Estudo científico comentado

Diretrizes para o manejo da fibromialgia: análise comparativa de três guias de prática clínica

Referência acadêmica

Periódico

European Journal of Pain

Ano

2010

Autores

Häuser et al.

Desenho

revisão sistemática

Este estudo comparou três importantes diretrizes internacionais para tratamento de fibromialgia e encontrou divergências significativas. Duas diretrizes (americana e alemã) concordam que exercícios aeróbicos e terapia psicológica são tratamentos de primeira linha, junto com alguns medicamentos. A diretriz europeia prioriza principalmente medicamentos. Essas diferenças mostram a importância de buscar uma abordagem integrada que combine exercícios, terapia psicológica e medicamentos conforme necessário.

Título original do estudo: Guidelines on the management of fibromyalgia syndrome – A systematic review

📋revisão sistemática🏛️3 diretrizes comparadasalto valor clínico
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Diretrizes americanas e alemãs para fibromialgia priorizam exercício aeróbico e terapia cognitivo-comportamental como tratamentos de primeira linha, enquanto a diretriz europeia favorece principalmente medicamentos — diferenças explicadas mais pela composição

O que isso significa para você?

Este estudo comparou três importantes diretrizes internacionais para tratamento de fibromialgia e encontrou divergências significativas. Duas diretrizes (americana e alemã) concordam que exercícios aeróbicos e terapia psicológica são tratamentos de primeira linha, junto com alguns medicamentos. A diretriz europeia prioriza principalmente medicamentos. Essas diferenças mostram a importância de buscar uma abordagem integrada que combine exercícios, terapia psicológica e medicamentos conforme necessário.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Não existe consenso universal sobre o melhor tratamento para fibromialgia — diferentes organizações médicas legítimas recomendam prioridades diferentes
  • 2Exercício regular supervisionado e apoio psicológico têm evidências fortes em diretrizes que os avaliaram adequadamente
  • 3Medicamentos podem ajudar, mas não devem ser a única estratégia — a abordagem mais completa combina corpo e mente
  • 4A composição do painel que faz a diretriz influencia o resultado final; diretrizes com pacientes e psicólogos tendem a valorizar mais terapias não farmacológicas
  • 5Você tem direito de perguntar ao seu médico sobre as bases das recomendações que recebe e buscar segunda opinião se necessário
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Por que o senhor/a senhora prioriza este tratamento — baseado em qual diretriz ou evidência específica?
  • 2Tenho acesso a programa de exercício supervisionado e terapia cognitivo-comportamental na nossa região?
  • 3Como conciliamos as diferentes recomendações de diretrizes americanas, europeias e outras no meu caso?
  • 4Quais são os riscos de depender apenas de medicamentos para fibromialgia?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo não avaliou segurança de tratamentos diretamente — apenas comparou o que diretrizes recomendam
  • 2AINEs e corticoides, embora frequentemente prescritos, não são recomendados como tratamento isolado para fibromialgia e têm riscos significativos de efeitos colaterais
  • 3A qualidade das evidências subjacentes às diretrizes era variável, com poucos estudos de alta qualidade disponíveis até 2008
  • 4A decisão de qual tratamento iniciar deve considerar suas condições de saúde individuais, outros medicamentos em uso e preferências pessoais, não apenas diretrizes genéricas

Leitura rápida para pacientes

Diretrizes discordam sobre fibromialgia

Americanos e alemães priorizam exercício e terapia; europeus, remédios. A diferença está principalmente em quem elaborou cada diretriz, além da ciência em si.

