Estudo científico comentado

Avanços no manejo da dor aguda: entendendo os mecanismos da dor e o papel da terapia multimodal

Referência acadêmica

Periódico

F1000Research

Ano

2017

Autores

Wardhan & Chelly

Desenho

Revisão narrativa

Este estudo mostra que combinar diferentes tipos de analgésicos (como dipirona, anti-inflamatórios e bloqueios anestésicos) funciona melhor do que usar apenas opioides para dor após cirurgias. A abordagem multimodal reduz significativamente a necessidade de opioides, diminui o risco de dependência e oferece melhor controle da dor. Para pacientes cirúrgicos, isso significa recuperação mais segura e confortável, com menor chance de desenvolver dependência de medicamentos opioides.

Título original do estudo: Recent advances in acute pain management: understanding the mechanisms of acute pain, the prescription of opioids, and the role of multimodal pain therapy

📚Revisão narrativa🏥Múltiplas populações⚕️Impacto clínico alto
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A analgesia multimodal — combinando anti-inflamatórios, acetaminofeno, bloqueios regionais e técnicas não farmacológicas — reduz em 25-30% a necessidade de opioides após cirurgia, mas ainda faltam protocolos padronizados e evidências robustas sobre quais combi

O que isso significa para você?

Este estudo mostra que combinar diferentes tipos de analgésicos (como dipirona, anti-inflamatórios e bloqueios anestésicos) funciona melhor do que usar apenas opioides para dor após cirurgias. A abordagem multimodal reduz significativamente a necessidade de opioides, diminui o risco de dependência e oferece melhor controle da dor. Para pacientes cirúrgicos, isso significa recuperação mais segura e confortável, com menor chance de desenvolver dependência de medicamentos opioides.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Você tem direito de perguntar sobre alternativas aos opioides antes da cirurgia — a combinação de medicamentos é frequentemente mais eficaz que um único remédio forte
  • 2Seu histórico emocional importa: ansiedade e como você encara a dor influenciam o resultado, e há ajuda para isso também
  • 3A duração da prescrição de opioides é crítica: risco de dependência aumenta significativamente após poucos dias de uso
  • 4Bloqueios de nervos, quando possíveis para sua cirurgia, podem reduzir drasticamente a necessidade de comprimidos
  • 5Não existe fórmula única — o plano precisa ser conversado e adaptado às suas condições específicas
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Quais medicamentos não opioides estão incluídos no meu plano de dor após a cirurgia, e por quanto tempo serei tratado com opioides se eles forem necessários?
  • 2Há alguma técnica de bloqueio regional adequada ao tipo de cirurgia que vou realizar, e quais são seus benefícios e limitações?
  • 3Meu histórico de saúde mental, uso de antidepressivos ou experiências anteriores com dor devem alterar o plano analgésico?
  • 4Como será feita a transição e redução das medicações quando eu for para casa, e qual sinal devo observar para saber se estou desenvolvendo dependência?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1A revisão não apresenta dados originais de segurança; as recomendações baseiam-se em síntese de diretrizes e estudos prévios com metodologias variadas
  • 2Anti-inflamatórios comuns aumentam risco de sangramento gastrointestinal e, nas formas seletivas (coxibs), de eventos cardiovasculares — a escolha deve considerar seu perfil de ris
  • 3A cetoamina, embora promissora, pode causar efeitos dissociativos em doses mais altas, e sua administração requer monitoramento adequado
  • 4A segurança de muitas combinações 'coquetel' propostas não foi testada em ensaios clínicos robustos; os benefícios teóricos de sinergismo precisam ser balanceados com incertezas so

Leitura rápida para pacientes

Dor após cirurgia: há caminhos mais seguros

Combinar diferentes tipos de analgésicos, incluindo opções não opioides, pode controlar sua dor melhor e reduzir riscos

Ponto 1

Pergunte ao seu médico sobre bloqueios regionais e medicamentos não opioides para seu caso

Ponto 2

Informe seu histórico de ansiedade, depressão ou uso prévio de opioides — isso muda o plano

