Estudos incluídos
71
Revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
Clinical Evidence
Ano
2010
Autores
Murphy et al.
Desenho
Revisão sistemática
Esta grande revisão analisou dezenas de estudos sobre tratamentos para dor no ombro. Os resultados mostram que anti-inflamatórios podem ajudar na dor aguda e fisioterapia traz benefícios funcionais. A acupuntura não demonstrou vantagens claras sobre tratamentos simulados para problemas do manguito rotador. A qualidade das evidências ainda é limitada, indicando necessidade de mais pesquisas de alta qualidade para orientar melhor o tratamento da dor no ombro.
Título original do estudo: Shoulder pain: Clinical Evidence systematic review
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Anti-inflamatórios orais aliviam a dor aguda do manguito rotador e fisioterapia com exercícios melhora função, mas a maioria dos tratamentos para dor no ombro — incluindo acupuntura, ultrassom, gelo e várias injeções — carece de evidência robusta de eficácia.
Esta grande revisão analisou dezenas de estudos sobre tratamentos para dor no ombro. Os resultados mostram que anti-inflamatórios podem ajudar na dor aguda e fisioterapia traz benefícios funcionais. A acupuntura não demonstrou vantagens claras sobre tratamentos simulados para problemas do manguito rotador. A qualidade das evidências ainda é limitada, indicando necessidade de mais pesquisas de alta qualidade para orientar melhor o tratamento da dor no ombro.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
Ciência mostra caminhos úteis, mas também muitas incertezas
Ponto 1
Anti-inflamatórios orais ajudam na dor aguda, mas não são solução definitiva
Ponto 2
Exercícios e mobilização do ombro têm evidência de benefício real
Ponto 3
Muitos tratamentos populares — como acupuntura, ultrassom e gelo — não têm comprovação científica robusta
O que este estudo acrescenta
Esta revisão sistematizou o que se sabe e, igualmente importante, o que não se sabe sobre dezenas de tratamentos para dor no ombro
Aplicabilidade clínica
Os benefícios de AINEs orais e fisioterapia são clinicamente relevantes para dor aguda e reabilitação, mas muitas intervenções comuns carecem de suporte evidenciado, limitando as opções de tratamento baseadas em ciência
Força do desenho do estudo
Síntese de múltiplos estudos controlados que oferece visão panorâmica, mas cuja força depende da qualidade dos estudos originais incluídos
Estudos incluídos
71
Revisões sistemáticas, ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais
Prevalência de dor no ombro
4-26%
Varia conforme idade e fatores de risco; até 34% em algumas comunidades
Casos de manguito rotador
70%
Proporção de casos de dor no ombro atribuída a problemas do manguito rotador
Melhora com AINEs orais
86%
De pacientes com dor aguda melhoraram vs 59% com placebo em um estudo
Precisão de injeções intra-articulares
10%
Apenas essa proporção era tecnicamente correta mesmo com operadores experientes em um estudo
Ficha rápida do estudo
Condição
Dor no ombro de diversas causas (manguito rotador, ombro congelado, tendinite, bursite, doenças articulares)
Tipo de estudo
Revisão sistemática com avaliação GRADE
Participantes
71 estudos incluídos, com populações variadas segundo a condição específica do o
Duração
Busca de literatura até agosto de 2009; períodos de seguimento dos estudos varia
Sessões
Variável conforme a intervenção e o estudo original
Comparador
Placebo, nenhum tratamento, cuidado usual ou outras intervenções ativas
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
Variável: de injeções únicas a 12 sessões de fisioterapia, ou medicação por 2 a
Conforme o estudo original: diária para medicamentos orais, semanal para injeçõe
Não especificado de forma padronizada na revisão
Diversas técnicas segundo a intervenção: exercícios de mobilização, fortalecimento, técnicas manuais, injeções em diferentes compartimentos do ombro
Placebo (comprimidos inertes, solução salina, ultrassom simulado), nenhum tratamento, ou cuidado usual
A revisão não prescreveu um protocolo único, mas sintetizou protocolos variados dos 71 estudos incluídos
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
Dor aguda do manguito rotador
melhorou
AINEs orais reduziram dor em 7-14 dias; 86% vs 59% de melhora em um estudo
Função do ombro
melhorou
Fisioterapia com exercícios e mobilização manual aumentou capacidade funcional vs placebo
Dor no ombro congelado (curto prazo)
melhorou
Injeções intra-articulares de corticoides aliviaram sintomas até 6 semanas
