Estudo científico comentado

Aceitar ou enfrentar: qual a melhor estratégia para a dor crônica?

Referência acadêmica

Periódico

Pain

Ano

2003

Autores

McCracken & Eccleston

Desenho

estudo observacional

Este estudo descobriu que aceitar a dor crônica como parte da vida, ao invés de constantemente tentar controlá-la ou eliminá-la, está associado a melhor qualidade de vida. Pacientes que conseguem 'fazer as pazes' com sua dor tendem a ter menos depressão, ansiedade e incapacidade. O estudo sugere que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais útil do que usar estratégias para tentar controlar a dor diretamente.

Título original do estudo: Coping or acceptance: what to do about chronic pain?

📊estudo observacional👥n=230🎯impacto clínico moderado
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Aceitar a dor crônica — entendida como parar de lutar constantemente para controlá-la e voltar a focar nas atividades da vida — associou-se a menos depressão, ansiedade e incapacidade do que as tradicionais estratégias de enfrentamento, em um estudo com 230 pa

O que isso significa para você?

Este estudo descobriu que aceitar a dor crônica como parte da vida, ao invés de constantemente tentar controlá-la ou eliminá-la, está associado a melhor qualidade de vida. Pacientes que conseguem 'fazer as pazes' com sua dor tendem a ter menos depressão, ansiedade e incapacidade. O estudo sugere que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais útil do que usar estratégias para tentar controlar a dor diretamente.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Sua relação com a dor pode ser tão importante quanto a dor em si para sua qualidade de vida
  • 2Se anos de tentativas para controlar ou eliminar a dor não trouxeram alívio, reconsiderar essa abordagem pode ser válido
  • 3Aceitação significa investir energia no que você pode fazer, não no que não pode controlar
  • 4Tratamentos que ensinam aceitação e atenção plena existem e têm crescido em evidência
  • 5Converse com seu médico sobre como incluir essa perspectiva no seu plano de cuidado
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Como posso saber se estou lutando demais contra uma dor que não consigo controlar?
  • 2Existem programas de tratamento baseados em aceitação ou mindfulness disponíveis para mim?
  • 3Minha busca por alívio da dor está me ajudando a viver ou me impedindo de viver?
  • 4Como podemos ajustar meu plano de tratamento para focar mais em funcionamento e menos apenas em redução da dor?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Este estudo não testou nenhuma intervenção; os benefícios de programas de aceitação precisam ser confirmados em ensaios clínicos
  • 2Aceitação não significa abandonar a busca por diagnóstico correto ou tratamento médico adequado
  • 3Pessoas com depressão ou ansiedade significativas devem buscar avaliação específica, pois essas condições podem dificultar ou distorcer a experiência de aceitação
  • 4A interpretação de 'aceitação' varia entre pessoas; trabalhar com um profissional de saúde mental pode ajudar a desenvolvê-la de forma saudável

Leitura rápida para pacientes

Fazer as pazes com a dor pode ajudar mais que lutar contra ela

Este estudo com 230 pacientes sugere que aceitar a dor crônica — parar de batalhar para controlá-la — associou-se a menos depressão, ansiedade e incapacidade do que as estratégias

Ponto 1

Aceitação não é resignação: é escolher viver bem apesar da dor, não desistir do tratamento

Ponto 2

Estratégias como distração e rezar/esperar mostraram associações negativas, não positivas

Ponto 3

Focar em atividades que valoriza, mesmo com dor presente, pode ser mais útil que tentar eliminar a dor

O que este estudo acrescenta

NOVA PERSPECTIVA

Este foi um dos primeiros estudos a comparar diretamente o poder preditivo da aceitação versus estratégias tradicionais de enfrentamento, mostrando que aceitação captura algo distinto e mais relevante para o ajustamento

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A magnitude das correlações (r=0,47 em média) e a diferença no poder preditivo (24% vs. 4,6% de variância explicada) são clinicamente significativas, sugerindo que a aceitação captura algo importante que o enfrentamento

