A melhora mais evidente apareceu após o término das sessões, sugerindo que os mecanismos neurobiológicos levam semanas para se consolidar

O que ainda é incerto

  • ?O tamanho amostral de 74 participantes foi insuficiente para detectar com confiança a diferença de 15 pontos percentuais observada na recuperação sint
  • ?A perda de 36% dos participantes aos 3 meses introduz incerteza sobre se os resultados seriam mantidos em uma população mais completa
  • ?Não se sabe se 12 sessões em 6 semanas são o regime ideal; os autores sugerem que 16-18 sessões em 8-12 semanas poderiam ser mais efetivas
  • ?É desconhecido se homens responderiam diferentemente, dado que 84% da amostra era feminina
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar se a auriculoterapia é eficaz e segura para tratar depressão moderada

👥

QUEM PARTICIPOU

74 adultos de 18-50 anos com depressão moderada ou moderadamente severa

🧪

COMO FOI FEITO

Auriculoterapia específica vs. não-específica, 12 sessões em 6 semanas

📈

O QUE MUDOU

Grupo específico teve mais remissão de sintomas aos 3 meses (46% vs 13%)

🛟

SEGURANÇA

Tratamento foi seguro, apenas dor leve local em 94% dos pacientes

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

EFEITO TARDIO INESPERADO

A vantagem da auriculoterapia específica só apareceu no seguimento de 3 meses, não durante o tratamento, sugerindo que os benefícios se consolidam gradualmente após as sessões

🧭

CONTROLE ATIVO DESAFIADOR

O estudo resolveu um problema metodológico importante: como criar placebo convincente quando qualquer agulha na orelha pode ter efeito fisiológico, usando pontos não específicos e agulhas mais curtas

📌

REMISSÃO SUPERIOR À PSICOTERAPIA

A taxa de remissão de 46% com auriculoterapia específica foi superior às taxas típicas de psicoterapia em metanálises, embora a comparação indireta tenha limitações

🔬

PADRONIZAÇÃO RIGOROSA

Uso de localizador elétrico para confirmar pontos neuroativos, acupunturistas com mínimo de 10 anos de experiência e treinamento padronizado aumentam a reprodutibilidade do protocolo

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Auriculoterapia mostra-se segura para depressão, mas são necessários estudos maiores para confirmar eficácia

A depressão representa um dos maiores desafios de saúde pública mundial, afetando mais de 300 milhões de pessoas e sendo uma das principais causas de incapacidade no mundo. No Brasil, essa condição é ainda mais preocupante, atingindo 5,8% da população brasileira, uma das taxas mais altas globalmente. Apesar da gravidade do problema, menos de 10% das pessoas afetadas recebem tratamento adequado, e aqueles que iniciam medicamentos antidepressivos frequentemente interrompem o tratamento, com taxas de adesão variando entre 40% e 90%. Diante desse cenário, há crescente interesse em terapias não farmacológicas, como a acupuntura auricular, que consiste na aplicação de agulhas semipermanentes em pontos específicos da orelha.

Esta técnica é considerada mais simples de implementar que a acupuntura corporal tradicional, requer menos tempo de aplicação, apresenta baixa complexidade técnica e oferece estimulação fisiológica contínua e diária.

Este estudo brasileiro teve como objetivo avaliar a eficácia e segurança da acupuntura auricular específica no tratamento da depressão. Trata-se de um ensaio clínico randomizado e controlado, realizado entre março e julho de 2023 em quatro centros universitários de pesquisa em Santa Catarina. Os pesquisadores incluíram 74 participantes adultos, com idades entre 18 e 50 anos, que apresentavam sintomas de depressão moderada ou moderadamente severa, medidos por meio do Questionário de Saúde do Paciente-9. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu acupuntura auricular específica em seis pontos tradicionais da medicina chinesa relacionados ao tratamento da depressão, enquanto o grupo controle recebeu acupuntura auricular não específica em pontos não relacionados aos sintomas de saúde mental.

Ambos os grupos receberam 12 sessões ao longo de seis semanas, com aplicações duas vezes por semana, alternando entre as orelhas direita e esquerda. Os participantes foram orientados a estimular manualmente os pontos três vezes ao dia. Importante destacar que todos continuaram com seus tratamentos habituais por questões éticas, e tanto participantes quanto avaliadores permaneceram cegos quanto ao tipo de tratamento recebido.

