Estudo científico comentado

Antidepressivos no Tratamento da Fibromialgia: Meta-análise de 18 Estudos

Referência acadêmica

Periódico

JAMA

Ano

2009

Autores

Häuser et al.

Desenho

meta-análise

Esta análise de 18 estudos mostra que antidepressivos podem ajudar pessoas com fibromialgia a reduzir dor, melhorar sono e qualidade de vida. Os resultados são mais evidentes com amitriptilina (efeito grande) e duloxetina (efeito pequeno a médio). O benefício é modesto e deve ser avaliado individualmente, considerando que os estudos foram de curta duração e não sabemos sobre efeitos de longo prazo.

Título original do estudo: Treatment of Fibromyalgia Syndrome With Antidepressants: A Meta-analysis

📊meta-análise👥n=1427 participantesevidência forte
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Antidepressivos de curto prazo, especialmente amitriptilina em baixas doses e duloxetina, oferecem alívio modesto para dor, sono e qualidade de vida em fibromialgia, mas não curam a condição e seus efeitos a longo prazo permanecem desconhecidos.

O que isso significa para você?

Esta análise de 18 estudos mostra que antidepressivos podem ajudar pessoas com fibromialgia a reduzir dor, melhorar sono e qualidade de vida. Os resultados são mais evidentes com amitriptilina (efeito grande) e duloxetina (efeito pequeno a médio). O benefício é modesto e deve ser avaliado individualmente, considerando que os estudos foram de curta duração e não sabemos sobre efeitos de longo prazo.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Antidepressivos são uma opção com evidência científica para reduzir dor e melhorar sono em fibromialgia, mas os benefícios são parciais e variam muito entre pessoas
  • 2A amitriptilina em doses baixas (12,5-50 mg) teve o efeito mais forte, mas pode causar efeitos colaterais como boca seca e sonolência diurna que precisam ser discutidos
  • 3A duloxetina é uma alternativa com evidência, especialmente se há também sintomas depressivos, mas seu efeito na dor é mais modesto que o da amitriptilina
  • 4Nenhum estudo durou mais de 28 semanas, então não se sabe se vale a pena tomar por anos; o ideal é experimentar por algumas semanas e reavaliar com o médico
  • 5Se você é homem, tem mais de 65 anos, ou tem outras doenças significativas, saiba que a evidência direta para o seu perfil é muito limitada
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Considerando meu perfil de sintomas, qual classe de antidepressivo teria mais chance de me ajudar: algo mais para dor e sono (amitriptilina) ou algo mais para dor e humor (duloxeti
  • 2Como vamos avaliar se está funcionando, e em quanto tempo decidimos se continua ou muda de estratégia?
  • 3Quais efeitos colaterais são mais comuns com a medicação proposta, e como devemos proceder se eles aparecerem?
  • 4Existe algum problema em eu continuar usando paracetamol ou anti-inflamatórios junto com o antidepressivo?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1A taxa de efeitos colaterais foi numericamente maior com antidepressivos (75,5%) que com placebo (62,5%), embora a diferença não tenha atingido significância estatística; na prátic
  • 2A amitriptilina pode causar sonolência, boca seca, constipação e tontura, especialmente em idosos, e requer cautela em quem tem problemas de coração, glaucoma ou retenção urinária
  • 3A duloxetina e outros ISRSs/SNRIs podem causar náuseas, insônia inicial ou agitação, e não devem ser interrompidos abruptamente devido ao risco de síndrome de descontinuação (não e
  • 4Nenhum dos estudos avaliou interações específicas ou segurança em uso prolongado; a decisão de tratamento deve incluir discussão sobre riscos individuais e monitoramento

Leitura rápida para pacientes

Antidepressivos podem ajudar, mas não são a solução única

Esta análise de 18 estudos mostra benefícios reais, porém modestos, para dor e sono na fibromialgia, com destaque para amitriptilina e duloxetina.

