Estudo científico comentado

Terapias baseadas em aceitação para dor crônica mostram benefícios modestos mas consistentes

Referência acadêmica

Periódico

Pain

Ano

2011

Autores

Veehof et al.

Desenho

Revisão sistemática e meta-análise

Esta revisão mostra que terapias focadas na aceitação da dor, como mindfulness e ACT, podem ajudar pessoas com dor crônica. Os benefícios são modestos mas consistentes, similares aos da terapia cognitivo-comportamental tradicional. Essas abordagens não eliminam a dor, mas ajudam a lidar melhor com ela, reduzindo o sofrimento emocional. Podem ser uma boa alternativa para quem não se beneficia de outras terapias.

Título original do estudo: Acceptance-based interventions for the treatment of chronic pain: A systematic review and meta-analysis

📊Revisão sistemática e meta-análise👥n=1235 participantes⚖️Impacto clínico moderado
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Terapias baseadas em aceitação (mindfulness e ACT) produzem benefícios modestos e consistentes para dor crônica, comparáveis à TCC tradicional, sem serem superiores — representam boas alternativas para quem não respondeu a outras abordagens.

O que isso significa para você?

Esta revisão mostra que terapias focadas na aceitação da dor, como mindfulness e ACT, podem ajudar pessoas com dor crônica. Os benefícios são modestos mas consistentes, similares aos da terapia cognitivo-comportamental tradicional. Essas abordagens não eliminam a dor, mas ajudam a lidar melhor com ela, reduzindo o sofrimento emocional. Podem ser uma boa alternativa para quem não se beneficia de outras terapias.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Você não precisa 'vencer' a dor para melhorar — aprender a conviver com ela de forma diferente já pode reduzir seu sofrimento
  • 2Se a terapia cognitivo-comportamental não funcionou bem para você, mindfulness ou ACT podem ser opções a discutir com seu médico
  • 3Os benefícios exigem prática consistente; não espere mudanças dramáticas da noite para o dia
  • 4A dor provavelmente não vai desaparecer completamente, mas sua capacidade de viver bem mesmo com ela pode aumentar
  • 5Procure programas com profissionais treinados — os estudos positivos usaram protocolos estruturados, não abordagens casuais
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Com base no meu perfil e histórico, mindfulness, ACT ou TCC seriam mais indicados para minha situação?
  • 2Há programas de MBSR ou ACT disponíveis na rede pública ou convênio, ou seria necessário acesso particular?
  • 3Quanto tempo e que tipo de prática em casa seriam esperados de mim?
  • 4Como avaliaremos se está funcionando — apenas pela dor ou também pelo meu bem-estar emocional e funcional?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1As intervenções foram bem toleradas nos estudos revisados, sem eventos adversos sérios reportados
  • 2A segurança em condições psiquiátricas graves não estabilizadas não foi avaliada nesta população de estudos
  • 3A qualidade metodológica geral foi baixa, o que limita a confiança em declarações definitivas sobre segurança
  • 4Programas intensivos podem ser emocionalmente desafiadores; acompanhamento adequado é importante

Leitura rápida para pacientes

Aceitar a dor não significa desistir

Terapias de mindfulness e ACT podem ajudar você a sofrer menos com a dor crônica, mesmo que não a eliminem completamente

Ponto 1

Os benefícios são modestos mas reais: pequena redução na dor e melhora no humor e qualidade de vida

Ponto 2

São alternativas válidas se você já tentou terapia tradicional e não se adaptou

Ponto 3

Exigem prática regular e comprometimento — não são soluções rápidas

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA META-ANÁLISE ESPECÍFICA

Esta foi a primeira síntese quantitativa dedicada exclusivamente a terapias baseadas em aceitação para dor crônica, separando MBSR e ACT de outras intervenções psicológicas e estabelecendo uma linha de base para comparaç

Aplicabilidade clínica

Sinal discreto

Os tamanhos de efeito (0,25 a 0,41) são clinicamente pequenos segundo os critérios de Cohen, indicando melhorias perceptíveis mas não transformadoras para a maioria dos pacientes; comparáveis aos da TCC para dor crônica.

