Estudo científico comentado

Regulação emocional na dor crônica: revisão sistemática da literatura

Referência acadêmica

Periódico

Journal of Psychosomatic Research

Ano

2018

Autores

Koechlin et al.

Desenho

revisão sistemática

Este estudo mostra que a forma como lidamos com nossas emoções pode influenciar nossa experiência de dor crônica. Estratégias inadequadas de controle emocional, especialmente aquelas usadas depois que a emoção já surgiu, podem piorar a dor e aumentar ansiedade e depressão. O aprendizado de técnicas adequadas de regulação emocional pode ser um complemento valioso ao tratamento da dor crônica, oferecendo uma nova perspectiva terapêutica.

Título original do estudo: The role of emotion regulation in chronic pain: A systematic literature review

📚revisão sistemática👥n=2065 participantes🔬evidência emergente
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Estratégias reativas inadequadas de regulação emocional — especialmente suprimir ou explodir emoções depois que já surgiram — associam-se a pior experiência de dor e mais ansiedade/depressão em pacientes com dor crônica, enquanto estratégias preventivas parece

O que isso significa para você?

Este estudo mostra que a forma como lidamos com nossas emoções pode influenciar nossa experiência de dor crônica. Estratégias inadequadas de controle emocional, especialmente aquelas usadas depois que a emoção já surgiu, podem piorar a dor e aumentar ansiedade e depressão. O aprendizado de técnicas adequadas de regulação emocional pode ser um complemento valioso ao tratamento da dor crônica, oferecendo uma nova perspectiva terapêutica.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A forma como lidamos com emoções não é fraqueza de caráter — é uma habilidade que pode ser desenvolvida e que parece influenciar nossa experiência de dor crônica.
  • 2Suprimir emoções (fingir que está tudo bem) e explodir emoções (irritar-se facilmente) são dois extremos que a pesquisa associa a piores desfechos — o meio-termo flexível é o ideal
  • 3Se você tem dor crônica e nota dificuldade em lidar com frustração, raiva ou tristeza, vale a pena mencionar isso ao seu médico como parte do manejo integral da dor.
  • 4Terapias que já incluem técnicas emocionais, como a terapia cognitivo-comportamental, podem ser especialmente relevantes — pergunte sobre disponibilidade na sua região.
  • 5A ciência ainda não provou que melhorar a regulação emocional cura a dor, mas a evidência sugere que pode melhorar significativamente a qualidade de vida ao redor da dor.
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Eu tenho notado que suprimo minhas emoções ou explodo com frequência — isso poderia estar influenciando minha experiência de dor?
  • 2Existem programas de terapia cognitivo-comportamental ou treinamento em regulação emocional disponíveis para complementar meu tratamento atual da dor?
  • 3Minha ansiedade/depressão e minha dor parecem piorar juntas — devemos tratar ambas de forma integrada?
  • 4Quais sinais indicariam que eu estaria me beneficiando de uma abordagem mais focada na dimensão emocional da minha dor crônica?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Esta revisão não avaliou segurança de intervenções — não há dados sobre efeitos adversos de treinamentos em regulação emocional para dor crônica nesta análise.
  • 2A regulação emocional não substitui tratamentos médicos convencionais da dor; deve ser vista como complemento, não alternativa.
  • 3Pacientes com trauma complexo ou transtornos de personalidade podem precisar de abordagens especializadas antes ou simultaneamente ao trabalho com regulação emocional.
  • 4A autocrítica excessiva sobre 'lidar mal com emoções' pode ser contraproducente; o objetivo é flexibilidade, não perfeição emocional.

Leitura rápida para pacientes

Como você lida com emoções importa para sua dor

Suprimir ou explodir emoções pode piorar o sofrimento da dor crônica. Aprender a reconhecer e ajustar suas respostas emocionais é uma estratégia promissora — ainda em estudo, mas j

Ponto 1

Note se você tende a 'engolir' emoções ou explodir — ambos os padrões associam-se a piores desfechos

Ponto 2

Estratégias como reaprender a ver situações de forma menos ameaçadora podem proteger contra depressão

Ponto 3

Discuta com seu médico a inclusão de apoio psicológico no manejo da sua dor crônica

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA REVISÃO SISTEMÁTICA

Este estudo foi o primeiro a organizar globalmente a literatura sobre regulação emocional e dor crônica, diferenciando estratégias antecedentes de reativas e propondo a inclusão da regulação emocional nos modelos teórico