Ponto 1

Exercício aeróbico e terapia cognitivo-comportamental são tratamentos de primeira linha em duas das três diretrizes prin

Ponto 2

Anti-inflamatórios e corticoides não funcionam como tratamento isolado — todas as diretrizes concordam

Ponto 3

A melhor estratégia combina abordagens e deve ser discutida individualmente com seu médico

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA COMPARAÇÃO SISTEMÁTICA

Este foi o primeiro estudo a comparar metodologicamente diretrizes internacionais de fibromialgia, revelando que discordâncias não se devem apenas a 'falta de evidência', mas a como essa evidência é selecionada, ponderad

Aplicabilidade clínica

Sinal consistente

O estudo revela que a 'evidência médica' não é neutra — a forma como diretrizes são construídas afeta drasticamente o que é recomendado, com implicações diretas para o acesso do paciente a tratamentos não farmacológicos

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este estudo não testou tratamentos diretamente em pacientes, mas analisou e comparou como outras organizações médicas avaliaram e sintetizaram evidências prévias

diretrizes analisadas

3

APS (EUA), EULAR (Europa) e AWMF (Alemanha)

referências inicialmente encontradas

46

apenas 3 atenderam todos os critérios de inclusão rigorosos

concordância APS-AWMF

excelente

correlação intraclasse de 0,89 para níveis de recomendação

discordância geral

baixa

correlação intraclasse de apenas 0,26 para forças de recomendação entre as três diretrizes

membros com conflitos de interesse

7, 9 e 1

nos painéis APS, EULAR e AWMF, respectivamente

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

fibromialgia (síndrome da fibromialgia)

Tipo de estudo

revisão sistemática de diretrizes de prática clínica

Participantes

3 diretrizes internacionais (APS, EULAR, AWMF), não pacientes individuais

Duração

análise de diretrizes publicadas entre 2005 e 2008

Sessões

não aplicável — estudo de comparação de diretrizes

Comparador

comparação entre metodologias e recomendações das três diretrizes

Grupos do estudo

Diretriz APS (americana)Diretriz EULAR (europeia)Diretriz AWMF (alemã)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

não aplicável — estudo comparativo de diretrizes

Frequência02

não aplicável

Duração da sessão03

não aplicável

Pontos / técnica04

análise de recomendações para: exercício aeróbico, terapia cognitivo-comportamental, amitriptilina, tratamento multicomponente, e outras terapias farmacológicas e não farmacológica

Comparador05

comparação entre as três diretrizes quanto aos níveis de evidência e força de recomendação atribuídos

Nota de protocolo06

APS e AWMF deram maior peso a revisões sistemáticas e incluíram pacientes nos painéis; EULAR priorizou ensaios clínicos randomizados e teve painel apenas de médicos reumatologistas

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Diretrizes desenvolvidas por organizações científicas reconhecidasDiretrizes com busca sistemática documentada em bases de dadosDiretrizes que utilizaram critérios formais de classificação de evidênciaDiretrizes com processo explícito de estabelecimento de recomendaçõesDiretrizes focadas exclusivamente em fibromialgia segundo critérios ACRDiretrizes publicadas até abril de 2008

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Diretrizes que misturavam fibromialgia com outras condições como síndrome da fadiga crônicaDiretrizes sem critérios claros de nível de evidênciaDiretrizes não encomendadas por sociedades científicasDiretrizes de países em desenvolvimento ou sistemas de saúde diferentesEstudos de intervenção com pacientes individuais

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🤝

concordância entre diretrizes

parcial — apenas APS e AWMF concordaram amplamente

exercício aeróbico, terapia cognitivo-comportamental, amitriptilina e tratamento multicomponente receberam grau A em ambas

🚫

rejeição de AINEs e corticoides

consenso unânime

todas as três diretrizes não recomendam anti-inflamatórios não esteroides ou corticosteroides como tratamento isolado

📊

identificação de fatores de divergência

melhorou o entendimento

estudo revelou que composição do painel, critérios de inclusão de estudos e sistemas de classificação explicam as diferenças, não apenas os dados científicos

🔍

transparência metodológica

maior clareza

análise detalhada mostrou como financiamento, conflitos de interesse e ausência de disciplinas afetam recomendações

O que não mudou

  • A EULAR manteve sua priorização farmacológica mesmo diante de evidências de eficácia de terapias não farmacológicas
  • Não houve convergência sobre a recomendação de opioides fortes (APS deu grau C, EULAR e AWMF não recomendaram)
  • Não houve consenso sobre acupuntura, educação do paciente isolada ou terapias complementares

