Estudo científico comentado

Prevalência de dor crônica em crianças e adolescentes: revisão sistemática

Referência acadêmica

Periódico

Pain

Ano

2011

Autores

King et al.

Desenho

revisão sistemática

Esta revisão mostra que a dor crônica é muito comum em crianças e adolescentes, afetando especialmente meninas. A cefaleia é o tipo mais frequente, seguida de dor abdominal e lombar. Os dados sugerem que a dor aumenta com a idade e pode persistir até a vida adulta, destacando a importância de identificação e tratamento precoces.

Título original do estudo: The epidemiology of chronic pain in children and adolescents revisited: A systematic review

📊revisão sistemática👥n=41 estudosimpacto alto
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

A dor crônica e recorrente afeta pelo menos 1 em cada 4 a 5 crianças e adolescentes, sendo cefaleia, dor abdominal e lombar as mais comuns, com meninas e adolescentes mais atingidos; a maioria dos estudos ainda tem limitações metodológicas importantes.

O que isso significa para você?

Esta revisão mostra que a dor crônica é muito comum em crianças e adolescentes, afetando especialmente meninas. A cefaleia é o tipo mais frequente, seguida de dor abdominal e lombar. Os dados sugerem que a dor aumenta com a idade e pode persistir até a vida adulta, destacando a importância de identificação e tratamento precoces.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor recorrente do seu filho é provavelmente mais comum do que você imagina — não é frescura nem exceção
  • 2Meninas na puberdade e adolescência merecem atenção especial, pois estatisticamente apresentam mais queixas dolorosas
  • 3Manter um registro simples de quando a dor aparece ajuda o médico a identificar padrões e decidir sobre investigações
  • 4A maioria dos estudos ainda tem limitações, então cada caso precisa de avaliação individual — os números da população não definem o destino do seu filho
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1A frequência e o padrão da dor do meu filho se encaixam em alguma categoria que mereça investigação mais aprofundada?
  • 2Existem fatores de risco na nossa família — como histórico de dor, estresse ou condições socioeconômicas — que devemos considerar?
  • 3Que estratégias de manejo não medicamentosas podemos tentar enquanto avaliamos a evolução?
  • 4Devo me preocupar com a possibilidade de que esta dor persista na vida adulta do meu filho?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Esta revisão não avaliou segurança de nenhum tratamento — não fornece dados sobre medicamentos, procedimentos ou intervenções
  • 2A qualidade metodológica baixa da maioria dos estudos incluídos limita a confiabilidade das estimativas de prevalência
  • 3Não há dados de segurança ou eficácia a serem extraídos desta revisão para orientar escolhas terapêuticas específicas
  • 4A variação enorme entre estudos (por exemplo, cefaleia de 8% a 83%) indica que generalizações devem ser feitas com cautela

Leitura rápida para pacientes

A dor que volta e volta na infância é mais comum do que se pensa

Seu filho não está sozinho: milhares de crianças e adolescentes vivem com cefaleia, dor de barriga ou nas costas de forma recorrente. Reconhecer o problema é o primeiro passo para

Ponto 1

Cefaleia é a dor mais frequente, afetando cerca de 1 em cada 4 adolescentes semanalmente

Ponto 2

Meninas, especialmente após a puberdade, relatam mais dor que meninos em quase todas as categorias

Ponto 3

A qualidade da maioria dos estudos ainda é limitada — os números orientam, mas não substituem avaliação médica individua

O que este estudo acrescenta

ATUALIZAÇÃO DE 20 ANOS

Primeira revisão sistemática abrangente desde 1991 a quantificar prevalência de dor crônica pediátrica, com avaliação crítica da qualidade metodológica e proposta de critérios para futuros estudos.

Aplicabilidade clínica

Sinal consistente

A magnitude da prevalência (medianas de 12-47% dependendo do tipo e período de dor) indica que a dor crônica pediátrica é um problema de saúde pública, não uma condição rara. A identificação de grupos de risco (meninas,

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Síntese de múltiplos estudos observacionais, oferecendo visão panorâmica do problema, mas com menor certeza causal que ensaios clínicos randomizados.