Tendinite calcária
melhorou
Terapia de ondas de choque extracorpóreas mostrou redução da dor
Desempenho global
melhorou
55% de melhora clínica com fisioterapia vs 7% no controle em um estudo
O que não mudou
Quando a melhora apareceu
7 a 14 dias
AINEs orais para tendinite aguda
Redução significativa da dor em repouso e durante atividades
até 6 semanas
Injeções intra-articulares de corticoides para omb
Melhora da dor e incapacidade em comparação com placebo ou fisioterapia
período variável conforme estudo
Fisioterapia para distúrbios mistos do ombro
Benefícios em dor e função quando comparada a placebo
semanas a meses
Ondas de choque para tendinite calcária
Redução da dor em alguns estudos analisados
Antes e depois
Melhora com AINEs orais (tendinite aguda)
escala máx. 100 % de pacientes melho
Melhora clínica com fisioterapia vs controle
escala máx. 100 % de pacientes melho
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
A maioria dos tratamentos oferece alívio parcial e temporário; a recuperação completa geralmente exige combinação de abordagens e tempo de reabilitação
Tempo provável
Melhora inicial em 1-2 semanas com AINEs; benefícios de fisioterapia em semanas a meses; ombro congelado pode levar 1-3
A qualidade das evidências é geralmente baixa, então respostas individuais variam e nem todo tratamento funcionará para todos
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Acupuntura é eficaz para todos os tipos de dor no ombro
Achado
Para impacto do manguito rotador, acupuntura não mostrou vantagem sobre placebo ou ultrassom nesta revisão
Mito
Injeções de corticoide são sempre melhores que exercícios
Achado
Injeções intra-articulares superaram fisioterapia apenas no curto prazo (6 semanas); a longo prazo não houve diferença
Mito
Qualquer tratamento é melhor que nenhum tratamento
Achado
Várias intervenções comuns (ultrassom, gelo, estimulação elétrica) não tiveram eficácia comprovada vs placebo
Mito
A dor no ombro sempre melhora completamente com tratamento
Achado
Estudos de prognóstico mostram que muitas pessoas continuam com sintomas mesmo após 3 anos
Como isso pode funcionar
PASSO 1
A inflamação aguda nos tendões e bursas do ombro gera dor e limitação de movimento — mecanismo bem estabelecido
PASSO 2
AINEs inibem enzimas inflamatórias (COX), reduzindo produção de prostaglandinas — mecanismo farmacológico conhecido
PASSO 3
Exercícios progressivos promovem remodelação tecidual e restauram padrão de movimento — mecanismo fisiológico proposto
PASSO 4
Como outras intervenções (laser, ondas de choque) produzem efeito, quando observado, permanece parcialmente incerto
O que ainda é incerto
Avaliar efetividade e segurança de tratamentos farmacológicos, não farmacológicos e cirúrgicos para dor no ombro
Pacientes com dor no ombro de várias causas: manguito rotador, ombro congelado, tendinite e bursite
Revisão sistemática de 71 estudos avaliando medicamentos, fisioterapia, injeções, acupuntura e cirurgias
Anti-inflamatórios orais e fisioterapia mostraram benefícios. Acupuntura não mostrou vantagens sobre placebo
Tratamentos geralmente seguros, com perfil de efeitos colaterais conhecido para medicações
Achados Interessantes
SÍNTESE DE INCERTEZAS
Pela primeira vez em formato acessível, esta revisão mapeou dezenas de tratamentos e classificou o que tem respaldo, o que é promissor e o que permanece no campo das suposições
GUIA PARA DECISÕES REALISTAS
Ao destacar que a qualidade das evidências é predominantemente baixa, os autores alertam pacientes e médicos para não superestimar benefícios de intervenções comuns
O ENIGMA DAS INJEÇÕES
A descoberta de que apenas 10% das injeções intra-articulares de ombro atingem o alvo correto, mesmo por mãos experientes, questiona toda a literatura sobre eficácia de injeções não guiadas
Resumo detalhado em linguagem acessível
A dor no ombro é uma queixa extremamente comum na população adulta, com estimativas de prevalência que variam de 4% a 26% — ou seja, pode afetar até um quarto das pessoas em determinados grupos etários. Todos os anos, cerca de 1% dos adultos acima de 45 anos procura um médico de atenção primária no Reino Unido por causa de dor no ombro recém-iniciada. As causas são múltiplas e incluem problemas no pescoço, na articulação glenoumeral (a principal articulação do ombro), na articulação acromioclavicular, no manguito rotador e em outros tecidos moles da região. O manguito rotador, conjunto de tendões e músculos que estabilizam e movimentam o ombro, é responsável por mais de dois terços dos casos.