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Identificação clara de que AINEs e corticoides não devem ser usados como tratamento isolado, evitando exposição desnecessária a riscos
  • Reconhecimento da importância da abordagem multidisciplinar e do autocuidado do paciente
Amarelo
  • Divergências entre diretrizes podem confundir pacientes e médicos sobre a melhor abordagem
  • Financiamento da APS por 14 empresas farmacêuticas e apoio da EULAR por membros corporativos da indústria farmacêutica, embora a AWMF tenha recusado f
  • Recomendações baseadas em evidências de qualidade variável, com poucos estudos de alta qualidade disponíveis na época
Vermelho
  • A diretriz EULAR, amplamente utilizada na Europa, subestimou terapias cognitivo-comportamentais e exercício aeróbico, potencialmente limitando o acess
  • Ausência de avaliação de segurança específica neste estudo — as diretrizes originais variam quanto à atenção a efeitos adversos
  • Este estudo não avalia resultados reais de saúde dos pacientes, apenas a qualidade das recomendações

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pacientes com fibromialgia diagnosticada segundo critérios do ACR que buscam entender opções de tratamento
  • Pacientes interessados em abordagens combinadas de exercício, terapia psicológica e medicamentos
  • Pacientes que querem participar ativamente das decisões de tratamento com informação sobre diferentes perspectivas médicas
  • Pacientes em sistemas de saúde onde múltiplas especialidades estão disponíveis

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes que esperam uma única 'receita' universal de tratamento
  • Pacientes em regiões onde apenas terapias farmacológicas são oferecidas
  • Pacientes com condições que se sobreponham à fibromialgia e não foram estudadas separadamente nestas diretrizes
  • Pacientes que necessitam de orientação sobre medicamentos aprovados após 2008, como pregabalina e duloxetina em alguns países

Expectativa realista

Nenhuma diretriz tem todas as respostas

O tratamento mais adequado para fibromialgia provavelmente combinará elementos das diferentes diretrizes — exercício regular, apoio psicológico e, quando necessário, medicamentos — adaptados às suas necessidades individuais

Tempo provável

Este estudo não avalia tempo de resposta; melhorias com exercício e terapia cognitivo-comportamental tipicamente aparece

As diretrizes analisadas datam de 2005-2008; novas evidências e medicamentos surgiram desde então, e recomendações atuais podem diferir

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte ao médico se ele conhece as diferenças entre diretrizes americanas, europeias e outras para fibromialgia
  2. 2Discuta se você tem acesso a programa de exercício supervisionado e terapia cognitivo-comportamental
  3. 3Questione por que determinado tratamento está sendo priorizado — baseado em qual diretriz ou evidência?
  4. 4Verifique se há programas de tratamento multicomponente disponíveis na sua região
  5. 5Peça informações sobre os riscos de usar apenas AINEs ou corticoides para fibromialgia

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Todas as diretrizes médicas dizem a mesma coisa

Achado

Diretrizes de diferentes regiões podem ter recomendações muito distintas para a mesma condição, dependendo de quem as elaborou e como avaliaram as evidências

Mito

A diretriz mais recente é sempre a melhor

Achado

A diretriz EULAR (2007) foi mais restritiva em terapias não farmacológicas que a APS (2005), mostrando que data não garante abrangência

Mito

Fibromialgia deve ser tratada principalmente com remédios

Achado

Duas das três diretrizes analisadas deram maior destaque a exercício e terapia psicológica do que a medicamentos isolados

Mito

A evidência científica é neutra e objetiva

Achado

A composição do painel, financiamento e critérios de inclusão de estudos influenciam significativamente quais tratamentos são recomendados

Como isso pode funcionar

🔍

PASSO 1: BUSCA SISTEMÁTICA

Cada diretriz realizou buscas em bases de dados médicas, mas com critérios diferentes de inclusão — algumas incluíram apenas ensaios clínicos, outras também revisões sistemáticas

⚖️

PASSO 2: AVALIAÇÃO DA EVIDÊNCIA

APS e AWMF deram maior peso a meta-análises; EULAR priorizou ensaios randomizados individuais, possivelmente subestimando efeitos de terapias complexas como exercício e terapia psicológica

