estudos próprios citados
3+
Eccleston & Crombez baseiam o modelo em suas pesquisas prévias sobre worry, hipervigilância e resolu
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Este estudo propõe que pessoas com dor crônica ficam presas em um ciclo de preocupação constante sobre sua dor. Elas se tornam solucionadoras de problemas muito ativas, mas focam no problema errado: eliminar completamente a dor. Quando isso não funciona, a preocupação aumenta ainda mais. O modelo sugere que tratamentos mais eficazes deveriam ajudar pacientes a reformular o problema - passando de 'como eliminar a dor' para 'como viver bem apesar da dor'.
Título original do estudo: Worry and chronic pain: A misdirected problem solving model
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
A preocupação excessiva com a dor crônica pode manter pacientes presos em um ciclo de busca incessante por eliminação da dor, quando a reformulação do problema — para 'como viver bem apesar da dor' — pode ser uma estratégia mais eficaz de enfrentamento.
Este estudo propõe que pessoas com dor crônica ficam presas em um ciclo de preocupação constante sobre sua dor. Elas se tornam solucionadoras de problemas muito ativas, mas focam no problema errado: eliminar completamente a dor. Quando isso não funciona, a preocupação aumenta ainda mais. O modelo sugere que tratamentos mais eficazes deveriam ajudar pacientes a reformular o problema - passando de 'como eliminar a dor' para 'como viver bem apesar da dor'.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
Quando a dor é crônica, insistir em eliminá-la completamente pode aumentar o sofrimento. Reformular o objetivo não é desistir.
Ponto 1
A preocupação constante com a dor é uma resposta humana compreensível, não fraqueza
Ponto 2
Você não falha em resolver problemas — o problema pode estar sendo definido de forma que não tem solução
Ponto 3
Tratamentos que ajudam a viver bem apesar da dor podem ser mais eficazes que os que prometem apenas eliminá-la
O que este estudo acrescenta
Este estudo foi um dos primeiros a posicionar o paciente com dor crônica como solucionador de problemas ativo e engajado, em vez de vítima passiva ou manipulador, e a propor que o sofrimento resulta da direção do esforço
Aplicabilidade clínica
O modelo tem alto impacto conceitual e influenciou o desenvolvimento de abordagens terapêuticas posteriores, mas como revisão teórica sem validação empírica direta, sua relevância clínica imediata depende de integração c
Força do desenho do estudo
Este tipo de estudo organiza e integra conhecimentos existentes para propor novas explicações, mas não testa diretamente intervenções com dados empíricos próprios
estudos próprios citados
3+
Eccleston & Crombez baseiam o modelo em suas pesquisas prévias sobre worry, hipervigilância e resolu
características da preocupação em dor crônica
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Mais duradoura, mais angustiante, mais demandante de atenção, mais difícil de controlar que outras p
diferença em habilidades gerais de resolução de problemas
zero
Pacientes com dor crônica não mostraram déficits comparados a controles sem dor
loops no modelo
2
Loop de perseverança (mal adaptativo) e loop de reformulação bem-sucedida (adaptativo)
Ficha rápida do estudo
Condição
Dor crônica e preocupação patológica
Tipo de estudo
Revisão teórica / modelo conceitual
Participantes
Não aplicável — revisão de literatura com referência a estudos prévios dos autor
Duração
Não aplicável
Sessões
Não aplicável
Comparador
Não aplicável
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
Não especificado — modelo teórico, não protocolo de intervenção
Não aplicável
Não aplicável
Reformulação do enquadramento do problema de 'eliminar dor' para 'viver com dor'; técnicas de terapia cognitiva, exposição, e terapias baseadas em aceitação mencionadas como exempl
Não aplicável
O artigo não propõe protocolo específico, mas discute direções terapêuticas gerais baseadas na mudança do enquadramento do problema
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
compreensão do sofrimento
melhorou
O modelo oferece explicação coerente para por que a busca intensa por alívio pode perpetuar o sofrimento
direcionamento terapêutico
melhorou
Sugere que intervenções devem focar em reformular o problema, não apenas intensificar busca por eliminação da dor
normalização da experiência
melhorou
Reframe a preocupação excessiva como resposta compreensível, não como fraqueza ou falta de cooperação
O que não mudou
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Reconhecer que a busca intensa por eliminar a dor pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento quando a dor é crônica. A reformulação do problema não elimina a dor, mas pode reduzir o impacto dela na vida
Tempo provável