Outra condição relevante é o ombro congelado (capsulite adesiva), que representa cerca de 2% dos casos e está associado a fatores como sexo feminino, idade mais avançada, diabetes, doenças cardiovasculares e tireoide.
Diante dessa diversidade de causas, Murphy e Carr conduziram uma revisão sistemática abrangente publicada na Clinical Evidence em 2010, com busca de literatura até agosto de 2009. O objetivo central foi responder a questões clínicas práticas: quais os efeitos de tratamentos farmacológicos por via oral, tópicos, injeções locais, tratamentos não farmacológicos e intervenções cirúrgicas para dor no ombro? Para isso, os autores consultaram as principais bases de dados médicas — Medline, Embase, Cochrane Library e outras — e aplicaram critérios rigorosos de inclusão: revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados e próprios ensaios randomizados, com pelo menos 20 participantes, seguimento de mais de 80% dos indivíduos e, preferencialmente, mascaramento dos avaliadores. Ao final, 71 estudos foram incluídos, abrangendo uma ampla gama de intervenções: desde anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) orais e tópicos, corticoides por várias vias, fisioterapia, laser, ondas de choque, acupuntura, até procedimentos cirúrgicos como descompressão subacromial artroscópica, reparo do manguito rotador e artroplastia do ombro.
A metodologia GRADE foi utilizada para avaliar a qualidade das evidências, resultando em classificações que variaram de alta a muito baixa, dependendo da intervenção e do desfecho analisado. Essa abordagem é particularmente importante porque ajuda a separar o que realmente funciona do que ainda carece de comprovação robusta.
Entre os resultados mais consistentes, os AINEs orais demonstraram eficácia no controle da dor em curto prazo — especificamente entre 7 e 14 dias — para pessoas com tendinite aguda do manguito rotador, bursite subacromial ou ambas. Um ensaio clínico com 306 participantes mostrou que celecoxib e naproxeno reduziram significativamente a dor em repouso em comparação com placebo. No entanto, a evidência de benefício além de 4 semanas é fraca ou inexistente, e não há estudos diretos sobre o uso de AINEs em dor no ombro inespecífica, doença da articulação acromioclavicular ou glenoumeral.
A fisioterapia, combinando tratamento manual e exercícios, mostrou benefícios em termos de dor e função para pessoas com distúrbios mistos do ombro quando comparada a placebo. Um dado notável: 55% dos que receberam fisioterapia tiveram melhora clínica significativa versus apenas 7% no grupo controle. Já as injeções intra-articulares de corticoides parecem oferecer alívio da dor em curto prazo — até 6 semanas — para ombro congelado, mas a vantagem sobre fisioterapia ou placebo se dilui a médio e longo prazo. A terapia com ondas de choque extracorpóreas demonstrou potencial para melhorar a dor na tendinite calcária, enquanto o laser apresentou resultados promissores em algumas análises.
