Estudo científico comentado

Dor crônica no ombro: avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Referência acadêmica

Periódico

American Family Physician

Ano

2008

Autores

Burbank et al.

Desenho

Artigo de revisão

Este estudo desenvolveu um roteiro clínico para médicos de família diagnosticarem com mais precisão a causa da dor crônica no ombro. Identificaram que três sinais específicos juntos (fraqueza em dois testes musculares e um teste de compressão positivo) conseguem detectar lesões do manguito rotador com 98% de certeza. Para pacientes, isso significa diagnósticos mais rápidos e precisos, evitando exames desnecessários quando a avaliação clínica já é conclusiva.

Título original do estudo: Chronic Shoulder Pain: Part I. Evaluation and Diagnosis

📖Artigo de revisão🏥Atenção primária🎯Guia diagnóstico
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Três sinais clínicos simples — fraqueza em dois testes musculares específicos e um teste de impacto positivo — permitem diagnosticar lesões do manguito rotador com 98% de certeza, reduzindo a necessidade de exames de imagem iniciais na maioria dos casos de dor

O que isso significa para você?

Este estudo desenvolveu um roteiro clínico para médicos de família diagnosticarem com mais precisão a causa da dor crônica no ombro. Identificaram que três sinais específicos juntos (fraqueza em dois testes musculares e um teste de compressão positivo) conseguem detectar lesões do manguito rotador com 98% de certeza. Para pacientes, isso significa diagnósticos mais rápidos e precisos, evitando exames desnecessários quando a avaliação clínica já é conclusiva.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor crônica no ombro tem causas identificáveis na maioria das vezes, e um roteiro claro existe para descobrir qual é a sua
  • 2Você não precisa necessariamente de ressonância magnética no primeiro momento — muitas vezes o exame clínico bem feito já responde
  • 3Contar detalhes precisos sobre quando a dor começou, o que piora e se há dor noturna ajuda muito mais do que você imagina
  • 4Se você tem mais de 60 anos, saiba que lesões do manguito rotador são comuns mesmo sem dor, então o médico precisa correlacionar exame com sintomas
  • 5A radiografia simples continua sendo um exame inicial valioso, acessível e que já exclui várias condições importantes
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base na minha história e exame, qual a probabilidade de ser manguito rotador versus outra causa?
  • 2Existe algum teste de imagem que seja realmente necessário agora, ou podemos iniciar tratamento baseado no exame clínico?
  • 3Se eu tiver mais de uma condição simultânea, como isso muda o plano de investigação?
  • 4Quais sinais de alerta devem me fazer retornar mais cedo do que o previsto?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo foca exclusivamente em diagnóstico, não em tratamento — não fornece informações sobre segurança de medicamentos, injeções ou cirurgia
  • 2A precisão do diagnóstico clínico depende da experiência do médico examinador; em casos atípicos, a investigação pode precisar ser ampliada
  • 3Achados de imagem em pessoas sem sintomas são frequentes e não devem levar a tratamentos invasivos sem correlação clínica clara
  • 4O protocolo não substitui avaliação especializada quando há sinais de alerta como febre, perda de peso inexplicada ou déficits neurológicos

Leitura rápida para pacientes

Sua dor no ombro pode ter nome e endereço

Médicos de família têm hoje um roteiro testado para identificar a causa mais provável da dor crônica no ombro sem depender só de exames caros

Ponto 1

Três sinais simples no exame físico detectam lesão do manguito rotador com 98% de precisão

Ponto 2

Radiografia simples é suficiente como primeiro exame na maioria dos casos

Ponto 3

Metade dos adultos acima de 60 anos tem lesões no manguito rotador sem sentir dor — o exame clínico é mais importante qu

O que este estudo acrescenta

PROTOCOLO DE TRIAGEM

Primeira integração sistemática de regras de decisão prospectivamente validadas para diagnóstico de manguito rotador especificamente desenhada para uso na atenção primária, não em centros especializados.

Aplicabilidade clínica

Sinal consistente

A capacidade de diagnosticar lesões do manguito rotador com 98% de probabilidade usando apenas critérios clínicos representa avanço significativo na prática de atenção primária, com potencial de reduzir custos, tempo até

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Combina síntese de múltiplos estudos com análises próprias prospectiva e retrospectiva para criar ferramentas clínicas aplicáveis na prática diária.

