Estudo científico comentado

Revisão de Evidências sobre Tratamentos para Dor no Ombro

Referência acadêmica

Periódico

Clinical Evidence

Ano

2010

Autores

Murphy et al.

Desenho

Revisão sistemática

Esta grande revisão analisou dezenas de estudos sobre tratamentos para dor no ombro. Os resultados mostram que anti-inflamatórios podem ajudar na dor aguda e fisioterapia traz benefícios funcionais. A acupuntura não demonstrou vantagens claras sobre tratamentos simulados para problemas do manguito rotador. A qualidade das evidências ainda é limitada, indicando necessidade de mais pesquisas de alta qualidade para orientar melhor o tratamento da dor no ombro.

Título original do estudo: Shoulder pain: Clinical Evidence systematic review

📊Revisão sistemática👥71 estudos incluídos⚖️evidência limitada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Anti-inflamatórios orais aliviam a dor aguda do manguito rotador e fisioterapia com exercícios melhora função, mas a maioria dos tratamentos para dor no ombro — incluindo acupuntura, ultrassom, gelo e várias injeções — carece de evidência robusta de eficácia.

O que isso significa para você?

Esta grande revisão analisou dezenas de estudos sobre tratamentos para dor no ombro. Os resultados mostram que anti-inflamatórios podem ajudar na dor aguda e fisioterapia traz benefícios funcionais. A acupuntura não demonstrou vantagens claras sobre tratamentos simulados para problemas do manguito rotador. A qualidade das evidências ainda é limitada, indicando necessidade de mais pesquisas de alta qualidade para orientar melhor o tratamento da dor no ombro.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor no ombro é comum e geralmente tem causa identificável, mas a cura raramente é rápida ou completa
  • 2Medicamentos anti-inflamatórios podem ajudar no início, mas exercícios regulares são fundamentais para recuperação duradoura
  • 3Nem todo tratamento oferecido tem comprovação científica — pergunte ao médico sobre a evidência específica
  • 4Injeções de corticoide podem aliviar temporariamente, mas não substituem a reabilitação
  • 5Se a dor persistir além de algumas semanas ou piorar, a reavaliação médica é essencial
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Qual é a causa mais provável da minha dor no ombro e como isso influencia as opções de tratamento?
  • 2Os benefícios de fisioterapia com exercícios se aplicam ao meu caso específico?
  • 3Quais são os riscos reais de anti-inflamatórios ou corticoides considerando minhas outras condições de saúde?
  • 4Se o tratamento inicial não funcionar, qual seria o próximo passo e em quanto tempo devo reavaliar?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Esta revisão não forneceu análise abrangente de segurança para todas as intervenções; dados de eventos adversos foram esparsos ou ausentes em muitos estudos
  • 2AINEs orais requerem cautela em pessoas com histórico de úlcera, problemas renais, cardiovasculares ou em uso de anticoagulantes
  • 3Corticoides por qualquer via têm efeitos sistêmicos conhecidos e devem ser usados na menor dose efetiva pelo menor tempo possível
  • 4Complicações de injeções são raras, mas incluem infecção, ruptura tendínea e atrofia cutânea; a precisão técnica é fator crítico

Leitura rápida para pacientes

Dor no ombro: o que realmente funciona?

Ciência mostra caminhos úteis, mas também muitas incertezas

Ponto 1

Anti-inflamatórios orais ajudam na dor aguda, mas não são solução definitiva

Ponto 2

Exercícios e mobilização do ombro têm evidência de benefício real

Ponto 3

Muitos tratamentos populares — como acupuntura, ultrassom e gelo — não têm comprovação científica robusta

O que este estudo acrescenta

MAPA DE INCERTEZAS

Esta revisão sistematizou o que se sabe e, igualmente importante, o que não se sabe sobre dezenas de tratamentos para dor no ombro

