Estudo científico comentado

Como a aceitação da dor crônica influencia a atenção e o medo da dor no dia a dia

Referência acadêmica

Periódico

Journal of Behavioral Medicine

Ano

2013

Autores

Crombez et al.

Desenho

Estudo observacional com diário eletrônico

Este estudo acompanhou pessoas com dor crônica durante duas semanas usando um dispositivo eletrônico que perguntava sobre sua dor várias vezes ao dia. Os pesquisadores descobriram que pacientes que conseguem aceitar melhor sua condição têm menos pensamentos assustadores sobre a dor, mesmo quando ela aumenta. Isso sugere que trabalhar a aceitação pode ser uma estratégia útil para lidar melhor com a dor crônica no dia a dia, reduzindo o sofrimento psicológico associado.

Título original do estudo: Attention to pain and fear of pain in patients with chronic pain

📱Estudo observacional com diário eletrônico👥n=62 participantes📊Evidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A aceitação da dor crônica não diminui a dor em si, mas parece proteger contra o medo e os pensamentos catastróficos quando a dor piora, sugerindo um caminho psicológico para reduzir o sofrimento associado.

O que isso significa para você?

Este estudo acompanhou pessoas com dor crônica durante duas semanas usando um dispositivo eletrônico que perguntava sobre sua dor várias vezes ao dia. Os pesquisadores descobriram que pacientes que conseguem aceitar melhor sua condição têm menos pensamentos assustadores sobre a dor, mesmo quando ela aumenta. Isso sugere que trabalhar a aceitação pode ser uma estratégia útil para lidar melhor com a dor crônica no dia a dia, reduzindo o sofrimento psicológico associado.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Sua reação emocional à dor pode ser tão importante quanto a intensidade da dor em si para determinar quanto ela interfere na sua vida
  • 2Aceitação não significa gostar da dor ou parar de buscar ajuda — é sobre reduzir a guerra interna que consome energia
  • 3Pequenos momentos de prazer, conexão ou realização podem criar brechas onde a dor ocupa menos espaço mental
  • 4Se você percebe que o medo da dor é um problema à parte da dor física, isso é válido e merece atenção em sua abordagem de tratamento
  • 5O estudo não prova que qualquer técnica específica funciona, mas sugere que trabalhar a relação com a dor pode ser tão relevante quanto tratar a dor em si
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1O medo da dor está limitando minhas atividades tanto quanto a dor física? Como posso trabalhar isso?
  • 2Existem abordagens como terapia ACT ou mindfulness disponíveis para mim, e como elas se complementariam com meu tratamento atual?
  • 3Quais atividades ou momentos do meu dia costumam me fazer 'esquecer' da dor, mesmo que temporariamente? Como posso cultivar mais desses momentos?
  • 4Se a aceitação é uma meta, como posso desenvolvê-la sem sentir que estou desistindo de buscar melhora?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo não testou nenhuma intervenção — não se pode garantir que tentar 'aceitar mais' sozinho trará os mesmos resultados observados
  • 2A aceitação não substitui avaliação médica adequada ou tratamento de condições tratáveis; é um complemento, não uma alternativa
  • 3Pessoas com depressão, ansiedade generalizada ou trauma não resolvidos podem precisar de apoio psicológico especializado antes ou durante o trabalho com aceitação da dor
  • 4O estudo não avaliou efeitos adversos de nenhuma abordagem — a segurança de intervenções específicas precisa ser discutida com profissionais qualificados

Leitura rápida para pacientes

Aceitar não é desistir — é sofrer menos com a mesma dor

Este estudo mostrou que pessoas que aceitam melhor sua dor crônica têm menos pensamentos de pânico quando a dor piora, ainda que sintam a dor da mesma forma.

Ponto 1

A dor intensa naturalmente chama atenção, mas o medo que você sente sobre ela pode ser modificável

Ponto 2

Práticas que cultivam aceitação — não resignação, mas reconhecimento sem luta — podem reduzir o sofrimento emocional

Ponto 3

Momentos de bem-estar e atividades que te preenchem competem com a dor pelo seu espaço mental

O que este estudo acrescenta

VIDA REAL, NÃO LABORATÓRIO

Um dos primeiros estudos a investigar atenção à dor e medo no ambiente natural do dia a dia, usando avaliações repetidas em tempo real, em vez de questionários retrospectivos ou experimentos artificiais.

