pacientes avaliados
230
amostra consecutiva de adultos em centro especializado
Estudo científico comentado
Referência acadêmica
Periódico
Pain
Ano
2003
Autores
McCracken & Eccleston
Desenho
estudo observacional
Este estudo descobriu que aceitar a dor crônica como parte da vida, ao invés de constantemente tentar controlá-la ou eliminá-la, está associado a melhor qualidade de vida. Pacientes que conseguem 'fazer as pazes' com sua dor tendem a ter menos depressão, ansiedade e incapacidade. O estudo sugere que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais útil do que usar estratégias para tentar controlar a dor diretamente.
Título original do estudo: Coping or acceptance: what to do about chronic pain?
Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.
Mensagem principal
Aceitar a dor crônica — entendida como parar de lutar constantemente para controlá-la e voltar a focar nas atividades da vida — associou-se a menos depressão, ansiedade e incapacidade do que as tradicionais estratégias de enfrentamento, em um estudo com 230 pa
Este estudo descobriu que aceitar a dor crônica como parte da vida, ao invés de constantemente tentar controlá-la ou eliminá-la, está associado a melhor qualidade de vida. Pacientes que conseguem 'fazer as pazes' com sua dor tendem a ter menos depressão, ansiedade e incapacidade. O estudo sugere que focar em viver bem apesar da dor pode ser mais útil do que usar estratégias para tentar controlar a dor diretamente.
Pontos Principais
Conversa Prática
Leitura Consciente
Leitura rápida para pacientes
Este estudo com 230 pacientes sugere que aceitar a dor crônica — parar de batalhar para controlá-la — associou-se a menos depressão, ansiedade e incapacidade do que as estratégias
Ponto 1
Aceitação não é resignação: é escolher viver bem apesar da dor, não desistir do tratamento
Ponto 2
Estratégias como distração e rezar/esperar mostraram associações negativas, não positivas
Ponto 3
Focar em atividades que valoriza, mesmo com dor presente, pode ser mais útil que tentar eliminar a dor
O que este estudo acrescenta
Este foi um dos primeiros estudos a comparar diretamente o poder preditivo da aceitação versus estratégias tradicionais de enfrentamento, mostrando que aceitação captura algo distinto e mais relevante para o ajustamento
Aplicabilidade clínica
A magnitude das correlações (r=0,47 em média) e a diferença no poder preditivo (24% vs. 4,6% de variância explicada) são clinicamente significativas, sugerindo que a aceitação captura algo importante que o enfrentamento
Força do desenho do estudo
Este tipo de estudo observa associações em um momento único, mas não pode determinar se uma coisa causa a outra, sendo menos robusto que ensaios clínicos randomizados.
pacientes avaliados
230
amostra consecutiva de adultos em centro especializado
correlação média aceitação-funcionamento
r = 0,47
magnitude moderada a forte, significativa para todos os 7 desfechos
variância explicada pela aceitação
24%
quando entrada primeiro no modelo de regressão, vs. 4,6% para enfrentamento
correlações significativas enfrentamento
21 de 42
metade das associações não foi significativa, e muitas eram no sentido negativo
duração mediana da dor
32,5 meses
quase 3 anos de dor crônica na amostra
Ficha rápida do estudo
Condição
Dor crônica em adultos
Tipo de estudo
Estudo observacional transversal
Participantes
230 adultos consecutivos, média 46 anos, 66,5% mulheres, buscando tratamento em
Duração
Avaliação única, sem acompanhamento longitudinal
Sessões
Nenhuma intervenção — apenas avaliação
Comparador
Comparação entre abordagens psicológicas medidas por questionários (aceitação vs. enfrentamento)
Grupos do estudo
Protocolo de tratamento
0
Avaliação única
Não aplicável — estudo observacional sem intervenção
Questionários padronizados: CPAQ (aceitação), CSQ (enfrentamento), BDI (depressão), SIP (incapacidade), PASS (ansiedade à dor), escala visual analógica de dor
Comparação estatística entre escores de aceitação e escores de estratégias de enfrentamento
Nenhum tratamento foi oferecido neste estudo; os pesquisadores apenas compararam o poder preditivo de duas abordagens psicológicas medidas por questionários
Quem entrou no estudo
Quem ficou de fora
Mapa de resultados
dor
reduziu
Menor intensidade de dor reportada em escala visual analógica entre pacientes com maior aceitação
incapacidade física
reduziu
Menor impacto da doença nas atividades diárias físicas, medido pelo SIP
incapacidade psicossocial
reduziu
Menor interferência nas interações sociais e atividades cognitivas
tempo de atividade
melhorou
Maior uptime diário — mais horas de atividade funcional
situação de trabalho
melhorou
Maior probabilidade de estar trabalhando ou em atividade produtiva
depressão
reduziu
Menores escores no inventário de depressão de Beck
O que não mudou
Segurança e perfil
Sinal de segurança
Perfil de paciente
Mais parecido com a amostra
Mais cautela para extrapolar
Expectativa realista