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este tipo de estudo observa associações em um momento único, mas não pode determinar se uma coisa causa a outra, sendo menos robusto que ensaios clínicos randomizados.

pacientes avaliados

230

amostra consecutiva de adultos em centro especializado

correlação média aceitação-funcionamento

r = 0,47

magnitude moderada a forte, significativa para todos os 7 desfechos

variância explicada pela aceitação

24%

quando entrada primeiro no modelo de regressão, vs. 4,6% para enfrentamento

correlações significativas enfrentamento

21 de 42

metade das associações não foi significativa, e muitas eram no sentido negativo

duração mediana da dor

32,5 meses

quase 3 anos de dor crônica na amostra

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor crônica em adultos

Tipo de estudo

Estudo observacional transversal

Participantes

230 adultos consecutivos, média 46 anos, 66,5% mulheres, buscando tratamento em

Duração

Avaliação única, sem acompanhamento longitudinal

Sessões

Nenhuma intervenção — apenas avaliação

Comparador

Comparação entre abordagens psicológicas medidas por questionários (aceitação vs. enfrentamento)

Grupos do estudo

Pacientes avaliados com questionários

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

0

Frequência02

Avaliação única

Duração da sessão03

Não aplicável — estudo observacional sem intervenção

Pontos / técnica04

Questionários padronizados: CPAQ (aceitação), CSQ (enfrentamento), BDI (depressão), SIP (incapacidade), PASS (ansiedade à dor), escala visual analógica de dor

Comparador05

Comparação estatística entre escores de aceitação e escores de estratégias de enfrentamento

Nota de protocolo06

Nenhum tratamento foi oferecido neste estudo; os pesquisadores apenas compararam o poder preditivo de duas abordagens psicológicas medidas por questionários

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com dor crônica buscando tratamento em centro universitário especializadoMédia de idade de 46 anos, predominantemente mulheres (66,5%)Dor lombar era a principal queixa (57,6%), com duração mediana de 32,5 mesesMaioria casada (56,1%) com educação superior ao ensino médio (90,9%)Predominantemente caucasianos (80,4%)Pacientes que ainda não haviam recebido intervenções comportamentais

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Crianças e adolescentes com dor crônicaPessoas com dor crônica que não buscam tratamento especializadoPacientes já em tratamento comportamental ou psicológico para dorPopulações não caucasianas, pouco representadas na amostraPessoas com dor aguda ou condições de dor primariamente oncológica

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

dor

reduziu

Menor intensidade de dor reportada em escala visual analógica entre pacientes com maior aceitação

🚶

incapacidade física

reduziu

Menor impacto da doença nas atividades diárias físicas, medido pelo SIP

🧠

incapacidade psicossocial

reduziu

Menor interferência nas interações sociais e atividades cognitivas

tempo de atividade

melhorou

Maior uptime diário — mais horas de atividade funcional

💼

situação de trabalho

melhorou

Maior probabilidade de estar trabalhando ou em atividade produtiva

😔

depressão

reduziu

Menores escores no inventário de depressão de Beck

O que não mudou

  • O estudo não avaliou mudanças ao longo do tempo, pois foi transversal
  • Não houve intervenção, portanto não se pode afirmar que qualquer abordagem 'funcionou' causalmente
  • A relação entre aceitação e catastrofização não foi diretamente testada, apenas discutida como hipótese futura

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Estudo puramente observacional com questionários — sem riscos de intervenção
  • A abordagem de aceitação não envolve exposição a procedimentos invasivos
Amarelo
  • O conceito de 'aceitação' pode ser mal interpretado como resignação ou desistida do tratamento médico
  • Resultados baseados em autorrelato, sujeitos a viés de memória e desejo social
  • Amostra de um único centro pode não refletir experiências de outros contextos
Vermelho
  • Não há dados de segurança de intervenção, pois nenhuma foi testada neste estudo
  • A extrapolação para tratamentos baseados em aceitação requer estudos adicionais com desenhos experimentais