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

O efeito da aceitação sobre o medo da dor teve magnitude média (r = 0,40) e foi estatisticamente robusto, mas o estudo é observacional com amostra pequena, limitando a certeza sobre aplicação clínica direta.

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Captura relações reais no dia a dia, mas não pode provar que uma coisa causa a outra — apenas que andam juntas de forma consistente.

Participantes que completaram o estudo

62

de 73 inicialmente recrutados; 11 excluídos por dados insuficientes

Registros válidos coletados

5. 735

média de 92,5 registros por pessoa ao longo de 2 semanas

Aderência às avaliações

88%

percentual de sinais respondidos dentro de 15 minutos

Variação na atenção à dor explicada pelos fatores

35%

dor intensa, medo e emoções positivas explicaram essa parcela

Variação no medo explicada pelos fatores

32%

dor intensa, emoções positivas e negativas explicaram essa parcela

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica (principalmente fibromialgia e dor lombar)

Tipo de estudo

Estudo observacional com diário eletrônico (Experience Sampling)

Participantes

62 pessoas (50 mulheres, 12 homens), idade média 46 anos

Duração

2 semanas de acompanhamento contínuo

Sessões

8 avaliações diárias aleatórias via palmtop

Comparador

Nenhum — análise de associações dentro de cada pessoa ao longo do tempo

Grupos do estudo

Participantes únicos, sem grupos comparativos

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Avaliações repetidas: até 112 registros por participante (média de 92,5)

Frequência02

8 vezes ao dia, em horários aleatórios

Duração da sessão03

Aproximadamente 5 minutos para completar o diário

Pontos / técnica04

Questionário eletrônico com escala de 1 a 7 sobre dor, atenção, medo e emoções

Comparador05

Análise intra-individual (comparação dos próprios momentos bons e ruins de cada pessoa)

Nota de protocolo06

Participantes receberam 60 euros e um manual de instruções; assistência telefônica disponível

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pessoas com dor crônica, principalmente fibromialgia e dor lombarMaioria de mulheres (80% da amostra), idade entre 22 e 65 anosPacientes de clínica de dor universitária e grupo de autoajuda de fibromialgiaQuase metade (46,8%) usava medicação para dor três ou mais vezes ao dia75,8% casadas ou em união estávelTodos de origem caucasiana, recrutados na Bélgica

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com dor aguda ou condições de dor recenteHomens em geral (apenas 12 de 62 participantes)Pessoas de outras etnias ou contextos culturais diferentesPacientes que não conseguiram completar pelo menos 2/3 das avaliações (11 excluídos)Quem não possuía familiaridade básica com tecnologia para usar o palmtop

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🧠

Pensamentos de medo sobre a dor

reduziu

Em pessoas com maior aceitação, a relação entre dor intensa e medo foi menos forte

👁️

Atenção média à dor

reduziu

Quem tinha mais aceitação tendia a prestar menos atenção à dor no geral

😊

Impacto emocional positivo

melhorou

Momentos com mais emoções positivas foram associados a menos atenção à dor e menos medo

O que não mudou

  • A aceitação não moderou a relação entre intensidade da dor e atenção à dor — a dor intensa ainda chamava atenção mesmo em quem aceitava mais
  • A aceitação não reduziu a intensidade da dor em si, apenas a reação emocional a ela
  • Variáveis como idade, gênero, educação e duração da dor não mostraram efeitos significativos sobre os resultados

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Método não invasivo, apenas questionários eletrônicos
  • Boa aderência dos participantes (88%), sem relatos de danos
  • Reatividade do diário (efeito de prestar atenção na dor por causa do estudo) considerada pequena pela literatura prévia
Amarelo
  • Amostra pequena e homogênea limita generalização
  • Estudo observacional não permite afirmar que aceitação causa redução do medo
Vermelho
  • Não foram avaliados efeitos adversos de intervenções — estudo apenas observacional
  • Não se sabe se resultados se aplicam a populações mais diversas