Por outro lado, várias intervenções amplamente utilizadas não tiveram sua eficácia comprovada. A acupuntura, por exemplo, não mostrou vantagens sobre placebo ou ultrassom para impacto do manguito rotador. Não há evidências diretas de ensaios clínicos sobre opioides, paracetamol ou AINEs tópicos especificamente para dor no ombro. O mesmo vale para injeções intra-articulares de AINEs, injeções de corticoides subacromiais em várias comparações, estimulação elétrica, gelo, ultrassom terapêutico, manipulação sob anestesia e várias modalidades cirúrgicas — para todas essas, os autores concluíram que a evidência é insuficiente ou de muito baixa qualidade.
A segurança dos tratamentos, quando relatada, seguiu os perfis já conhecidos. Os AINEs orais podem causar sintomas gastrointestinais, erupções cutâneas, cefaleia e tontura. Os corticoides, por qualquer via, têm efeitos adversos bem documentados, incluindo osteoporose, diabetes, dispepsia, ganho de peso e cicatrização prejudicada. As injeções locais de corticoides raramente estão associadas a infecção (estimada entre 1 em 14.
000 a 1 em 50. 000 injeções), sinovite autolimitada em até 2% dos casos, e complicações ainda mais raras como ruptura tendínea, necrose de gordura subcutânea ou atrofia cutânea. Notavelmente, um estudo caso-controle encontrou que apenas 10% das injeções intra-articulares de ombro eram colocadas corretamente mesmo por operadores experientes, sugerindo que a precisão da técnica pode ser um fator crítico — embora a eficácia de injeções guiadas por imagem versus não guiadas ainda não esteja bem estabelecida.
A interpretação prudente desta revisão leva a algumas conclusões práticas. Primeiro, para a dor aguda do manguito rotador, os AINEs orais podem ser uma opção razoável de curto prazo, mas não devem ser vistos como solução definitiva. Segundo, a fisioterapia com exercícios e mobilização manual parece ter benefícios reais e duradouros para várias condições do ombro. Terceiro, muitas intervenções que parecem intuitivas ou são amplamente oferecidas — como acupuntura, ultrassom, gelo, estimulação elétrica — carecem de base científica sólida nesta revisão.
Quarto, para o ombro congelado, as injeções intra-articulares de corticoides podem acelerar o alívio inicial, mas não substituem a necessidade de reabilitação progressiva.
A principal limitação desta revisão, reconhecida pelos próprios autores, é a baixa qualidade geral das evidências disponíveis. Muitos estudos incluídos eram pequenos, com metodologias heterogêneas, diferentes medidas de desfecho e períodos de seguimento variados. A falta de padronização nas abordagens terapêuticas dificulta comparações diretas e generalizações. Além disso, a dor é um sintoma subjetivo, e a dependência de avaliações feitas por investigadores — em vez de relatos diretos dos pacientes — pode introduzir vieses.
Para o paciente, esta revisão oferece um mapa de navegação: alguns caminhos têm sinalização clara de eficácia, outros estão em neblina de incerteza, e muitos simplesmente não têm placas de orientação confiáveis. A decisão terapêutica deve ser individualizada, considerando a causa específica da dor, a duração dos sintomas, as comorbidades, as preferências pessoais e, acima de tudo, uma conversa franca com o médico sobre o que se sabe, o que se desconhece e o que pode ser esperado de cada opção.
Revisão sistemática
71 pessoas
Análise de estudos sobre diversos tratamentos
Melhora com anti-inflamatórios em tendinite aguda
Acupuntura para impacto do manguito rotador
Fisioterapia vs controle para recuperação
Qualidade geral das evidências
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Conheça a equipe da clínica →Dor cervical · Avaliação especializada
Converse com quem trata dor no pescoço há mais de 40 anos
A equipe do Prof. Dr. Hong Jin Pai avalia seu caso em consulta presencial na Alameda Jaú, Jardim Paulista, São Paulo.
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