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

Os benefícios de AINEs orais e fisioterapia são clinicamente relevantes para dor aguda e reabilitação, mas muitas intervenções comuns carecem de suporte evidenciado, limitando as opções de tratamento baseadas em ciência

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Síntese de múltiplos estudos controlados que oferece visão panorâmica, mas cuja força depende da qualidade dos estudos originais incluídos

Estudos incluídos

71

Revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais

Prevalência de dor no ombro

4-26%

Varia conforme idade e fatores de risco; até 34% em algumas comunidades

Casos de manguito rotador

70%

Proporção de casos de dor no ombro atribuída a problemas do manguito rotador

Melhora com AINEs orais

86%

De pacientes com dor aguda melhoraram vs 59% com placebo em um estudo

Precisão de injeções intra-articulares

10%

Apenas essa proporção era tecnicamente correta mesmo com operadores experientes em um estudo

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor no ombro de diversas causas (manguito rotador, ombro congelado, tendinite, bursite, doenças articulares)

Tipo de estudo

Revisão sistemática com avaliação GRADE

Participantes

71 estudos incluídos, com populações variadas segundo a condição específica do o

Duração

Busca de literatura até agosto de 2009; períodos de seguimento dos estudos varia

Sessões

Variável conforme a intervenção e o estudo original

Comparador

Placebo, nenhum tratamento, cuidado usual ou outras intervenções ativas

Grupos do estudo

Diversas intervenções farmacológicasTratamentos não farmacológicosIntervenções cirúrgicasPlacebo ou controle

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Variável: de injeções únicas a 12 sessões de fisioterapia, ou medicação por 2 a

Frequência02

Conforme o estudo original: diária para medicamentos orais, semanal para injeçõe

Duração da sessão03

Não especificado de forma padronizada na revisão

Pontos / técnica04

Diversas técnicas segundo a intervenção: exercícios de mobilização, fortalecimento, técnicas manuais, injeções em diferentes compartimentos do ombro

Comparador05

Placebo (comprimidos inertes, solução salina, ultrassom simulado), nenhum tratamento, ou cuidado usual

Nota de protocolo06

A revisão não prescreveu um protocolo único, mas sintetizou protocolos variados dos 71 estudos incluídos

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com dor no ombro de causa identificável (manguito rotador, ombro congelado, articulações glenoumeral ou acromioclavicular)Pessoas com tendinite aguda, bursite subacromial ou dor de início recente (menos de 96 horas)Pacientes com ombro congelado (capsulite adesiva) de várias duraçõesIndivíduos com doenças reumáticas degenerativas do ombroParticipantes de ensaios clínicos randomizados com pelo menos 20 pessoas e seguimento de mais de 80%Pessoas submetidas a cirurgias eletivas do ombro em alguns estudos específicos

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Dor no ombro pós-AVC (acidente vascular cerebral) — explicitamente excluída desta revisãoDor referida da coluna cervical — não abordada nesta revisãoCrianças e adolescentes — todos os estudos eram em adultosPacientes com menos de 20 participantes por estudo ou seguimento inferior a 80%Ensaios abertos ou não cegos (exceto quando o cegamento era impossível)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Dor aguda do manguito rotador

melhorou

AINEs orais reduziram dor em 7-14 dias; 86% vs 59% de melhora em um estudo

🔄

Função do ombro

melhorou

Fisioterapia com exercícios e mobilização manual aumentou capacidade funcional vs placebo

🦴

Dor no ombro congelado (curto prazo)

melhorou

Injeções intra-articulares de corticoides aliviaram sintomas até 6 semanas

💎

Tendinite calcária

melhorou

Terapia de ondas de choque extracorpóreas mostrou redução da dor

🎯

Desempenho global

melhorou

55% de melhora clínica com fisioterapia vs 7% no controle em um estudo

O que não mudou

  • Acupuntura não superou placebo ou ultrassom para impacto do manguito rotador
  • Injeções subacromiais de corticoides não mostraram vantagem consistente sobre anestésico local isolado
  • Ultrassom terapêutico não demonstrou eficácia clara em comparação com placebo
  • Gelo e estimulação elétrica permanecem sem evidência robusta de benefício