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor crônica de longa duração que se sentem presos em ciclos de luta e frustração contra a dor
  • Pacientes que já tentaram múltiplas estratégias de controle da dor sem sucesso satisfatório
  • Pessoas cuja dor interfere significativamente no trabalho, relacionamentos e atividades diárias
  • Indivíduos abertos a reconsiderar sua relação com a dor, em vez de apenas buscar eliminá-la
  • Pacientes com componentes de ansiedade e depressão associados à experiência da dor

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com dor de causa tratável que ainda não receberam avaliação médica adequada
  • Pacientes que interpretariam 'aceitação' como desistir de buscar cuidado médico
  • Indivíduos com dor aguda ou condições que exigem intervenção imediata
  • Crianças e adolescentes, não estudados nesta pesquisa
  • Pessoas fora do perfil demográfico da amostra (idosos muito avançados, populações não ocidentais)

Expectativa realista

Mudar a relação com a dor, não necessariamente a dor em si

Este estudo sugere que aprender a viver com a dor sem lutar constantemente contra ela pode estar associado a melhor funcionamento e menos sofrimento emocional, mesmo sem redução da dor em si

Tempo provável

Não aplicável — estudo não testou intervenção ao longo do tempo

A associação não prova causalidade; pessoas que já estão melhor podem ser mais capazes de aceitar a dor, e não o contrário

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se já foi discutida a diferença entre aceitação e resignação no seu tratamento
  2. 2Inquirir sobre experiências prévias com terapias comportamentais ou de mindfulness para dor crônica
  3. 3Discutir se a busca constante por controle da dor está ajudando ou prejudicando sua qualidade de vida
  4. 4Verificar se há componentes de depressão ou ansiedade que merecem atenção específica
  5. 5Perguntar sobre o funcionamento em atividades diárias, trabalho e relacionamentos, não apenas intensidade da dor

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Aceitar a dor significa desistir do tratamento e resignar-se ao sofrimento

Achado

Aceitação, no contexto deste estudo, significa parar de lutar incessantemente para controlar a dor e voltar a engajar-se em atividades significativas da vida — é ativa, não passiva

Mito

Estratégias de enfrentamento como distração e pensamento positivo sempre ajudam

Achado

No estudo, distração e rezar/esperar associaram-se consistentemente a piores resultados; apenas afirmações de enfrentamento e ignorar a dor tiveram algumas associações positivas isoladas

Mito

Quanto mais esforço para controlar a dor, melhor o resultado

Achado

A análise de regressão mostrou que estratégias de enfrentamento explicaram apenas 4,6% da variância quando a aceitação já era considerada, sugerindo que o esforço de controle tem retornos limitados

Mito

A dor precisa diminuir para que a qualidade de vida melhore

Achado

Pacientes com maior aceitação reportaram menos depressão, ansiedade e incapacidade, sugerindo que é possível viver melhor mesmo sem eliminar a dor

Como isso pode funcionar

⚙️

PASSO 1: A luta pela dor

Tentativas repetidas e frustradas de controlar ou eliminar a dor geram desgaste emocional, frustração e evitação de atividades — mecanismo proposto pelos autores, não diretamente testado

🔄

PASSO 2: O ciclo de evitação

O fracasso no controle leva a menos engajamento na vida, mais foco na dor, e piora da depressão e ansiedade — modelo teórico baseado em literatura anterior

🌱

PASSO 3: A desistência da luta

Aceitação envolve desengajar da batalha pelo controle, o que pode liberar energia cognitiva e emocional para atividades valorizadas — hipótese dos autores

🎯

PASSO 4: Engajamento na vida

Com menos foco na dor e mais nas atividades significativas, naturalmente ocorrem melhoras em funcionamento, humor e redução do sofrimento — resultado observado, mas causalidade não estabelecida

O que ainda é incerto

  • ?A direção da causalidade é desconhecida: a aceitação leva a melhor ajustamento, ou pessoas bem ajustadas se tornam mais aceitantes?
  • ?Não se sabe se intervenções para promover aceitação produziriam os mesmos benefícios observados neste estudo correlacional
  • ?A relação entre aceitação e catastrofização — se são opostos, independentes ou se um leva ao outro — permanece não testada
  • ?A generalização para populações não ocidentais, não tratantes ou com tipos específicos de dor é incerta
🎯