Ponto 1

Amitriptilina em doses baixas teve o melhor resultado para dor e sono, mas não funciona para todos

Ponto 2

Os estudos foram curtos (em média 2 meses) e quase só incluíram mulheres de meia-idade

Ponto 3

Decida com seu médico, com expectativas realistas e plano de reavaliação periódica

O que este estudo acrescenta

ATUALIZAÇÃO DE EVIDÊNCIA

Foi a primeira meta-análise abrangente desde 2000 a incluir as novas classes de antidepressivos (SNRIs como duloxetina e milnaciprana), permitindo comparar eficácia entre classes e não apenas dizer que 'antidepressivos f

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

O efeito da amitriptilina na dor é clinicamente relevante (efeito grande), mas os efeitos de outras classes são pequenos. A homogeneidade da amostra (quase só mulheres), a curta duração dos estudos e a ausência de seguim

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos níveis mais altos de evidência científica, pois sintetiza dados de múltiplos experimentos controlados e randomizados, reduzindo o impacto de resultados isolados ao ac

Participantes totais

1. 427

soma de 18 ensaios clínicos randomizados

Proporção de mulheres

98%

mediana entre todos os estudos incluídos

Duração mediana dos estudos

8 semanas

variação de 4 a 28 semanas, sem seguimento posterior

Efeito da amitriptilina na dor

DMP -1,64

efeito grande, o mais robusto entre todas as classes testadas

Efeito geral dos antidepressivos na dor

DMP -0,43

efeito pequeno quando todas as classes são combinadas

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Fibromialgia (síndrome fibromiálgica)

Tipo de estudo

Meta-análise de ensaios clínicos randomizados controlados por placebo

Participantes

1427 pessoas com fibromialgia, 98% mulheres, idade média 47 anos

Duração

4 a 28 semanas de tratamento (mediana de 8 semanas), sem acompanhamento pós-inte

Sessões

Tratamento medicamentoso contínuo, sem sessões estruturadas

Comparador

Placebo farmacológico

Grupos do estudo

Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina)ISRSs (fluoxetina, paroxetina, citalopram)ISRNs/duloxetina, milnaciprana)IMAOs (moclobemide, pirlindole)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Tratamento medicamentoso contínuo, sem número definido de sessões

Frequência02

Uso diário de medicação oral

Duração da sessão03

Não aplicável (tratamento farmacológico contínuo)

Pontos / técnica04

Amitriptilina 12,5-50 mg/dia; nortriptilina 25 mg/dia; fluoxetina 20-80 mg/dia; paroxetina 20-62,5 mg/dia; citalopram 20-40 mg/dia; duloxetina 20-120 mg/dia; milnaciprana 100-200 m

Comparador05

Placebo idêntico em aparência, em paralelo ou desenho cruzado

Nota de protocolo06

Todos os estudos permitiam uso concomitante de paracetamol/acetaminofeno; oito estudos permitiam também AAS, AINEs ou codeína. Nenhum estudo controlou rigorosamente esse uso de ana

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pessoas com diagnóstico de fibromialgia por critérios do American College of Rheumatology (16 estudos) ou critérios alternativos reconhecidos (2 estudMulheres em grande maioria (mediana de 98% dos participantes entre todos os estudos)Adultos com idade média de 47 anos, predominantemente de origem europeia (89,5% brancos nos estudos que relataram raça)Pacientes atendidos em ambulatórios de reumatologia (11 estudos), centros de pesquisa (3 estudos) ou psiquiatria (1 estudo)Indivíduos que conseguiram completar o tratamento (taxa de conclusão de 71% no grupo antidepressivo e 78% no placebo)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Homens, crianças, adolescentes e idosos acima de 65 anos (quando especificado como critério de exclusão em alguns estudos; pouquíssimos participantesPessoas com doenças somáticas graves, doenças reumatológicas inflamatórias ou transtornos mentais severos (excluídos na maioria dos estudos)Pacientes com fibromialgia considerada 'refratária ao tratamento' (excluídos em 2 estudos da duloxetina)Pessoas em processo de solicitação de auxílio-doença ou benefício por incapacidade (excluídas em 4 estudos)Indivíduos de etnias não brancas em proporção representativa (dados limitados sobre diversidade racial)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Dor

reduziu

Efeito pequeno no geral (DMP -0,43), mas grande com amitriptilina (DMP -1,64) e pequeno com duloxetina, milnaciprana, fluoxetina e moclobemide