Quando a melhora apareceu

1

7 a 14 dias

AINEs orais para tendinite aguda

Redução significativa da dor em repouso e durante atividades

2

até 6 semanas

Injeções intra-articulares de corticoides para omb

Melhora da dor e incapacidade em comparação com placebo ou fisioterapia

3

período variável conforme estudo

Fisioterapia para distúrbios mistos do ombro

Benefícios em dor e função quando comparada a placebo

4

semanas a meses

Ondas de choque para tendinite calcária

Redução da dor em alguns estudos analisados

Antes e depois

Melhora com AINEs orais (tendinite aguda)

escala máx. 100 % de pacientes melho

Antes59 % de pacientes melho
Depois86 % de pacientes melho

Melhora clínica com fisioterapia vs controle

escala máx. 100 % de pacientes melho

Antes7 % de pacientes melho
Depois55 % de pacientes melho

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • AINEs orais têm perfil de segurança conhecido quando usados a curto prazo
  • Fisioterapia é geralmente segura com baixo risco de efeitos adversos graves
  • Complicações de injeções são raras quando bem realizadas
Amarelo
  • Corticoides por qualquer via exigem cautela: osteoporose, diabetes, ganho de peso, dispepsia
  • AINEs podem causar sintomas gastrointestinais, especialmente em uso prolongado
  • Precisão das injeções intra-articulares pode ser subótima mesmo com operadores experientes
Vermelho
  • Evidência de segurança específica para muitas intervenções é limitada ou ausente
  • Não há dados robustos sobre interações ou riscos a longo prazo para várias modalidades
  • A revisão não incluiu análise detalhada de eventos adversos graves em todos os estudos

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pessoas com dor aguda de manguito rotador ou bursite subacromial de curta duração
  • Pacientes com ombro congelado que precisam de alívio sintomático rápido
  • Indivíduos com distúrbios mistos do ombro que podem se beneficiar de programa de exercícios
  • Pacientes com tendinite calcária que não responderam a tratamentos conservadores iniciais

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com dor no ombro pós-AVC ou referida da coluna cervical (não estudados)
  • Pacientes com contraindicações a AINEs (úlcera gástrica, insuficiência renal, anticoagulação)
  • Indivíduos com expectativa de cura rápida e definitiva apenas com medicamentos
  • Pacientes que buscam acupuntura como tratamento principal para impacto do manguito rotador
  • Pessoas com doenças sistêmicas não controladas que limitam opções terapêuticas

Expectativa realista

Alívio gradual com foco na funcionalidade

A maioria dos tratamentos oferece alívio parcial e temporário; a recuperação completa geralmente exige combinação de abordagens e tempo de reabilitação

Tempo provável

Melhora inicial em 1-2 semanas com AINEs; benefícios de fisioterapia em semanas a meses; ombro congelado pode levar 1-3

A qualidade das evidências é geralmente baixa, então respostas individuais variam e nem todo tratamento funcionará para todos

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar sobre a causa específica da dor no ombro e se há necessidade de exames de imagem
  2. 2Discutir opções baseadas em evidência: AINEs de curto prazo, programa de exercícios, possibilidade de injeção
  3. 3Questionar sobre expectativas realistas de tempo de recuperação e necessidade de persistência com exercícios
  4. 4Avaliar contraindicações pessoais a medicamentos anti-inflamatórios ou corticoides
  5. 5Solicitar retorno se não houver melhora em 4-6 semanas para reavaliação do diagnóstico e tratamento

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Acupuntura é eficaz para todos os tipos de dor no ombro

Achado

Para impacto do manguito rotador, acupuntura não mostrou vantagem sobre placebo ou ultrassom nesta revisão

