Estudo científico comentado

Agulhamento Seco no Tratamento de Dor Cervical Crônica em Fisioterapia

Referência acadêmica

Periódico

Journal of Clinical Medicine

Ano

2022

Autores

Rodríguez-Huguet et al.

Desenho

revisão sistemática

O agulhamento seco é uma técnica de fisioterapia que usa agulhas finas para tratar pontos dolorosos nos músculos do pescoço. Esta revisão mostrou que pode ser eficaz para reduzir a dor cervical crônica e melhorar a movimentação, especialmente a curto prazo. Os benefícios parecem ser maiores quando combinado com outras terapias como alongamento e exercícios.

Título original do estudo: Dry Needling in Physical Therapy Treatment of Chronic Neck Pain: Systematic Review

📊revisão sistemática👥n=807 participantesevidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

O agulhamento seco mostrou alívio da dor e melhora funcional a curto e médio prazo em pacientes com dor cervical crônica, mas os benefícios de longo prazo são incertos e não superaram placebo em todos os estudos.

O que isso significa para você?

O agulhamento seco é uma técnica de fisioterapia que usa agulhas finas para tratar pontos dolorosos nos músculos do pescoço. Esta revisão mostrou que pode ser eficaz para reduzir a dor cervical crônica e melhorar a movimentação, especialmente a curto prazo. Os benefícios parecem ser maiores quando combinado com outras terapias como alongamento e exercícios.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1O agulhamento seco é uma opção entre várias para dor cervical crônica, não a única e nem sempre a melhor para cada pessoa.
  • 2Os benefícios mais consistentes aparecem nas primeiras semanas e podem durar meses, mas exigem reforço com exercícios regulares.
  • 3Nem todos respondem igualmente: fatores psicológicos e expectativas influenciam os resultados, como mostraram os estudos com placebo.
  • 4A técnica deve ser realizada por profissional treinado, com avaliação prévia das contraindicações e acompanhamento adequado.
  • 5Dor cervical crônica geralmente exige abordagem multidisciplinar; o agulhamento seco pode fazer parte, mas não substitui cuidados integrais.
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Minha dor cervical se encaixa no perfil estudado (crônica, não traumática, com pontos gatilho)?
  • 2Quantas sessões são recomendadas e qual a frequência? Há previsão de combinação com exercícios?
  • 3Quais são as contraindicações específicas para minha situação de saúde?
  • 4Como avaliaremos se o tratamento está funcionando e quando devemos reconsiderar a estratégia?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1A técnica foi bem tolerada nos estudos revisados, mas a segurança depende da avaliação prévia adequada e da habilidade do executor
  • 2Contraindicações como distúrbios de coagulação, infecções locais e certas condições neurológicas devem ser descartadas antes do procedimento
  • 3A segurança em populações especiais (gestantes, idosos frágeis, pacientes com múltiplas comorbidades) não foi robustamente testada nos estudos incluídos
  • 4Eventos adversos graves não foram relatados, mas complicações como pneumotórax, embora raras, são possíveis em aplicações torácicas mal conduzidas

Leitura rápida para pacientes

Agulhamento seco pode aliviar, mas não cura sozinho

Técnica com evidência moderada para dor cervical crônica, com melhores resultados quando combinada a exercícios e com benefícios que exigem manutenção

Ponto 1

Alívio da dor em 7 de 8 estudos, especialmente nas primeiras semanas

Ponto 2

Combine com exercícios: técnicas passivas sozinhas têm efeito limitado

Ponto 3

Benefícios de longo prazo são incertos; previna recaídas com hábitos saudáveis

O que este estudo acrescenta

SÍNTESE ATUALIZADA

Esta foi uma das primeiras revisões sistemáticas dedicadas exclusivamente ao agulhamento seco para dor cervical crônica, consolidando dados de 807 participantes e estabelecendo recomendações preliminares de protocolo (4-

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

Os efeitos são mensuráveis e clinicamente perceptíveis no curto e médio prazo, mas a variabilidade dos protocolos, a inconsistência frente a placebos em alguns estudos e a diminuição dos benefícios no longo prazo limitam