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A revisão identifica um fator de risco psicológico modificável com potencial para guiar intervenções futuras, mas baseia-se predominantemente em estudos transversais de associação, sem evidência de ensaios controlados qu

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Síntese rigorosa de múltiplos estudos, mas limitada pela qualidade dos estudos originais — predominantemente transversais, sem randomização ou grupo controle.

pacientes analisados

2. 065

total em 15 estudos independentes

estudos com associação reativa-dor

67%

4 de 6 estudos que mediram estratégias reativas encontraram associação com desfechos negativos

estudos sem associação antecedente-dor

75%

3 de 4 estudos antecedentes não encontraram correlação direta com intensidade da dor

risco de ansiedade/depressão

3x

maior em pacientes com dor crônica vs. população geral — dado de literatura de apoio citado na revis

condições de dor incluídas

7

tipos diferentes de dor crônica representados nos estudos

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

dor crônica de múltiplas etiologias (fibromialgia, artrite reumatoide, dor lombar, dor pélvica, doença falciforme, artri

Tipo de estudo

revisão sistemática da literatura

Participantes

n=2065 pacientes com dor crônica, predominantemente adultos, com predomínio femi

Duração

análise de estudos publicados até novembro de 2016, com tempo de dor variando de

Sessões

não aplicável — revisão de estudos observacionais e transversais

Comparador

não aplicável — análise de associações entre variáveis, não comparação entre grupos de tratamento

Grupos do estudo

estratégias antecedentes (preventivas)estratégias reativasestratégias mistas ou não classificáveis

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

não aplicável — estudo observacional/revisão sistemática

Frequência02

não aplicável

Duração da sessão03

não aplicável

Pontos / técnica04

análise de 15 estudos que aplicaram diversos questionários validados de regulação emocional (ERQ, TMMS, TEARS, STAXI, WBSI, entre outros)

Comparador05

não aplicável — comparação entre tipos de estratégia de regulação emocional, não entre grupos de tratamento

Nota de protocolo06

os autores classificaram cada medida como antecedente-focada, resposta-focada ou mista segundo o Process Model de Gross

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com dor crônica de diversas condições (fibromialgia, artrite, dor lombar, dor pélvica)Crianças e adolescentes com artrite idiopática juvenil e doença falciforme (2 estudos)Pacientes com diagnóstico médico confirmado de síndrome dolorosa crônicaParticipantes de ambos os sexos, embora com forte predominância feminino na maioria dos estudosIndivíduos com tempo de dor variando de alguns meses a mais de 10 anosPacientes que responderam a questionários de autorrelato sobre emoções e dor

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com dor aguda ou dor experimental induzida em laboratórioPacientes pediátricos em geral — apenas 2 estudos incluíram crianças, limitando generalização para essa faixa etáriaIndivíduos com condições de dor crônica não avaliadas nos 15 estudos (ex: neuropatia diabética, dor oncológica)Homens em proporção representativa — a amostra feminina predominante pode mascarar diferenças de gêneroPacientes com alterações cognitivas graves que impedissem o autorrelato

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

🧠

compreensão do papel emocional na dor

avançou

revisão sistemática inaugural que organizou evidências sobre regulação emocional e dor crônica

🎯

identificação de alvo terapêutico

emergiu

regulação emocional, especialmente reativa, mostrou-se candidata a intervenção no tratamento da dor crônica

🔍

diferenciação entre tipos de estratégia

esclareceu

estratégias reativas inadequadas associaram-se mais consistentemente a desfechos negativos que estratégias antecedentes

O que não mudou

  • A intensidade da dor não mostrou associação direta e consistente com estratégias antecedentes de regulação emocional
  • A relação entre regulação emocional e dor raramente foi direta — na maioria das vezes, mediada por humor, ansiedade ou depressão
  • Não houve evidência de que melhorar a regulação emocional reduz diretamente a dor em ensaios clínicos randomizados

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • O conceito de regulação emocional é intrinsecamente seguro e não farmacológico
  • Treinamento em regulação emocional já é componente estabelecido de terapias cognitivo-comportamentais
Amarelo
  • A supressão emocional crônica pode mascarar sofrimento psicológico não tratado
  • A interpretação individual dos achados sem acompanhamento profissional pode levar a autocrítica excessiva sobre 'lidar mal com emoções'
  • A heterogeneidade dos estudos limita a certeza sobre qual técnica específica é mais adequada para cada condição de dor
Vermelho
  • Nenhum estudo na revisão avaliou segurança ou efeitos adversos de intervenções de regulação emocional
  • A maioria dos estudos era transversal, impedindo conclusões sobre direção da causalidade
  • A amostra com viés de gênero e etário limita a aplicabilidade universal dos achados