😴

Sono

melhorou

Efeito pequeno no geral (DMP -0,32), com melhora mais evidente com amitriptilina (efeito grande, DMP -1,84) e duloxetina/milnaciprana

🌅

Qualidade de vida

melhorou

Efeito pequeno no geral (DMP -0,31), consistente entre as classes de antidepressivos analisadas

😔

Humor deprimido

melhorou

Efeito pequeno no geral (DMP -0,26), mais evidente com duloxetina; curiosamente, amitriptilina não mostrou efeito significativo sobre humor apesar de forte efeito na dor

Fadiga

melhora muito modesta

Efeito geral pequeno e na fronteira da significância (DMP -0,13); apenas amitriptilina mostrou efeito relevante, enquanto duloxetina, fluoxetina e outros não demonstraram benefício claro

O que não mudou

  • A proporção de efeitos adversos severos não diferiu entre antidepressivos (2,30%) e placebo (2,95%)
  • A taxa de abandono por efeitos colaterais foi similar entre grupos, sugerindo que a tolerabilidade geral foi comparável
  • Não houve redução significativa de custos relacionados à fibromialgia (não avaliado nos estudos incluídos)

Quando a melhora apareceu

1

4 a 28 semanas (mediana de 8 semanas)

Avaliação ao final do tratamento

Todos os desfechos foram medidos apenas ao final do período de tratamento ativo; não houve avaliações intermediárias sistemáticas para determinar quando exatamente a melhora começa

2

Nenhum

Ausência de seguimento pós-tratamento

Nenhum estudo incluiu visita de acompanhamento após a interrupção dos antidepressivos, impedindo saber se os benefícios persistiam

Antes e depois

Intensidade da dor (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos estimados

Antes7 pontos estimados
Depois5 pontos estimados

Qualidade do sono (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos estimados

Antes6 pontos estimados
Depois4 pontos estimados

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Taxa geral de efeitos adversos não diferiu significativamente entre antidepressivos e placebo
  • Efeitos adversos severos foram raros e igualmente distribuídos entre tratamento e placebo
  • Amitriptilina usada em doses baixas (12,5-50 mg), menores que as antidepressivas típicas, o que pode favorecer tolerabilidade
Amarelo
  • Maior taxa numérica de abandono por efeitos colaterais no grupo antidepressivo (15,7% vs 8,1%), embora não estatisticamente significativa
  • Três estudos da duloxetina usaram fase de placebo inicial de uma semana, o que pode ter viciado a percepção de efeitos colaterais
  • Nenhum estudo mediu níveis sanguíneos para confirmar adesão real ao tratamento
Vermelho
  • Nenhum estudo avaliou segurança ou eficácia após 28 semanas de uso; efeitos de longo prazo são desconhecidos
  • Nenhum estudo incluiu seguimento após interrupção do medicamento; não se sabe se há síndrome de descontinuação ou recaída
  • População estudada foi altamente selecionada, excluindo muitos pacientes com comorbidades comuns na prática real

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Mulheres de meia-idade com fibromialgia confirmada por critérios do ACR, sem doenças somáticas graves ou transtornos mentais severos
  • Pacientes com dor e distúrbios do sono como sintomas predominantes, que podem se beneficiar mais da amitriptilina
  • Pessoas com fibromialgia associada a sintomas depressivos moderados, que podem se beneficiar da duloxetina
  • Indivíduos que já não obtiveram alívio adequado com analgésicos simples e buscam opções farmacológicas adicionais
  • Pacientes com disponibilidade para reavaliação médica periódica do tratamento

Mais cautela para extrapolar

  • Homens com fibromialgia (dados de eficácia muito limitados, embora um estudo da duloxetina tenha incluído alguns)
  • Pessoas acima de 65 anos (poucos incluídos; risco de efeitos colaterais cardiovasculares e anticolinérgicos com amitriptilina)
  • Pacientes com fibromialgia e doenças inflamatórias reumatológicas concomitantes (excluídos dos estudos)
  • Indivíduos com transtornos mentais graves ou ideação suicida (excluídos; necessitam avaliação psiquiátrica especializada)
  • Quem busca cura definitiva ou solução única para todos os sintomas da fibromialgia

Expectativa realista

Alívio parcial e gradual, não cura

Se houver resposta, é provável que note redução modesta da intensidade da dor, sono um pouco mais reparador e talvez melhor geral no bem-estar. A fibromialgia como condição permanece; o objetivo é tornar os sintomas mais manejáveis.

