Estudos incluídos
19
12 com ondas radiais, 7 com ondas focalizadas
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Este estudo revisou 19 pesquisas sobre terapia por ondas de choque para tratar dor nos músculos e pontos gatilho (dor miofascial). Os resultados mostram que tanto ondas de choque radiais quanto focalizadas podem reduzir a dor e melhorar a função muscular. Infelizmente, não foram encontrados estudos sobre fibromialgia, indicando uma lacuna importante na pesquisa. É um tratamento promissor e não-invasivo para dor miofascial.
Título original do estudo: Efficacy and Effectiveness of Extracorporeal Shockwave Therapy in Patients with Myofascial Pain or Fibromyalgia: A Scoping Review
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
A terapia por ondas de choque mostra evidências promissoras para reduzir dor e melhorar função em pacientes com síndrome da dor miofascial, mas não existe nenhum estudo clínico que a avalie para fibromialgia até o momento.
Este estudo revisou 19 pesquisas sobre terapia por ondas de choque para tratar dor nos músculos e pontos gatilho (dor miofascial). Os resultados mostram que tanto ondas de choque radiais quanto focalizadas podem reduzir a dor e melhorar a função muscular. Infelizmente, não foram encontrados estudos sobre fibromialgia, indicando uma lacuna importante na pesquisa. É um tratamento promissor e não-invasivo para dor miofascial.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
A evidência é favorável para pontos-gatilho dolorosos, mas ainda não existe comprovação para fibromialgia generalizada
Ponto 1
Tratamento não invasivo, geralmente com 3 a 4 sessões semanais sobre o ponto doloroso
Ponto 2
Pode reduzir dor e melhorar movimento, mas não funciona para todos e não cura a condição
Ponto 3
Fibromialgia ainda não tem estudos que comprovem benefício; converse com seu médico sobre a melhor indicação para você
O que este estudo acrescenta
Este é o primeiro mapeamento sistemático dedicado exclusivamente à ESWT para dor miofascial e fibromialgia, que revelou a ausência crítica de evidência para fibromialgia e propôs o primeiro protocolo adaptado aos critéri
Aplicabilidade clínica
A evidência é consistente para dor miofascial, com múltiplos ensaios randomizados mostrando benefício sobre placebo e equivalência ou superioridade sobre alguns tratamentos convencionais. No entanto, a heterogeneidade do
Força do desenho do estudo
Este trabalho sintetiza múltiplos ensaios clínicos randomizados e observacionais, oferecendo visão panorâmica da evidência, mas sem combinar estatisticamente os resultados numérico
Estudos incluídos
19
12 com ondas radiais, 7 com ondas focalizadas
Pacientes totais
1. 158
Soma das amostras dos estudos analisados
Ensaios randomizados
15
Maior nível de evidência entre os estudos incluídos
Estudos sobre fibromialgia
0
Lacuna crítica identificada pela revisão
Variação de sessões
2 a 7
Heterogeneidade que dificulta padronização clínica
Ficha rápida do estudo
Condição
Síndrome da dor miofascial (nenhum estudo para fibromialgia)
Tipo de estudo
Revisão de escopo (scoping review)
Participantes
1. 158 pacientes de 19 estudos clínicos
Duração
Variável: protocolos de 2 a 7 sessões, com acompanhamento de 1 semana a 4 meses
Sessões
2 a 7 sessões, geralmente 1 por semana
Comparador
Sham/placebo, ultrassom, laserterapia, agulhamento, injeção de corticoide, TENS + calor, exercícios, anti-inflamatório t
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
2 a 7 sessões (mais comum: 3 sessões)
Geralmente 1 vez por semana; alguns protocolos com intervalos de 3 dias
Não especificado de forma padronizada; aplicação de 1. 000 a 4. 500 ondas por sess
Aplicação direta sobre pontos-gatilho miofasciais identificados por palpação; energia e número de ondas variáveis conforme modalidade radial ou focalizada
Diversos: sham, ultrassom, laser, exercícios, agulhamento, injeção de corticoide, TENS + calor, anti-inflamatório tópico
Alta heterogeneidade entre estudos; não há protocolo padronizado consensual. Intensidade geralmente ajustada à tolerabilidade do paciente
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
Intensidade da dor
Reduziu
Diminuição significativa em escores de VAS e outras escalas em comparação a sham e alguns tratamentos ativos
Limiar de dor à pressão
Melhorou
Aumento do PPT (pressure pain threshold) nos pontos-gatilho, indicando menor sensibilidade mecânica
Amplitude de movimento
Melhorou
Ganho de mobilidade cervical e de outras regiões tratadas em alguns estudos comparativos