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é o mais alto nível de evidência científica, sintetizando dados de múltiplos estudos, embora a qualidade dos estudos primários incluídos tenha sido predominantemente baixa a m

Participantes totais

1. 235

soma de 22 estudos incluídos na meta-análise

Tamanho do efeito na dor

0,37

efeito pequeno, significativo estatisticamente, versus grupos controle

Tamanho do efeito na depressão

0,32

efeito pequeno; atenção para possível viés de publicação

Estudos de alta qualidade

2

apenas 2 de 22 estudos atingiram critérios rigorosos de qualidade metodológica

Estudos sobre ACT

7

menor base de evidência para ACT comparada a 15 estudos de MBSR

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica (fibromialgia, artrite reumatoide, dor lombar, dor de cabeça crônica, síndrome da fadiga crônica, distúrbios

Tipo de estudo

Revisão sistemática e meta-análise

Participantes

n=1235 adultos com dor crônica, predominância feminina, idade média 40-60 anos

Duração

Intervenções típicas de 8 a 10 semanas; seguimento de longo prazo não avaliado d

Sessões

MBSR: 8 sessões semanais de 1,5 a 2,5 horas; ACT: variável (4 a 10 sessões seman

Comparador

Lista de espera, cuidado usual ou grupo de educação/apoio

Grupos do estudo

Terapias baseadas em aceitação (MBSR ou ACT)Grupos controle (lista de espera, cuidado usual ou grupo educacional)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

8 a 10 sessões para MBSR; 4 a 10 sessões ou programa intensivo de 3 a 4 semanas

Frequência02

Semanal para MBSR; variável para ACT (semanal ou intensivo diário)

Duração da sessão03

1,5 a 2,5 horas para MBSR; 1 a 1,5 horas para ACT em formato semanal, ou tempo i

Pontos / técnica04

Meditação mindfulness formal, yoga, práticas de atenção plena no cotidiano (MBSR); aceitação de experiências desagradáveis, clarificação de valores, compromisso com ação baseada em

Comparador05

Lista de espera, cuidado usual ou grupo de educação e apoio

Nota de protocolo06

Grupos variavam de 6 a 25 participantes; alguns estudos usaram sessões individuais. Prática diária em casa era incentivada nos programas MBSR.

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com diagnóstico de dor crônica de diversas etiologias (fibromialgia, artrite reumatoide, dor lombar, dor de cabeça, síndrome da fadiga crônicaPredominância de mulheres (em 21 dos 22 estudos)Faixa etária média entre 40 e 60 anosPacientes com dor persistente que já haviam tentado ou não se beneficiaram de outras abordagensAlguns estudos incluíram pacientes com dor generalizada não específica

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes (todos os participantes eram adultos)Pacientes com dor aguda ou condições de dor predominantemente neuropáticas não especificadasIndivíduos com doenças psiquiátricas graves ou dependência química ativa (critérios de exclusão comuns nos estudos primários)Pacientes que não conseguiam participar de sessões de grupo ou de práticas de meditação regulares

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Intensidade da dor

reduziu

Redução pequena mas significativa (efeito 0,37) em comparação com controles; efeito menor (0,25) nos estudos de melhor qualidade

😔

Sintomas depressivos

melhorou

Melhora pequena (efeito 0,32) versus controles; nota-se possível viés de publicação nesse desfecho

😰

Ansiedade

melhorou

Redução pequena (efeito 0,40) em estudos controlados

🏃

Bem-estar físico

melhorou

Ganho pequeno (efeito 0,35) na percepção de funcionamento físico

🌟

Qualidade de vida

melhorou

Melhora pequena (efeito 0,41) na satisfação geral com a vida

O que não mudou

  • A dor não foi eliminada — apenas sua intensidade foi levemente reduzida
  • Não houve superioridade demonstrada sobre a terapia cognitivo-comportamental tradicional
  • Efeitos de longo prazo não puderam ser estabelecidos devido à falta de dados de seguimento

Quando a melhora apareceu

1

8 a 10 semanas

Final da intervenção

Melhorias em dor, depressão, ansiedade e qualidade de vida já eram detectáveis ao término do programa

Antes e depois

Intensidade da dor (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos

Antes7 pontos
Depois6 pontos

Sintomas depressivos (escala padronizada)

escala máx. 10 pontos

Antes6 pontos
Depois5 pontos

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Intervenções psicológicas bem toleradas sem eventos adversos sérios reportados
  • Não há riscos farmacológicos ou interações medicamentosas
  • Abordagens não invasivas com baixo potencial de dano
Amarelo
  • Programas intensivos de ACT (3-4 semanas em tempo integral) podem ser emocionalmente desafiadores
  • Meditação pode inicialmente aumentar a consciência da dor, o que pode ser desconfortável
  • Requer comprometimento com práticas regulares para potencial benefício
Vermelho
  • Segurança em populações específicas (psicose ativa, trauma complexo) não foi estabelecida nesta revisão
  • Dois únicos estudos de alta qualidade limitam a confiança nas conclusões de segurança
  • Efeitos de longo prazo desconhecidos

