participantes
160
adultos com dor crônica em centro de tratamento especializado
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
Pain
Ano
1998
Autores
McCracken
Desenho
Nível não totalmente claro
Este estudo mostra que pessoas com dor crônica que conseguem aceitar sua condição tendem a ter melhor qualidade de vida, menos depressão e ansiedade, e funcionam melhor no dia a dia. A aceitação não significa desistir do tratamento, mas sim parar de lutar constantemente contra algo que pode não mudar completamente. Os resultados sugerem que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais benéfico do que se concentrar apenas em eliminar a dor.
Título original do estudo: Learning to live with the pain: acceptance of pain predicts adjustment in persons with chronic pain
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Pacientes com dor crônica que relatam maior aceitação da condição tendem a apresentar menos depressão, ansiedade e incapacidade — mas este estudo observacional não prova que aceitar a dor cause esses benefícios, apenas que ambos estão associados.
Este estudo mostra que pessoas com dor crônica que conseguem aceitar sua condição tendem a ter melhor qualidade de vida, menos depressão e ansiedade, e funcionam melhor no dia a dia. A aceitação não significa desistir do tratamento, mas sim parar de lutar constantemente contra algo que pode não mudar completamente. Os resultados sugerem que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais benéfico do que se concentrar apenas em eliminar a dor.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
Este estudo mostra que pessoas com dor crônica que conseguem aceitar sua condição tendem a viver melhor, mesmo quando a dor persiste
Ponto 1
A luta constante para eliminar a dor pode aumentar o sofrimento emocional e limitar sua vida
Ponto 2
Aceitação significa parar de bater em porta fechada, não abandonar tratamentos que realmente ajudam
Ponto 3
Focar no que ainda é possível fazer pode trazer mais alívio que focar apenas no que a dor impede
O que este estudo acrescenta
Um dos primeiros estudos a quantificar sistematicamente a relação entre aceitação da dor e ajuste psicológico/funcional, pavimentando o desenvolvimento posterior das terapias baseadas em aceitação para dor crônica
Aplicabilidade clínica
O estudo identifica uma associação robusta e consistente entre aceitação e múltiplos indicadores de ajuste, com análises que controlam intensidade da dor. No entanto, o desenho transversal impede conclusões causais, e nã
Força do desenho do estudo
Mediu características de pacientes em um único momento, sem intervenção ou acompanhamento temporal, o que permite identificar associações mas não estabelecer relações de causa e ef
participantes
160
adultos com dor crônica em centro de tratamento especializado
correlação aceitação-depressão
r = -0,58
associação moderada a forte entre maior aceitação e menos sintomas depressivos
correlação aceitação-ansiedade
r = -0,66
forte associação entre aceitação e menor ansiedade relacionada à dor
correlação aceitação-intensidade da dor
r = -0,28
relação modesta, sugerindo que aceitação não é apenas consequência de sentir menos dor
tempo médio de dor
36 meses
mediana de duração da dor crônica na amostra estudada
Ficha rápida do estudo
Condição
dor crônica em adultos
Tipo de estudo
estudo transversal observacional
Participantes
160 adultos buscando tratamento em centro de dor, maioria mulheres (66%), idade
Duração
avaliação única, sem acompanhamento longitudinal
Sessões
avaliação por questionários em momento único
Comparador
sem grupo comparador; análise de correlação entre variáveis
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
avaliação única por questionários
aplicação em momento único durante avaliação inicial
não especificado; preenchimento de múltiplos questionários
Chronic Pain Acceptance Questionnaire (CPAQ), Beck Depression Inventory (BDI), Pain Anxiety Symptoms Scale (PASS), Sickness Impact Profile (SIP), escala visual analógica de dor e r
sem intervenção ou grupo comparador; estudo observacional correlacional
Não houve tratamento ou intervenção experimental; os pacientes foram apenas avaliados quanto às características psicológicas e funcionais já presentes
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
intensidade da dor
associada a menor intensidade
correlação modesta (r=-0,28); pacientes mais aceitantes relataram dor levemente menos intensa
ansiedade relacionada à dor
reduziu
forte correlação negativa (r=-0,66); maior aceitação associada a menos ansiedade e evitação
depressão
reduziu