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pessoas com dor crônica de longa data, especialmente fibromialgia e dor lombar
  • Quem nota que o medo da dor é quase tão limitante quanto a dor física
  • Pacientes que já tentaram várias abordagens físicas sem controle satisfatório do sofrimento emocional
  • Quem está aberto a explorar dimensões psicológicas da experiência da dor
  • Pessoas que relatam que a dor 'ocupa muito espaço na cabeça' durante o dia

Mais cautela para extrapolar

  • Quem busca redução direta da intensidade da dor como único objetivo
  • Pessoas com dor de origem recente não investigada adequadamente
  • Pacientes que interpretariam 'aceitação' como desistir de tratamento ou resignação passiva
  • Indivíduos com condições psiquiátricas graves não estabilizadas que precisam de atenção prioritária
  • Quem não se identifica com a população estudada (homens jovens, outras etnias, outras condições de dor)

Expectativa realista

A aceitação muda a reação, não a dor

Trabalhar a aceitação da dor crônica pode ajudar a reduzir o medo e a preocupação quando a dor piora, criando mais espaço mental para outras atividades, mas não elimina a dor em si.

Tempo provável

O estudo observou associações em tempo real ao longo de 2 semanas; para mudanças duradouras com intervenção, espera-se s

Este foi um estudo observacional, não um tratamento testado — a causalidade não está estabelecida.

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se já foi avaliada a componente emocional e de medo associada à dor, além da intensidade física
  2. 2Discutir se abordagens como terapia de aceitação e compromisso (ACT) ou mindfulness poderiam complementar o tratamento atual
  3. 3Verificar se há recursos de saúde mental disponíveis para apoio psicológico na dor crônica
  4. 4Questionar se a medicação atual está ajudando mais na dor física ou no sofrimento emocional — ou se ambos precisam de atenção
  5. 5Trazer exemplos próprios de momentos em que emoções positivas ou distrações úteis alteraram a experiência da dor

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Aceitar a dor significa desistir de buscar tratamento ou melhora

Achado

Aceitação no estudo significou reconhecer limitações sem luta constante, não abandono de cuidados — e foi associada a menos sofrimento psicológico

Mito

Se você simplesmente parar de pensar na dor, ela some

Achado

A atenção à dor ainda aumentava quando a dor ficava intensa, mesmo em quem tinha alta aceitação — a mudança foi na reação emocional, não na percepção

Mito

Emoções positivas são irrelevantes para dor crônica séria

Achado

Momentos de bem-estar emocional foram associados a menos atenção à dor e menos medo, sugerindo valor real de estratégias que promovam experiências positivas

Mito

A dor crônica é apenas um problema físico que precisa de solução física

Achado

35% da variação na atenção à dor e 32% do medo foram explicados por fatores psicológicos momentâneos, mostrando que a dimensão mental é central

Como isso pode funcionar

PASSO 1

A dor intensa atua como sinal de alarme biológico, capturando naturalmente a atenção — mecanismo evolutivo de proteção, não algo que se controle facilmente

🌀

PASSO 2

Quando a dor é interpretada como ameaça (medo/catastrofização), a atenção se fixa ainda mais na dor — ciclo de vigilância que pode amplificar o sofrimento

🌿

PASSO 3

A aceitação, provavelmente, altera a qualidade da resposta: a dor ainda é sentida e notada, mas gera menos reação de medo e menos pensamentos catastróficos — mecanismo proposto, não comprovado causalmente

☀️

PASSO 4

Emoções positivas e engajamento em atividades significativas podem competir com a dor pela atenção, criando momentos de alívio — explicação plausível, mas ainda em investigação

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se a aceitação causa a redução do medo ou se pessoas que naturalmente temem menos também aceitam mais — a direção da causalidade é desconh
  • ?A medida de atenção à dor era muito simples (uma única pergunta) e pode não distinguir entre atenção aberta/aceitante versus atenção defensiva/ansiosa
  • ?A amostra pequena e homogênea deixa dúvidas sobre como esses padrões se aplicam a homens, outras etnias, idades extremas ou outros tipos de dor crônic
  • ?Não foi testada nenhuma intervenção — não se sabe quanto tempo de prática de aceitação seria necessário para observar mudanças semelhantes em um conte
🎯

