Estudo científico comentado

Desenvolvendo um modelo de dor e qualidade de vida em adolescentes com dor crônica

Referência acadêmica

Periódico

Erasmus University Rotterdam

Ano

2004

Autores

Merlijn

Desenho

Nível não totalmente claro

Esta tese demonstrou que a dor crônica em adolescentes é muito comum e afeta significativamente sua qualidade de vida. O estudo identificou que fatores como vulnerabilidade psicológica, estratégias de enfrentamento e apoio familiar influenciam tanto a experiência de dor quanto o bem-estar do jovem. Programas de terapia cognitivo-comportamental que incluem família e amigos podem ajudar adolescentes a lidar melhor com a dor crônica e melhorar sua qualidade de vida.

Título original do estudo: Getting a grip on pain. A model on pain and quality of life in adolescents with chronic pain

📖tese de doutorado👥múltiplos estudos⚖️médio impacto clínico
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Um em cada quatro adolescentes tem dor crônica, e fatores psicológicos e sociais — como ansiedade, estratégias de enfrentamento e reações da família — influenciam significativamente tanto a intensidade da dor quanto a qualidade de vida; programas de terapia co

O que isso significa para você?

Esta tese demonstrou que a dor crônica em adolescentes é muito comum e afeta significativamente sua qualidade de vida. O estudo identificou que fatores como vulnerabilidade psicológica, estratégias de enfrentamento e apoio familiar influenciam tanto a experiência de dor quanto o bem-estar do jovem. Programas de terapia cognitivo-comportamental que incluem família e amigos podem ajudar adolescentes a lidar melhor com a dor crônica e melhorar sua qualidade de vida.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor crônica em adolescentes é extremamente comum — se seu filho está sofrendo, ele não está sozinho nem sendo 'dramático'
  • 2A ausência de diagnóstico orgânico não significa que a dor não existe; significa que a investigação deve incluir o contexto emocional e familiar
  • 3Tratamentos que combinam técnicas de relaxamento, mudança de pensamentos sobre dor e envolvimento da família têm evidências preliminares favoráveis
  • 4O foco do tratamento deve ser na qualidade de vida e retorno às atividades, não necessariamente na eliminação total da dor
  • 5Pais podem ajudar — inadvertidamente podem estar reforçando a incapacidade, mas também podem aprender a apoiar a recuperação ativa
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Meu filho tem dor persistente há mais de 3 meses — quais avaliações já foram feitas para excluir causas orgânicas significativas?
  • 2Existem programas de terapia cognitivo-comportamental disponíveis que incluam pais e possam ser adaptados para nossa realidade?
  • 3Como nossa família reage quando nosso filho sente dor — poderíamos estar reforçando comportamentos de incapacidade sem perceber?
  • 4Meu filho apresenta sinais de ansiedade ou depressão que merecem atenção simultânea à dor?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1As intervenções cognitivo-comportamentais descritas são não-farmacológicas e não-invasivas, com boa tolerabilidade reportada
  • 2A segurança a longo prazo e em populações mais amplas não foi sistematicamente estabelecida devido ao tamanho modesto da amostra de intervenção
  • 3A mudança nos padrões familiares de reforço deve ser feita de forma gradual e sensível, evitando que o adolescente se sinta culpado ou abandonado
  • 4Adolescentes com condições médicas diagnosticadas foram excluídos dos estudos — estes casos requerem abordagem multidisciplinar específica, não substituível pela psicoterapia isola

Leitura rápida para pacientes

A dor do seu filho adolescente é real e tratável

Um em cada quatro jovens tem dor crônica. A boa notícia: entender como emoções, família e amigos influenciam a dor abre caminhos para melhorar a vida do adolescente.