Probabilidade de lesão do manguito rotador com tríade comple

98%

fraqueza no empty-can + fraqueza de rotação externa + impacto positivo

Probabilidade com 2 de 3 critérios em pacientes >60 anos

98%

mesmo com um critério a menos, idade avançada mantém alta probabilidade

Lesões assintomáticas do manguito rotador em >60 anos

54%

encontradas em ressonância de pessoas sem dor — alerta para não tratar exames, mas sim pessoas

Especificidade do teste de apreensão para instabilidade

96%

quando positivo, praticamente confirma o diagnóstico em jovens com história compatível

Pacientes na análise prospectiva

400

base para desenvolvimento da regra de decisão principal do estudo

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica no ombro (mais de 6 meses)

Tipo de estudo

Revisão de evidências clínicas com desenvolvimento de regras de decisão

Participantes

591 no total: 400 em análise prospectiva e 191 em análise retrospectiva, com dor

Duração

Não especificado

Sessões

Não aplicável (estudo diagnóstico, não intervencionista)

Comparador

Não aplicável (estudo de validação de critérios clínicos)

Grupos do estudo

Análise prospectiva para regra de decisão do manguito rotadorAnálise retrospectiva para validação de critérios

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Não aplicável

Frequência02

Não aplicável

Duração da sessão03

Não aplicável

Pontos / técnica04

Protocolo de exame físico sequencial: inspeção, palpação, avaliação de amplitude de movimento, testes de força e testes provocativos específicos

Comparador05

Não aplicável

Nota de protocolo06

O estudo propõe regras de decisão clínica, não uma intervenção terapêutica. A abordagem é puramente diagnóstica, com ênfase na triagem baseada em história e exame físico antes de e

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pacientes com dor no ombro há mais de 6 meses, independente de tratamento prévioAdultos de diversas faixas etárias, com predominância de condições relacionadas à idadePacientes atendidos em contexto de atenção primáriaIndivíduos com suspeita de distúrbios do manguito rotador, capsulite adesiva, instabilidade ou artritePessoas com história de atividades esportivas ou ocupacionais de risco para o ombroPacientes com comorbidades como diabetes ou doenças da tireoide (associadas à capsulite adesiva)

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pacientes com dor aguda no ombro (menos de 6 meses de evolução)Condições raras do ombro como lesões de nervos supraescapular ou síndrome de Parsonage-TurnerCrianças e adolescentes (padrões de apresentação diferentes)Pacientes com dor referida predominantemente cervical ou torácicaIndivíduos já submetidos a cirurgia de ombro recente (padrões de avaliação diferenciados)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🎯

Precisão diagnóstica

melhorou

Regras de decisão clínica elevaram a probabilidade de diagnóstico correto do manguito rotador para 91-98% com base apenas em história e exame físico

⏱️

Eficiência do atendimento

melhorou

Protocolo sistemático permite triagem mais rápida e redução de exames desnecessários na atenção primária

💰

Custo-efetividade

melhorou

Uso seletivo de ressonância magnética e priorização de radiografias simples como primeira linha

🔍

Identificação de capsulite adesiva

melhorou

Critérios claros de perda de amplitude de movimento ativa e passiva associados a história de diabetes/tireoide

🦴

Detecção de instabilidade

melhorou

Testes de apreensão e realocação com alta especificidade (96%) para diagnóstico em pacientes jovens

O que não mudou

  • Necessidade de experiência do examinador para reprodutibilidade dos testes físicos
  • Dificuldade diagnóstica em pacientes com múltiplas condições simultâneas
  • Dependência de exames de imagem para lesões parciais do manguito rotador (sensibilidade de 44% na ressonância)

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Radiografias simples recomendadas como avaliação inicial segura para todos os casos
  • Exame físico padronizado não apresenta riscos ao paciente
  • Protocolo reduz exposição desnecessária a exames de imagem mais caros e invasivos
Amarelo
  • Testes provocativos podem causar desconforto temporário durante a avaliação
  • Ultrassonografia depende muito da habilidade do examinador, podendo ter resultados variáveis
  • Achados de imagem em pessoas assintomáticas (54% >60 anos) podem levar a tratamentos desnecessários se não correlacionados clinicamente
Vermelho
  • O estudo não avalia diretamente segurança de intervenções terapêuticas (foco exclusivamente diagnóstico)
  • Regras de decisão não se aplicam a condições raras que podem mascarar-se como dor no ombro comum

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor no ombro persistente há mais de 6 meses
  • Pessoas acima de 40 anos com dor lateral do braço e dificuldade com movimentos acima da cabeça
  • Pacientes com história de diabetes ou doença da tireoide e rigidez progressiva do ombro
  • Indivíduos jovens com história de luxação ou subluxação do ombro
  • Pessoas com dor noturna que interfere no sono