O que o estudo quis responder

Investigar como a aceitação da dor crônica afeta a atenção à dor e pensamentos de medo no dia a dia

👥

QUEM PARTICIPOU

62 pessoas com dor crônica (50 mulheres), principalmente fibromialgia e dor lombar

📱

COMO FOI FEITO

Por 2 semanas, participantes responderam 8 questionários por dia em um palmtop

🧠

O QUE SE DESCOBRIU

Pessoas com maior aceitação da dor tiveram menos pensamentos de medo quando a dor aumentava

SEGURANÇA

Método não invasivo, apenas observacional com boa aderência dos participantes

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

ACEITAÇÃO COMO AMORTECEDOR

Pela primeira vez em avaliações diárias repetidas, mostrou-se que a aceitação atenua especificamente a relação entre dor intensa e pensamentos de medo — um efeito protetor momentâneo, não apenas uma característica estáve

🧭

ATENÇÃO É DINÂMICA, NÃO UM TRAÇO FIXO

O estudo desafiou a ideia de que 'vigilância à dor' é apenas uma tendência de personalidade, mostrando que ela flutua ao longo do dia em resposta a emoções e intensidade da dor

📌

EMOÇÕES POSITIVAS COMO RECURSO REAL

Contrariando a visão de que apenas emoções negativas importam na dor crônica, o estudo revelou que estar alegre ou relaxado no momento estava associado a prestar menos atenção na dor e temê-la menos

🔍

MÉTODO INOVADOR PARA A ÉPOCA

O uso de palmtops para capturar experiências no momento, oito vezes ao dia, foi relativamente pioneiro em 2013 e evitou distorções de memória comuns em questionários tradicionais

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Como a aceitação da dor crônica influencia a atenção e o medo da dor no dia a dia

Viver com dor crônica é uma experiência que vai muito além da sensação física. Para milhões de pessoas, a dor se torna uma presença constante que interfere no trabalho, nos relacionamentos e na qualidade de vida. Uma das questões mais desafiadoras para quem convive com essa realidade é entender por que algumas pessoas desenvolvem sofrimento intenso e incapacidade, mesmo quando a intensidade da dor não parece justificar tamanha limitação. O estudo de Crombez e colaboradores, publicado em 2013 no Journal of Behavioral Medicine, mergulha exatamente nessa questão, investigando como a forma como prestamos atenção à dor e como pensamos sobre ela influencia nossa experiência cotidiana.

A pesquisa trouxe uma abordagem inovadora ao abandonar, temporariamente, os laboratórios controlados para observar a vida real de 62 pessoas com dor crônica. Durante duas semanas, esses participantes — em sua maioria mulheres, com idade média de 46 anos, predominantemente com fibromialgia e dor lombar — carregaram consigo um computador de mão, um palmtop, que os alertava oito vezes ao dia com um sinal sonoro. A cada alerta, respondiam perguntas sobre sua dor, seus pensamentos, suas emoções e, crucialmente, o quanto estavam prestando atenção na dor naquele momento exato. Essa metodologia, conhecida como Avaliação Momentânea Ecológica, é valiosa porque captura experiências no momento em que ocorrem, evitando os vieses de memória que distorcem nossas lembranças sobre o sofrimento passado.

Os resultados revelaram padrões fascinantes sobre como nossa mente interage com a dor. Primeiro, confirmou-se algo que muitos pacientes já intuem: quando a dor aumenta, a atenção a ela também aumenta. Isso não é apenas uma observação óbvia — tem raízes profundas em nossa biologia. A dor é, por natureza, um sinal de alarme do corpo, projetada para capturar nossa atenção e nos proteger de ameaças.

O estudo mostrou que, mesmo após anos de convivência com a dor crônica, essa função interruptiva não desaparece completamente.