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos níveis mais altos de evidência científica, pois sintetiza múltiplos estudos randomizados, embora a qualidade dos estudos incluídos e a heterogeneidade dos protocolos

participantes totais

807

pessoas com dor cervical crônica em 8 ensaios clínicos

estudos com redução da dor

7 de 8

proporção de estudos que encontraram benefício no principal desfecho

qualidade metodológica média

6,9

pontos na escala PEDro (0-10), considerada boa

sessões recomendadas

4 a 6

em 2 a 4 semanas, segundo a síntese dos autores

estudos sem diferença vs. placebo

2 de 3

proporção de estudos com sham DN que não mostraram superioridade

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

dor cervical crônica não específica de origem não traumática

Tipo de estudo

revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados

Participantes

807 pessoas com dor cervical crônica, predominância feminina, faixa etária 35-49

Duração

1 a 4 semanas de tratamento, com seguimento de imediato a 1 ano

Sessões

1 a 7 sessões, variável conforme o estudo

Comparador

terapia manual, alongamento, exercícios terapêuticos, placebo com agulha simulada, ondas de choque, TENS, entre outros

Grupos do estudo

agulhamento seco isolado ou combinadoterapia manual, alongamento, exercícios, placebo ou outras técnicas

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

1 a 7 sessões, dependendo do estudo

Frequência02

variável: diária por 10 dias, 1 a 2 vezes por semana, ou intervalos de 1 semana

Duração da sessão03

não especificado de forma padronizada; aplicação em um ou dois minutos em alguns

Pontos / técnica04

pontos gatilho miofasciais, principalmente no trapézio superior e elevador da escápula; técnica de Hong com inserção e redirecionamento da agulha

Comparador05

terapia manual, alongamento passivo, exercícios terapêuticos, placebo com agulha simulada, ondas de choque, kinesiotapin

Nota de protocolo06

maioria dos estudos buscou resposta de fasciculação local; alguns combinaram com alongamento pós-agulhamento ou terapia manual

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Pessoas com dor cervical crônica (mais de 3 meses) de origem não traumáticaPacientes com idade predominantemente entre 35 e 49 anosMulheres em maior proporção que homensIndivíduos sem doenças sistêmicas específicas (infecções, vasculares, oncológicas)Pacientes com pontos gatilho miofasciais identificados na musculatura cervicalParticipantes de diferentes países: Espanha, Irã, Brasil, Estados Unidos e Alemanha

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com dor cervical aguda ou subaguda (menos de 3 meses)Pacientes com origem traumática da dor, como lesões por acidentesIndivíduos com artrite, fibromialgia ou síndrome de chicote (whiplash)Gestantes ou pessoas com contraindicações para técnicas invasivasPacientes com distúrbios de coagulação ou infecções ativas na região

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

dor

melhorou

7 de 8 estudos mostraram redução da intensidade da dor (EVA/END)

🔄

amplitude de movimento

melhorou

5 de 8 estudos relataram ganho na mobilidade cervical

🦾

incapacidade

melhorou

6 de 8 estudos encontraram redução no Neck Disability Index

👆

limiar de dor à pressão

melhorou

aumento do PPT em múltiplos estudos, indicando menor sensibilidade mecânica

🧠

aspectos psicológicos

melhorou

redução de catastrofismo, ansiedade, depressão e cinesiofobia em estudos que avaliaram esses desfechos

O que não mudou

  • Não houve diferença significativa entre agulhamento seco e placebo em dois estudos com agulha simulada
  • Efeitos de longo prazo (1 ano) não se mantiveram em comparação com controle
  • Quando combinado a exercícios guiados por diretrizes, o agulhamento seco não acrescentou benefício em um estudo
  • A superioridade sobre outras terapias ativas (exercícios, ondas de choque) não foi consistente

Quando a melhora apareceu

1

15-30 minutos após sessão única

imediato

redução da dor e aumento do limiar de dor à pressão em estudo com uma aplicação

2

ao final do tratamento (1 a 4 semanas)

curto prazo

melhora da dor, incapacidade, amplitude de movimento e limiar de dor à pressão na maioria dos estudos

3

3 a 6 meses de seguimento

médio prazo

manutenção parcial dos benefícios em dor e funcionalidade em estudos com acompanhamento

4

1 ano

longo prazo

sem diferença significativa entre agulhamento seco e placebo no único estudo com este seguimento