Capacidade funcional
Melhorou
Redução de escores de incapacidade (NDI, ODI, SPADI) em vários estudos
Qualidade do sono
Melhorou
Melhora do PSQI em um estudo comparativo com TENS + calor + ultrassom
Qualidade de vida e humor
Melhorou
Ganhos em SF-36 e redução de escores de depressão (BDI) em estudos específicos
O que não mudou
Quando a melhora apareceu
Imediato a poucos dias
Após a primeira sessão
Alguns estudos relatam redução inicial da dor logo após o tratamento, embora nem sempre estatisticamente significativa versus controle
2 a 3 semanas
Ao final do protocolo
Maioria dos estudos mostra redução significativa da dor e melhora funcional após completar 3 sessões semanais
4 a 8 semanas
Seguimento de curto prazo
Efeitos mantidos em vários estudos, com superioridade da ESWT sobre alguns comparadores como injeção de corticoide após 1 mês
Até 4 meses
Seguimento de médio prazo
Dados limitados; alguns estudos sugerem persistência do benefício, mas a maioria dos acompanhamentos é de curta duração
Antes e depois
Dor (VAS 0-10) - exemplo representativo
escala máx. 10 pontos
Incapacidade cervical (NDI 0-50) - exemplo representativo
escala máx. 50 pontos
Limiar de dor à pressão - exemplo representativo
escala máx. 10 kg/cm² (aproximado)
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
A maioria dos pacientes com dor miofascial pode esperar redução da intensidade dolorosa e melhora da função após 3 a 4 sessões semanais de ESWT, com manutenção do benefício por semanas a meses
Tempo provável
Primeiros sinais de melhora em 1 a 2 semanas; efeito mais consolidado ao final do protocolo e nas 4 a 8 semanas seguinte
Resultados variam entre indivíduos, não há garantia de resposta, e a fibromialgia não tem evidência de benefício com esta terapia até o momento
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Ondas de choque curam fibromialgia
Achado
Nenhum estudo clínico sobre fibromialgia foi encontrado; a evidência existe apenas para dor miofascial, e os autores propuseram apenas um protocolo teórico para fibromialgia
Mito
É necessário apenas uma sessão para sentir o efeito
Achado
A maioria dos protocolos eficazes usou 3 a 4 sessões; embora algum alívio possa ocorrer cedo, o efeito significativo geralmente requer múltiplas aplicações
Mito
Ondas de choque são superiores a todos os outros tratamentos
Achado
A ESWT foi equivalente a laser, ultrassom e agulhamento seco em vários estudos, e superior apenas a alguns comparadores específicos; não é uma panaceia
Mito
O mecanismo de ação é completamente entendido
Achado
Os efeitos biológicos são propostos com base em estudos de outras condições (modulação da dor, angiogênese, anti-inflamação), mas os mecanismos específicos em dor miofascial ainda não estão esclarecidos
Como isso pode funcionar
ESTÍMULO MECÂNICO
As ondas de choque geram estresse mecânico no tecido muscular e nos vasos sanguíneos locais — efeito documentado, embora a intensidade ideal varie
MELHORA DA CIRCULAÇÃO (PROPOSTO)
Pode haver aumento da perfusão local e redução da isquemia nos pontos-gatilho, com possível estimulação de fatores de crescimento vascular — mecanismo inferido de outros usos da ESWT, não diretamente comprovado em dor mi
MODULAÇÃO INFLAMATÓRIA (PROPOSTO)
Hipótese de redução de mediadores inflamatórios locais e modulação da sensibilização periférica — evidência indireta, baseada em achados de outras condições musculoesqueléticas
INIBIÇÃO DA NOCICEPÇÃO (PROPOSTO)
Possível interferência na condução do potencial de ação das fibras nociceptivas e ativação de vias descendentes inibitórias da dor — mecanismo teórico, ainda não confirmado especificamente para esta indicação
O que ainda é incerto
Avaliar a eficácia da terapia por ondas de choque (ESWT) para dor miofascial e fibromialgia
19 estudos clínicos com pacientes com síndrome de dor miofascial (nenhum com fibromialgia)
12 estudos usaram ondas de choque radiais, 7 usaram ondas focalizadas comparadas a outros tratamentos
Redução significativa da dor e melhora da função nos pontos gatilho miofasciais
Tratamento não-invasivo, bem tolerado sem eventos adversos graves relatados
Achados Interessantes
MAPEAMENTO INÉDITO
Pela primeira vez, uma revisão sistemática do tipo scoping dedicou-se exclusivamente a avaliar toda a literatura sobre ESWT para estas duas condições, revelando que a evidência está concentrada apenas em uma delas
PROTOCOLO PROPOSTO PARA FIBROMIALGIA
Diante da ausência total de estudos, os autores propuseram um protocolo teórico adaptado aos critérios diagnósticos atuais de fibromialgia (dor em 4 a 5 regiões), distribuindo 3. 000 a 4. 500 ondas entre as regiões doloros