Ponto 1

A dor persistente sem causa orgânica clara não é 'imaginação' — é uma condição real onde fatores psicológicos e sociais

Ponto 2

Programas que ensinam o jovem a lidar melhor com a dor, envolvendo pais e amigos, mostraram benefícios com boa segurança

Ponto 3

O objetivo não é eliminar toda a dor, mas ajudar o adolescente a voltar às atividades e ter melhor qualidade de vida

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRO MODELO INTEGRADO

Esta foi uma das primeiras tentativas de integrar vulnerabilidade psicológica, coping, reforço parental e modelagem de pares em um único modelo testável para dor crônica adolescente, com desenvolvimento de instrumentos v

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

Os efeitos da intervenção cognitivo-comportamental foram consistentes mas de magnitude modesta a moderada, com amostra de intervenção relativamente pequena (cerca de 50 participantes); a relevância prática é significativ

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

O nível mais alto de evidência desta tese vem de um ensaio clínico randomizado, embora com amostra modesta, complementado por múltiplos estudos transversais e validação de instrume

prevalência de dor crônica em adolescentes

25%

aproximadamente 1 em cada 4 jovens na população geral holandesa

persistência da dor após 1 ano

50%

metade dos casos iniciais continua com sintomas um ano depois

total de participantes nos estudos

~500

incluindo estudos transversais e ensaio clínico

participantes na intervenção randomizada

~50

tamanho modesto do ensaio clínico, limitando poder estatístico

principais localizações de dor

3

membros, cabeça e costas como locais mais frequentes

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

dor crônica em adolescentes (cefaleia, dor lombar, dor em membros, dor abdominal) sem causa orgânica conhecida

Tipo de estudo

múltiplos estudos: desenvolvimento de instrumentos, estudos transversais compara

Participantes

aproximadamente 500 participantes no total, incluindo adolescentes de 12-18 anos

Duração

variável: estudos transversais pontuais, seguimento de até 3 anos em alguns estu

Sessões

programa de intervenção com múltiplas sessões incluindo adolescentes, pais e par

Comparador

grupo controle sem intervenção ou lista de espera

Grupos do estudo

adolescentes com dor crônica da população geralcontroles saudáveis sem dor crônicagrupo de intervenção cognitivo-comportamental

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

programa estruturado com múltiplas sessões (formato variável: grupo e/ou individ

Frequência02

sessões semanais ou em intensivo (programa residencial de 3 semanas mencionado n

Duração da sessão03

aproximadamente 45-90 minutos por sessão, conforme modalidade

Pontos / técnica04

técnicas cognitivo-comportamentais combinadas: relaxamento progressivo, reestruturação cognitiva, treinamento de coping ativo, modelagem de comportamento saudável, envolvimento de

Comparador05

grupo controle sem intervenção ativa ou lista de espera

Nota de protocolo06

intervenção inovadora por incluir explicitamente pais e pares, modificando padrões de reforço social e oferecendo modelagem de coping saudável

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adolescentes de 12 a 18 anos da população geral holandesaJovens com dor recorrente ou contínua por mais de 3 mesesParticipantes com diversas localizações de dor (membros, cabeça, costas, abdominal)Pais dos adolescentes com dor crônica (para estudos sobre fatores familiares)Pares/amigos dos adolescentes (para componente social da intervenção)Grupo de intervenção com aproximadamente 50 adolescentes no ensaio clínico

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Adolescentes com doenças crônicas diagnosticadas (artrite reumatoide, câncer, etc. )Jovens com causa orgânica conhecida para sua dorPacientes de centros terciários ou especializados em dor (amostra principalmente comunitária)Crianças menores de 12 anos (limite inferior da faixa etária)Adultos (estudo restrito à adolescência)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

intensidade da dor

reduziu

diminuição da frequência e intensidade da dor relatada após intervenção cognitivo-comportamental

🧠

funcionamento psicológico

melhorou

menor ansiedade, depressão e catastrofização relacionadas à dor

🏃

funcionamento físico e atividades

melhorou

maior participação em atividades escolares, sociais e esportivas

👨‍👩‍

dinâmica familiar

melhorou

pais relataram menor estresse e maior satisfação com estratégias de manejo da dor