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com dor aguda recente (menos de 6 semanas) após trauma
  • Indivíduos com sintomas predominantemente neurológicos (formigamento, fraqueza distal)
  • Pessoas com dor que irradia além do cotovelo (sugestão de origem cervical)
  • Pacientes com múltiplas articulações doloridas (possível doença sistêmica)
  • Crianças ou adolescentes com dor no ombro (padrões etários não cobertos)

Expectativa realista

Diagnóstico mais rápido e direcionado

Na consulta inicial, seu médico pode já identificar a causa mais provável da dor crônica no ombro através de perguntas direcionadas e um exame físico estruturado, sem necessidade imediata de exames complexos

Tempo provável

Durante a primeira ou segunda consulta, dependendo da complexidade do caso

Se houver suspeita de múltiplas condições simultâneas ou se os sintomas não se encaixarem nos padrões clássicos, exames de imagem adicionais poderão ser necessá

Checklist para consulta

  1. 1Prepare uma linha do tempo da sua dor: quando começou, o que piora, o que melhora, se há dor noturna
  2. 2Liste todas as atividades que envolvem movimentos acima da cabeça (esportes, trabalho, tarefas domésticas)
  3. 3Informe sobre doenças como diabetes, problemas de tireoide ou qualquer cirurgia prévia no ombro
  4. 4Mencione se já houve luxação, subluxação ou trauma significativo no ombro
  5. 5Traga exames anteriores (radiografias, ressonância) mesmo que antigos, para comparação

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor no ombro sempre precisa de ressonância magnética para diagnóstico

Achado

Em muitos casos, a combinação de história detalhada e exame físico estruturado tem 91-98% de precisão, tornando a ressonância desnecessária como primeira etapa

Mito

Lesão no manguito rotador vista em exame de imagem explica toda dor no ombro

Achado

54% das pessoas acima de 60 anos têm lesões do manguito rotador em ressonância sem sentir dor alguma — a correlação clínica é essencial

Mito

Dor que irradia para o braço sempre vem do ombro

Achado

Dor que passa do cotovelo e chega à mão raramente tem origem no ombro; cervical, fibromialgia e síndrome do desfiladeiro torácico são causas mais prováveis

Mito

Rigidez no ombro é sempre artrite

Achado

Perda de movimento ativa e passiva igualmente, especialmente em diabéticos, sugere capsulite adesiva, cuja radiografia costuma ser normal

Como isso pode funcionar

🗣️

PASSO 1: HISTÓRIA CLÍNICA

Idade, atividades, localização da dor e sintomas associados direcionam para uma das seis categorias diagnósticas principais — mecanismo bem estabelecido na prática clínica

🖐️

PASSO 2: EXAME FÍSICO SEQUENCIAL

Inspeção, palpação, amplitude de movimento, testes de força e provocativos específicos confirmam ou descartam hipóteses — a ordem correta evita interpretações confusas

📊

PASSO 3: REGRAS DE DECISÃO

Combinações específicas de achados (prospectivamente validadas) elevam a probabilidade diagnóstica para níveis que permitem decisões terapêuticas seguras

🩻

PASSO 4: IMAGEM QUANDO INDICADA

Radiografias para todos; ressonância ou ultrassom apenas quando o diagnóstico permanece incerto ou mudaria o tratamento — racionalização proposta, não mecanismo fisiológico

O que ainda é incerto

  • ?A precisão dos testes físicos depende significativamente da experiência do examinador, e não há consenso sobre quanto treinamento é necessário para re
  • ?Pacientes com mais de uma condição simultânea (por exemplo, manguito rotador + artrite acromioclavicular) não são bem caracterizados pelas regras de d
  • ?A sensibilidade da ressonância magnética para lesões parciais do manguito rotador é modesta (44%), deixando dúvidas sobre o melhor exame quando a susp
  • ?Não há dados sobre a aplicabilidade deste protocolo em populações não ocidentais ou com diferentes padrões de atividade física e ocupacional
🎯

O que o estudo quis responder

Desenvolver uma abordagem sistemática para diagnóstico diferencial de dor crônica no ombro na atenção primária

👥

QUEM PARTICIPOU

Pacientes com dor no ombro há mais de 6 meses, independente de tratamento prévio

🧪

COMO FOI FEITO

Revisão de evidências clínicas com desenvolvimento de regras de decisão para diagnóstico diferencial