HETEROGENEIDADE COMO DESAFIO
A grande variabilidade entre protocolos (de 1. 000 a 4. 500 ondas, de 2 a 7 sessões) é um achado importante: indica que a prática clínica ainda busca o ponto ideal, e pacientes devem questionar o protocolo específico que l
EQUIVALÊNCIA
A ESWT não se destacou consistentemente sobre tratamentos mais simples como ultrassom ou laser em vários estudos, sugerindo que sua vantagem pode estar mais na conveniência e tolerabilidade do que em superioridade absolu
Resumo detalhado em linguagem acessível
A dor miofascial e a fibromialgia representam duas condições dolorosas que afetam significativamente a qualidade de vida de milhões de pessoas em todo o mundo. A síndrome da dor miofascial se caracteriza por pontos dolorosos específicos nos músculos, conhecidos como pontos-gatilho ou bandas tensas, que correspondem a fibras musculares hiperirritáveis organizadas em nódulos capazes de causar dor espontânea e irradiada à palpação. A fisiopatologia dessa condição ainda não está completamente elucidada, mas evidências sugerem que a sensibilização de aferentes mecanossensíveis de baixo limiar, desencadeada por disfunção local das placas motoras na região dos pontos-gatilho, constitui um dos principais mecanismos patogenéticos. Essa disfunção resulta em aumento local de mediadores inflamatórios, neuropeptídeos, citocinas e catecolaminas, que contribuem para a disfunção nervosa, particularmente das fibras autonômicas e sensitivas de pequeno calibre, levando a vasoconstrição local, redução do fluxo sanguíneo, dor referida, alodinia e hiperalgesia.
Já a fibromialgia é uma doença crônica caracterizada por dor musculoesquelética generalizada, com áreas específicas de hiperalgesia e alodinia denominadas pontos dolorosos, acompanhada frequentemente de fadiga, distúrbios do sono e outros sintomas somáticos e cognitivos. A diferenciação diagnóstica entre essas condições pode ser desafiadora devido a sobreposições na distribuição da dor, duração dos sintomas e achados físicos. O manejo terapêutico da dor miofascial e da fibromialgia permanece controverso. Embora diversas intervenções tenham sido propostas, incluindo terapia medicamentosa, exercícios e abordagens não farmacológicas, o tratamento mais apropriado e efetivo ainda é debatido.
Nesse contexto, a terapia por ondas de choque extracorpóreas (ESWT) surge como uma modalidade não invasiva amplamente utilizada em diversos distúrbios musculoesqueléticos dolorosos. Originalmente desenvolvida para tratar cálculos renais, essa tecnologia utiliza ondas acústicas de alta energia que, quando aplicadas aos tecidos moles, exercem múltiplos efeitos biológicos com potenciais benefícios clínicos. Hipotetiza-se que o principal efeito biológico sobre o tecido tratado seja o aumento da permeabilidade das membranas celulares e a liberação de várias moléculas que estimulam a regeneração tecidual, como o fator de crescimento vascular endotelial (VEGF), o fator de crescimento de fibroblastos (FGF) e a ativação da óxido nítrico sintase endotelial (eNOS), com consequentes efeitos angiogênicos. Adicionalmente, a ESWT desempenha papel importante no alívio da dor por meio da modulação da liberação de mediadores anti-inflamatórios e endorfinas que ativam o sistema inibitório descendente.
O estudo revisado, conduzido por Paoletta e colaboradores e publicado em 2022 na revista Medicina, representa a primeira revisão de escopo abrangente, conduzida segundo as diretrizes PRISMA-ScR, dedicada especificamente à avaliação da eficácia e efetividade da ESWT em pacientes com síndrome da dor miofascial ou fibromialgia. Diferente de uma meta-análise, que busca combinar numericamente resultados de múltiplos estudos, uma revisão de escopo tem como objetivo mapear a extensão da evidência disponível, identificar lacunas no conhecimento e orientar pesquisas futuras. Os autores realizaram busca sistemática no PubMed até dezembro de 2021, utilizando termos controlados da MeSH combinados com palavras-chave específicas para fibromialgia, síndrome da dor miofascial e terapia por ondas de choque, aplicando critérios rigorosos de inclusão e exclusão que contemplaram apenas estudos clínicos intervencionais e observacionais publicados em inglês e conduzidos em humanos. Dos 76 estudos inicialmente identificados, após remoção de duplicatas e triagem por título, resumo e texto completo, 19 estudos clínicos foram considerados elegíveis e incluídos na revisão.