Tempo provável

A maioria dos estudos durou 8 semanas; não há dados sobre quando exatamente a melhora começa, nem se ela se mantém após

Cerca de um quarto a um terço dos pacientes pode não sentir benefício significativo, e os efeitos sobre a fadiga são particularmente incertos.

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte ao médico se sua combinação de sintomas (dor, sono, humor, fadiga) se alinha melhor com alguma classe específica de antidepressivo
  2. 2Discuta se você tem alguma das exclusões dos estudos (doenças graves, transtornos mentais severos, idade avançada) e como isso muda a relação risco-benefício
  3. 3Questione sobre plano de monitoramento: em quanto tempo será reavaliado se o medicamento está ajudando? E o que fazer se não ajudar?
  4. 4Informe-se sobre interações com medicamentos que já usa, especialmente analgésicos, anti-inflamatórios ou outros psicofármacos
  5. 5Peça esclarecimentos sobre como interromper o medicamento com segurança, se necessário, considerando que os estudos não avaliaram descontinuação

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Antidepressivos curam a fibromialgia

Achado

Os estudos mostram redução parcial de sintomas, não cura. A qualidade de vida melhora modestamente, mas a condição permanece.

Mito

Todo antidepressivo funciona igualmente para fibromialgia

Achado

Há diferenças importantes entre classes: amitriptilina teve efeito grande na dor, enquanto ISRSs e SNRIs tiveram efeitos pequenos. A fadiga praticamente não respondeu à maioria dos medicamentos.

Mito

Se melhorar o humor, a dor some

Achado

A amitriptilina teve forte efeito na dor e sono sem efeito significativo no humor, sugerindo que o mecanismo de alívio pode ser independente do efeito antidepressivo.

Mito

É seguro tomar antidepressivos para fibromialgia por anos

Achado

Todos os estudos duraram no máximo 28 semanas, a maioria apenas 8. Não há evidência sobre segurança ou eficácia de uso prolongado.

Como isso pode funcionar

🧠

PASSO 1

A fibromialgia envolve alteração no processamento da dor no sistema nervoso central, com amplificação de sinais dolorosos (mecanismo conhecido como sensibilização central)

💊

PASSO 2

Antidepressivos aumentam a disponibilidade de serotonina e/ou noradrenalina no cérebro, neurotransmissores que participam da modulação da dor e do sono (mecanismo proposto, não completamente elucidado)

PASSO 3

Amitriptilina em baixas doses pode agir principalmente sobre canais de sódio e receptores de histamina, explicando seu efeito particularmente forte no sono e na dor mesmo sem melhora do humor

INCERTEZA

Por que alguns pacientes respondem e outros não? Por que a fadiga resiste ao tratamento? Essas questões permanecem sem resposta clara e são áreas ativas de pesquisa

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se os benefícios persistem após meses ou anos de uso contínuo, nem o que acontece quando se interrompe o medicamento
  • ?A quase total ausência de homens, idosos e pessoas de diversas etnias na amostra limita severamente a generalização dos resultados
  • ?O papel dos analgésicos concomitantes (paracetamol, AINEs, codeína) não foi controlado, podendo ter inflacionado ou mascarado os efeitos dos antidepre
  • ?Não há consenso sobre qual classe ou dose é ideal para cada perfil de sintomas, nem preditores confiáveis de quem vai responder bem
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar a eficácia de antidepressivos no tratamento dos sintomas da fibromialgia

👥

QUEM PARTICIPOU

1427 pessoas com fibromialgia (98% mulheres, idade média 47 anos)

🧪

COMO FOI FEITO

18 estudos compararam antidepressivos com placebo por 4-28 semanas

📈

O QUE MUDOU

Melhora significativa da dor, sono e qualidade de vida com amitriptilina e duloxetina