👥

PASSO 3: DELIBERAÇÃO DO PAINEL

A presença ou ausência de pacientes, psicólogos e outros profissionais nos painéis influenciou drasticamente quais tratamentos foram valorizados — mecanismo bem documentado, não apenas especulado

📋

PASSO 4: RECOMENDAÇÃO FINAL

O produto final reflete tanto a ciência quanto o processo de sua interpretação; recomendações devem ser lidas com atenção a quem as produziu e como

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se as recomendações das diretrizes são de fato seguidas na prática clínica real e se isso melhora resultados de saúde
  • ?O impacto da participação de pacientes nos painéis sobre as recomendações finais não foi testado diretamente, apenas observado
  • ?A análise não incluiu diretrizes de países de renda média ou baixa, limitando a aplicabilidade global
  • ?Não está claro se uma 'diretriz ideal' unificada seria possível ou desejável, dada a heterogeneidade da fibromialgia e dos sistemas de saúde
🎯

O que o estudo quis responder

Comparar metodologias e recomendações de três diretrizes baseadas em evidências para fibromialgia

🏛️

DIRETRIZES ANALISADAS

American Pain Society (APS), European League Against Rheumatism (EULAR) e Association of German Medical Societies (AWMF)

🔍

COMO FOI FEITO

Busca sistemática em bases de dados de diretrizes até abril de 2008, análise de métodos e recomendações

📊

PRINCIPAIS ACHADOS

Discordâncias importantes entre diretrizes devido a diferentes métodos de inclusão de estudos e composição dos painéis

🏅

RECOMENDAÇÕES CONSENSUAIS

APS e AWMF concordaram em recomendar exercício aeróbico, terapia cognitivo-comportamental e amitriptilina como primeira linha

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

A 'EVIDÊNCIA' DEPENDE DE QUEM A VÊ

O mesmo corpo de literatura científica produziu recomendações quase opostas porque EULAR ignorou revisões sistemáticas e não incluiu psicólogos ou pacientes em seu painel — uma descoberta que alerta sobre a suposta neutr

🧭

EXERCÍCIO E TERAPIA PSICOLÓGICA SUBESTIMADOS

A diretriz europeia, muito influente, classificou terapia cognitivo-comportamental com seu grau mais baixo (D) e exercício aeróbico com grau C, enquanto americanos e alemães deram grau A a ambos — diferença com impacto r

📌

FINANCIAMENTO IMPORTA

A única diretriz que recusou apoio da indústria farmacêutica (AWMF) foi também a que mais equilibrou recomendações farmacológicas e não farmacológicas, com apenas 1 de 15 membros declarando conflito de interesse

🔬

METODOLOGIA É CONTEÚDO

Este estudo mostrou que 'como' se chega à recomendação — critérios de inclusão de estudos, sistemas de pontuação, composição do painel — é tão importante quanto 'o quê' se recomenda, uma lição aplicável a qualquer área d

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Diretrizes para o manejo da fibromialgia: análise comparativa de três guias de prática clínica

A fibromialgia é uma condição de dor crônica generalizada que afeta entre 0,5% e 5,8% da população mundial, frequentemente acompanhada de fadiga persistente, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e redução significativa da qualidade de vida. Trata-se de uma síndrome complexa, definida pelo Colégio Americano de Reumatologia como dor generalizada crônica com sensibilidade em pelo menos onze de dezoito pontos dolorosos específicos, e que gera custos médicos diretos elevados além de impactos econômicos indiretos relacionados a afastamentos do trabalho e aposentadorias por invalidez. Apesar dos avanços no conhecimento sobre a doença nas últimas décadas, não existe cura definitiva, o que torna especialmente importante que pacientes e médicos contem com orientações claras baseadas em evidências científicas para a escolha entre as diversas opções terapêuticas disponíveis. No entanto, diferentes organizações médicas internacionais chegaram a conclusões bastante distintas sobre quais tratamentos deveriam ser priorizados, gerando confusão tanto para clínicos quanto para pacientes.