Mito

Injeções de corticoide são sempre melhores que exercícios

Achado

Injeções intra-articulares superaram fisioterapia apenas no curto prazo (6 semanas); a longo prazo não houve diferença

Mito

Qualquer tratamento é melhor que nenhum tratamento

Achado

Várias intervenções comuns (ultrassom, gelo, estimulação elétrica) não tiveram eficácia comprovada vs placebo

Mito

A dor no ombro sempre melhora completamente com tratamento

Achado

Estudos de prognóstico mostram que muitas pessoas continuam com sintomas mesmo após 3 anos

Como isso pode funcionar

🔥

PASSO 1

A inflamação aguda nos tendões e bursas do ombro gera dor e limitação de movimento — mecanismo bem estabelecido

💊

PASSO 2

AINEs inibem enzimas inflamatórias (COX), reduzindo produção de prostaglandinas — mecanismo farmacológico conhecido

🏋️

PASSO 3

Exercícios progressivos promovem remodelação tecidual e restauram padrão de movimento — mecanismo fisiológico proposto

PASSO 4

Como outras intervenções (laser, ondas de choque) produzem efeito, quando observado, permanece parcialmente incerto

O que ainda é incerto

  • ?A qualidade geral das evidências é baixa a muito baixa para a maioria das intervenções, limitando recomendações firmes
  • ?Não há estudos diretos sobre paracetamol, opioides ou AINEs tópicos especificamente para dor no ombro
  • ?A eficácia de injeções guiadas por ultrassom ou fluoroscopia versus injeções não guiadas não está estabelecida
  • ?O papel da cirurgia em comparação com tratamento conservador permanece incerto para várias condições do ombro
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar efetividade e segurança de tratamentos farmacológicos, não farmacológicos e cirúrgicos para dor no ombro

👥

QUEM PARTICIPOU

Pacientes com dor no ombro de várias causas: manguito rotador, ombro congelado, tendinite e bursite

🧪

COMO FOI FEITO

Revisão sistemática de 71 estudos avaliando medicamentos, fisioterapia, injeções, acupuntura e cirurgias

📈

O QUE MUDOU

Anti-inflamatórios orais e fisioterapia mostraram benefícios. Acupuntura não mostrou vantagens sobre placebo

🛟

SEGURANÇA

Tratamentos geralmente seguros, com perfil de efeitos colaterais conhecido para medicações

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

SÍNTESE DE INCERTEZAS

Pela primeira vez em formato acessível, esta revisão mapeou dezenas de tratamentos e classificou o que tem respaldo, o que é promissor e o que permanece no campo das suposições

🧭

GUIA PARA DECISÕES REALISTAS

Ao destacar que a qualidade das evidências é predominantemente baixa, os autores alertam pacientes e médicos para não superestimar benefícios de intervenções comuns

📌

O ENIGMA DAS INJEÇÕES

A descoberta de que apenas 10% das injeções intra-articulares de ombro atingem o alvo correto, mesmo por mãos experientes, questiona toda a literatura sobre eficácia de injeções não guiadas

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Revisão de Evidências sobre Tratamentos para Dor no Ombro

A dor no ombro é uma queixa extremamente comum na população adulta, com estimativas de prevalência que variam de 4% a 26% — ou seja, pode afetar até um quarto das pessoas em determinados grupos etários. Todos os anos, cerca de 1% dos adultos acima de 45 anos procura um médico de atenção primária no Reino Unido por causa de dor no ombro recém-iniciada. As causas são múltiplas e incluem problemas no pescoço, na articulação glenoumeral (a principal articulação do ombro), na articulação acromioclavicular, no manguito rotador e em outros tecidos moles da região. O manguito rotador, conjunto de tendões e músculos que estabilizam e movimentam o ombro, é responsável por mais de dois terços dos casos.