correlação negativa substancial (r=-0,58); aceitação ligada a menos sintomas depressivos
incapacidade física
melhorou
menor impacto da doença nas atividades físicas do dia a dia
incapacidade psicossocial
melhorou
melhor funcionamento em interações sociais e atividades relacionadas à comunicação e interação
tempo de atividade diária
melhorou
mais horas de atividade produtiva e menos tempo deitado ou inativo
O que não mudou
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Este estudo sugere que aprender a aceitar a dor crônica pode estar associado a menos sofrimento emocional e maior capacidade de funcionamento no dia a dia, mesmo sem redução drástica da intensidade da dor
Tempo provável
Não aplicável — estudo não avaliou intervenção ao longo do tempo, apenas características presentes em momento único
A aceitação observada pode ser consequência, não causa, do melhor ajuste; não se sabe se ensinar aceitação produziria os mesmos resultados
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Aceitar a dor significa desistir de tratamento e resignar-se ao sofrimento
Achado
O estudo define aceitação como abandonar tentativas improdutivas de controle, não todos os tratamentos — e associa essa postura a menos depressão e mais atividade
Mito
Quem aceita a dor simplesmente sente menos dor
Achado
A correlação entre aceitação e intensidade da dor foi modesta (r=-0,28); a aceitação permaneceu associada ao ajuste mesmo após controlar a intensidade da dor
Mito
Pacientes deprimidos ou ansiosos não conseguem aceitar a dor
Achado
O estudo mostrou associação, mas não direção causal; é possível que a falta de aceitação contribua para a piora emocional, ou vice-versa, ou ambos
Mito
Este estudo prova que terapia de aceitação funciona para dor crônica
Achado
O estudo não testou nenhuma intervenção; apenas observou que pacientes que já relatam mais aceitação também relatam melhor ajuste — são dados correlacionais, não de eficácia de tratamento
Como isso pode funcionar
CICLO DE EVITAÇÃO
Tentativas repetidas de eliminar a dor levam a evitação de atividades, descondicionamento e manutenção de expectativas irrealistas — mecanismo proposto, não diretamente testado neste estudo
EXPANSÃO DE EXPERIÊNCIA
Aceitação pode permitir maior exposição a atividades e contingências naturais, reduzindo reações emocionais exageradas — hipótese do autor baseada em trabalhos anteriores
REDIRECIONAMENTO DE FOCO
Energia antes dedicada a controlar a dor é direcionada para metas e valores pessoais, potencialmente aumentando satisfação e funcionamento — mecanismo teórico, não confirmado causalmente
EQUILÍBRIO DINÂMICO
Aceitação e controle não são mutuamente excludentes; o ideal seria um processo contínuo de avaliação sobre quando persistir em tratamentos e quando investir em viver bem apesar da dor
O que ainda é incerto
avaliar se aceitar a dor crônica está relacionado ao melhor ajuste psicológico e funcional dos pacientes
160 adultos com dor crônica buscando tratamento em clínica especializada
aplicação de questionários sobre aceitação da dor, ansiedade, depressão e incapacidade
maior aceitação da dor correlacionou com menor depressão, ansiedade e melhor função diária
estudo observacional sem intervenção, apenas questionários
Achados Interessantes
ACEITAÇÃO INDEPENDENTE DA INTENSIDADE
Pela primeira vez com evidências quantitativas robustas: aceitar a dor não é só coisa de quem já sente pouca dor — a relação com melhor ajuste permanece mesmo estatisticamente controlando a intensidade da dor
REDEFINIÇÃO DO OBJETIVO TERAPÊUTICO
O estudo ajudou a legitimar uma mudança de paradigma: em vez de medir sucesso apenas pela redução da dor, passou-se a considerar como a pessoa está vivendo com a dor
MENSAGEM CLÍNICA MEMORÁVEL
A frase que pacientes temiam ouvir — 'você vai ter que aprender a viver com a dor' — foi ressignificada: pode não ser uma sentença de derrota, mas uma orientação para melhor qualidade de vida
Resumo detalhado em linguagem acessível
Viver com dor crônica é uma experiência que milhões de pessoas enfrentam diariamente, e muitas vezes a busca incessante pela eliminação completa da dor acaba se tornando parte do próprio problema. Em 1998, o psicólogo Lance M. McCracken publicou na revista Pain um estudo que ajudou a mudar a forma como compreendemos o enfrentamento da dor persistente. A pesquisa surgiu em um momento em que a medicina da dor começava a reconhecer que, para uma parcela significativa de pacientes, os tratamentos convencionais não conseguiam produzir alívio duradouro — levantamentos da época indicavam que cerca de 82% dos pacientes de clínicas especializadas continuavam com dor mesmo após dois anos de acompanhamento.