Não especificado pelo estudo — mudanças de enquadramento são processos individuais que variam muito
Este é um modelo teórico, não um tratamento testado; a decisão de reformular objetivos deve ser feita em conjunto com profissionais de saúde qualificados, sem a
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Pacientes com dor crônica que buscam muitos tratamentos são manipuladores ou não cooperam
Achado
A busca repetida pode ser compreendida como perseverança ativa em um 'loop de resolução de problemas mal direcionada' — são solucionadores engajados, não passivos
Mito
Quem se preocupa excessivamente com a dor tem déficits de inteligência ou habilidades
Achado
Estudos não encontraram diferenças em habilidades gerais de resolução de problemas; o problema está no enquadramento, não na competência
Mito
A única solução para dor crônica é eliminar completamente a dor
Achado
O modelo sugere que insistir nesse enquadramento quando a dor é insolúvel pode perpetuar o sofrimento; reformular o problema pode ser mais adaptativo
Mito
Aceitar a dor significa desistir de buscar ajuda ou viver bem
Achado
A 'reformulação' proposta envolve desengajar da busca incessante por eliminação, mas engajar ativamente em viver uma vida valiosa — é reorientação, não resignação
Como isso pode funcionar
INTERRUPÇÃO
A dor crônica interrompe repetidamente a atenção e as atividades da pessoa — mecanismo biológico bem estabelecido
PREOCUPAÇÃO
A interrupção persistente alimenta preocupações sobre causas e consequências futuras da dor — resposta cognitiva normal que se torna crônica
HIPERVIGILÂNCIA
A preocupação aumenta a atenção para sinais de dor e ameaças relacionadas, estreitando o foco mental — provável mecanismo proposto pelos autores
LOOP DE PERSEVERANÇA
A dor é enquadrada como problema biomédico a eliminar; tentativas falhas reforçam a preocupação, mantendo o ciclo — modelo teórico a ser confirmado
O que ainda é incerto
Propor um modelo teórico de como a preocupação excessiva com a dor pode perpetuar o sofrimento
Pacientes ficam presos em ciclo de busca por alívio da dor que não conseguem resolver
Preocupação → hipervigilância → foco biomédico → tentativas falhadas → mais preocupação
Tratamentos devem focar em reformular o problema, não apenas aliviar a dor
Pacientes são solucionadores ativos, mas direcionam esforços ao problema errado
Achados Interessantes
O PACIENTE ATIVO
Inovação em ver o paciente com dor crônica como solucionador de problemas engajado e perseverante, não como vítima passiva — o problema é a direção do esforço, não sua ausência
O PARADOXO DA PERSEVERANÇA
Descoberta conceitual de que a mesma qualidade que ajuda em problemas solúveis (perseverança) pode perpetuar o sofrimento quando aplicada a problemas insolúveis com enquadramento rígido
A PROTEÇÃO CONTRA A DEPRESSÃO
Achado de que manter-se ativamente engajado na busca, mesmo infrutífera, pode funcionar como barreira temporária contra a desistência e a depressão — o custo é o sofrimento prolongado
Resumo detalhado em linguagem acessível
A dor crônica é uma das experiências mais desgastantes que uma pessoa pode enfrentar. Diferente de uma dor aguda que surge, é resolvida e desaparece, a dor crônica persiste por meses ou anos, muitas vezes sem causa aparente ou solução médica definitiva. É nesse cenário que a preocupação — aquela espécie de ansiedade persistente sobre o futuro — encontra terreno fértil para se instalar e, paradoxalmente, piorar ainda mais o sofrimento. Este artigo, publicado em 2007 pelos pesquisadores Christopher Eccleston e Geert Crombez na renomada revista Pain, propõe uma explicação inovadora para esse fenômeno: a teoria da "resolução de problemas mal direcionada".
Para entender o modelo, é preciso primeiro compreender o que é a preocupação do ponto de vista psicológico. Trata-se de uma cadeia de pensamentos e imagens negativas, relativamente incontroláveis, que tentam antecipar ameaças futuras e encontrar maneiras de evitá-las. Em situações normais, a preocupação pode até ser funcional: ela mantém nossa vigilância ativa e nos motiva a resolver problemas reais. Quando sentimos uma dor aguda, por exemplo, preocupamo-nos momentaneamente, tomamos uma atitude e a preocupação se dissolve.
Mas e quando a dor não passa?
Eccleston e Crombez descrevem como a dor crônica cria um ambiente quase perfeito para que a preocupação se torne crônica também. A dor, por sua natureza biológica, exige atenção — ela interrompe nossos pensamentos, nossas atividades, nossos planos. Quando persiste, gera uma série de ameaças não resolvidas: "O que está causando isso? ", "Vou ficar incapacitado?
", "Vou perder meu emprego, minha família, minha identidade? ". A pessoa então se torna um "solucionador de problemas" extremamente ativo, dedicando enorme energia mental e emocional para encontrar uma saída.