📈

O QUE MUDOU

Triagem de sintomas com 91% de probabilidade para lesão de manguito rotador quando presentes 3 critérios

🛟

SEGURANÇA

Radiografias recomendadas para todos os casos como avaliação inicial segura

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

A TRÍADE DIAGNÓSTICA

A combinação de dois testes de fraqueza específicos mais um sinal de impacto positivo foi a primeira regra de decisão prospectivamente validada para manguito rotador com precisão de 98% na atenção primária

🧭

A IDADE COMO AMPLIFICADOR

Descobriu-se que em pacientes acima de 60 anos, bastam dois dos três critérios para atingir a mesma probabilidade de 98% — a idade não é apenas mais um dado, é um fator que modifica toda a interpretação

📌

O PARADOXO DA IMAGEM PERFEITA

O estudo documentou que 54% das pessoas assintomáticas têm lesões visíveis na ressonância, um alerta permanente contra o tratamento de exames em vez de pessoas

🔬

ULTRASSOM COMO ALTERNATIVA REAL

Pela primeira vez em um guia de atenção primária, a ultrassonografia foi posicionada como alternativa custo-efetiva válida à ressonância magnética para distúrbios do manguito rotador

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Dor crônica no ombro: avaliação clínica e diagnóstico diferencial

A dor no ombro é uma das queixas mais frequentes na atenção primária, respondendo por cerca de 16% de todos os problemas musculoesqueléticos que levam as pessoas a buscarem atendimento médico. Quando essa dor persiste por mais de seis meses, ela é classificada como crônica e exige uma avaliação mais estruturada para identificar sua causa real. O artigo de Burbank e colaboradores, publicado em 2008 no American Family Physician, oferece exatamente isso: um roteiro clínico sistemático para que médicos de família possam diagnosticar com mais precisão as principais condições que causam dor crônica no ombro, sem depender excessivamente de exames de imagem caros ou de encaminhamentos imediatos para especialistas.

O estudo se baseia em uma revisão abrangente de evidências clínicas, combinando dados de análises prospectivas e retrospectivas para desenvolver regras de decisão que auxiliem no diagnóstico diferencial. Os autores organizaram as causas de dor crônica no ombro em seis categorias principais: distúrbios do manguito rotador, capsulite adesiva, osteoartrite glenoumeral, instabilidade glenoumeral, patologia da articulação acromioclavicular e outras causas menos comuns de dor. Essa organização já é valiosa por si só, pois ajuda tanto médicos quanto pacientes a entenderem que "dor no ombro" não é um diagnóstico único, mas um sintoma que pode ter múltiplas origens.

A metodologia do artigo combina duas abordagens importantes. Primeiro, uma análise prospectiva envolvendo 400 pacientes, na qual os pesquisadores testaram uma regra de decisão clínica para lesões do manguito rotador. Segundo, uma análise retrospectiva de 191 pessoas para validar critérios diagnósticos específicos. Essa combinação permitiu que os autores não apenas propusessem critérios, mas também verificassem sua utilidade em populações reais de atenção primária.

Vale destacar que o foco deliberado na atenção primária é um dos grandes méritos deste trabalho, já que a grande maioria dos pacientes com dor no ombro é atendida inicialmente por médicos de família, não por ortopedistas especializados.

Os resultados mais impactantes do estudo dizem respeito à chamada "tríade" do manguito rotador. Os pesquisadores descobriram que quando três sinais específicos estão presentes juntos — fraqueza no teste da lata vazia (empty-can), fraqueza no teste de rotação externa e um sinal de impacto positivo (como o teste de Hawkins) — a probabilidade de haver uma lesão do manguito rotador, seja parcial ou completa, atinge 98%. Esse número é extraordinariamente alto para critérios clínicos simples, baseados apenas na história e no exame físico. Pacientes com mais de 60 anos que apresentavam dois desses três critérios também tinham 98% de probabilidade de lesão do manguito rotador.

Outra combinação poderosa: idade superior a 65 anos, fraqueza muscular e dor noturna conferiam 91% de probabilidade de lesão.

Esses achados têm implicações práticas enormes para pacientes. Eles significam que, em muitos casos, um médico experiente pode chegar a um diagnóstico muito confiável sem necessidade de ressonância magnética imediata. Isso pode reduzir custos, evitar ansiedade desnecessária e acelerar o início do tratamento adequado. No entanto, os autores também introduzem uma nota importante de prudência: 54% das pessoas assintomáticas com mais de 60 anos apresentam, em ressonância magnética, algum grau de lesão do manguito rotador (parcial ou completa) sem sentir dor alguma.