O que o estudo quis responder

Comparou estratégias de 'enfrentamento' com 'aceitação' da dor crônica para ver qual abordagem melhor prediz adaptação

👥

QUEM PARTICIPOU

230 adultos com dor crônica buscando tratamento em centro especializado, média 46 anos

🧪

COMO FOI FEITO

Questionários padronizados avaliaram estratégias de enfrentamento e nível de aceitação da dor

📈

O QUE MUDOU

Maior aceitação da dor associou-se a menos incapacidade, depressão e ansiedade, e melhor funcionamento

🛟

SEGURANÇA

Estudo observacional sem intervenções - avaliou apenas questionários

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

O PARADOXO DO CONTROLE

O esforço constante para controlar a dor — o cerne das terapias de enfrentamento — pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento quando a dor é cronicamente incontrolável, segundo a interpretação dos autores

🧭

ACEITAÇÃO COMO CONSTRUTO INDEPENDENTE

A aceitação não é simplesmente 'enfrentamento positivo': não se correlacionou com distração, reinterpretação ou atividade, mostrando-se um construto psicológico distinto

📌

O CUSTO DA ESPERANÇA PASSIVA

Rezar e esperar que a dor melhore — uma das estratégias de enfrentamento mais comuns — foi consistentemente associada aos piores desfechos em todos os domínios medidos

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Aceitar ou enfrentar: qual a melhor estratégia para a dor crônica?

A dor crônica é uma das condições mais desafiadoras da medicina moderna. Diferente de uma dor aguda que sinaliza perigo e exige ação imediata, a dor crônica persiste por meses ou anos, muitas vezes sem causa aparente que possa ser eliminada. Durante décadas, a abordagem dominante para ajudar pacientes com dor crônica focou em ensinar estratégias de enfrentamento — técnicas como distrair a atenção da dor, reinterpretar as sensações de forma mais positiva, fazer afirmações motivacionais, ignorar a dor, rezar ou esperar que ela passe, e aumentar a atividade física. A ideia era clara: se não conseguimos eliminar a dor, pelo menos podemos ensinar as pessoas a lidarem melhor com ela.

No entanto, pesquisadores do Reino Unido começaram a notar problemas nessa abordagem. Primeiro, o conceito de enfrentamento era usado de forma confusa — às vezes significava qualquer comportamento diante da dor, outras vezes apenas comportamentos que de fato funcionavam. Segundo, apesar de 20 anos de pesquisa, não estava claro quais estratégias realmente ajudavam. Estudos frequentemente mostravam que comportamentos como repouso excessivo, passividade e catastrofização (pensar que a dor é terrível e incontrolável) estavam associados a piores resultados, não melhores.

Terceiro, os questionários de enfrentamento focavam demais em pensamentos e esforços internos, distanciando as pessoas das ações concretas do dia a dia.

Foi nesse contexto que Lance McCracken e Chris Eccleston, do centro de manejo da dor do Hospital Nacional de Doenças Reumáticas de Bath, decidiram comparar diretamente duas abordagens: o enfrentamento tradicional e algo chamado aceitação da dor crônica. A aceitação, nesse contexto, não significa resignação ou desistência. Significa viver com a dor sem reagir constantemente contra ela, sem aprovação ou tentativas repetidas de reduzi-la ou evitá-la. Envolve desistir da luta incessante pelo controle da dor e, em vez disso, engajar-se nas atividades da vida diária que realmente importam.

Para testar essas ideias, os pesquisadores avaliaram 230 adultos consecutivos que buscavam tratamento em seu centro especializado. A maioria era mulher (66,5%), com média de 46 anos, casada, com educação superior ao ensino médio. A dor lombar era a queixa mais comum (57,6%), com duração mediana de quase três anos. Todos completaram questionários padronizados sobre aceitação da dor, estratégias de enfrentamento, intensidade da dor, incapacidade física e psicossocial, tempo de atividade diária, status de trabalho, depressão e ansiedade relacionada à dor.