Este estudo sugere que aprender a viver com a dor sem lutar constantemente contra ela pode estar associado a melhor funcionamento e menos sofrimento emocional, mesmo sem redução da dor em si
Tempo provável
Não aplicável — estudo não testou intervenção ao longo do tempo
A associação não prova causalidade; pessoas que já estão melhor podem ser mais capazes de aceitar a dor, e não o contrário
Checklist para consulta
Como ler este estudo
Mito e achado
Mito
Aceitar a dor significa desistir do tratamento e resignar-se ao sofrimento
Achado
Aceitação, no contexto deste estudo, significa parar de lutar incessantemente para controlar a dor e voltar a engajar-se em atividades significativas da vida — é ativa, não passiva
Mito
Estratégias de enfrentamento como distração e pensamento positivo sempre ajudam
Achado
No estudo, distração e rezar/esperar associaram-se consistentemente a piores resultados; apenas afirmações de enfrentamento e ignorar a dor tiveram algumas associações positivas isoladas
Mito
Quanto mais esforço para controlar a dor, melhor o resultado
Achado
A análise de regressão mostrou que estratégias de enfrentamento explicaram apenas 4,6% da variância quando a aceitação já era considerada, sugerindo que o esforço de controle tem retornos limitados
Mito
A dor precisa diminuir para que a qualidade de vida melhore
Achado
Pacientes com maior aceitação reportaram menos depressão, ansiedade e incapacidade, sugerindo que é possível viver melhor mesmo sem eliminar a dor
Como isso pode funcionar
PASSO 1: A luta pela dor
Tentativas repetidas e frustradas de controlar ou eliminar a dor geram desgaste emocional, frustração e evitação de atividades — mecanismo proposto pelos autores, não diretamente testado
PASSO 2: O ciclo de evitação
O fracasso no controle leva a menos engajamento na vida, mais foco na dor, e piora da depressão e ansiedade — modelo teórico baseado em literatura anterior
PASSO 3: A desistência da luta
Aceitação envolve desengajar da batalha pelo controle, o que pode liberar energia cognitiva e emocional para atividades valorizadas — hipótese dos autores
PASSO 4: Engajamento na vida
Com menos foco na dor e mais nas atividades significativas, naturalmente ocorrem melhoras em funcionamento, humor e redução do sofrimento — resultado observado, mas causalidade não estabelecida
O que ainda é incerto
Comparou estratégias de 'enfrentamento' com 'aceitação' da dor crônica para ver qual abordagem melhor prediz adaptação
230 adultos com dor crônica buscando tratamento em centro especializado, média 46 anos
Questionários padronizados avaliaram estratégias de enfrentamento e nível de aceitação da dor
Maior aceitação da dor associou-se a menos incapacidade, depressão e ansiedade, e melhor funcionamento
Estudo observacional sem intervenções - avaliou apenas questionários
Achados Interessantes
O PARADOXO DO CONTROLE
O esforço constante para controlar a dor — o cerne das terapias de enfrentamento — pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento quando a dor é cronicamente incontrolável, segundo a interpretação dos autores
ACEITAÇÃO COMO CONSTRUTO INDEPENDENTE
A aceitação não é simplesmente 'enfrentamento positivo': não se correlacionou com distração, reinterpretação ou atividade, mostrando-se um construto psicológico distinto
O CUSTO DA ESPERANÇA PASSIVA
Rezar e esperar que a dor melhore — uma das estratégias de enfrentamento mais comuns — foi consistentemente associada aos piores desfechos em todos os domínios medidos
Resumo detalhado em linguagem acessível
A dor crônica é uma das condições mais desafiadoras da medicina moderna. Diferente de uma dor aguda que sinaliza perigo e exige ação imediata, a dor crônica persiste por meses ou anos, muitas vezes sem causa aparente que possa ser eliminada. Durante décadas, a abordagem dominante para ajudar pacientes com dor crônica focou em ensinar estratégias de enfrentamento — técnicas como distrair a atenção da dor, reinterpretar as sensações de forma mais positiva, fazer afirmações motivacionais, ignorar a dor, rezar ou esperar que ela passe, e aumentar a atividade física. A ideia era clara: se não conseguimos eliminar a dor, pelo menos podemos ensinar as pessoas a lidarem melhor com ela.
No entanto, pesquisadores do Reino Unido começaram a notar problemas nessa abordagem. Primeiro, o conceito de enfrentamento era usado de forma confusa — às vezes significava qualquer comportamento diante da dor, outras vezes apenas comportamentos que de fato funcionavam. Segundo, apesar de 20 anos de pesquisa, não estava claro quais estratégias realmente ajudavam. Estudos frequentemente mostravam que comportamentos como repouso excessivo, passividade e catastrofização (pensar que a dor é terrível e incontrolável) estavam associados a piores resultados, não melhores.
Terceiro, os questionários de enfrentamento focavam demais em pensamentos e esforços internos, distanciando as pessoas das ações concretas do dia a dia.