🛟

SEGURANÇA

Efeitos adversos semelhantes entre antidepressivos (75,5%) e placebo (62,5%)

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

EFEITO DIFERENCIADO POR CLASSE

Pela primeira vez em uma meta-análise ampla, ficou claro que não é tudo igual: amitriptilina teve efeito grande na dor, enquanto ISRSs e SNRIs tiveram efeitos pequenos, mudando a forma de pensar sobre 'antidepressivos pa

🧭

DISSOCIAÇÃO DOR-HUMOR

A descoberta de que amitriptilina melhora intensamente a dor e o sono sem melhorar o humor deprimido sugere que seu mecanismo na fibromialgia vai além do efeito antidepressivo clássico

📌

LACUNA DA FADIGA

A fadiga — um dos sintomas centrais da fibromialgia — mostrou-se resistente à maioria dos antidepressivos, indicando que este sintoma precisa de abordagens diferentes

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Antidepressivos no Tratamento da Fibromialgia: Meta-análise de 18 Estudos

A fibromialgia é uma condição que afeta entre 0,5% e 5,8% da população na América do Norte e Europa, sendo muito mais frequente em mulheres. Caracteriza-se principalmente por dor generalizada crônica e sensibilidade em pontos específicos do corpo, mas vai muito além disso: quem vive com fibromialgia relata fadiga persistente, sono não reparador, alterações de humor e redução significativa da qualidade de vida. A condição também gera custos elevados, tanto diretos com tratamentos quanto indiretos relacionados à incapacidade para o trabalho. Diante desse cenário, encontrar tratamentos que realmente ajudem é uma necessidade médica e econômica urgente.

Neste contexto, pesquisadores liderados por Winfried Häuser realizaram uma meta-análise abrangente, publicada no JAMA em 2009, para avaliar se antidepressivos são eficazes no tratamento dos sintomas da fibromialgia. O estudo reuniu 18 ensaios clínicos randomizados, totalizando 1427 participantes, com duração média de 8 semanas, variando de 4 a 28 semanas. A grande maioria dos participantes era do sexo feminino (98%), com idade média de 47 anos. Os medicamentos analisados pertenciam a quatro classes: antidepressivos tricíclicos (principalmente amitriptilina), inibidores seletivos de recaptação de serotonina (fluoxetina, paroxetina, citalopram), inibidores duplos de recaptação de serotonina e noradrenalina (duloxetina, milnaciprana) e inibidores da monoaminoxidase (moclobemide, pirlindole).

A metodologia foi rigorosa: dois revisores independentes extraíram os dados, e a qualidade dos estudos foi avaliada por instrumentos reconhecidos (escalas de van Tulder e Jadad). Os resultados foram expressos em diferença média padronizada, uma medida que permite comparar estudos que usaram escalas diferentes para avaliar os mesmos sintomas. A análise considerou cinco desfechos principais: dor, fadiga, distúrbios do sono, humor deprimido e qualidade de vida relacionada à saúde.

Os resultados mostraram evidência forte de que antidepressivos, de forma geral, reduzem a dor (efeito pequeno), melhoram o sono (efeito pequeno), aliviam o humor deprimido (efeito pequeno) e melhoram a qualidade de vida (efeito pequeno). No entanto, para a fadiga, o efeito foi muito tímido, praticamente na fronteira da significância estatística, o que sugere que este sintoma específico responde menos bem aos antidepressivos.

A análise por classes de medicamentos revelou diferenças importantes. Os antidepressivos tricíclicos, especialmente a amitriptilina em doses baixas (12,5 a 50 mg por dia), apresentaram o efeito mais robusto: redução grande da dor, melhora significativa do sono e até redução da fadiga. É importante notar que essas doses são menores do que as usadas para tratar depressão, o que sugere que o mecanismo de alívio da dor na fibromialgia pode ser diferente do efeito antidepressivo propriamente dito. Os inibidores duplos (SNRIs), representados principalmente pela duloxetina, mostraram efeitos pequenos a moderados sobre dor, sono, humor e qualidade de vida, mas não sobre fadiga.