Outra condição relevante é o ombro congelado (capsulite adesiva), que representa cerca de 2% dos casos e está associado a fatores como sexo feminino, idade mais avançada, diabetes, doenças cardiovasculares e tireoide.

Diante dessa diversidade de causas, Murphy e Carr conduziram uma revisão sistemática abrangente publicada na Clinical Evidence em 2010, com busca de literatura até agosto de 2009. O objetivo central foi responder a questões clínicas práticas: quais os efeitos de tratamentos farmacológicos por via oral, tópicos, injeções locais, tratamentos não farmacológicos e intervenções cirúrgicas para dor no ombro? Para isso, os autores consultaram as principais bases de dados médicas — Medline, Embase, Cochrane Library e outras — e aplicaram critérios rigorosos de inclusão: revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados e próprios ensaios randomizados, com pelo menos 20 participantes, seguimento de mais de 80% dos indivíduos e, preferencialmente, mascaramento dos avaliadores. Ao final, 71 estudos foram incluídos, abrangendo uma ampla gama de intervenções: desde anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) orais e tópicos, corticoides por várias vias, fisioterapia, laser, ondas de choque, acupuntura, até procedimentos cirúrgicos como descompressão subacromial artroscópica, reparo do manguito rotador e artroplastia do ombro.

A metodologia GRADE foi utilizada para avaliar a qualidade das evidências, resultando em classificações que variaram de alta a muito baixa, dependendo da intervenção e do desfecho analisado. Essa abordagem é particularmente importante porque ajuda a separar o que realmente funciona do que ainda carece de comprovação robusta.

Entre os resultados mais consistentes, os AINEs orais demonstraram eficácia no controle da dor em curto prazo — especificamente entre 7 e 14 dias — para pessoas com tendinite aguda do manguito rotador, bursite subacromial ou ambas. Um ensaio clínico com 306 participantes mostrou que celecoxib e naproxeno reduziram significativamente a dor em repouso em comparação com placebo. No entanto, a evidência de benefício além de 4 semanas é fraca ou inexistente, e não há estudos diretos sobre o uso de AINEs em dor no ombro inespecífica, doença da articulação acromioclavicular ou glenoumeral.

A fisioterapia, combinando tratamento manual e exercícios, mostrou benefícios em termos de dor e função para pessoas com distúrbios mistos do ombro quando comparada a placebo. Um dado notável: 55% dos que receberam fisioterapia tiveram melhora clínica significativa versus apenas 7% no grupo controle. Já as injeções intra-articulares de corticoides parecem oferecer alívio da dor em curto prazo — até 6 semanas — para ombro congelado, mas a vantagem sobre fisioterapia ou placebo se dilui a médio e longo prazo. A terapia com ondas de choque extracorpóreas demonstrou potencial para melhorar a dor na tendinite calcária, enquanto o laser apresentou resultados promissores em algumas análises.

Por outro lado, várias intervenções amplamente utilizadas não tiveram sua eficácia comprovada. A acupuntura, por exemplo, não mostrou vantagens sobre placebo ou ultrassom para impacto do manguito rotador. Não há evidências diretas de ensaios clínicos sobre opioides, paracetamol ou AINEs tópicos especificamente para dor no ombro. O mesmo vale para injeções intra-articulares de AINEs, injeções de corticoides subacromiais em várias comparações, estimulação elétrica, gelo, ultrassom terapêutico, manipulação sob anestesia e várias modalidades cirúrgicas — para todas essas, os autores concluíram que a evidência é insuficiente ou de muito baixa qualidade.

A segurança dos tratamentos, quando relatada, seguiu os perfis já conhecidos. Os AINEs orais podem causar sintomas gastrointestinais, erupções cutâneas, cefaleia e tontura. Os corticoides, por qualquer via, têm efeitos adversos bem documentados, incluindo osteoporose, diabetes, dispepsia, ganho de peso e cicatrização prejudicada. As injeções locais de corticoides raramente estão associadas a infecção (estimada entre 1 em 14.