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor crônica de pelo menos 3 meses de duração
  • Pacientes que não obtiveram benefício satisfatório com terapia cognitivo-comportamental tradicional
  • Pessoas com alta evitação experiencial (tendência a suprimir ou fugir de emoções e sensações desagradáveis)
  • Indivíduos abertos a práticas de meditação e mindfulness
  • Pacientes com histórico de depressão recorrente associada à dor crônica

Mais cautela para extrapolar

  • Crianças e adolescentes (não estudados nesta revisão)
  • Pacientes com doenças psiquiátricas graves não estabilizadas
  • Indivíduos incapazes de participar de sessões de grupo ou manter prática regular em casa
  • Quem busca eliminação completa da dor como único objetivo
  • Pacientes com expectativa de resultados rápidos e dramáticos

Expectativa realista

Mudança no relacionamento com a dor, não eliminação dela

Aprender a viver com menos sofrimento emocional associado à dor, com pequena redução na intensidade percebida e melhora gradual no humor e na qualidade de vida

Tempo provável

Benefícios iniciais em 8 a 10 semanas; manutenção a longo prazo não estabelecida pela evidência atual

Os efeitos são modestos e individuais — algumas pessoas se beneficiam mais que outras, e a prática regular é provavelmente necessária para manter ganhos

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se há programas de MBSR ou ACT disponíveis na rede pública ou privada de saúde mental
  2. 2Discutir se já foram tentadas outras abordagens psicológicas e como foram as respostas
  3. 3Avaliar disposição para práticas diárias de meditação e exercícios de atenção plena
  4. 4Questionar sobre histórico de depressão ou ansiedade que possa influenciar a escolha terapêutica
  5. 5Verificar se há contraindicações específicas para práticas de mindfulness na situação clínica individual

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Mindfulness e ACT eliminam a dor crônica

Achado

As intervenções reduzem levemente a intensidade da dor (efeito 0,37), mas seu principal benefício está na redução do sofrimento emocional e na melhora da qualidade de vida

Mito

Essas terapias são superiores à TCC tradicional

Achado

Os efeitos são comparáveis à TCC, não superiores; são alternativas válidas, especialmente para quem não respondeu à TCC

Mito

Qualquer pessoa pode fazer sozinha com aplicativos

Achado

Os estudos revisados utilizaram programas estruturados com profissionais treinados; a eficácia de formatos autoguiados não foi avaliada

Mito

Os benefícios duram para sempre após o programa

Achado

Não há dados adequados sobre manutenção de longo prazo; a maioria dos estudos não incluiu seguimento prolongado

Como isso pode funcionar

🧠

PASSO 1: CONSCIÊNCIA

Desenvolver atenção plena (mindfulness) para observar pensamentos, emoções e sensações de dor sem julgamento imediato — mecanismo proposto, não comprovado causalmente nesta revisão

🤲

PASSO 2: ACEITAÇÃO

Reduzir a luta contra a dor e a evitação experiencial, permitindo que a sensação dolorosa exista sem dominar completamente a experiência de vida

🎯

PASSO 3: REALINHAMENTO

Clarificar valores pessoais e comprometer-se com ações consistentes com esses valores, mesmo na presença da dor — especialmente enfatizado na ACT

🔄

PASSO 4: PRÁTICA CONTÍNUA

Manter exercícios regulares de meditação e aplicação de mindfulness no cotidiano para consolidar mudanças — a adesão à prática provavelmente influencia resultados

O que ainda é incerto

  • ?Efeitos de longo prazo são desconhecidos — a maioria dos estudos não incluiu seguimento adequado após o término da intervenção
  • ?A superioridade sobre TCC não foi demonstrada; resta incerto se há subgrupos específicos que se beneficiam mais de uma abordagem que da outra
  • ?O número pequeno de estudos de alta qualidade (apenas 2) e a possível subnotificação de resultados negativos para depressão limitam a confiança nas es
  • ?A eficácia específica da ACT versus MBSR não pôde ser bem estabelecida devido ao desequilíbrio no número de estudos (7 ACT vs. 15 MBSR)
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar os efeitos de terapias baseadas em aceitação (mindfulness e ACT) em pacientes com dor crônica