Total de participantes

59. 018

soma dos estudos incluídos na revisão

Prevalência mediana de cefaleia semanal

23%

variação de 6% a 31% entre estudos

Prevalência de dor lombar

14-24%

já significativa em adolescentes

Estudos com qualidade baixa a moderada

maioria

média de 4,5 a 9,9 critérios atendidos de 19 possíveis

Aumento da cefaleia em 18 anos (estudo finlandês)

14% → 52%

possível tendência de crescimento, mas baseada em poucos estudos temporais

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica e recorrente em crianças e adolescentes (cefaleia, dor abdominal, lombar, musculoesquelética e múltiplas dor

Tipo de estudo

Revisão sistemática de estudos epidemiológicos

Participantes

59. 018 participantes de 41 estudos (24. 230 em cefaleia, 27. 526 em dor abdominal,

Duração

Revisão de publicações entre 1991 e 2009 (18 anos de literatura)

Sessões

Não aplicável — revisão de estudos observacionais

Comparador

Não aplicável — estudos de prevalência sem grupo controle

Grupos do estudo

Estudos de cefaleiaEstudos de dor abdominalEstudos de dor lombarEstudos de dor musculoesquelética

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

Não aplicável

Frequência02

Não aplicável

Duração da sessão03

Não aplicável

Pontos / técnica04

Não aplicável — estudo observacional sem intervenção

Comparador05

Não aplicável

Nota de protocolo06

Esta revisão não avaliou tratamentos, apenas frequência e distribuição de dores na população. Não há protocolo terapêutico a ser descrito.

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Crianças e adolescentes de 2 a 18 anos de idadeParticipantes de estudos epidemiológicos de base populacional, escolar ou comunitáriaEstudos publicados em inglês entre 1991 e 2009Pesquisas que investigaram prevalência de dor crônica, recorrente ou persistenteEstudos de diversos países, incluindo Europa, Américas, Ásia e Oceania

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças abaixo de 2 anos de idadePopulações clínicas ou hospitalares (estudos restritos a pacientes em tratamento)Estudos em línguas que não o inglês (nenhum estudo em francês foi localizado)Pesquisas sem dados quantitativos de prevalênciaAdultos e idosos — todos os achados são específicos para população pediátrica

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📊

Conhecimento epidemiológico

ampliou

Primeira atualização em 20 anos sobre quantas crianças têm dor crônica, com síntese de 41 estudos

🔍

Identificação de padrões

melhorou

Confirmou que meninas, adolescentes e crianças de menor renda têm mais dor; cefaleia é o tipo mais frequente

⚠️

Consciência do problema

aumentou

Revelou que prevalências parecem estar crescendo ao longo das décadas, não são estáticas

📋

Critérios de qualidade

foram propostos

Desenvolveu instrumento de 19 itens para avaliar qualidade de estudos epidemiológicos de dor pediátrica

O que não mudou

  • A grande variação entre estudos persistiu — ranges de prevalência ainda são muito amplos
  • A qualidade metodológica geral não melhorou substancialmente desde 1991
  • Não houve consenso sobre definições operacionais de dor crônica na população estudada

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Revisão de estudos observacionais sem intervenção — não há riscos diretos de tratamento a relatar
Amarelo
  • Qualidade baixa a moderada da maioria dos estudos pode levar a estimativas imprecisas
  • Grande variação nas definições de dor dificulta comparações entre populações
Vermelho
  • Nenhum estudo incluído avaliou segurança de intervenções — esta revisão não fornece dados sobre tratamentos
  • A maioria dos estudos não foi longitudinal, impedindo conclusões sobre causalidade e prognóstico de longo prazo

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pais e responsáveis de crianças com queixas recorrentes de dor de cabeça, barriga ou costas
  • Adolescentes, especialmente do sexo feminino, com início ou aumento de sintomas dolorosos
  • Profissionais de saúde que atendem populações pediátricas em atenção primária
  • Pesquisadores interessados em desenhar estudos epidemiológicos mais robustos sobre dor na infância
  • Gestores de saúde pública que precisam dimensionar necessidades de atenção à dor pediátrica

Mais cautela para extrapolar

  • Famílias buscando orientação específica sobre tratamento — esta revisão não avaliou intervenções
  • Crianças com dor aguda associada a doenças específicas (revisão focou em dor crônica não associada a doença)
  • Populações adultas — todos os dados são de 2 a 18 anos
  • Contextos onde apenas números precisos de prevalência local são aceitáveis, dada a grande variação entre estudos

Expectativa realista

O que esperar desta evidência

Compreender que a dor recorrente na infância é comum, não é 'frescura', e que meninas e adolescentes são particularmente afetados. Os números ajudam a contextualizar, mas não substituem avaliação individual.