000 a 1 em 50. 000 injeções), sinovite autolimitada em até 2% dos casos, e complicações ainda mais raras como ruptura tendínea, necrose de gordura subcutânea ou atrofia cutânea. Notavelmente, um estudo caso-controle encontrou que apenas 10% das injeções intra-articulares de ombro eram colocadas corretamente mesmo por operadores experientes, sugerindo que a precisão da técnica pode ser um fator crítico — embora a eficácia de injeções guiadas por imagem versus não guiadas ainda não esteja bem estabelecida.

A interpretação prudente desta revisão leva a algumas conclusões práticas. Primeiro, para a dor aguda do manguito rotador, os AINEs orais podem ser uma opção razoável de curto prazo, mas não devem ser vistos como solução definitiva. Segundo, a fisioterapia com exercícios e mobilização manual parece ter benefícios reais e duradouros para várias condições do ombro. Terceiro, muitas intervenções que parecem intuitivas ou são amplamente oferecidas — como acupuntura, ultrassom, gelo, estimulação elétrica — carecem de base científica sólida nesta revisão.

Quarto, para o ombro congelado, as injeções intra-articulares de corticoides podem acelerar o alívio inicial, mas não substituem a necessidade de reabilitação progressiva.

A principal limitação desta revisão, reconhecida pelos próprios autores, é a baixa qualidade geral das evidências disponíveis. Muitos estudos incluídos eram pequenos, com metodologias heterogêneas, diferentes medidas de desfecho e períodos de seguimento variados. A falta de padronização nas abordagens terapêuticas dificulta comparações diretas e generalizações. Além disso, a dor é um sintoma subjetivo, e a dependência de avaliações feitas por investigadores — em vez de relatos diretos dos pacientes — pode introduzir vieses.

Para o paciente, esta revisão oferece um mapa de navegação: alguns caminhos têm sinalização clara de eficácia, outros estão em neblina de incerteza, e muitos simplesmente não têm placas de orientação confiáveis. A decisão terapêutica deve ser individualizada, considerando a causa específica da dor, a duração dos sintomas, as comorbidades, as preferências pessoais e, acima de tudo, uma conversa franca com o médico sobre o que se sabe, o que se desconhece e o que pode ser esperado de cada opção.

O que fortalece a leitura

  • 1Revisão abrangente incluindo 71 estudos
  • 2Avaliação sistemática com metodologia GRADE
  • 3Análise de múltiplas modalidades de tratamento
  • 4Separação por tipos específicos de patologia do ombro
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Qualidade geral das evidências considerada baixa
  • 2Estudos com metodologias heterogêneas
  • 3Muitos tratamentos com evidência insuficiente
  • 4Falta de padronização nas abordagens terapêuticas

Leitura clínica do estudo

LIMITADA
45/ 100
Desenho
2/5
Amostra
3/5
Confirmação
2/5

🔬 Como o estudo foi organizado

71pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Revisão sistemática

71 pessoas

Análise de estudos sobre diversos tratamentos

⏱️ Tempo de acompanhamento: Busca até agosto de 2009

📊 Resultados em números

86% vs 59%

Melhora com anti-inflamatórios em tendinite aguda

sem diferença vs placebo

Acupuntura para impacto do manguito rotador

55% vs 7%

Fisioterapia vs controle para recuperação

baixa a muito baixa

Qualidade geral das evidências

Destaques percentuais

86% vs 59%
Melhora com anti-inflamatórios em tendinite aguda
55% vs 7%
Fisioterapia vs controle para recuperação

📊 Comparação de Resultados

📅 Linha do tempo da evidência

2002Primeiras revisões sistemáticas sobre dor no ombro
2005Consolidação de evidências sobre corticoides
2009Busca sistemática para esta revisão abrangente
2010Publicação desta revisão Clinical Evidence

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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