👥

QUEM PARTICIPOU

1235 adultos com condições de dor crônica, incluindo fibromialgia, artrite e dor lombar

🧪

COMO FOI FEITO

Meta-análise de 22 estudos comparando MBSR e ACT com grupos controle ou lista de espera

📈

O QUE MUDOU

Redução pequena mas significativa na intensidade da dor (0,37) e depressão (0,32)

🛟

SEGURANÇA

Intervenções bem toleradas, sem eventos adversos sérios reportados

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

EQUIVALÊNCIA COM TCC

Pela primeira vez em uma meta-análise dedicada, ficou claro que as terapias baseadas em aceitação não superam a TCC, mas oferecem resultados comparáveis — uma informação crucial para decisões clínicas individualizadas

🧭

DOR COMO DESFECHO QUESTIONÁVEL

Os autores levantaram a questão inovadora de que a intensidade da dor pode não ser a melhor medida para avaliar essas terapias, já que seu objetivo central não é reduzir a dor, mas mudar a relação com ela

📌

PROMESSA DA INTEGRAÇÃO

O estudo apontou para uma direção futura promissora: programas que integram mindfulness com terapia comportamental, potencialmente mais efetivos que cada abordagem isoladamente

🔍

VIÉS DE PUBLICAÇÃO EM DEPRESSÃO

A análise gráfica (funnel plot) revelou indícios de que estudos sobre depressão com resultados menores podem estar faltando na literatura, sugerindo que o efeito real pode ser mais modesto que o aparente

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Terapias baseadas em aceitação para dor crônica mostram benefícios modestos mas consistentes

Viver com dor crônica é uma experiência que vai muito além da sensação física. A dor persistente — seja na fibromialgia, artrite, lombar ou outras condições — frequentemente carrega consigo ansiedade, tristeza profunda e uma sensação de perda de controle sobre a própria vida. Por décadas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) foi considerada o padrão-ouro para ajudar pacientes a lidar com essa realidade. No entanto, nem todos se beneficiam igualmente, e os efeitos, embora reais, costumam ser modestos.

Foi nesse cenário que terapias baseadas em aceitação — especialmente o programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (MBSR) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) — ganharam espaço como alternativas promissoras. O estudo de Veehof e colaboradores, publicado em 2011 na revista Pain, representa a primeira meta-análise dedicada especificamente a avaliar essas intervenções no contexto da dor crônica, reunindo dados de 1. 235 participantes em 22 estudos.

A metodologia adotada pelos pesquisadores holandeses foi rigorosa e abrangente. Eles realizaram buscas sistemáticas em quatro bases de dados científicas principais, incluindo tanto estudos controlados randomizados (o padrão mais alto de evidência) quanto estudos não controlados, além de teses não publicadas, para minimizar o viés de publicação. A qualidade metodológica de cada estudo foi avaliada por oito critérios, incluindo randomização adequada, análise de intenção de tratar, integridade do tratamento e poder estatístico. O resultado dessa avaliação foi preocupante: apenas dois estudos atingiram alta qualidade, nenhum preencheu todos os critérios, e doze foram classificados como de baixa qualidade.

Essa limitação metodológica geral dos estudos primários é um ponto crucial que os leitores devem ter em mente ao interpretar os achados.

Os resultados principais mostram que as terapias baseadas em aceitação produzem efeitos pequenos, porém estatisticamente significativos, quando comparadas a grupos controle. O tamanho do efeito padronizado foi de 0,37 para intensidade da dor, 0,32 para depressão, 0,40 para ansiedade, 0,35 para bem-estar físico e 0,41 para qualidade de vida. Em termos práticos, esses números indicam melhorias modestas — não uma transformação dramática, mas mudanças consistentes e reproduzíveis. É particularmente notável que, quando apenas os estudos de maior qualidade foram considerados, os efeitos se reduziram ligeiramente (0,25 para dor e 0,30 para depressão), sugerindo que os benefícios reais podem ser ainda mais contidos do que os números gerais indicam.