McCracken propôs investigar se aceitar a dor, em vez de lutar constantemente contra ela, poderia estar associado a uma vida mais funcional e emocionalmente equilibrada.
O estudo foi realizado com 160 adultos que buscavam tratamento em um centro universitário de manejo da dor. A maioria era do sexo feminino (66%), com idade média de 47 anos, e a dor lombar era o principal motivo de queixa (60% dos casos). Esses pacientes já viviam com dor há uma mediana de três anos, e quase metade havia passado por pelo menos uma cirurgia relacionada à dor. Tratava-se de um desenho transversal: os participantes foram avaliados uma única vez, por meio de questionários que mediam aceitação da dor, intensidade da dor, ansiedade relacionada à dor, depressão, incapacidade física e psicossocial, tempo de atividade diária e situação de trabalho.
A aceitação da dor foi medida por um instrumento chamado Chronic Pain Acceptance Questionnaire (CPAQ), desenvolvido por Geiser em 1992. Esse questionário avalia o quanto a pessoa reconhece que tem dor, abandona tentativas improdutivas de controlá-la, age como se a dor não necessariamente implicasse incapacidade e consegue direcionar seus esforços para viver de forma satisfatória apesar da dor. Itens como "Estou seguindo em frente com a vida, não importa qual seja meu nível de dor" e "É um alívio perceber que não preciso mudar minha dor para seguir com minha vida" exemplificam essa abordagem.
Os resultados foram consistentes e reveladores. Pacientes com maior pontuação de aceitação relataram menor intensidade de dor, menos ansiedade e comportamentos de evitação, menos depressão, menor incapacidade física e psicossocial, mais horas de atividade diária e melhor situação no trabalho. A correlação entre aceitação e intensidade da dor foi relativamente modesta (r = -0,28), o que indica que aceitar a dor não é simplesmente uma consequência de ter menos dor — ou seja, não são apenas os pacientes que já sofrem menos que conseguem aceitar melhor. O ponto mais importante veio das análises de regressão: mesmo controlando a intensidade da dor e variáveis demográficas como idade, gênero, educação e tempo de dor, a aceitação continuou sendo um preditor significativo de todos os indicadores de ajuste.
Isso sugere que a aceitação tem uma relação própria com o bem-estar, independentemente de quanto a pessoa está doendo no momento.
A interpretação desses achados, porém, exige cautela. Como o próprio autor enfatiza, o estudo é transversal — todos os dados foram coletados em um único momento. Isso significa que não podemos afirmar que aceitar a dor causa melhor ajuste; é igualmente plausível que pessoas que já estão menos deprimidas, menos ansiosas e mais funcionais simplesmente encontrem mais fácil aceitar sua condição. A direção da relação permanece incerta.
Além disso, todos os dados foram obtidos por autorrelato, o que introduz a possibilidade de que características de estilo de resposta ou estado emocional no momento da avaliação tenham influenciado as respostas em múltiplos questionários de forma semelhante.