Os resultados foram claros. A aceitação da dor mostrou correlações significativas e favoráveis com todos os sete desfechos medidos: quanto maior a aceitação, menor a dor reportada, menor a incapacidade física e psicossocial, maior o tempo de atividade diária, melhor a situação de trabalho, e menores os níveis de depressão e ansiedade relacionada à dor. A correlação média foi de 0,47, considerada de magnitude moderada a forte em pesquisa psicológica.

Já as estratégias de enfrentamento apresentaram um quadro bem mais confuso. Das 42 correlações possíveis entre seis estratégias de enfrentamento e sete desfechos, apenas 21 atingiram significância estatística, e muitas delas eram no sentido oposto ao esperado. Rezar e esperar, por exemplo, associou-se consistentemente a mais dor, mais incapacidade, mais depressão e mais ansiedade. Distrair a atenção também mostrou associações predominantemente negativas.

Apenas afirmações de enfrentamento e ignorar a dor tiveram algumas associações positivas isoladas.

As análises de regressão — que permitem isolar o efeito de cada variável controlando as demais — foram ainda mais reveladoras. Quando as estratégias de enfrentamento entravam primeiro no modelo, elas explicavam em média 15% da variância nos desfechos. A aceitação, entrando depois, adicionava em média 13% extra. Mas quando a ordem era invertida, e a aceitação entrava primeiro, ela explicava sozinha 24% da variância em média.

As estratégias de enfrentamento, entrando depois de controlada a aceitação, adicionavam meros 4,6% em média. Em outras palavras: a aceitação absorvia praticamente todo o poder preditivo que as estratégias de enfrentamento pareciam ter.

É crucial entender o que esse estudo não demonstra. Por ser observacional e transversal — uma fotografia única no tempo —, ele não prova causalidade. Não podemos afirmar que aceitar a dor causa melhora; apenas que as duas coisas andam juntas. Pode ser que pessoas que já estão melhor se tornem mais aceitantes, ou que um terceiro fator explique ambos.

Além disso, todos os participantes buscavam ativamente tratamento em centro especializado, o que limita a generalização para pessoas que convivem com dor crônica sem procurar ajuda formal. Os dados vieram apenas de autorrelatos, sem observação direta de comportamentos, e de um único centro, o que pode refletir características locais específicas.

Ainda assim, as implicações práticas são importantes. O estudo sugere que a luta constante para controlar ou eliminar a dor — o coração do modelo de enfrentamento tradicional — pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento. Cada tentativa fracassada de controle pode trazer frustração, desânimo e oportunidades perdidas de viver bem. A aceitação, por outro lado, parece abrir espaço para que a pessoa se engaje em atividades significativas mesmo na presença da dor, o que naturalmente se associa a menos depressão, menos ansiedade e melhor funcionamento.

Para pacientes, a mensagem não é desistir do tratamento médico adequado, mas reconsiderar a relação com a dor. Em vez de perguntar constantemente "como faço para essa dor sumir? ", pode ser mais útil perguntar "como posso viver bem mesmo com essa dor presente? ".

Essa mudança de foco — da batalha contra a dor para a construção de uma vida significativa ao redor dela — é o núcleo do que a pesquisa chama de aceitação. Tratamentos baseados nesses princípios, derivados de terapias como a Terapia de Aceitação e Compromisso e programas de atenção plena (mindfulness), têm mostrado resultados promissores em diversas condições de saúde, e este estudo ajuda a fundamentar por que essa abordagem pode ser valiosa para a dor crônica.