Os autores enfatizam que, diferentemente de abordagens que buscam diretamente reduzir a dor, as terapias baseadas em aceitação trabalham com uma lógica distinta: em vez de lutar contra a dor, o paciente aprende a aceitá-la como parte da experiência de vida, reduzindo o sofrimento associado sem necessariamente eliminar a sensação dolorosa.

A comparação com a TCC é um dos aspectos mais relevantes desta revisão. Os pesquisadores concluem que, no momento atual da evidência científica, as terapias baseadas em aceitação não são superiores à TCC tradicional — seus efeitos são comparáveis em magnitude. Contudo, elas representam alternativas válidas, especialmente para pacientes que não responderam bem à TCC ou que apresentam características específicas como alto nível de evitação experiencial (tendência a evitar pensamentos, sentimentos e sensações desagradáveis) e baixo sentido de propósito na vida. Um estudo incluído na revisão, de Zautra e colaboradores, sugere que pacientes com artrite reumatoide e histórico de depressão recorrente podem se beneficiar mais do MBSR do que da TCB, embora essa seja uma descoberta preliminar que demanda replicação.

As limitações do conjunto de evidências são substanciais e devem ser levadas a sério. Além da baixa qualidade metodológica predominante, houve indicação de viés de publicação para o desfecho de depressão — estudos menores com resultados negativos ou pouco expressivos podem não ter sido publicados, inflacionando artificialmente o efeito aparente. Não foi possível avaliar adequadamente os efeitos de longo prazo devido à falta de seguimento nos estudos primários. O número de estudos sobre ACT foi particularmente pequeno (apenas sete, contra quinze sobre MBSR), limitando as conclusões sobre essa modalidade específica.

Além disso, a maioria dos participantes era do sexo feminino e adulta em idade média (40 a 60 anos), o que restringe a generalização para outros perfis demográficos.

Para o paciente que vive com dor crônica, esta revisão oferece uma mensagem equilibrada e realista. As terapias baseadas em aceitação não são milagrosas, mas podem fazer uma diferença genuína na qualidade de vida, especialmente no âmbito emocional. Elas não substituem o tratamento médico da condição de base, mas funcionam como um complemento valioso na gestão integral da dor. O investimento de tempo é razoável — tipicamente oito a dez semanas de sessões semanais de aproximadamente duas horas, com práticas diárias de meditação e mindfulness.

Para quem se sente preso em um ciclo de luta constante contra a dor, de frustração e depressão crescentes, essas abordagens oferecem um caminho alternativo: não de resignação passiva, mas de engajamento ativo com a vida, mesmo na presença da dor. A recomendação final dos autores aponta para uma direção promissora — a integração de mindfulness com terapia comportamental, combinando o melhor de ambas as abordagens para potencializar os resultados.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeira meta-análise específica sobre terapias baseadas em aceitação para dor crônica
  • 2Amostra grande com 1235 participantes de estudos diversos
  • 3Resultados consistentes entre diferentes estudos controlados
  • 4Avaliação sistemática da qualidade metodológica dos estudos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Apenas 2 estudos de alta qualidade metodológica incluídos
  • 2Número limitado de estudos com ACT comparado ao MBSR
  • 3Possível viés de publicação detectado para desfechos de depressão
  • 4Efeitos de longo prazo não puderam ser adequadamente avaliados

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
3/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

1235pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Terapias baseadas em aceitação

823 pessoas

MBSR ou ACT

Grupos controle

412 pessoas

Lista de espera ou cuidado usual

⏱️ Tempo de acompanhamento: 8 a 10 semanas típicas

📊 Resultados em números

0,37

Redução da dor vs controles

0,32

Melhora da depressão vs controles

0,40

Redução da ansiedade vs controles

0,35

Melhora do bem-estar físico

0,41

Melhora da qualidade de vida

📊 Comparação de Resultados

Efeito na dor (tamanho do efeito)

Estudos controlados
0.37
Antes-depois
0.47

Efeito na depressão (tamanho do efeito)

Estudos controlados
0.32
Antes-depois
0.69

📅 Linha do tempo da evidência

1979Desenvolvimento do programa MBSR por Kabat-Zinn
1999Publicação dos fundamentos da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
2003Primeira meta-análise de mindfulness por Baer (incluía apenas 4 estudos de dor)
2009Meta-análise de terapias psicológicas para dor crônica por Eccleston
2011Esta meta-análise específica sobre terapias baseadas em aceitação para dor crônica

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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