Do ponto de vista prático, o estudo oferece uma mensagem valiosa para pacientes: a luta constante para eliminar a dor pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento. Quando tentativas repetidas de controle da dor falham, o esforço contínuo de evitação pode levar à descondicionamento físico, manter expectativas irrealistas e perpetuar um ciclo de ansiedade e depressão. Aceitar a dor, neste contexto, não significa desistir de tratamentos que possam ajudar, mas sim reconhecer quando a busca obsessiva pelo controle se torna mais prejudicial que a própria dor. É um convite a redirecionar energia para metas e atividades que ainda são possíveis e significativas, mesmo na presença de desconforto.
O autor destaca que essa transição não é uma decisão única, mas um processo contínuo de equilíbrio entre estratégias de controle e aceitação. E ressalva que nossa cultura e a experiência prévia dos pacientes com o sistema de saúde não os preparam para essa abordagem — desde crianças aprendemos que sintomas devem ser eliminados, não vividos. Mudar essa lógica exige não apenas esforço individual, mas também que profissionais de saúde validem a experiência do paciente e ofereçam explicações completas, para que a sugestão de "aprender a viver com a dor" não seja percebida como rejeição ou justificativa para falha terapêutica.
Para pacientes que já tentaram múltiplos tratamentos sem sucesso duradouro, este estudo oferece uma perspectiva alternativa e esperançosa: é possível que a qualidade de vida melhore mesmo sem redução drástica da dor, desde que haja uma mudança na relação com ela. Essa é a essência do que hoje conhecemos como terapias baseadas em aceitação e compromisso, que se desenvolveram amplamente nas décadas seguintes a esta pesquisa pioneira.
pacientes com dor crônica
160 pessoas
avaliação por questionários
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Conheça a equipe da clínica →Dor crônica · Avaliação especializada
Converse com quem trata dor crônica há mais de 40 anos
A equipe do Prof. Dr. Hong Jin Pai avalia seu caso em consulta presencial na Alameda Jaú, Jardim Paulista, São Paulo.
Acesse a fonte original
Continue lendo
Outros estudos próximos para aprofundar a leitura.
O que este estudo responde
A fibromialgia é uma síndrome de sensibilização central com base neurobiológica demonstrável, e o tratamento mais eficaz combina medicamentos que modulam…
Vale abrir se...
Útil se você quer uma visão rápida sobre fibromialgia.
Comparador
Não aplicável — compara entre diferentes abordagens terapêuticas na literatura
Força da evidência
Clauw DJ
The American Journal of Medicine
O que este estudo responde
O cérebro possui circuitos naturais que aumentam ou diminuem a dor, mas a dor crônica danifica esses mesmos circuitos; por outro lado, tratamentos…
Vale abrir se...
Útil se você quer entender como pacientes com dor crônica de diversas etiologias foi comparado a comparações entre estados atencionais, emocionais, uso de placebo, presença…
Comparador
Comparações entre estados atencionais, emocionais, uso de placebo, presença ou ausência de dor crônica
Força da evidência
Bushnell et al.
Nature Reviews Neuroscience
O que este estudo responde
Fatores psicológicos explicam a maior parte da incapacidade na dor crônica, e tratamentos que os abordam de forma integrada — especialmente programas…
Vale abrir se...
Útil se você quer entender como não aplicável — revisão de estudos existentes foi comparado a diversos comparadores nos estudos originais: lista de espera, tratamento médico…
Comparador
Diversos comparadores nos estudos originais: lista de espera, tratamento médico isolado, cuidado usual
Força da evidência
Turk & Okifuji
Journal of Consulting and Clinical Psychology
O que este estudo responde
Terapias cognitivo-comportamentais para dor crônica têm eficácia comprovada, mas efeitos modestos e variáveis; o sucesso depende mais das expectativas e…
Vale abrir se...
Útil se você quer entender como diversos estudos de tcc revisados foi comparado a lista de espera, cuidado usual, tratamentos ativos alternativos (massagem, acupuntura), ou…
Comparador
Lista de espera, cuidado usual, tratamentos ativos alternativos (massagem, acupuntura), ou ausência de tratamento
Força da evidência
Vlaeyen & Morley
Clinical Journal of Pain