Além da intensidade da dor, os pesquisadores identificaram que pensamentos de medo sobre a dor — aquela sensação de que a dor está ficando insuportável, o temor do que ela possa significar — funcionam como amplificadores. Quando os participantes relatavam mais pensamentos temerosos, sua atenção à dor aumentava significativamente. Isso cria um ciclo potencialmente problemático: a dor gera medo, e o medo aumenta a vigilância à dor, que por sua vez pode intensificar a percepção do sofrimento.

O aspecto mais revelador do estudo, contudo, está no papel da aceitação. Os pesquisadores mediram a aceitação como uma característica individual — a capacidade de reconhecer as limitações impostas pela doença sem lutar constantemente contra elas. Descobriu-se que pessoas com maior aceitação da doença tendiam, em média, a prestar menos atenção à dor ao longo do dia. Mas o achado mais importante veio ao analisar como essas pessoas reagiam especificamente nos momentos de piora da dor: quando a dor intensificava, aqueles com maior aceitação experimentavam menos pensamentos de medo.

A relação entre dor intensa e temor era claramente atenuada pela aceitação, com um efeito de magnitude média segundo os critérios científicos.

É importante notar o que o estudo não encontrou. A aceitação não tornou as pessoas magicamente imunes à dor — elas ainda sentiam a dor, e a dor ainda capturava sua atenção quando intensa. A aceitação não funcionou como um escudo que bloqueia a percepção da dor. Em vez disso, pareceu alterar a qualidade da resposta emocional e cognitiva à dor, especialmente reduzindo o componente de medo e catastrofização.

O estudo também trouxe uma descoberta acolhedora sobre o papel das emoções positivas. Quando os participantes se sentiam mais alegres, relaxados ou felizes, prestavam menos atenção à dor e tinham menos pensamentos temerosos. Isso não significa que basta "ficar feliz" para curar a dor crônica — uma simplificação que seria tanto impossível quanto cruel — mas sugere que momentos de bem-estar emocional podem criar pequenas janelas de alívio, onde a dor ocupa menos espaço mental.

Para quem vive com dor crônica, essas descobertas oferecem perspectivas práticas. A aceitação, aqui entendida não como resignação passiva, mas como uma disposição ativa de reconhecer a realidade da condição sem deixar que ela defina completamente a existência, parece ser uma ferramenta valiosa. Não se trata de desistir de tratamentos ou deixar de buscar alívio, mas de reduzir a batalha interna constante que consome tanta energia. Quando paramos de lutar contra a dor a cada segundo, liberamos recursos para outras áreas da vida — e, paradoxalmente, a dor pode causar menos sofrimento.

As limitações do estudo merecem atenção. A amostra era pequena, predominantemente feminina e de origem caucasiana, o que restringe a generalização. O estudo era observacional, não experimental, o que impede conclusões definitivas sobre causa e efeito. Não se pode afirmar com certeza que a aceitação causa a redução do medo — apenas que elas estão associadas de forma consistente.

Além disso, a medida de atenção à dor era simples, baseada em uma única pergunta, e pode não capturar as nuances de diferentes formas de atenção.

Apesar dessas ressalvas, o estudo contribui significativamente ao trazer evidências de que intervenções psicológicas focadas em aceitação — como terapias baseadas em mindfulness e em Terapia de Aceitação e Compromisso — podem ter um mecanismo de ação concreto: não necessariamente alterando a intensidade da dor, mas modificando a reação emocional e cognitiva a ela, especialmente nos momentos mais desafiadores.