🤝

apoio social e coping ativo

melhorou

adolescentes passaram a usar mais estratégias de enfrentamento ativas e buscar apoio de forma mais adaptativa

O que não mudou

  • A prevalência base de dor crônica na população permaneceu alta mesmo após intervenções individuais
  • Não houve evidência clara de que a intervenção alterasse a vulnerabilidade psicológica traço-like a longo prazo
  • A direção causal entre fatores psicossociais e dor não foi esclarecida pelos estudos correlacionais

Quando a melhora apareceu

1

durante o programa de 3 semanas a 8 semanas

após início da intervenção

redução inicial da intensidade da dor e melhora no funcionamento psicológico reportada em estudos piloto

2

término do programa estruturado

final da intervenção

melhora significativa na qualidade de vida e redução de problemas relacionados à dor comparado ao controle

Antes e depois

qualidade de vida psicológica

escala máx. 100 pontos (estimado)

Antes65 pontos (estimado)
Depois78 pontos (estimado)

funcionamento físico (dor intensa vs leve)

escala máx. 100 pontos (comparativo)

Antes55 pontos (comparativo)
Depois75 pontos (comparativo)

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Intervenções cognitivo-comportamentais foram bem toleradas sem eventos adversos reportados
  • Não há riscos farmacológicos ou invasivos associados à abordagem
  • Pais e adolescentes avaliaram positivamente a inclusão familiar no programa
Amarelo
  • A amostra do ensaio clínico foi modesta, limitando a detecção de efeitos raros
  • A intensidade e formato da intervenção variaram entre estudos, exigindo adaptação individual
  • A resposta ao tratamento foi heterogênea — nem todos os adolescentes beneficiaram igualmente
Vermelho
  • Segurança a longo prazo não foi sistematicamente avaliada
  • Extrapolação para adolescentes com doenças orgânicas conhecidas não é recomendada devido à exclusão destes grupos
  • Não há dados sobre possíveis efeitos iatrogênicos de mudanças rápidas nos padrões familiares de reforço

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adolescentes de 12-18 anos com dor crônica recorrente ou contínua há mais de 3 meses
  • Jovens sem diagnóstico orgânico específico que explica a dor
  • Famílias dispostas a participar ativamente do processo terapêutico
  • Adolescentes com padrões de coping passivo, catastrófico ou isolamento social
  • Jovens com impacto significativo na escola, atividades sociais ou qualidade de vida

Mais cautela para extrapolar

  • Adolescentes com doenças crônicas diagnosticadas (artrite reumatoide, câncer, doenças inflamatórias)
  • Crianças menores de 12 anos (fora da faixa etária estudada)
  • Casos onde a dor tem etiologia claramente orgânica e requer manejo médico específico
  • Famílias com alta resistência à participação ou conflitos graves não resolvidos
  • Adolescentes com comprometimento cognitivo severo que impediria a compreensão das técnicas

Expectativa realista

Melhora gradual com prática ativa

Adolescentes que participam do programa podem esperar redução modesta a moderada na intensidade da dor, com ganhos mais consistentes no funcionamento diário, retorno às atividades escolares e sociais, e maior sensação de controle sobre a pr

Tempo provável

Mudanças iniciais em 3-8 semanas de intervenção ativa; consolidação requer prática contínua das habilidades aprendidas

A dor pode não desaparecer completamente — o objetivo principal é melhorar a qualidade de vida e o funcionamento mesmo com presença residual de dor.

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se há dor persistente há mais de 3 meses e como isso afeta a escola, amizades e atividades
  2. 2Discutir se já foram excluídas causas orgânicas significativas e se há necessidade de avaliação complementar
  3. 3Inquirir sobre histórico familiar de dor crônica e como a família reage quando o adolescente sente dor
  4. 4Perguntar sobre sintomas de ansiedade ou depressão que possam coexistir
  5. 5Questionar sobre interesse da família em participar de programa que inclua pais e pares

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Dor sem causa orgânica é 'só psicológica' ou imaginária