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pacientes com dor crônica que notam padrões de supressão emocional ou explosões emocionais frequentes
  • Indivíduos com dor crônica e comorbidades de ansiedade ou depressão
  • Pessoas interessadas em abordagens complementares não farmacológicas para manejo da dor
  • Pacientes que já se beneficiam de terapia cognitivo-comportamental e poderiam aprofundar o componente emocional
  • Mulheres adultas com fibromialgia, artrite ou dor lombar (perfis mais representativos na amostra)

Mais cautela para extrapolar

  • Crianças e adolescentes com dor crônica (dados insuficientes para esta faixa etária)
  • Pacientes com dor aguda ou pós-operatória recente (o estudo foca em dor crônica)
  • Indivíduos com alterações cognitivas significativas que dificultam o reconhecimento e a nomeação de emoções
  • Pacientes que esperam redução direta e imediata da intensidade da dor apenas com técnicas emocionais
  • Homens com condições de dor não representadas nos estudos revisados

Expectativa realista

Mudança no relacionamento com a dor, não necessariamente na dor em si

O desenvolvimento de estratégias mais flexíveis de regulação emocional pode reduzir o sofrimento associado à dor, melhorar o funcionamento diário e diminuir sintomas de ansiedade e depressão, mesmo que a intensidade da dor persista.

Tempo provável

Não determinado por esta revisão — estudos de intervenção preliminares sugerem benefícios após semanas a meses de treina

Esta revisão não prova que melhorar a regulação emocional cura ou reduz diretamente a dor crônica; mostra associações que merecem investigação em ensaios clínic

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar ao médico se há programas de terapia cognitivo-comportamental com foco em regulação emocional disponíveis
  2. 2Discutir se seus padrões de lidar com emoções (suprimir, evitar, explodir) parecem piorar períodos de dor intensa
  3. 3Avaliar se há comorbidades de ansiedade ou depressão que mereçam atenção simultânea ao manejo da dor
  4. 4Questionar se técnicas de reavaliação cognitiva e mindfulness podem ser incorporadas ao seu plano de tratamento
  5. 5Solicitar encaminhamento para avaliação psicológica especializada se notar dificuldade persistente de identificar ou expressar emoções

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Se você tem dor crônica, precisa apenas 'ser mais forte emocionalmente' para melhorar

Achado

A 'força emocional' não é o ponto — a flexibilidade emocional é. O estudo mostra que tanto suprimir quanto explodir emoções associam-se a piores desfechos; o ideal é ajustar a estratégia à situação.

Mito

Pensar positivo antes da dor surge resolve o problema

Achado

Estratégias antecedentes como a reavaliação cognitiva não mostraram associação direta com redução da dor. Seu papel parece mais protetor contra depressão, não analgésico direto.

Mito

A dor crônica é puramente física ou puramente psicológica

Achado

A revisão reforça modelos biopsicossociais: fatores sensoriais, psicológicos e ambientais interagem. A regulação emocional é um fator de risco secundário, não a causa única.

Mito

Já existe tratamento comprovado baseado em regulação emocional para dor crônica

Achado

A evidência é promissora mas preliminar. Apenas estudos de caso e comparações não controladas existem; ensaios clínicos randomizados ainda são necessários.

Como isso pode funcionar

ESTRESSOR DA DOR

A dor crônica atua como estressor persistente que aumenta a experiência de afeto negativo — mecanismo proposto, não comprovado causalmente nesta revisão

🔄

RESPOSTA EMOCIONAL

Quando a emoção já surge, estratégias reativas inadequadas (supressão, inibição, explosão) podem amplificar o sofrimento — associação observada em 67% dos estudos reativos

🌊

CASCATA PSICOLÓGICA

A regulação emocional inadequada correlaciona-se com mais catastrofização, ansiedade, depressão e pior funcionamento social — fatores que, por sua vez, pioram a experiência da dor

🛡️

JANELA TERAPÊUTICA (PROPOSTA)

Treinar estratégias antecedentes flexíveis e reduzir a dependência de supressão reativa poderia quebrar esse ciclo — hipótese baseada em estudos preliminares, não ainda validada em RCTs