O que fortalece a leitura

  • 1Metodologia inovadora com avaliações em tempo real
  • 2Análise da variabilidade dia a dia da experiência de dor
  • 3Alta aderência dos participantes ao protocolo
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Amostra pequena e predominantemente feminina
  • 2Não permite estabelecer relação de causa e efeito
  • 3Medida de atenção à dor pode não distinguir entre diferentes tipos de atenção

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
3/5
Amostra
2/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

62pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Participantes com dor crônica

62 pessoas

Diário eletrônico por 2 semanas com 8 avaliações diárias

⏱️ Tempo de acompanhamento: 2 semanas

📊 Resultados em números

0%

Variância na atenção à dor explicada pelos fatores estudados

0%

Variância no medo da dor explicada pelos fatores estudados

0%

Aderência às avaliações diárias

0

Total de registros válidos coletados

Destaques percentuais

35%
Variância na atenção à dor explicada pelos fatores estudados
32%
Variância no medo da dor explicada pelos fatores estudados
88%
Aderência às avaliações diárias

📊 Comparação de Resultados

Atenção à dor (escala 1-7)

Maior aceitação
2.4
Menor aceitação
3.2

📅 Linha do tempo da evidência

1994Primeiros estudos laboratoriais sobre atenção e dor
1998Desenvolvimento de escalas de aceitação da dor
2004Estudos anteriores sobre aceitação e ajustamento à dor
2013Este estudo com diários eletrônicos em ambiente natural

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

Conheça a equipe da clínica →

Continue lendo

Continue pesquisando

Outros estudos próximos para aprofundar a leitura.

Dor Crônica (Geral)Revisões Sistemáticas & Meta-Análises
2009

Fibromialgia: Compreendendo a Síndrome de Dor Crônica e Hipersensibilidade Central

O que este estudo responde

A fibromialgia é uma síndrome de sensibilização central com base neurobiológica demonstrável, e o tratamento mais eficaz combina medicamentos que modulam…

Vale abrir se...

Útil se você quer uma visão rápida sobre fibromialgia.

Comparador

Não aplicável — compara entre diferentes abordagens terapêuticas na literatura

📖 Revisão de literatura🧠 Síndrome neurológica Alto impacto clínico

Força da evidência

88%

Clauw DJ

The American Journal of Medicine

Ver resumo
Mecanismos de AçãoDor Crônica (Geral)
2013

Como o cérebro controla a dor: o impacto da dor crônica nos mecanismos naturais de alívio

O que este estudo responde

O cérebro possui circuitos naturais que aumentam ou diminuem a dor, mas a dor crônica danifica esses mesmos circuitos; por outro lado, tratamentos…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como pacientes com dor crônica de diversas etiologias foi comparado a comparações entre estados atencionais, emocionais, uso de placebo, presença…

Comparador

Comparações entre estados atencionais, emocionais, uso de placebo, presença ou ausência de dor crônica

📚 Revisão científica🧠 Neurociência da dor🔬 Alto impacto científico

Força da evidência

88%

Bushnell et al.

Nature Reviews Neuroscience

Ver resumo
Dor Crônica (Geral)Saúde Mental & Psiquiatria
2002

Fatores Psicológicos na Dor Crônica: Evolução e Revolução

O que este estudo responde

Fatores psicológicos explicam a maior parte da incapacidade na dor crônica, e tratamentos que os abordam de forma integrada — especialmente programas…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como não aplicável — revisão de estudos existentes foi comparado a diversos comparadores nos estudos originais: lista de espera, tratamento médico…

Comparador

Diversos comparadores nos estudos originais: lista de espera, tratamento médico isolado, cuidado usual

📚 Revisão de literatura🧠 Modelo Biopsicossocial🔬 Alta relevância científica

Força da evidência

85%

Turk & Okifuji

Journal of Consulting and Clinical Psychology

Ver resumo
Dor Crônica (Geral)Saúde Mental & Psiquiatria
2005

Quais Pacientes Respondem Melhor aos Tratamentos Cognitivo-Comportamentais para Dor Crônica

O que este estudo responde

Terapias cognitivo-comportamentais para dor crônica têm eficácia comprovada, mas efeitos modestos e variáveis; o sucesso depende mais das expectativas e…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como diversos estudos de tcc revisados foi comparado a lista de espera, cuidado usual, tratamentos ativos alternativos (massagem, acupuntura), ou…

Comparador

Lista de espera, cuidado usual, tratamentos ativos alternativos (massagem, acupuntura), ou ausência de tratamento

📋 Revisão de literatura🧠 terapia comportamental impacto alto

Força da evidência

85%

Vlaeyen & Morley

Clinical Journal of Pain

Ver resumo