Foi nesse contexto que Lance McCracken e Chris Eccleston, do centro de manejo da dor do Hospital Nacional de Doenças Reumáticas de Bath, decidiram comparar diretamente duas abordagens: o enfrentamento tradicional e algo chamado aceitação da dor crônica. A aceitação, nesse contexto, não significa resignação ou desistência. Significa viver com a dor sem reagir constantemente contra ela, sem aprovação ou tentativas repetidas de reduzi-la ou evitá-la. Envolve desistir da luta incessante pelo controle da dor e, em vez disso, engajar-se nas atividades da vida diária que realmente importam.
Para testar essas ideias, os pesquisadores avaliaram 230 adultos consecutivos que buscavam tratamento em seu centro especializado. A maioria era mulher (66,5%), com média de 46 anos, casada, com educação superior ao ensino médio. A dor lombar era a queixa mais comum (57,6%), com duração mediana de quase três anos. Todos completaram questionários padronizados sobre aceitação da dor, estratégias de enfrentamento, intensidade da dor, incapacidade física e psicossocial, tempo de atividade diária, status de trabalho, depressão e ansiedade relacionada à dor.
Os resultados foram claros. A aceitação da dor mostrou correlações significativas e favoráveis com todos os sete desfechos medidos: quanto maior a aceitação, menor a dor reportada, menor a incapacidade física e psicossocial, maior o tempo de atividade diária, melhor a situação de trabalho, e menores os níveis de depressão e ansiedade relacionada à dor. A correlação média foi de 0,47, considerada de magnitude moderada a forte em pesquisa psicológica.
Já as estratégias de enfrentamento apresentaram um quadro bem mais confuso. Das 42 correlações possíveis entre seis estratégias de enfrentamento e sete desfechos, apenas 21 atingiram significância estatística, e muitas delas eram no sentido oposto ao esperado. Rezar e esperar, por exemplo, associou-se consistentemente a mais dor, mais incapacidade, mais depressão e mais ansiedade. Distrair a atenção também mostrou associações predominantemente negativas.
Apenas afirmações de enfrentamento e ignorar a dor tiveram algumas associações positivas isoladas.
As análises de regressão — que permitem isolar o efeito de cada variável controlando as demais — foram ainda mais reveladoras. Quando as estratégias de enfrentamento entravam primeiro no modelo, elas explicavam em média 15% da variância nos desfechos. A aceitação, entrando depois, adicionava em média 13% extra. Mas quando a ordem era invertida, e a aceitação entrava primeiro, ela explicava sozinha 24% da variância em média.
As estratégias de enfrentamento, entrando depois de controlada a aceitação, adicionavam meros 4,6% em média. Em outras palavras: a aceitação absorvia praticamente todo o poder preditivo que as estratégias de enfrentamento pareciam ter.
É crucial entender o que esse estudo não demonstra. Por ser observacional e transversal — uma fotografia única no tempo —, ele não prova causalidade. Não podemos afirmar que aceitar a dor causa melhora; apenas que as duas coisas andam juntas. Pode ser que pessoas que já estão melhor se tornem mais aceitantes, ou que um terceiro fator explique ambos.
Além disso, todos os participantes buscavam ativamente tratamento em centro especializado, o que limita a generalização para pessoas que convivem com dor crônica sem procurar ajuda formal. Os dados vieram apenas de autorrelatos, sem observação direta de comportamentos, e de um único centro, o que pode refletir características locais específicas.
Ainda assim, as implicações práticas são importantes. O estudo sugere que a luta constante para controlar ou eliminar a dor — o coração do modelo de enfrentamento tradicional — pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento. Cada tentativa fracassada de controle pode trazer frustração, desânimo e oportunidades perdidas de viver bem. A aceitação, por outro lado, parece abrir espaço para que a pessoa se engaje em atividades significativas mesmo na presença da dor, o que naturalmente se associa a menos depressão, menos ansiedade e melhor funcionamento.
Para pacientes, a mensagem não é desistir do tratamento médico adequado, mas reconsiderar a relação com a dor. Em vez de perguntar constantemente "como faço para essa dor sumir? ", pode ser mais útil perguntar "como posso viver bem mesmo com essa dor presente? ".
Essa mudança de foco — da batalha contra a dor para a construção de uma vida significativa ao redor dela — é o núcleo do que a pesquisa chama de aceitação. Tratamentos baseados nesses princípios, derivados de terapias como a Terapia de Aceitação e Compromisso e programas de atenção plena (mindfulness), têm mostrado resultados promissores em diversas condições de saúde, e este estudo ajuda a fundamentar por que essa abordagem pode ser valiosa para a dor crônica.
Pacientes avaliados
230 pessoas
Questionários sobre enfrentamento e aceitação da dor
Correlação aceitação-funcionamento
Variância explicada pela aceitação
Variância explicada por enfrentamento
Correlações significativas enfrentamento
Curadoria Médica

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523
Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
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