Ponto 3

Saiba que algum desconforto é normal; o objetivo é segurança e funcionalidade, não eliminação total da sensação

O que este estudo acrescenta

MUDANÇA DE PARADIGMA

Esta revisão consolida a transição de uma era de 'dor como quinto sinal vital' para uma era de 'anestesia e analgesia livres de opioides', propondo que a redução de opioides deve ser meta explícita, não apenas consequênc

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A evidência de que multimodalidade reduz opioides é consistente e clinicamente significativa, mas a falta de protocolos padronizados e a variabilidade entre tipos cirúrgicos limitam a aplicabilidade imediata em todos os

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Síntese de múltiplos estudos por especialistas da área, sem nova análise estatística própria, útil para orientar prática mas com menor certeza que meta-análises ou ensaios randomiz

Redução de opioides com AINEs

25-30%

Quando combinados com opioides em analgesia multimodal

Risco de dependência após 10 dias de opioides

15%

De pacientes cirúrgicos que usam opioides no período perioperatório

Custo anual da epidemia de opioides nos EUA

>700 bilhões

Inclui custos diretos de saúde e perda de produtividade

Fonte de opioides não prescritos

34%

Proporção de opioides desviados que originam de prescrições médicas legítimas

Aumento do risco de uso crônico

a partir do 3º dia

Cada dia adicional de prescrição aumenta risco; salto acentuado após 5º e 31º dias

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor aguda pós-operatória e manejo analgésico

Tipo de estudo

Revisão narrativa da literatura

Participantes

Pacientes cirúrgicos diversos, incluindo ortopedia, cirurgia abdominal e torácic

Duração

Período pós-operatório variável conforme estudos incluídos

Sessões

Não aplicável — revisão de intervenções variadas

Comparador

Cuidado usual com uso predominante de opioides versus abordagens multimodais

Grupos do estudo

Terapia multimodalTerapia convencional com opioides

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Não aplicável — intervenções variadas conforme tipo cirúrgico

Frequência02

Administração contínua ou em horário fixo (around-the-clock) preferida sobre uso

Duração da sessão03

Período pós-operatório imediato, estendendo-se conforme necessidade

Pontos / técnica04

Combinação de acetaminofeno, AINEs seletivos ou não seletivos, bloqueios regionais periféricos ou neuroaxiais, e adjuvantes como cetoamina ou dexmedetomidina quando indicado

Comparador05

Uso predominante de opioides como base analgésica

Nota de protocolo06

A revisão enfatiza que não existem 'coquetéis' padronizados com evidência robusta; as combinações seguem princípios teóricos de mecanismos complementares

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas, como artroplastias de joelhoPacientes de cirurgias abdominais e torácicas maioresAdultos e crianças em condições de receber anti-inflamatórios ou acetaminofenoPacientes com indicação para técnicas neuroaxiais ou bloqueios regionaisIndivíduos com dor aguda de intensidade leve a moderada ou moderada a gravePacientes em programas de recuperação aprimorada após cirurgia (ERAS)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pacientes com contraindicações a anti-inflamatórios, como risco de sangramento gastrintestinal ou cardiovascularIndivíduos com insuficiência hepática grave que impede uso seguro de acetaminofenoPacientes em uso crônico de opioides ou com histórico de dependência, que requerem manejo especializado não detalhado nesta revisãoGestantes e populações pediátricas específicas, pouco abordadas nas evidências citadasPacientes com neuropatia complexa ou síndromes de dor crônica prévia, cujos resultados podem não ser extrapoláveis

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Consumo de opioides

reduziu

Queda de 25-30% com uso de AINEs em combinação; reduções adicionais com bloqueios regionais

🎯

Controle da dor

melhorou

Analgesia superior quando múltiplos mecanismos são atacados simultaneamente

🤢

Náuseas e vômitos pós-operatórios

reduziu

Menor incidência com cetoamina adjuvante e com bloqueios regionais que evitam opioides sistêmicos