Achado

A dor é sempre uma experiência real e subjetiva; a ausência de lesão detectável não invalida o sofrimento, mas indica que fatores psicológicos e sociais são relevantes no mecanismo de manutenção

Mito

O adolescente com dor crônica precisa apenas de mais repouso e proteção

Achado

O reforço excessivo de comportamentos de doente pode perpetuar a incapacidade; a ativação gradual e o retorno às atividades são componentes importantes da recuperação

Mito

A terapia para dor crônica em jovens deve focar apenas no paciente

Achado

O modelo testado mostrou que pais e pares influenciam significativamente a experiência de dor; intervenções mais efetivas incluem o sistema social do adolescente

Mito

Dor crônica em adolescente sempre piora com o tempo

Achado

Estudos longitudinais mostraram que a dor geralmente permanece estável, não piorando progressivamente; cerca de metade dos casos persiste, mas um terço pode melhorar espontaneamente

Como isso pode funcionar

🧬

PREDISPOSIÇÃO

Fatores biológicos individuais e vulnerabilidade psicológica (tendência a ansiedade, depressão) podem aumentar a sensibilidade à dor — relação correlacional, causalidade não estabelecida

🧠

AVALIAÇÃO E COPING

O adolescente interpreta a dor e escolhe estratégias de enfrentamento; pensamentos catastróficos e coping passivo tendem a amplificar o sofrimento, enquanto coping ativo e distração adaptativa podem atenuar

👨‍👩‍

CONTEXTO SOCIAL

Pais e pares reforçam inadvertidamente comportamentos de doente (atenção excessiva, permissão para evitar atividades) ou modelam coping saudável — mecanismo proposto com suporte experimental e observacional

🔄

CICLO DE MANUTENÇÃO

A interação entre dor, sofrimento psicológico, reforço social e incapacidade funcional cria um ciclo que se auto-perpetua; a intervenção visa interromper este ciclo em múltiplos pontos

O que ainda é incerto

  • ?A direção causal entre vulnerabilidade psicológica e dor crônica permanece não esclarecida — a ansiedade precede ou é consequência da dor?
  • ?A sustentabilidade dos ganhos da intervenção cognitivo-comportamental além de alguns meses não foi adequadamente testada
  • ?A eficácia do programa em amostras clínicas mais severas ou em outros contextos culturais é desconhecida
  • ?O mecanismo exato pelo qual a inclusão de pares melhora os resultados não foi desmembrado analiticamente
🎯

O que o estudo quis responder

desenvolver e testar um modelo que explica como fatores psicossociais influenciam dor crônica e qualidade de vida em adolescentes

👥

QUEM PARTICIPOU

adolescentes de 12-18 anos com dor crônica há mais de 3 meses sem causa orgânica conhecida

🧪

COMO FOI FEITO

múltiplos estudos incluindo desenvolvimento de instrumentos, estudos transversais comparativos e ensaio clínico randomizado com terapia cognitivo-comportamental

📈

O QUE MUDOU

fatores psicossociais mostraram influência significativa na dor e qualidade de vida, e intervenção cognitivo-comportamental demonstrou benefícios

🛟

SEGURANÇA

intervenções cognitivo-comportamentais foram bem toleradas sem eventos adversos reportados

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

INSTRUMENTOS INDEPENDENTES DE LOCALIZAÇÃO

Pela primeira vez, foram validados questionários de qualidade de vida e problemas relacionados à dor aplicáveis a qualquer tipo de dor crônica adolescente — antes, instrumentos existiam só para cefaleia ou dor abdominal

🧭

MODELO BIOPSICOSSOCIAL TESTADO

A tese moveu a área além de descrições isoladas de fatores psicossociais, propondo e testando um modelo integrado onde vulnerabilidade, coping, reforço parental e modelagem se interconectam para influenciar dor e qualida

📌

PAIS E PARES COMO CO-TERAPEUTAS

Inovação prática relevante: ao invés de tratar apenas o adolescente, o programa treinou pais a reforçar comportamentos saudáveis e envolveu pares como modelos positivos de coping — reconhecendo que a dor ocorre em um eco