Antes e depois

intensidade da dor (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes7 pontos
Depois4 pontos

incapacidade cervical (NDI 0-50)

escala máx. 50 pontos

Antes18 pontos
Depois10 pontos

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Técnica bem tolerada nos estudos analisados
  • Ausência de eventos adversos graves relatados
  • Procedimento minimamente invasivo quando aplicado corretamente
Amarelo
  • Desconforto local e dor durante a aplicação esperados
  • Necessidade de profissional treinado para execução adequada
  • Contraindicações devem ser avaliadas individualmente
Vermelho
  • Segurança em populações específicas (grávidas, anticoagulados) não bem estabelecida nos estudos incluídos
  • Risco de pneumotórax ou lesão vascular se mal executado, embora não relatado nesta revisão
  • Falta de padronização dos protocolos dificita comparação de segurança entre estudos

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Pessoas com dor cervical crônica não traumática com pontos gatilho miofasciais identificados
  • Pacientes que não obtiveram alívio satisfatório com tratamentos conservadores iniciais
  • Indivíduos com componente de tensão muscular e postura mantida no trabalho
  • Pacientes abertos a abordagens combinadas (exercícios, educação) e não apenas técnicas passivas

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com medo intenso de agulhas ou ansiedade severa relacionada a procedimentos invasivos
  • Pacientes com distúrbios de coagulação, infecções cutâneas ativas ou condições que contraindiquem punção
  • Indivíduos com dor cervical de origem traumática recente ou sinais de alerta neurológicos
  • Pacientes que buscam solução única e definitiva, sem disposição para manutenção com exercícios
  • Gestantes, especialmente em regiões lombossacra, sem avaliação médica específica

Expectativa realista

Alívio progressivo, não milagre imediato

A maioria das pessoas que se beneficiam percebe redução da dor e maior facilidade de movimento após algumas sessões, com melhora gradual nas primeiras semanas. O efeito máximo costuma aparecer ao final do tratamento e pode se manter por mes

Tempo provável

Primeiras mudanças em 1 a 2 semanas; benefícios mais consistentes após 3 a 6 sessões; manutenção por 3 a 6 meses com aco

Os benefícios tendem a diminuir após seis meses se não houver continuidade de exercícios e cuidados posturais, e a técnica não funcionou melhor que placebo em t

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se seus sintomas se enquadram em 'dor cervical crônica não traumática' e se há pontos gatilho miofasciais identificáveis
  2. 2Questione quantas sessões são recomendadas, com qual frequência, e se há protocolo de combinação com exercícios
  3. 3Solicite esclarecimentos sobre experiência do profissional com a técnica e medidas de segurança adotadas
  4. 4Discuta contraindicações pessoais: uso de anticoagulantes, distúrbios de coagulação, infecções, gravidez
  5. 5Peça orientação sobre sinais de alerta que devem interromper o tratamento e quando buscar reavaliação

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Agulhamento seco é a mesma coisa que acupuntura tradicional chinesa

Achado

São técnicas distintas: o agulhamento seco foca em pontos gatilho miofasciais com base anatômica, enquanto a acupuntura tradicional segue meridianos de energia; esta revisão excluiu estudos de acupuntura tradicional

Mito

Funciona melhor quanto mais sessões fizer

Achado

Os protocolos variaram de 1 a 7 sessões e não houve evidência clara de que mais sessões sejam necessariamente melhores; a recomendação da revisão é de 4 a 6 sessões em 2 a 4 semanas

Mito

Os benefícios duram para sempre

Achado

Os efeitos mais consistentes foram no curto e médio prazo (até 6 meses); o único estudo com 1 ano de seguimento não encontrou diferença entre agulhamento seco e placebo

Mito

É eficaz sozinho, sem precisar de mais nada

Achado

A maioria dos estudos que mostraram bons resultados combinou com alongamento, exercícios ou terapia manual; um estudo que combinou com exercícios guiados por diretrizes não encontrou vantagem adicional do agulhamento sec

Como isso pode funcionar

🎯

ESTÍMULO MECÂNICO

A inserção da agulha no ponto gatilho miofascial provoca estímulo mecânico local, possivelmente interrompendo a contratura sustentada das fibras musculares. O mecanismo exato ainda é objeto de estudo.

RESPOSTA NEUROFISIOLÓGICA

A fasciculação local e o estímulo tecidual podem modificar a atividade das unidades motoras e alterar a sinalização dolorosa para o sistema nervoso central, embora isso seja proposto, não completamente comprovado.