Este estudo, publicado em 2010 no European Journal of Pain pelos pesquisadores Winfried Häuser, Kati Thieme e Dennis C. Turk, representa a primeira tentativa sistemática de comparar essas diretrizes para entender as razões por trás de tamanhas divergências. Os pesquisadores realizaram uma busca sistemática em bases de dados especializadas em diretrizes clínicas, incluindo o National Guideline Clearing House americano, o Scottish Intercollegiate Guidelines Network, a Associação das Sociedades Médicas Científicas da Alemanha (AWMF) e o Medline, cobrindo o período até abril de 2008. Das 46 referências inicialmente encontradas, apenas três atenderam aos critérios rigorosos de inclusão: serem desenvolvidas por organizações científicas, focarem especificamente em fibromialgia segundo critérios do Colégio Americano de Reumatologia, descreverem estratégia de busca sistemática, utilizarem critérios reconhecidos de classificação de evidência e detalharem o processo formal de estabelecimento das recomendações.

As três diretrizes selecionadas foram a da American Pain Society (APS, publicada em 2005), da European League Against Rheumatism (EULAR, 2007) e da AWMF (2008). A análise detalhada revelou diferenças fundamentais na forma como cada diretriz foi construída, o que explica em grande parte as divergências nas recomendações finais. A diretriz americana e a alemã foram elaboradas por comitês multidisciplinares que incluíam não apenas médicos de diferentes especialidades como reumatologia, medicina interna, neurologia, psiquiatria e medicina do esporte, mas também especialistas em terapia da dor, psicólogos e, crucialmente, representantes de organizações de pacientes. Já a diretriz europeia foi desenvolvida exclusivamente por médicos, predominantemente reumatologistas, sem participação de pacientes ou profissionais de psicologia.

Essa composição diferente influenciou diretamente as prioridades metodológicas: enquanto APS e AWMF deram o mais alto nível de evidência a revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios clínicos randomizados, a EULAR priorizou apenas ensaios clínicos randomizados controlados individuais, ignorando deliberadamente as sínteses de múltiplos estudos que são consideradas padrão ouro pelas principais instituições de avaliação de evidências médicas. As diferenças metodológicas se estenderam ainda mais. A EULAR excluiu estudos considerados de baixa qualidade metodológica, embora não tenha detalhado os critérios dessa avaliação, e restringiu suas buscas a ensaios que reportassem dor e função física como desfechos principais. Além disso, utilizou o critério de estudos controlados por placebo, que é altamente relevante para avaliação de medicamentos mas inadequado para tratamentos não farmacológicos, onde o uso de grupos placebo pode superestimar os efeitos de intervenções psicológicas.

Em contraste, APS e AWMF não excluíram estudos por qualidade metodológica inferior, considerando também estudos não controlados quando ensaios randomizados não estavam disponíveis para terapias frequentemente utilizadas. Curiosamente, apesar da busca da APS ter terminado um ano e meio antes da busca da EULAR, o número de referências citadas foi maior na diretriz americana devido a esses critérios de inclusão menos restritivos. Os resultados mais marcantes aparecem nas recomendações de tratamento propriamente ditas. APS e AWMF concordaram em atribuir a mais alta classificação de recomendação (grau A) para quatro abordagens: exercício aeróbico supervisionado, terapia cognitivo-comportamental, amitriptilina e tratamento multicomponente que combine diferentes modalidades.

A EULAR, por sua vez, reservou suas recomendações mais fortes quase exclusivamente para medicamentos, incluindo tramadol, amitriptilina, fluoxetina, duloxetina, milnacipram, moclobemida, pirindol, tropisetron, pramipexol e pregabalina. Para a terapia cognitivo-comportamental, que a APS e AWMF consideraram tratamento de primeira linha com o mesmo peso que medicamentos, a EULAR atribuiu apenas grau D, sua classificação mais baixa. Para exercício aeróbico, a EULAR deu apenas grau C. Ainda mais significativo, a EULAR não fez nenhuma recomendação sobre tratamento multicomponente, educação do paciente como intervenção isolada, hipnoterapia, biofeedback ou abordagens complementares como acupuntura e homeopatia — todas abordagens que muitos pacientes utilizam e que possuem evidências crescentes de benefício quando analisadas em conjunto por meio de revisões sistemáticas.