Tempo provável

Não aplicável — estudo de prevalência, não de evolução temporal após intervenção

Os números exatos variam muito entre estudos; use como orientação geral, não como diagnóstico ou prognóstico individual.

Checklist para consulta

  1. 1Levar um diário simples da dor do filho: quando aparece, com que frequência, o que parece desencadear, se interfere em atividades
  2. 2Perguntar ao médico se a queixa recorrente do seu filho se encaixa em padrões conhecidos e se há necessidade de investigação adicional
  3. 3Discutir fatores de risco identificados na literatura que possam se aplicar à sua família: histórico de dor na família, estresse escolar, sono, atividade física
  4. 4Questionar sobre estratégias de manejo não medicamentosas apropriadas para a idade

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor de cabeça frequente em criança é rara e sempre indica problema grave

Achado

Cefaleia semanal afeta cerca de 23% das crianças e adolescentes; a maioria não tem causa orgânica identificável, embora avaliação médica seja importante

Mito

Dor nas costas só acontece em adultos

Achado

14-24% dos adolescentes relatam dor lombar, com tendência de aumento com a idade; já atinge proporções comparáveis às de adultos jovens

Mito

Meninos e meninas têm dor com a mesma frequência

Achado

Meninas apresentam mais cefaleia, dor abdominal, musculoesquelética e dor generalizada, especialmente após a puberdade

Mito

A qualidade dos estudos sobre dor em crianças melhorou muito nos últimos 20 anos

Achado

Apesar de mais estudos publicados, a maioria ainda tem qualidade baixa a moderada, com amostras enviesadas e definições inconsistentes

Como isso pode funcionar

🧬

FATORES BIOLÓGICOS

Mudanças hormonais na puberdade, possivelmente via estrogênio e modulação da dor, podem explicar parte do aumento em meninas — mecanismo proposto, não confirmado causalmente

🧠

FATORES PSICOLÓGICOS

Ansiedade, depressão e baixa autoestima aparecem associados a vários tipos de dor; a direção causal é incerta — a dor pode causar sofrimento emocional ou vice-versa

🏠

FATORES SOCIAIS E AMBIENTAIS

Baixa renda, estresse escolar, histórico familiar de dor e possivelmente estilo de vida sedentário correlacionam-se com maior prevalência — associações observacionais

TRAJETÓRIA DE VIDA

Dores na infância, especialmente musculoesqueléticas, podem persistir ou prever dor adulta, sugerindo continuidade que justifica atenção precoce — evidência preliminar de estudos não longitudinais

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se as taxas de dor realmente aumentaram ao longo do tempo ou se mudaram apenas os métodos de pesquisa e o relato
  • ?A causalidade entre fatores psicossociais e dor não foi estabelecida — não se sabe se ansiedade causa dor, dor causa ansiedade, ou ambos compartilham
  • ?Faltam estudos longitudinais que acompanhem a mesma criança por anos para entender trajetórias naturais e preditores de cronicidade
  • ?A aplicabilidade dos números a populações específicas (como brasileiras) é incerta, dada a predominância de estudos europeus e norte-americanos
🎯

O que o estudo quis responder

Atualizar dados sobre prevalência de dor crônica e recorrente em crianças e adolescentes

👥

QUEM PARTICIPOU

41 estudos com crianças e adolescentes de 2 a 18 anos

🧪

COMO FOI FEITO

Revisão sistemática de estudos epidemiológicos publicados entre 1991-2009

📈

O QUE MUDOU

Cefaleia foi o tipo mais comum (23%), meninas têm mais dor

🛟

QUALIDADE

Maioria dos estudos teve qualidade baixa a moderada

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

ATUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Após 20 anos sem uma síntese completa, esta revisão consolidou 41 estudos e mostrou que a epidemiologia da dor pediátrica avançou em quantidade, mas não tanto em qualidade metodológica