Aqui reside o paradoxo central do modelo. Os pacientes com dor crônica não são passivos nem desistiram — pelo contrário, eles trabalham intensamente para resolver seu problema. No entanto, segundo os autores, eles estão tentando resolver o problema errado. O "problema" é enquadrado quase exclusivamente em termos biomédicos: "eliminar a dor".
Esse enquadramento leva a uma busca incessante por soluções médicas, procedimentos, medicamentos e terapias que prometam alívio completo. Quando essas tentativas falham — como frequentemente acontece em condições crônicas —, a preocupação não diminui, mas se amplifica.
Os pesquisadores baseiam sua proposta em evidências prévias de seus próprios estudos. Em trabalho de 2001, eles já haviam observado que pessoas com dor crônica relatam preocupações mais longas, mais angustiantes, mais exigentes em termos de atenção e mais difíceis de controlar do que outras preocupações cotidianas. Curiosamente, em estudo posterior de 2006, não encontraram déficits nas habilidades gerais de resolução de problemas desses pacientes quando comparados a pessoas sem dor ou a normas populacionais. Ou seja: o problema não é falta de competência para resolver problemas, mas sim como o problema está sendo definido.
O modelo proposto funciona como um ciclo, que os autores chamam de "loop de perseverança". A dor persistente interrompe a atenção e alimenta a preocupação. A preocupação gera hipervigilância — uma atenção excessiva e constante para sinais de dor e para tudo que possa estar relacionado a ela. A dor é então enquadrada como um problema puramente biomédico, que demanda soluções de eliminação.
As tentativas de solução são intensificadas, mas quando falham, a preocupação aumenta ainda mais, reforçando o ciclo. A pessoa fica "presa", repetindo as mesmas estratégias com esforço crescente, mas com enquadramento cada vez mais rígido e inflexível.
Esse mecanismo explica vários comportamentos frequentemente observados na prática clínica. A busca repetida por múltiplos médicos e tratamentos, por vezes chamada pejorativamente de "doctor shopping", pode ser compreendida não como manipulação, mas como perseverança genuína em um loop de busca de soluções. A adesão a tratamentos com pouca evidência de eficácia também faz sentido: abandonar a busca parece mais ameaçador do que continuar tentando, mesmo diante de fracassos repetidos. Os autores sugerem que, de certa forma, essa perseverança ativa pode até proteger temporariamente contra a depressão, já que a pessoa não "desistiu" — está engajada, ativa, lutando.
As implicações clínicas são profundas. Eccleston e Crombez argumentam que intervenções que simplesmente reforçam o enquadramento biomédico — prometendo eliminar a dor como única solução — podem, inadvertidamente, perpetuar o sofrimento. Tratamentos mais eficazes, segundo eles, seriam aqueles que ajudam o paciente a "reformular" o problema: de "como eliminar minha dor" para "como viver uma vida valiosa apesar da dor". Essa mudança de enquadramento não é resignação, mas uma reorientação estratégica do esforço de resolução de problemas.
Os autores mencionam abordagens que já trabalham nessa direção: terapias cognitivas focadas em controlar o pensamento catastrófico, técnicas de exposição a atividades temidas, programas de terapia cognitivo-comportamental que desenvolvem habilidades de coping, e, especialmente, as terapias baseadas em aceitação. Essas últimas, em desenvolvimento na época do artigo, têm como metas duplas justamente o desengajamento da busca incessante por alívio da dor e o fomento da capacidade de viver com sentido mesmo na presença da dor.
É fundamental reconhecer as limitações deste trabalho. Trata-se de uma revisão teórica, não de um estudo empírico com dados quantitativos de eficácia. O modelo foi proposto com base na integração de evidências existentes e na experiência clínica dos autores, mas não foi testado diretamente em ensaios controlados na época de sua publicação. Os mecanismos propostos — embora plausíveis e clinicamente úteis — precisariam de confirmação em pesquisas subsequentes.
Para pacientes e familiares, isso significa que o modelo oferece uma lente valiosa para compreender a experiência da dor crônica, mas não deve ser interpretado como verdade definitiva ou base única para decisões de tratamento.
A utilidade prática do modelo reside principalmente na normalização e na reframe. Ele ajuda a entender que a preocupação excessiva com a dor não é fraqueza de caráter, loucura ou falta de colaboração com o tratamento — é uma resposta humana compreensível diante de uma ameaça persistente, que tomou um caminho funcionalmente desadaptativo. Reconhecer o "loop de perseverança" pode ser o primeiro passo para considerar novas estratégias, novos objetivos e, quem sabe, encontrar alívio não apenas na ausência de dor, mas na qualidade de vida que pode ser construída ao lado dela.
Pacientes com dor crônica relatam preocupação mais duradoura
Preocupações são mais angustiantes e difíceis de controlar
Não há déficits em habilidades gerais de resolução de problemas
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
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