Todas as três diretrizes, no entanto, concordaram em um ponto importante: anti-inflamatórios não esteroides e corticoides não são recomendados como tratamento isolado para fibromialgia. Essa convergência é valiosa para pacientes que muitas vezes são expostos indevidamente a esses medicamentos, que têm eficácia limitada nessa condição — uma vez que a fibromialgia não é uma doença inflamatória primária — e carregam riscos significativos de efeitos adversos, especialmente com uso prolongado. Essa recomendação unânime contra AINEs e corticoides representa um marco de consenso em meio a tantas divergências. A utilidade prática deste estudo comparativo para pacientes é múltipla.

Primeiro, ele demonstra de forma inequívoca que a existência de uma "diretriz médica" não garante necessariamente uma visão completa ou equilibrada do tratamento. A composição do painel que elabora a diretriz — se inclui ou não pacientes, psicólogos, especialistas em reabilitação — influencia drasticamente as recomendações finais, muitas vezes mais do que os dados científicos em si. Segundo, reforça a importância de abordagens integradas que combinem exercício físico supervisionado, terapia psicológica e, quando necessário, medicamentos, em vez de depender exclusivamente de farmacoterapia. Terceiro, alerta para a necessidade de atualização regular das diretrizes, já que este estudo foi realizado antes da aprovação de pregabalina e duloxetina nos Estados Unidos, medicamentos que posteriormente se tornaram opções importantes e que hoje fazem parte das recomendações de diversas sociedades médicas.

As limitações do estudo são claras e devem ser consideradas na interpretação dos achados. Apenas três diretrizes foram analisadas, todas de países desenvolvidos, o que restringe a aplicabilidade a contextos de saúde com recursos diferentes e menor acesso a especialistas multidisciplinares. As buscas bibliográficas das diretrizes originais terminaram entre 2004 e 2006, deixando de fora estudos mais recentes que poderiam ter alterado algumas recomendações. O estudo não avaliou se as recomendações eram de fato seguidas na prática clínica, nem seus resultados em termos de saúde real dos pacientes, limitando-se a comparar o que estava escrito nas diretrizes.

Além disso, a análise não considerou questões de custo-efetividade ou acessibilidade dos tratamentos em diferentes sistemas de saúde, fatores que frequentemente determinam quais opções estão de fato disponíveis para os pacientes.

O que fortalece a leitura

  • 1Análise sistemática de múltiplas diretrizes baseadas em evidências
  • 2Comparação detalhada de metodologias e critérios de recomendação
  • 3Identificação clara dos fatores que levam às discordâncias
  • 4Inclusão de diretrizes de diferentes regiões geográficas
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Apenas três diretrizes analisadas
  • 2Diretrizes com diferentes períodos de busca bibliográfica
  • 3Não avalia implementação prática das recomendações
  • 4Limitado ao período até 2008

Leitura clínica do estudo

FORTE
85/ 100
Desenho
4/5
Amostra
3/5
Confirmação
5/5

🔬 Como o estudo foi organizado

3pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Diretrizes APS

1 pessoas

painel multidisciplinar com paciente

Diretrizes EULAR

1 pessoas

comitê de reumatologistas europeus

Diretrizes AWMF

1 pessoas

comitê multidisciplinar alemão com pacientes

⏱️ Tempo de acompanhamento: análise de diretrizes publicadas entre 2005-2008

📊 Resultados em números

recomendação A

Concordância APS-AWMF para exercício aeróbico

recomendação A

Concordância APS-AWMF para terapia cognitivo-comportamental

recomendação D

Recomendação EULAR para terapia cognitivo-comportamental

3 diretrizes

Consenso contra NSAIDs e corticoides

📊 Comparação de Resultados

Nível de recomendação para exercício aeróbico

APS
5
EULAR
2
AWMF
5

Nível de recomendação para terapia cognitivo-comportamental

APS
5
EULAR
1
AWMF
5

📅 Linha do tempo da evidência

1990Critérios ACR para fibromialgia estabelecidos
2005Publicação da diretriz American Pain Society
2007Publicação da diretriz EULAR
2008Publicação da diretriz alemã AWMF
2010Esta revisão sistemática comparativa

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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