🧭

PADRÃO DE SEXO CLARO

A diferença para meninas é consistente e crescente com a idade, sugerindo que intervenções preventivas podem precisar ser diferenciadas por sexo e faixa etária

📌

DOR LOMBAR JÁ NA ADOLESCÊNCIA

Com 14-24% de prevalência, a dor nas costas já atinge níveis de adultos jovens, desafiando a crença de que é problema apenas da meia-idade

⚠️

CRESCIMENTO TEMPORAL PREOCUPANTE

Dados finlandeses sugerem que a cefaleia quase quadruplicou em duas décadas, indicando que fatores ambientais ou comportamentais modernos podem estar em jogo

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Prevalência de dor crônica em crianças e adolescentes: revisão sistemática

A dor persistente ou que volta repetidamente ao longo do tempo é muito mais comum em crianças e adolescentes do que muitos pais e profissionais de saúde imaginam. Esta revisão sistemática, publicada em 2011 na revista Pain por King e colaboradores, representa a primeira atualização abrangente em duas décadas sobre quantos jovens realmente vivem com esse tipo de dor. Entre 1991 e 2009, os pesquisadores identificaram 185 estudos potencialmente relevantes em bases de dados como EMBASE, Medline, CINAHL e PsycINFO, dos quais 41 foram incluídos na análise final, abrangendo mais de 59 mil participantes de diversos países. O objetivo central foi claro: oferecer números atualizados sobre prevalência, entender como a dor varia conforme idade e sexo, e avaliar se a qualidade dos estudos epidemiológicos havia melhorado desde a revisão pioneira de Goodman e McGrath em 1991.

Para isso, dois revisores independentes selecionaram os artigos, extraíram dados e avaliaram a qualidade dos estudos por meio de critérios específicos desenvolvidos para esta pesquisa, inspirados em diretrizes como o STROBE e adaptados às particularidades do estudo da dor. Os critérios incluíam aspectos como uso de amostras não enviesadas, recrutamento aleatório, cálculo do tamanho amostral, taxa de resposta superior a 80%, definição operacional da dor, período de recordação claramente estabelecido e apresentação de intervalos de confiança. A concordância entre os codificadores foi de 96%, mas os resultados da avaliação de qualidade foram preocupantes. O que os pesquisadores encontraram foi tanto esperado quanto alarmante.

A cefaleia — ou dor de cabeça — lidera como o tipo mais frequente de dor em jovens, com prevalência mediana de 23% quando considerada semanalmente, podendo chegar a 47% em períodos mensais e até 69% em alguns estudos que investigaram a ocorrência nos últimos três meses. Isso significa que, em uma sala de aula com 30 crianças, cerca de 7 podem estar vivendo com dor de cabeça recorrente em qualquer momento. Quando analisados subtipos, a cefaleia do tipo tensional apresentou mediana de 25%, enquanto a migrânea variou de 3% a 10%. Um achado particularmente preocupante foi a tendência de crescimento das taxas de cefaleia ao longo das décadas: um estudo finlandês mostrou aumento de 14% para 52% em 18 anos, possivelmente relacionado a mudanças no estilo de vida, maior uso de telas e pressões escolares.

A dor abdominal recorrente, muitas vezes associada a diagnósticos funcionais na infância, apresentou prevalência mediana de 12%, com variação enorme entre estudos que variou de 4% a 53%. Essa ampla dispersão reflete, em parte, as diferentes definições utilizadas — alguns estudos adotaram os critérios clássicos de Apley e Naish (pelo menos três episódios de dor abdominal em três meses, com intensidade suficiente para limitar as atividades da criança), enquanto outros empregaram critérios mais flexíveis. A dor lombar, frequentemente considerada problema exclusivo de adultos, já afeta 14% a 24% dos adolescentes, com tendência clara de aumento conforme a idade avança. As dores musculoesqueléticas e de membros também mostraram-se significativas, com prevalências que variaram de 4% a 40%, dependendo do período de reporte e da inclusão ou não de dores relacionadas à prática esportiva.