Os resultados principais mostraram que, embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa entre os grupos no desfecho primário após três meses, algumas descobertas importantes emergiram do estudo. No grupo que recebeu acupuntura auricular específica, 58% dos participantes apresentaram melhora de pelo menos 50% nos sintomas depressivos, comparado a 43% no grupo controle, uma diferença que não atingiu significância estatística. Entretanto, uma descoberta relevante foi observada na remissão completa dos sintomas: 46% dos participantes do grupo de tratamento específico alcançaram remissão completa da depressão após três meses, comparado a apenas 13% do grupo controle, uma diferença estatisticamente significativa e clinicamente importante. Essa diferença de 33% na taxa de remissão é considerável, especialmente porque a remissão completa dos sintomas é crucial para o funcionamento psicossocial adequado e melhor prognóstico a longo prazo.

Em relação à segurança, o estudo demonstrou que a técnica é muito segura, com a maioria dos participantes relatando apenas dor leve no local da aplicação das agulhas. Não foram registrados eventos adversos graves, e apenas cinco participantes abandonaram o estudo devido a efeitos adversos leves.

Para pacientes e profissionais de saúde, esses achados sugerem que a acupuntura auricular pode representar uma opção terapêutica valiosa e segura para o tratamento da depressão, especialmente para aqueles que preferem evitar medicamentos ou que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais. As taxas de recuperação e remissão observadas no estudo são comparáveis às encontradas em análises de tratamentos farmacológicos e superiores às da psicoterapia isolada. A técnica oferece vantagens práticas significativas, como facilidade de aplicação, baixo custo, boa tolerabilidade e possibilidade de estimulação contínua. Os efeitos podem estar relacionados à estimulação do ramo auricular do nervo vago, que aumenta a atividade parassimpática e pode levar à melhora dos sintomas depressivos através da normalização do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, frequentemente hiperativo na depressão.

O fato de os benefícios terem se tornado mais evidentes aos três meses sugere que a acupuntura auricular pode ter efeitos tardios, o que é compatível com seu possível mecanismo de ação neurológico.

O estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. O tamanho da amostra foi relativamente pequeno, o que pode ter limitado o poder estatístico para detectar diferenças significativas no desfecho primário. A predominância de mulheres na amostra impediu a análise de possíveis diferenças entre gêneros. Houve uma perda considerável de participantes durante o seguimento de três meses, embora essa taxa seja similar à observada em outros estudos de tratamento da depressão, refletindo as características próprias da doença, como apatia e desesperança.

Os pesquisadores sugerem que estudos futuros com amostras maiores, intervenções mais prolongadas e avaliações objetivas dos resultados são necessários para confirmar definitivamente a eficácia da acupuntura auricular específica. Apesar dessas limitações, este estudo representa um avanço importante na pesquisa sobre tratamentos complementares para depressão, fornecendo evidências preliminares promissoras sobre a segurança e potencial eficácia da acupuntura auricular, especialmente para a remissão completa dos sintomas depressivos.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeiro estudo randomizado comparando auriculoterapia específica vs não-específica para depressão
  • 2Uso de agulhas semipermanentes, consideradas mais eficazes
  • 3Acupunturistas experientes (mínimo 10 anos) com treinamento padronizado
  • 4Seguimento de 3 meses para avaliar efeitos duradouros
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Amostra pequena (74 participantes) limitou o poder estatístico
  • 2Alta perda de seguimento (36% aos 3 meses)
  • 3Predomínio de mulheres (84%) impede análise de diferenças por gênero
  • 4Uso de questionários auto-relatados pode introduzir viés

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
4/5
Amostra
2/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

74pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Auriculoterapia específica

37 pessoas

Pontos específicos para depressão segundo MTC

Auriculoterapia não-específica

37 pessoas

Pontos superficiais não relacionados à saúde mental

⏱️ Tempo de acompanhamento: 6 semanas de tratamento com seguimento de 3 meses

📊 Resultados em números

58% vs 43%

Recuperação da depressão (redução 50% PHQ-9) aos 3 meses

46% vs 13%

Remissão de sintomas aos 3 meses

94% vs 91%

Dor leve no local da aplicação

5 participantes

Abandono por eventos adversos

Destaques percentuais

58% vs 43%
Recuperação da depressão (redução 50% PHQ-9) aos 3 meses
46% vs 13%
Remissão de sintomas aos 3 meses
94% vs 91%
Dor leve no local da aplicação

📊 Comparação de Resultados

Remissão de sintomas aos 3 meses (PHQ-9 <5)

Específica
46
Não-específica
13

Recuperação da depressão aos 3 meses (redução ≥50% PHQ-9)

Específica
58
Não-específica
43

📅 Linha do tempo da evidência

2014Revisão sistemática mostra pouca evidência de eficácia da auriculoterapia para depressão
2020Estudos anatômicos confirmam distribuição do nervo vago na orelha
2023Primeiro ensaio randomizado com agulhas semipermanentes mostra segurança e potencial eficá

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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Força da evidência

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