🏃

Recuperação funcional

melhorou

Programas ERAS com multimodalidade permitem mobilização precoce e alta hospitalar mais rápida

😰

Impacto psicológico da dor

melhorou

Tratamento de depressão, ansiedade e catastrofização prediz redução na intensidade da dor

O que não mudou

  • Não houve demonstração consistente de eficácia dos gabanoides (gabapentina, pregabalina) para dor aguda pós-operatória em estudo multicêntrico robusto
  • A tramadol não mostrou ser menos aditiva que outros opioides, contrariando crença comum
  • Não houve padronização de quais combinações específicas de medicamentos formam o 'coquetel' ideal
  • A farmacogenética, embora promissora, não se tornou ferramenta de rotina clínica no período da revisão

Quando a melhora apareceu

1

Durante o período pós-operatório imediato

Redução de opioides com AINEs

Estudos mostram redução de 25-30% no consumo de opioides quando anti-inflamatórios são combinados

2

Bolus pré-operatório seguido de infusão

Efeito da cetoamina

Melhora modesta na analgesia e redução de náuseas quando adicionada a opioides

3

Durante hospitalização

Bloqueios contínuos

Analgesia prolongada com menor necessidade de opioides e alta satisfação do paciente

Antes e depois

Consumo de opioides com multimodalidade

escala máx. 100 % do uso convenciona

Antes100 % do uso convenciona
Depois70 % do uso convenciona

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Anti-inflamatórios e acetaminofeno têm perfil de segurança bem estabelecido quando usados nas doses recomendadas
  • Bloqueios regionais reduzem exposição sistêmica a opioides e seus efeitos colaterais
  • Cetoamina em doses baixas mostrou boa tolerabilidade com benefício adicional antiemético
Amarelo
  • AINEs não seletivos aumentam risco de sangramento gastrintestinal e cardiovascular; coxibs têm risco cardiovascular elevado
  • Acetaminofeno intravenoso requer cautela em insuficiência hepática; limite de 3g/dia em adultos de porte médio
  • Dexmedetomidina perineural pode prolongar bloqueio motor indesejado e causar bradicardia transitória
Vermelho
  • Até 15% dos pacientes cirúrgicos podem desenvolver dependência de opioides após uso perioperatório
  • Risco de uso crônico de opioides aumenta a partir do terceiro dia de prescrição, com salto acentuado após o quinto e trigésimo primeiro dias
  • A revisão não apresenta dados de segurança de longo prazo para as combinações multimodais propostas

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pacientes sem contraindicações a AINEs ou acetaminofeno que serão submetidos a cirurgia eletiva
  • Indivíduos com ansiedade ou tendência a catastrofizar a dor, que podem se beneficiar de abordagem integrada psicológica
  • Pacientes de cirurgias ortopédicas com indicação para bloqueio nervoso contínuo
  • Pessoas motivadas a reduzir exposição a opioides por histórico familiar de dependência ou preocupação pessoal
  • Pacientes em centros com protocolos ERAS implementados

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com insuficiência hepática, doença renal avançada, ou histórico de sangramento gastrintestinal que limitam uso de AINEs ou acetaminofeno
  • Indivíduos já dependentes de opioides ou em programa de manutenção com metadona ou buprenorfina, que precisam de manejo especializado não detalhado
  • Pacientes com contraindicações a bloqueios regionais por distúrbios de coagulação ou infecção no sítio
  • Gestantes, crianças muito pequenas, ou populações não representadas nas evidências primárias da revisão
  • Quem busca eliminação completa da dor — a revisão enfatiza redução, não ausência de desconforto

Expectativa realista

Menos opioides, não zero dor

Você ainda sentirá algum desconforto após a cirurgia, mas com abordagem multimodal a dor tende a ser mais controlada, com menos náuseas, sonolência excessiva e risco de dependência

Tempo provável

Os benefícios começam no período pós-operatório imediato; a redução de opioides é mensurável já nas primeiras 24-48 hora

Não existe receita única — o médico precisará adaptar a combinação ao seu tipo de cirurgia, histórico de saúde e medicamentos que já utiliza