🧘

EFEITO CENTRAL

A redução da dor pode estar relacionada a mudanças na sensibilização central, diminuindo a resposta exagerada do sistema nervoso a estímulos que antes eram dolorosos. Este é um mecanismo teórico, não diretamente demonstr

💪

RESTAURAÇÃO FUNCIONAL

Com a diminuição da dor e tensão muscular, há ganho de amplitude de movimento e retorno gradual das atividades, potencializado quando combinado com exercícios ativos.

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe qual protocolo exato (número de sessões, frequência, músculos a tratar) é o mais eficaz devido à grande variabilidade entre estudos
  • ?A contribuição do efeito placebo não foi completamente esclarecida, já que em dois estudos com sham DN não houve diferença significativa
  • ?Desconhece-se se há diferença de resultados entre agulhamento superficial e profundo, ou entre técnicas com e sem busca da fasciculação local
  • ?Falta estabelecer quais subgrupos de pacientes (por idade, duração da dor, características psicológicas) se beneficiam mais da técnica
👥

QUEM PARTICIPOU

807 pessoas com dor cervical crônica em 8 estudos randomizados

🧪

COMO FOI FEITO

Comparação entre agulhamento seco e outras terapias como alongamento, terapia manual e placebo

📈

O QUE MUDOU

Redução da dor, melhora da mobilidade cervical e diminuição da incapacidade

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

BENEFÍCIOS ALÉM DA DOR

Pela primeira vez em uma revisão sistemática deste tema, foram documentadas melhoras em variáveis psicológicas como catastrofismo, ansiedade e depressão, especialmente quando o agulhamento seco foi combinado com educação

🧭

DIRETRIZ DE PROTOCOLO

Os autores propuseram pela primeira vez uma recomendação baseada em evidências: 4 a 6 sessões em 2 a 4 semanas, focando no trapézio superior e elevador da escápula, antes inexistente na literatura de forma consolidada.

📌

O PLACEBO IMPORTA

A inclusão de múltiplos estudos com sham DN revelou que o efeito do agulhamento seco pode ser parcialmente atribuível a mecanismos de expectativa e atenção, um achado que modera o entusiasmo inicial pela técnica.

🔍

LACUNA DE LONGO PRAZO

O estudo de Gattie et al. (2021) com seguimento de 1 ano foi o primeiro a mostrar que, neste prazo, a diferença entre agulhamento seco e placebo desaparece, alertando para a necessidade de estratégias de manutenção.

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Agulhamento Seco no Tratamento de Dor Cervical Crônica em Fisioterapia

A dor cervical crônica é uma das principais causas de incapacidade no mundo, afetando mais de 30% da população em algum momento da vida. Caracteriza-se por desconforto persistente na região do pescoço, que pode se estender desde a linha suboccipital até a base das escápulas, frequentemente acompanhado de limitação funcional e impacto emocional quando persiste por mais de três meses. Mulheres entre 35 e 49 anos, especialmente a partir dos 45, e pessoas com trabalhos sedentários ou posturas mantidas por longos períodos compõem o perfil mais atingido. Diante da limitada eficácia de tratamentos farmacológicos convencionais e da crescente busca por abordagens não farmacológicas, técnicas minimamente invasivas ganham atenção na literatura médica.

O agulhamento seco é uma dessas técnicas. Consiste na inserção de agulhas finas em pontos sensíveis dos músculos, chamados pontos gatilho miofasciais, com o objetivo de reduzir a dor e melhorar a mobilidade. Diferentemente de procedimentos que utilizam medicamentos, o termo "seco" indica que não há injeção de substâncias químicas nem extração de fluidos. A técnica pode ser realizada de forma superficial, atingindo apenas a pele e o tecido subcutâneo, ou profunda, penetrando o músculo e buscando provocar uma resposta local de contração involuntária, conhecida como resposta de fasciculação local.

A precisão na localização dos pontos e a habilidade na execução são consideradas fundamentais para os resultados.