Os ISRSs tiveram efeitos pequenos limitados à dor, humor e qualidade de vida, sem impacto no sono ou fadiga. Os inibidores da MAO mostraram resultados modestos apenas para dor.

Quanto à segurança, a taxa de efeitos adversos relatados foi de 75,5% no grupo dos antidepressivos versus 62,5% no grupo placebo, uma diferença que não foi estatisticamente significativa. A taxa de abandono do tratamento por efeitos colaterais também foi similar entre os grupos (15,7% versus 8,1%). Isso sugere que, em geral, os antidepressivos foram razoavelmente bem tolerados nesses estudos de curta duração.

No entanto, é fundamental reconhecer as limitações desta meta-análise para interpretar seus resultados com prudência. Primeiro, a duração dos estudos foi curta: a maioria durou apenas 8 semanas, e nenhum estudo avaliou o que acontece após a interrupção do medicamento. Não sabemos se os benefícios se mantêm a longo prazo ou se o tratamento precisa ser contínuo. Segundo, a amostra foi extremamente homogênea: 98% mulheres, predominantemente brancas, com idade média de 47 anos.

Não é possível afirmar com segurança que os mesmos resultados se aplicariam a homens, pessoas de outras etnias, idosos acima de 65 anos ou adolescentes. Terceiro, a maioria dos estudos excluiu pacientes com doenças somáticas graves ou transtornos mentais severos, o que limita a aplicabilidade para quem tem fibromialgia acompanhada de outras condições médicas significativas. Quarto, nenhum estudo controlou rigorosamente o uso de outros analgésicos que os participantes pudessem estar tomando, o que poderia ter influenciado os resultados.

Do ponto de vista prático, esta meta-análise oferece orientações úteis, mas não definitivas. A amitriptilina em baixas doses e a duloxetina emergem como as opções com melhor evidência de eficácia para dor e sono na fibromialgia. Contudo, a decisão de usar antidepressivos deve ser individualizada, considerando o perfil de sintomas de cada pessoa (por exemplo, se o sono é o problema predominante, a amitriptilina pode ser mais adequada), as comorbidades, as medicações em uso e as preferências do paciente. É essencial que médicos e pacientes estabeleçam objetivos realistas: antidepressivos não curam a fibromialgia, mas podem reduzir a intensidade de alguns sintomas.

O tratamento deve ser reavaliado periodicamente, verificando se os benefícios justificam a continuidade, especialmente porque a evidência de efeitos a longo prazo ainda é insuficiente. Futuros estudos com maior diversidade de participantes, duração mais prolongada e acompanhamento após a interrupção do tratamento são necessários para preencher lacunas importantes no manejo desta condição tão desafiadora.

O que fortalece a leitura

  • 1Grande número de participantes (1427 pessoas)
  • 2Análise de diferentes classes de antidepressivos
  • 3Avaliação sistemática de qualidade metodológica
  • 4Resultados consistentes entre estudos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Duração curta dos estudos (maioria 8 semanas)
  • 298% dos participantes eram mulheres
  • 3Falta seguimento após interrupção do tratamento
  • 4Não controlou uso de medicações analgésicas concomitantes

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

1427pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Antidepressivos tricíclicos

254 pessoas

amitriptilina 12,5-50mg/dia

Inibidores seletivos de recaptação

132 pessoas

fluoxetina, paroxetina

Inibidores duplos

804 pessoas

duloxetina, milnaciprana

Placebo

511 pessoas

placebo

⏱️ Tempo de acompanhamento: 4 a 28 semanas (mediana 8 semanas)

📊 Resultados em números

DME -0,43

Redução da dor

DME -0,32

Melhora do sono

DME -0,31

Melhora na qualidade de vida

DME -0,13

Redução da fadiga

📊 Comparação de Resultados

Eficácia para dor (tamanho do efeito)

Antidepressivos tricíclicos
1.64
ISRSs
0.39
ISRNs
0.36

📅 Linha do tempo da evidência

2000Primeira meta-análise sobre antidepressivos na fibromialgia
2004Diretrizes americanas incluem antidepressivos no tratamento
2008Duloxetina aprovada pelo FDA para fibromialgia
2009Esta meta-análise confirma eficácia com 18 estudos

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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