A combinação de múltiplas dores — como cefaleia associada a dor abdominal e lombar — apresentou mediana de 6% para ocorrência semanal, mas pode atingir proporções consideráveis em períodos mais longos. Um padrão particularmente notável em praticamente todas as categorias de dor foi a diferença entre sexos. As meninas apresentaram taxas mais altas que os meninos em cefaleia, dor abdominal, dor musculoesquelética, dor lombar e dor generalizada, especialmente após a puberdade. Essa diferença se acentua com a idade, sugerindo que fatores hormonais, psicológicos e sociais interagem de maneira complexa.

Na cefaleia, por exemplo, a prevalência em meninas pode chegar a mais que o dobro da observada em meninos na adolescência. Na dor musculoesquelética, as meninas relataram mais dores em múltiplos sítios corporais, enquanto os meninos apresentaram ligeira predominância apenas em dores localizadas nos joelhos. A idade em si também mostrou ser um fator importante, embora com padrões distintos conforme o tipo de dor. Enquanto a dor abdominal tende a ser mais comum em crianças mais novas, com pico em idades escolares iniciais, a cefaleia, a dor lombar e a musculoesquelética aumentam progressivamente da infância à adolescência.

A dor lombar, por exemplo, praticamente dobra sua prevalência quando se comparam crianças de 9-10 anos com adolescentes de 14-15 anos. Esse padrão de aumento com a idade, combinado com a similaridade das prevalências de dor musculoesquelética encontradas em adolescentes com as observadas em adultos, sugere fortemente que pelo menos alguns tipos de dor podem se tornar crônicos já na infância e persistir por décadas. Fatores psicossociais e demográficos também se destacaram nas análises, embora com resultados nem sempre consistentes. Crianças de famílias com menor renda e menor escolaridade materna apresentaram mais cefaleias em alguns estudos, mas não em todos.

Ansiedade, depressão, baixa autoestima e estresse escolar apareceram associados a vários tipos de dor. Curiosamente, alguns estudos encontraram correlações inesperadas, como maior tempo assistindo televisão associado a mais queixas de dor múltipla, embora a direção dessa relação — se a dor leva ao sedentarismo ou vice-versa — não possa ser estabelecida com certeza. A qualidade de vida, quando avaliada, mostrou-se significativamente menor em crianças com dor crônica, e cerca de 53% dessas crianças haviam consultado médico por causa da dor, comparado a 30% daquelas sem dor crônica. A utilidade clínica desta revisão é multifacetada.

Para pais, ela valida preocupações: a dor do filho não é "invenção" nem algo raro. Para médicos e outros profissionais de saúde, oferece números para contextualizar consultas e justificar investigação cuidadosa de queixas recorrentes. O estudo reforça que a dor na infância não é apenas um problema do momento — há evidências de continuidade que pode persistir por décadas, afetando desenvolvimento escolar, social e emocional. A identificação precoce de padrões de dor, especialmente em meninas e adolescentes, pode abrir janelas para intervenções que prevenham cronicidade futura.

Contudo, a interpretação deve ser prudente. A maioria dos estudos incluídos apresentou qualidade metodológica baixa a moderada. A média de critérios atendidos pelos estudos que usaram entrevistas foi de apenas 4,5 de 19 possíveis; para os que usaram questionários autopreenchidos, 9,9 de 17. Poucos usaram amostras realmente representativas da população geral — muitos dependiam de conveniência, como escolas específicas.

Nenhum dos estudos com questionários realizou cálculo do tamanho amostral, e praticamente nenhum analisou quem não respondeu ou apresentou intervalos de confiança para as prevalências. As definições de "dor crônica" ou "dor recorrente" variavam enormemente entre estudos, e muitos nem sequer forneceram definições operacionais claras. Os períodos de recordação oscilavam entre "dor agora", "esta semana", "este mês" ou "nos últimos seis meses", tornando comparações diretas arriscadas.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeira revisão sistemática abrangente da área
  • 2Avaliação rigorosa da qualidade dos estudos
  • 3Grande número de estudos analisados
  • 4Dados de múltiplos países
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Qualidade baixa da maioria dos estudos incluídos
  • 2Grande variação nas definições de dor
  • 3Falta de padronização nos períodos de avaliação
  • 4Poucos estudos longitudinais

Leitura clínica do estudo

FORTE
82/ 100
Desenho
4/5
Amostra
5/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