O que ainda é incerto

  • ?A direção da causalidade permanece desconhecida: a regulação emocional inadequada precede e causa piora da dor, ou a dor crônica persistente erosiona
  • ?Não há consenso sobre como medir melhor a regulação emocional — os 15 estudos usaram instrumentos diferentes, e nenhum capturou dimensões fisiológicas
  • ?A eficácia de intervenções específicas de treinamento em regulação emocional para dor crônica ainda não foi testada em ensaios clínicos randomizados d
  • ?Desconhece-se se os achados se aplicam igualmente a homens, crianças, idosos e condições de dor não incluídas na revisão
🎯

O que o estudo quis responder

investigar como estratégias de regulação emocional se relacionam com dor crônica

👥

QUEM PARTICIPOU

2065 pacientes com dor crônica em 15 estudos diferentes

🧪

COMO FOI FEITO

análise sistemática de estudos sobre estratégias emocionais preventivas vs. reativas

📈

O QUE DESCOBRIU

estratégias reativas inadequadas aumentam dor e comorbidades psicológicas

🛟

APLICAÇÃO

regulação emocional pode ser alvo terapêutico importante no tratamento da dor

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

DISTINÇÃO TEMPORAL IMPORTA

Pela primeira vez em uma revisão sistemática de dor crônica, ficou claro que quando você regula a emoção — antes ou depois que ela surge — pode ser mais importante do que simplesmente 'controlar emoções' de forma genéric

🧭

MAPA PARA INTERVENÇÕES FUTURAS

Ao propor a regulação emocional como fator de risco secundário nos modelos de dor crônica, os autores criaram um alvo terapêutico novo: treinar flexibilidade emocional, não apenas reduzir intensidade da dor.

📌

SUPRESSÃO EMOCIONAL É SILENCIOSAMENTE PREJUDICIA

O achado mais memorável: suprimir a expressão de emoções não alivia a dor — correlaciona-se com mais hospitalizações por crises de dor, mais ansiedade, mais depressão e mais catastrofização, mesmo sem aumentar diretament

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Regulação emocional na dor crônica: revisão sistemática da literatura

A dor crônica é uma condição que afeta cerca de 20% da população mundial e representa um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. Definida como qualquer dor que persiste por mais de três meses, seja contínua ou recorrente, ela carrega consigo não apenas sofrimento físico, mas também uma carga emocional significativa que pode perpetuar o próprio ciclo da dor. Pacientes com dor crônica apresentam três vezes mais risco de desenvolver ansiedade e depressão em comparação com a população geral, criando uma teia complexa de interações entre corpo e mente que a medicina tradicional ainda luta para desvendar completamente.

Neste cenário, a regulação emocional emerge como um conceito promissor. Trata-se da capacidade que cada pessoa tem de modular seus estados emocionais — influenciando quais emoções sentimos, quando as sentimos e como as expressamos. O modelo desenvolvido pelo psicólogo James Gross divide essas estratégias em duas categorias fundamentais: as antecedentes, usadas antes que a emoção se desenvolva plenamente (como evitar uma situação estressante ou redirecionar a atenção), e as reativas, empregadas depois que a resposta emocional já foi iniciada (como suprimir lágrimas em público ou reprimir a expressão da raiva).

A revisão sistemática conduzida por Helen Koechlin e colaboradores, publicada no Journal of Psychosomatic Research em 2018, representa o primeiro esforço global para sintetizar o que se sabe sobre essa relação. Os pesquisadores analisaram 15 estudos que envolveram 2. 065 pacientes com diversas condições de dor crônica — incluindo fibromialgia, artrite reumatoide, dor lombar, dor pélvica, artrite idiopática juvenil e doença falciforme. A maioria dos participantes era adulta, embora dois estudos tenham incluído populações pediátricas, e houve um desequilíbrio de gênero: seis estudos incluíram apenas mulheres.

A metodologia da revisão foi rigorosa. Os autores consultaram seis grandes bases de dados científicas, aplicaram critérios claros de inclusão e exclusão, e classificaram cada medida de regulação emocional como antecedente, reativa ou mista. Quatro estudos focaram em estratégias antecedentes, cinco em estratégias reativas, cinco em ambas, e um não pôde ser classificado claramente.

Os resultados revelaram um padrão intrigante e clinicamente relevante. As estratégias reativas inadequadas — particularmente a supressão expressiva de emoções e a inibição da raiva — mostraram associações mais consistentes com piora da dor e das comorbidades psicológicas. Em um estudo, tanto a expressão descontrolada de raiva (como bater portas ou gritar) quanto sua inibição total (esconder a raiva, mantê-la para si) correlacionaram-se com maior intensidade da dor. Em outro, pacientes com dificuldades de controle emocional apresentaram mais interferência da dor nas atividades físicas, no humor, nos relacionamentos e no sono.