A composição final da amostra revelou um achado crucial e preocupante: todos os 19 estudos abordaram exclusivamente a síndrome da dor miofascial, enquanto nenhum estudo sobre fibromialgia atendeu aos critérios de inclusão. Essa ausência total de evidência para fibromialgia constitui uma lacuna significativa que os próprios autores destacam como merecedora de atenção urgente na pesquisa futura. Dos 19 estudos incluídos, 12 utilizaram ondas de choque radiais (rESWT) e 7 utilizaram ondas focalizadas (fESWT). A maioria era composta por ensaios clínicos randomizados (15 no total), o que confere maior robustez metodológica e confiabilidade às conclusões.
Os participantes totalizaram 1. 158 pacientes, com idades predominantemente adultas, acometidos principalmente por dor nos músculos do pescoço (trapézio superior), costas, quadril e região lombar. Os protocolos de tratamento variaram consideravelmente entre os estudos, representando uma das principais limitações desta revisão. O número de sessões oscilou de 2 a 7, com intervalos que iam de 3 dias a uma semana.
A quantidade de ondas aplicadas por sessão variou de 1. 000 a 4. 500, e a intensidade energética também apresentou amplitude significativa, com densidades de fluxo de energia variando conforme o tipo de equipamento e a condição tratada. Essa heterogeneidade metodológica dificulta a recomendação de um protocolo único e padronizado para uso clínico e limita a comparabilidade direta dos resultados.
Quanto aos achados específicos, a análise qualitativa sugere um papel benéfico da ESWT para a síndrome da dor miofascial. Entre os estudos com ondas radiais, dois compararam a rESWT com laserterapia, relatando redução da dor e da incapacidade com ambas as modalidades, embora a laserterapia tenha demonstrado benefício estatisticamente superior em alguns desfechos específicos. Dois ensaios clínicos randomizados compararam rESWT com ultrassom terapêutico, demonstrando que ambas as técnicas foram igualmente efetivas na redução da dor e da incapacidade, e significativamente mais efetivas que tratamento falso ou exercícios isolados. Outro estudo comparou rESWT com uma combinação de bolsas de calor, estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS) e ultrassom, encontrando superioridade da rESWT na redução da dor e na melhora da qualidade do sono, incapacidade, depressão e qualidade de vida.
Quando comparada à fonoforese, a rESWT mostrou-se efetiva na redução da dor e da incapacidade cervical, com superioridade em relação ao grupo controle. Três ensaios compararam rESWT com técnicas de agulhamento, concluindo que ambas as intervenções foram efetivas na redução da dor e incapacidade, embora o agulhamento possa estar associado a desconforto pós-procedimento em alguns pacientes. Um estudo comparou rESWT com injeção de corticoide no ponto-gatilho, relatando que, após um mês de tratamento, a rESWT foi mais efetiva na redução da dor e incapacidade e na melhora da qualidade de vida. Nos estudos com ondas focalizadas, os resultados foram igualmente promissores, embora com algumas nuances.
Um ensaio comparou fESWT com tratamento falso de baixa energia, encontrando melhora significativa na dor e no índice de incapacidade cervical no grupo de intervenção. Outro estudo avaliou diferentes níveis energéticos de fESWT, concluindo que a aplicação de alta energia foi mais efetiva que a de baixa energia na melhora do índice de incapacidade cervical e da amplitude de movimento de flexão do pescoço. A combinação de fESWT com gel de diclofenaco tópico mostrou-se superior ao uso isolado do medicamento em pacientes com dor miofascial cervical pós-cirurgia de dissecção do pescoço. Em contrapartida, um estudo não encontrou diferença significativa entre fESWT e injeção de corticoide combinada com TENS em termos de alívio da dor e mobilidade cervical.
ESWT radial
632 pessoas
12 estudos com ondas de choque radiais
ESWT focalizada
526 pessoas
7 estudos com ondas de choque focalizadas
Estudos com dor miofascial
Estudos com fibromialgia
Ensaios clínicos randomizados
Eficácia em redução da dor
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
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