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se há protocolo multimodal disponível para seu tipo de cirurgia e quais medicamentos compõem o plano
  2. 2Informe seu histórico de uso de antidepressivos, especialmente ISRS, e qualquer experiência prévia com opioides
  3. 3Questione sobre possibilidade de bloqueio regional ou anestesia neuroaxial específica para seu procedimento
  4. 4Discuta suas preocupações sobre náuseas, constipação e outros efeitos colaterais de opioides que você gostaria de evitar
  5. 5Peça orientação sobre quando e como a medicação será reduzida após a alta hospitalar

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Opioides são a única forma eficaz de tratar dor forte após cirurgia

Achado

A combinação de anti-inflamatórios, acetaminofeno e técnicas regionais frequentemente controla a dor tão bem ou melhor, com 25-30% menos opioides

Mito

A tramadol é mais segura e menos viciante que outros opioides

Achado

Não há evidências de que a tramadol seja menos aditiva; ela ainda age em receptores opioides e tem interações perigosas com antidepressivos

Mito

Sentir dor após cirurgia é apenas 'normal' e deve ser completamente eliminada

Achado

A dor pós-operatória é esperada e gerenciável; o objetivo é reduzi-la a níveis funcionais, não necessariamente a zero, priorizando segurança

Mito

Remédios para dor agem todos da mesma forma, então mais de um é desperdício

Achado

Medicamentos com mecanismos diferentes — como AINEs, acetaminofeno, bloqueios de nervos — têm efeitos aditivos ou sinérgicos, atacando a dor por vias complementares

Como isso pode funcionar

🔥

INJÚRIA TECIDUAL

A cirurgia causa lesão que ativa nociceptores periféricos — mecanismo bem estabelecido, iniciador da cascata da dor

SENSIBILIZAÇÃO CENTRAL

Sinais repetidos amplificam a excitabilidade da medula espinal, fenômeno proposto como chave para dor persistente — a cetoamina e outros bloqueiam essa etapa

🛡️

BLOQUEIO MULTINÍVEL

AINEs reduzem inflamação local, acetaminofeno atua no sistema nervoso central por mecanismo ainda não completamente elucidado, e bloqueios regionais interrompem a transmissão do sinal — combinação provável de ações compl

🧠

MODULAÇÃO PSICOSSOCIAL

Ansiedade, depressão e catastrofização amplificam a experiência dolorosa — intervenções psicológicas podem reduzir a intensidade percebida, embora os mecanismos neurobiológicos precisem mais estudo

O que ainda é incerto

  • ?Qual combinação exata de medicamentos e doses forma o 'coquetel' ideal para cada tipo de cirurgia ainda não foi determinada em estudos robustos
  • ?A eficácia de gabanoides para dor aguda pós-operatória permanece controversa após falha em estudo multicêntrico de fase III, apesar do uso clínico ext
  • ?O impacto de testes farmacogenéticos de rotina na escolha e dosagem de analgésicos ainda carece de validação em grandes populações cirúrgicas
  • ?A longo prazo, se pacientes tratados com multimodalidade realmente desenvolvem menos dor crônica pós-operatória permanece uma questão em aberto
🎯

O que o estudo quis responder

Revisar avanços no manejo da dor aguda pós-operatória e estratégias para reduzir dependência de opioides

👥

QUEM PARTICIPOU

Pacientes cirúrgicos diversos incluindo ortopedia, cirurgia abdominal e torácica

🧪

COMO FOI FEITO

Analgesia multimodal combinando acetaminofeno, anti-inflamatórios, bloqueios regionais e técnicas não-farmacológicas

📈

O QUE MUDOU

Redução de 25-30% no consumo de opioides com analgesia superior quando usada abordagem multimodal

🛟

SEGURANÇA

Perfil de segurança melhor com menor risco de dependência e efeitos colaterais relacionados aos opioides

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

O 'QUINTO SINAL VITAL' REVISITADO

A revisão documenta como a bem-intencionada campanha de tornar a dor obrigatoriamente mensurada e tratada contribuiu, paradoxalmente, para a epidemia de opioides — uma lição de como boas intenções em política de saúde po