59018pessoas avaliadas
divisão dos grupos

estudos de cefaleia

24230 pessoas

análise de prevalência

estudos de dor abdominal

27526 pessoas

análise de prevalência

estudos de dor lombar

7262 pessoas

análise de prevalência

⏱️ Tempo de acompanhamento: revisão de 18 anos de publicações

📊 Resultados em números

6-31%

Prevalência de cefaleia semanal

0%

Prevalência mediana de cefaleia

4-53%

Prevalência de dor abdominal recorrente

14-24%

Prevalência de dor lombar

Destaques percentuais

6-31%
Prevalência de cefaleia semanal
23%
Prevalência mediana de cefaleia
4-53%
Prevalência de dor abdominal recorrente
14-24%
Prevalência de dor lombar

📊 Comparação de Resultados

Prevalência de dor por tipo

Cefaleia
23
Dor abdominal
19
Dor lombar
21

📅 Linha do tempo da evidência

1991Primeira revisão abrangente por Goodman e McGrath
1991Início do período de busca sistemática
2009Final do período de análise dos estudos
2011Publicação desta revisão sistemática atualizada

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

Conheça a equipe da clínica →

Continue lendo

Continue pesquisando

Outros estudos próximos para aprofundar a leitura.

CraniopunturaAcupuntura Pediátrica
2022

Craniopuntura como terapia adicional melhora desenvolvimento cognitivo e motor em crianças com paralisia cerebral

O que este estudo responde

Craniopuntura somada à reabilitação convencional mostrou benefícios moderados e consistentes para desenvolvimento mental, psicológico e motor em crianças…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como craniopuntura + reabilitação convencional foi comparado a reabilitação convencional (movimentação, treino de linguagem, orientação…

Comparador

Reabilitação convencional (movimentação, treino de linguagem, orientação perceptiva, exercícios de coordenação)

📊 Meta-análise👥 731 crianças benefício moderado

Força da evidência

75%

Xue et al.

Translational Pediatrics

Ver resumo
Acupuntura PediátricaDor Crônica (Geral)
2020

Acupuntura em crianças: revisão de evidências científicas para dor pediátrica

O que este estudo responde

A acupuntura mostra resultados promissores para dor em crianças e adolescentes em 82% dos estudos revisados, especialmente para dor procedural, cólica e…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como acupuntura ou técnica relacionada foi comparado a placebo, sham, cuidado usual, solução de sacarose ou anestesia tópica, conforme o estudo em…

Comparador

Placebo, sham, cuidado usual, solução de sacarose ou anestesia tópica, conforme o estudo

📚 Revisão sistemática👥 22 estudos selecionados🎯 evidência promissora

Força da evidência

75%

Lin et al.

Journal of Traditional and Complementary Medicine

Ver resumo
Acupuntura PediátricaNeurologia & Reabilitação AVC
2024

Acupuntura para Paralisia Cerebral Infantil: Meta-Análise Identifica Pontos-Chave

O que este estudo responde

Acupuntura pura somada à reabilitação convencional mostrou benefícios pequenos, porém consistentes, na função motora, espasticidade, equilíbrio e…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como acupuntura corporal/craniana + reabilitação convencional foi comparado a reabilitação convencional (exercícios terapêuticos, terapia…

Comparador

Reabilitação convencional (exercícios terapêuticos, terapia ocupacional, em alguns casos terapia da fala ou massagem)

📊 Meta-análise👥 1797 crianças impacto moderado

Força da evidência

75%

Cheng et al.

Healthcare

Ver resumo
Revisões Sistemáticas & Meta-AnálisesAcupuntura Pediátrica
2023

Acupuntura e outras terapias da medicina chinesa tradicional para síndrome de tiques em crianças

O que este estudo responde

Acupuntura combinada com fitoterapia chinesa mostrou maior eficácia e melhor perfil de segurança que medicamentos ocidentais para tiques em crianças, mas…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como acupuntura + fitoterapia chinesa foi comparado a medicamentos ocidentais convencionais em transtorno de tiques (síndrome de tourette) em…

Comparador

Medicamentos ocidentais convencionais

🕸️ network meta-análise👥 n=3.038 participantes impacto clínico moderado

Força da evidência

72%

Pu et al.

Frontiers in Neuroscience

Ver resumo