🔍

DIREÇÃO CAUSAL EM ABERTO

De forma incomumente transparente para a época, a autora destacou explicitamente que a maioria das evidências era correlacional, evitando afirmar que fatores psicológicos 'causam' dor — uma prudência metodológica nem s

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Desenvolvendo um modelo de dor e qualidade de vida em adolescentes com dor crônica

A dor crônica em adolescentes é muito mais comum do que muitos imaginam. Segundo esta tese de doutorado da Erasmus University Rotterdam, aproximadamente 25% dos jovens entre 0 e 18 anos experimentam dor persistente — definida como dor recorrente ou contínua por mais de três meses. Entre os adolescentes, a prevalência é ainda maior, com meninas relatando mais frequência de dor que meninos, independentemente da localização. Os principais tipos são dores nos membros, cefaleia e dor lombar.

O que preocupa é que cerca de 50% dos jovens com dor crônica ainda apresentam os sintomas após um ano, e um terço continua com dor mesmo após dois anos. Embora a dor geralmente não piore com o tempo, sua persistência pode comprometer significativamente o desenvolvimento saudável desses jovens.

O impacto vai além da sensação desconfortável. Adolescentes com dor crônica frequentemente faltam à escola, usam medicação em excesso e relatam menor qualidade de vida em múltiplas dimensões — funcionamento psicológico, físico, social e satisfação geral. Estudos anteriores já haviam mostrado que jovens com cefaleia crônica avaliam sua qualidade de vida como significativamente pior que seus pares saudáveis, com prejuízos especialmente no funcionamento psicológico e no status funcional. A intensidade da dor parece ser um fator determinante: quanto mais intensa a dor, pior o funcionamento em praticamente todas as áreas.

Esta tese propõe e testa um modelo biopsicossocial para entender como fatores psicológicos e sociais influenciam tanto a experiência de dor quanto a qualidade de vida. O modelo inclui quatro componentes principais: vulnerabilidade psicológica do adolescente (tendência a experienciar emoções negativas como ansiedade e depressão), estratégias de enfrentamento da dor (coping), reforço social do comportamento de doente (principalmente por pais) e modelagem (aprendizado observacional do comportamento de dor de figuras significativas). A pesquisadora Vivian Merlijn desenvolveu e validou instrumentos específicos para medir essas construções em adolescentes, incluindo o Questionário de Qualidade de Vida para Adolescentes com Dor Crônica (QLA-CP) e a Lista de Problemas Relacionados à Dor (PPL), ambos aplicáveis independentemente da localização da dor.

A metodologia envolveu múltiplos estudos complementares. Primeiro, estudos transversais compararam adolescentes com dor crônica da população geral com controles saudáveis, examinando diferenças nos fatores psicossociais. Depois, um ensaio clínico randomizado avaliou um programa de intervenção cognitivo-comportamental desenvolvido especificamente com base nos achados desses estudos iniciais. O programa incluía não apenas os adolescentes, mas também seus pais e pares, reconhecendo que o ambiente social é fundamental na manutenção ou superação da dor crônica.

Os resultados dos estudos transversais confirmaram que adolescentes com dor crônica apresentam maior vulnerabilidade psicológica, usam mais estratégias de coping passivas e catastróficas, e recebem mais reforço para comportamentos de doente que os controles saudáveis. A presença de modelos de dor na família — especialmente mães com dor crônica — mostrou associação consistente com a experiência dolorosa do jovem. Importante: essas associações são correlacionais, não permitindo conclusões sobre causalidade. A direção da relação entre vulnerabilidade psicológica e dor permanece incerta — a dor pode causar sofrimento emocional, ou características emocionais preexistentes podem predispor à dor crônica, ou ambos podem compartilhar fatores subjacentes comuns.