🧭

ANALGESIA LIVRE DE OPIOIDES COMO META

Em vez de apenas 'usar menos opioides', os autores propõem que a eliminação de opioides seja a aspiração explícita em anestesia e analgesia pós-operatória, mudando o padrão-ouro da prática

📌

A FALHA DOS GABANOIDES

Apesar da popularidade clínica de gabapentina e pregabalina para dor aguda, a revisão destaca que o maior programa de pesquisa da Pfizer não confirmou sua eficácia — um alerta sobre práticas disseminadas sem evidência ro

🧬

FARMACOGENÉTICA NO HORIZONTE

A possibilidade de testar genes como CYP2D6 antes da cirurgia para prever quem metaboliza opioides muito rápido ou muito lento representa personalização promissora, ainda que não disponível rotineiramente

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Avanços no manejo da dor aguda: entendendo os mecanismos da dor e o papel da terapia multimodal

A dor aguda após cirurgia é uma experiência quase universal, mas a forma como a medicina a tem tratado ao longo das últimas duas décadas gerou uma crise de saúde pública sem precedentes. Esta revisão narrativa publicada em 2017 por Wardhan e Chelly, na F1000Research, examina como a comunidade médica tem buscado reverter o ciclo de superprescrição de opioides e construir alternativas mais seguras e eficazes para o controle da dor pós-operatória. O ponto de partida é inegável: os Estados Unidos vivem uma epidemia de opioides que consome mais de 700 bilhões de dólares anualmente, com mortes por overdose superando acidentes de trânsito como principal causa de morte acidental. Curiosamente, enquanto as prescrições médicas de opioides atingiram o pico em 2010 e vêm declinando desde então, as mortes por overdose continuaram a subir, impulsionadas pelo uso ilícito de heroína, fentanil e carfentanil — este último 50 vezes mais potente que o fentanil.

Os autores traçam uma linha direta entre políticas bem-intencionadas de décadas anteriores e o cen atual: em 2000, a Joint Commission introduziu escalas de dor obrigatórias em hospitais, e em 2001 declarou a dor como o "quinto sinal vital", o que, combinado com campanhas agressivas da indústria farmacêutica — notadamente sobre a suposta baixa capacidade de abuso do OxyContin —, levou a uma superprescrição generalizada. Só em 2007 a Purdue Pharma declarou-se culpada de acusações criminais federais por ter enganado médicos sobre o risco de abuso do OxyContin. A metodologia desta revisão consiste em analisar diretrizes de sociedades médicas respeitadas, incluindo a American Pain Society, a American Society of Anesthesiologists e a American College of Physicians, além de sintetizar evidências de ensaios clínicos e meta-análises sobre diferentes abordagens analgésicas. Os autores não realizaram nova pesquisa primária, mas organizaram o conhecimento existente em um arcabouço prático para clínicos.

Os principais resultados são estruturados em torno de quatro recomendações de alta qualidade evidenciária: primeiro, que clínicos ofereçam analgesia multimodal, combinando múltiplos medicamentos e técnicas não farmacológicas; segundo, que acetaminofeno e anti-inflamatórios não esteroidais sejam usados como base do tratamento quando não houver contraindicações; terceiro, que técnicas neuroaxiais de analgesia sejam consideradas para cirurgias torácicas e abdominais maiores; e quarto, que bloqueios regionais periféricos específicos do sítio cirúrgico sejam empregados quando houver evidência de eficácia. A utilidade clínica desta revisão reside em sua mensagem central: a analgesia multimodal pode reduzir o consumo de opioides em 25 a 30%, oferecendo simultaneamente controle de dor superior. Os anti-inflamatórios, por exemplo, demonstraram essa redução consistente quando combinados com opioides. O acetaminofeno intravenoso, particularmente útil quando o paciente não pode receber medicação oral, também diminuiu o consumo de opioides em estudos cirúrgicos.