O que fortalece a leitura

  • 1Amostra robusta de 230 pacientes
  • 2Comparação direta entre duas abordagens distintas
  • 3Uso de questionários validados
  • 4Análises estatísticas rigorosas com regressão
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Estudo transversal - não mostra causa e efeito
  • 2Apenas um centro de tratamento
  • 3Baseado somente em autorrelato
  • 4Não incluiu acompanhamento longitudinal

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
4/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

230pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Pacientes avaliados

230 pessoas

Questionários sobre enfrentamento e aceitação da dor

⏱️ Tempo de acompanhamento: avaliação única

📊 Resultados em números

r=0.47 média

Correlação aceitação-funcionamento

24% média

Variância explicada pela aceitação

4.6% média

Variância explicada por enfrentamento

21 de 42

Correlações significativas enfrentamento

Destaques percentuais

24% média
Variância explicada pela aceitação
4.6% média
Variância explicada por enfrentamento

📊 Comparação de Resultados

Poder preditivo médio

Aceitação da dor
24
Estratégias de enfrentamento
5

📅 Linha do tempo da evidência

1976Fordyce introduz conceito de 'comportamento de dor'
1983Desenvolvimento do questionário de estratégias de enfrentamento (CSQ)
1998McCracken publica primeiros estudos sobre aceitação da dor
2003Estudo atual comparando enfrentamento vs. aceitação

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

Conheça a equipe da clínica →

Continue lendo

Continue pesquisando

Outros estudos próximos para aprofundar a leitura.

Dor Crônica (Geral)Metodologia de Ensaios Clínicos
2004

Desenvolvendo um modelo de dor e qualidade de vida em adolescentes com dor crônica

O que este estudo responde

Um em cada quatro adolescentes tem dor crônica, e fatores psicológicos e sociais — como ansiedade, estratégias de enfrentamento e reações da família —…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como adolescentes com dor crônica da população geral foi comparado a grupo controle sem intervenção ou lista de espera em dor crônica em…

Comparador

grupo controle sem intervenção ou lista de espera

📖 tese de doutorado👥 múltiplos estudos⚖️ médio impacto clínico

Força da evidência

75%

Merlijn

Erasmus University Rotterdam

Ver resumo
Dor Crônica (Geral)Metodologia de Ensaios Clínicos
2001

Comparação entre duas escalas de enfrentamento da dor crônica

O que este estudo responde

Catastrofização prediz depressão em dor crônica; comportamentos de proteção excessiva do corpo predizem incapacidade física — duas escalas de coping…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como veteranos com dor crônica em programa de manejo da dor foi comparado a não aplicável (estudo observacional sem intervenção) em dor crônica em…

Comparador

não aplicável (estudo observacional sem intervenção)

📊 estudo transversal👥 564 participantes🔍 validação de instrumentos

Força da evidência

72%

Tan et al.

Pain

Ver resumo
Dor Crônica (Geral)Saúde Mental & Psiquiatria
2012

A relação entre dor crônica e obesidade: como a experiência dos pacientes pode orientar tratamentos mais eficazes

O que este estudo responde

Pessoas com dor crônica e obesidade frequentemente desenvolvem padrões de alimentação emocional, sedentarismo e baixo humor que se reforçam mutuamente,…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como participantes com dor crônica e obesidade (entrevistas individuais ou em pequenos grupos) foi comparado a não aplicável — estudo qualitativo…

Comparador

não aplicável — estudo qualitativo exploratório sem grupo controle

🎤 estudo qualitativo👥 30 participantes🔍 exploratório

Força da evidência

65%

Janke et al.

Obesity

Ver resumo
Dor Crônica (Geral)Revisões Sistemáticas & Meta-Análises
2013

Grande análise revela que diferentes técnicas de acupuntura têm eficácia similar para dor crônica

O que este estudo responde

Diferentes estilos e técnicas de acupuntura têm eficácia similar para dor crônica; o número de sessões e de agulhas pode influenciar levemente os…

Vale abrir se...

Útil se você quer entender como acupuntura verdadeira foi comparado a sham acupuncture e controles não-acupuntura (lista de espera, cuidados usuais) em dor crônica…

Comparador

Sham acupuncture e controles não-acupuntura (lista de espera, cuidados usuais)

📊 meta-análise de dados individuais👥 n=17.922 participantes evidência robusta

Força da evidência

95%

MacPherson et al.

PLoS ONE

Ver resumo