Já as estratégias antecedentes, como a reavaliação cognitiva — reaprender a interpretar uma situação de forma menos ameaçadora — não demonstraram associação direta com a intensidade da dor na maioria dos estudos. No entanto, essas estratégias pareciam atuar de forma indireta, protegendo contra a depressão e o humor negativo, que por sua vez são fatores de vulnerabilidade conhecidos para a cronicidade da dor.

A análise dos cinco estudos que examinaram ambos os tipos de regulação trouxe nuances importantes. Embora nem a reavaliação cognitiva nem a supressão expressiva mostrassem correlação direta com a dor, a supressão associava-se a mais sintomas de ansiedade e depressão, mais pensamentos catastróficos sobre a dor, e maior probabilidade de hospitalização por crises de dor em crianças com doença falciforme. Isso sugere que a supressão emocional, embora não aumente necessariamente a dor em si, envenena o ambiente psicológico em que a dor existe.

Do ponto de vista clínico, essas descobertas abrem uma janela terapêutica valiosa. Se a regulação emocional inadequada, especialmente a reativa, funciona como fator de risco secundário para a dor crônica, então seu treinamento pode se tornar um alvo legítimo de intervenção. Estudos preliminares já demonstraram resultados promissores: a extensão da terapia cognitivo-comportamental com treinamento específico de regulação emocional produziu efeitos superiores à terapia tradicional isolada em praticamente todos os objetivos de tratamento.

Contudo, a interpretação desses achados exige prudência. A revisão enfrentou limitações significativas: pequeno número de estudos disponíveis, grande variabilidade na forma como a regulação emocional foi definida e medida, predomínio de desenhos transversais que impedem conclusões sobre causalidade, e uma amostra com viés de gênero que limita a generalização. Além disso, a maioria dos instrumentos era de autorrelato, capturando apenas a dimensão consciente e cognitiva da regulação emocional, enquanto ignorava seus aspectos fisiológicos e comportamentais.

Para o paciente com dor crônica, a mensagem prática é de esperança moderada e autoconhecimento. A forma como lidamos com nossas emoções não é mero detalhe psicológico — ela pode estar ativamente moldando nossa experiência de dor. Aprender a identificar emoções cedo, antes que se intensifiquem; desenvolver flexibilidade para usar diferentes estratégias conforme a situação; e buscar ajuda profissional quando a supressão ou explosão emocional se tornam padrões rígidos — essas são ações concretas que se alinham com a evidência atual. A dor crônica é multidimensional, e o cuidado com a dimensão emocional pode ser tão fundamental quanto o manejo farmacológico ou fisioterápico.

O que fortalece a leitura

  • 1primeira revisão sistemática sobre o tema
  • 2análise de diferentes tipos de regulação emocional
  • 3incluiu diversas condições de dor crônica
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1pequeno número de estudos disponíveis
  • 2grande variabilidade nas definições de regulação emocional
  • 3maioria dos estudos transversais

Leitura clínica do estudo

MODERADA
65/ 100
Desenho
3/5
Amostra
4/5
Confirmação
2/5

🔬 Como o estudo foi organizado

2065pessoas avaliadas
divisão dos grupos

estratégias preventivas

4 pessoas

regulação antes da resposta emocional completa

estratégias reativas

5 pessoas

regulação após resposta emocional iniciada

estratégias mistas

5 pessoas

ambos os tipos de regulação emocional

⏱️ Tempo de acompanhamento: análise de estudos publicados até novembro de 2016

📊 Resultados em números

0%

estudos com estratégias reativas mostraram associação com dor

0%

estudos com estratégias preventivas sem associação direta

7 tipos

condições incluídas

3x

maior risco para ansiedade e depressão em pacientes com dor crônica

Destaques percentuais

67%
estudos com estratégias reativas mostraram associação com dor
75%
estudos com estratégias preventivas sem associação direta

📊 Comparação de Resultados

associação com dor

estratégias preventivas
1
estratégias reativas
4

📅 Linha do tempo da evidência

2004primeiros estudos sobre emoção e dor crônica
2010crescimento do interesse na regulação emocional
2015aumento significativo de pesquisas na área
2018primeira revisão sistemática sobre regulação emocional e dor crônica

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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