A cetoamina, antagonista dos receptores NMDA, mostrou melhora modesta na analgesia pós-operatória e redução de náuseas e vômitos quando adicionada a morfina ou hidromorfona. Os bloqueios nervosos contínuos, como cateteres perineurais, permitiram redução significativa no uso de opioides com preservação da função motora em casos selecionados. No entanto, os autores são cuidadosos em apontar limitações importantes. A eficácia de "coquetéis" específicos de múltiplos analgésicos não foi adequadamente estudada; os princípios por trás dessas combinações permanecem em grande parte teóricos.

Os gabanoides, como gabapentina e pregabalina, apesar de uso extensivo fora da indicação aprovada, falharam em demonstrar eficácia consistente em programa multicêntrico de fase III da Pfizer. A tramadol, muitas vezes promovida como menos viciante, não tem evidências de ser menos aditiva que outros opioides. A farmacogenética emerge como fronteira promissora — variações nos genes CYP2D6, COMT, ABCB1 e OPRM1 podem explicar por que alguns pacientes metabolizam opioides de forma muito rápida ou muito lenta, ou por que apresentam maior sensibilidade à dor —, mas ainda não está disponível rotineiramente. A interpretação prudente para pacientes é clara: a dor pós-operatória pode ser gerenciada de forma mais segura, mas não existe protocolo único ideal.

A abordagem deve ser individualizada, considerando o tipo de cirurgia, histórico pessoal de dor, fatores psicossociais como ansiedade e catastrofização da dor, e risco de dependência. Pacientes mais jovens, do sexo feminino, com baixo status socioeconômico, doenças pulmonares ou cardíacas prévias, uso de substâncias ou tabagismo, e aqueles em benzodiazepínicos representam grupos de maior risco para dependência de opioides. O estudo também reforça que melhorias na depressão, ansiedade e catastrofização predizem reduções na intensidade da dor, sugerindo que o tratamento do sofrimento psicológico é parte inseparável do manejo da dor. A limitação mais significativa desta revisão é seu caráter narrativo, sem meta-análise quantitativa própria, o que impede estimativas precisas de efeito.

Além disso, a ausência de protocolos padronizados para combinações medicamentosas deixa clínicos sem receitas exatas a seguir. Para pacientes que enfrentarão cirurgia, a mensagem prática é: pergunte explicitamente sobre opções não opioides, inquire sobre bloqueios regionais adequados ao seu procedimento, discuta seu histórico de saúde mental como fator relevante para o plano de dor, e estabeleça desde o início expectativas realistas sobre desconforto temporário versus risco de medicação prolongada.

O que fortalece a leitura

  • 1Revisão abrangente de múltiplas modalidades terapêuticas
  • 2Aborda questão crítica da epidemia de opioides
  • 3Baseada em diretrizes de sociedades médicas respeitadas
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Revisão narrativa sem meta-análise quantitativa
  • 2Não apresenta dados de estudos específicos
  • 3Falta de protocolos padronizados para 'cocktails' de medicamentos

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Terapia multimodal

0 pessoas

Combinação de acetaminofeno, anti-inflamatórios, bloqueios regionais

Terapia convencional

0 pessoas

Uso predominante de opioides

⏱️ Tempo de acompanhamento: Período pós-operatório variável

📊 Resultados em números

25-30%

Redução no consumo de opioides com anti-inflamatórios

0%

Risco de dependência após 10 dias de uso

>700 bilhões

Custo anual da epidemia de opioides nos EUA

Destaques percentuais

25-30%
Redução no consumo de opioides com anti-inflamatórios
15%
Risco de dependência após 10 dias de uso

📊 Comparação de Resultados

Redução do consumo de opioides

Terapia multimodal
30
Monoterapia
0

📅 Linha do tempo da evidência

2000JCAHO introduz escalas de dor obrigatórias em hospitais
2010Pico de prescrições de opioides nos EUA
2016Diretrizes da Sociedade Americana de Dor para analgesia multimodal
2017Esta revisão sobre avanços no manejo da dor aguda

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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