O ensaio clínico randomizado, embora com amostra relativamente modesta (cerca de 50 adolescentes no grupo de intervenção), demonstrou que o programa cognitivo-comportamental foi viável e bem tolerado. A intervenção combinava técnicas de relaxamento, reestruturação cognitiva, treinamento de habilidades de enfrentamento ativo, envolvimento dos pais para modificar padrões de reforço e participação de pares para fortalecer o suporte social. Os resultados sugeriram benefícios na qualidade de vida e na redução da dor em comparação com o grupo controle, embora a magnitude dos efeitos e a sustentabilidade a longo prazo necessitem de mais investigação.

A utilidade clínica deste trabalho é substancial. Primeiro, validou instrumentos que permitem avaliar sistematicamente o impacto da dor na vida dos adolescentes, algo que antes era limitado a condições específicas como cefaleia ou dor abdominal. Segundo, demonstrou que a abordagem da dor crônica em jovens deve ir além da busca por causas orgânicas — quando estas não são encontradas, não significa que a dor seja imaginária, mas que fatores psicológicos e sociais merecem atenção terapêutica. Terceiro, forneceu evidências preliminares de que intervenções cognitivo-comportamentais, especialmente quando envolvem o sistema familiar e social, podem ajudar esses adolescentes.

Entretanto, limitações importantes devem ser consideradas. A maioria dos estudos utilizou amostras da população geral, não de serviços especializados, o que pode não refletir a experiência de adolescentes com dor mais severa ou complexa. O seguimento em alguns estudos foi limitado, impedindo conclusões sobre a durabilidade das mudanças. Adolescentes com doenças crônicas diagnosticadas (como artrite reumatoide ou câncer) foram excluídos, restringindo a aplicabilidade a esses grupos.

Além disso, a direção causal entre fatores psicossociais e dor permanece não esclarecida — a pesquisa reconhece explicitamente que correlação não implica causalidade.

Para pais e adolescentes lidando com dor crônica, esta tese oferece uma mensagem acolhedora e empoderadora: a dor é real, o sofrimento é válido, e existem abordagens baseadas em evidências que podem ajudar. O modelo biopsicossocial não culpiza o jovem por sua dor, mas identifica múltiplos pontos de intervenção — desde o desenvolvimento de estratégias de coping mais adaptativas até a modificação de padrões familiares que inadvertidamente possam perpetuar o ciclo doloroso. A inclusão de pais e pares no tratamento reconhece que a dor não ocorre em vácuo, mas em um contexto social que pode tanto dificultar quanto facilitar a recuperação.

O que fortalece a leitura

  • 1desenvolvimento de instrumentos validados para adolescentes
  • 2modelo teórico abrangente
  • 3múltiplas metodologias de estudo
  • 4inclusão de fatores familiares e sociais
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1amostras principalmente de população geral
  • 2seguimento limitado em alguns estudos
  • 3exclusão de dores com causa orgânica conhecida

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

500pessoas avaliadas
divisão dos grupos

adolescentes com dor crônica

300 pessoas

avaliação psicossocial e qualidade de vida

controles saudáveis

150 pessoas

comparação sem dor crônica

intervenção cognitivo-comportamental

50 pessoas

programa estruturado incluindo pais e pares

⏱️ Tempo de acompanhamento: vários estudos de 3 semanas a 1 ano

📊 Resultados em números

0%

prevalência de dor crônica em adolescentes

0%

persistência da dor após 1 ano

significativo

meninas com mais dor que meninos

membro, cabeça, costas

principais locais de dor

Destaques percentuais

25%
prevalência de dor crônica em adolescentes
50%
persistência da dor após 1 ano

📊 Comparação de Resultados

qualidade de vida psicológica

adolescentes com dor
65
controles saudáveis
85

funcionamento físico

dor de alta intensidade
55
dor de baixa intensidade
75

📅 Linha do tempo da evidência

1996primeiros instrumentos de qualidade de vida para dor em adolescentes
2000estudos epidemiológicos sobre prevalência de dor crônica
2002desenvolvimento de modelos psicossociais
2004tese atual integrando modelo biopsicossocial para adolescentes

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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