Isso significa que encontrar uma lesão por imagem não necessariamente explica a dor do paciente — a correlação clínica é sempre essencial.

O artigo também detalha os testes provocativos mais úteis para cada condição. Para o manguito rotador, o teste da lata vazia tem especificidade de 90%, o que significa que quando é positivo, a chance de realmente haver problema no manguito rotador é alta. O teste de Hawkins tem sensibilidade de 72%, ou seja, detecta bem a doença quando ela está presente, mas com especificidade mais baixa (66%). Para instabilidade do ombro, o teste de apreensão se destaca com 96% de especificidade.

Esses números ajudam médicos a escolherem quais testes fazer primeiro, otimizando o tempo da consulta.

Sobre exames de imagem, os autores recomendam radiografias simples como avaliação inicial para todos os casos de dor crônica no ombro, pois são acessíveis, seguras e podem identificar artrite, calcificações e sinais indiretos de grandes lesões do manguito rotador. Ressonância magnética e ultrassonografia são reservadas para quando o diagnóstico permanece incerto ou quando o resultado mudaria o tratamento. A ultrassonografia, em particular, é destacada como alternativa custo-efetiva à ressonância, com a vantagem de permitir avaliação dinâmica, embora dependa muito da habilidade do examinador.

A utilidade clínica deste protocolo vai além do simples diagnóstico. Ao sistematizar a abordagem, ele reduz a variabilidade entre diferentes médicos e aumenta a confiança tanto do clínico quanto do paciente. Para quem sofre com dor crônica no ombro, saber que existe um método claro e testado para investigar sua condição pode ser reconfortante. O artigo também educa pacientes sobre quais informações são mais relevantes para contar ao médico: idade, atividades que pioram a dor (especialmente movimentos acima da cabeça), dor noturna, histórico de trauma e doenças como diabetes ou problemas de tireoide.

As limitações do estudo devem ser reconhecidas. O protocolo não cobre todas as condições raras do ombro, e a precisão dos testes físicos depende da experiência de quem os realiza. Além disso, parte dos dados vem de estudos retrospectivos, que são mais suscetíveis a vieses. Pacientes com múltiplos problemas simultâneos (por exemplo, lesão do manguito rotador mais artrite acromioclavicular) podem representar desafio diagnóstico mesmo com este roteiro.

Em síntese, este trabalho representa um avanço importante na padronização do diagnóstico de dor crônica no ombro na atenção primária. Ele demonstra que a combinação de uma boa história clínica com exame físico estruturado pode ter poder diagnóstico comparável a exames sofisticados, pelo menos para as condições mais comuns. Para pacientes, isso se traduz em atendimento mais eficiente, menos exames desnecessários e maior probabilidade de chegar ao tratamento correto mais rapidamente.

O que fortalece a leitura

  • 1Abordagem sistemática baseada em evidências
  • 2Regras de decisão clínica validadas
  • 3Foco na atenção primária
  • 4Protocolo de exame físico padronizado
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Não aborda todas as condições raras do ombro
  • 2Dependente da experiência do examinador
  • 3Alguns dados baseados em estudos retrospectivos

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
3/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

400pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Análise prospectiva

400 pessoas

Regra de decisão clínica para manguito rotador

Análise retrospectiva

191 pessoas

Validação de critérios diagnósticos

⏱️ Tempo de acompanhamento: Não especificado

📊 Resultados em números

0%

Probabilidade de lesão do manguito rotador com tríade completa

0%

Probabilidade em pacientes >60 anos com 2 de 3 critérios

0%

Probabilidade com idade >65 anos + fraqueza + dor noturna

0%

Achados assintomáticos em >60 anos por RM

Destaques percentuais

98%
Probabilidade de lesão do manguito rotador com tríade completa
98%
Probabilidade em pacientes >60 anos com 2 de 3 critérios
91%
Probabilidade com idade >65 anos + fraqueza + dor noturna
54%
Achados assintomáticos em >60 anos por RM

📊 Comparação de Resultados

Sensibilidade dos testes provocativos (%)

Teste da lata vazia
44
Hawkins
72
Apreensão
72

Especificidade dos testes provocativos (%)

Teste da lata vazia
90
Hawkins
66
Apreensão
96

📅 Linha do tempo da evidência

1972Neer descreve síndrome do impacto subacromial
2000Desenvolvimento de critérios clínicos para lesão do manguito rotador
2005Validação de testes provocativos específicos
2008Publicação deste protocolo integrado para atenção primária

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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