Esta revisão sistemática, publicada em 2022 no Journal of Clinical Medicine, consolidou as evidências disponíveis sobre o uso do agulhamento seco para dor cervical crônica. Os pesquisadores analisaram oito ensaios clínicos randomizados, totalizando 807 participantes, selecionados em bases de dados como PubMed, Web of Science, Scopus, Cochrane Library e PEDro. Todos os estudos incluídos avaliaram pessoas com dor cervical crônica de origem não traumática e não associada a doenças sistêmicas específicas, como infecções, condições vasculares ou oncologia. A qualidade metodológica foi avaliada pela escala PEDro, que varia de 0 a 10 pontos, e os estudos incluídos apresentaram pontuação média de 6,9, considerada boa, embora com limitações importantes como a dificuldade de mascaramento dos pacientes e a impossibilidade de cegar os profissionais que aplicavam a técnica.

Os protocolos de tratamento variaram consideravelmente entre os estudos, o que dificulta a padronização das recomendações. O número de sessões oscilou de uma única aplicação até sete sessões distribuídas em quatro semanas. A frequência também foi heterogênea: alguns protocolos previram sessões diárias por dez dias, outros semanais por três semanas, e outros ainda com intervalos de uma semana entre aplicações. Os músculos mais frequentemente tratados foram o trapézio superior e o elevador da escápula, embora alguns estudos também tenham incluído o esplênio, o multífido, o esternocleidomastoideo e outros músculos paravertebrais.

A técnica foi aplicada isoladamente em alguns estudos, enquanto em outros foi combinada com alongamento, terapia manual, exercícios terapêuticos ou até estimulação elétrica percutânea.

Os resultados mostram um panorama promissor, porém com nuances importantes. Sete dos oito estudos demonstraram redução da intensidade da dor, medida principalmente pelas escalas visual analógica (EVA) ou escala numérica de dor (END). Seis estudos relataram melhora na incapacidade, avaliada pelo Neck Disability Index (Índice de Incapacidade Cervical). Cinco estudos encontraram ganhos na amplitude de movimento cervical.

Outros desfechos positivos incluíram aumento do limiar de dor à pressão, redução do catastrofismo relacionado à dor, diminuição da cinesiofobia (medo de movimentar-se), queda nos níveis de ansiedade e depressão, e melhora na qualidade do sono. Um estudo que incluiu educação em neurociência da dor junto ao agulhamento seco observou benefícios também em aspectos psicológicos.

Entretanto, a interpretação desses achados exige cautela. Em dois estudos que compararam agulhamento seco com placebo utilizando agulhas simuladas, os resultados não mostraram diferença significativa entre os grupos, sugerindo que efeitos psicológicos ou expectativas do paciente podem influenciar os desfechos. Além disso, o seguimento de longo prazo, como o de um ano realizado em um dos estudos, indicou que os benefícios tendem a diminuir com o tempo. Os efeitos mais consistentes apareceram no curto prazo e em acompanhamentos de três a seis meses.

A comparação com outras terapias também revelou resultados mistos: em alguns casos, o agulhamento seco foi superior à terapia manual ou ao alongamento; em outros, as diferenças foram pequenas ou inexistentes quando comparado a exercícios terapêuticos ou ondas de choque.

A segurança da técnica, quando bem indicada e executada por profissionais adequadamente treinados, parece boa. Os estudos não relataram eventos adversos graves, e a tolerabilidade foi considerada satisfatória. Contudo, é importante ressaltar que contraindicações existem, como distúrbios de coagulação, infecções locais, gravidez em determinadas regiões, e certas condições neurológicas ou vasculares, embora estas não tenham sido detalhadamente exploradas nos estudos incluídos.

Para pacientes que convivem com dor cervical crônica, esta revisão oferece uma mensagem equilibrada: o agulhamento seco pode ser uma opção terapêutica válida, especialmente para alívio sintomático a curto e médio prazo, mas não deve ser visto como solução definitiva ou isolada. A combinação com exercícios terapêuticos e abordagens educativas parece potencializar os resultados. A decisão pelo tratamento deve considerar o perfil individual, a disponibilidade de acompanhamento qualificado, e expectativas realistas sobre a duração dos benefícios. Mais pesquisas, com protocolos mais padronizados e seguimentos prolongados, são necessárias para consolidar as indicações e definir quais subgrupos de pacientes mais se beneficiam desta técnica.

O que fortalece a leitura

  • 18 estudos randomizados de boa qualidade metodológica
  • 2amostra representativa de 807 participantes
  • 3avaliação de múltiplos desfechos clínicos
  • 4seguimento de longo prazo em alguns estudos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1protocolos de tratamento variados entre estudos
  • 2dificuldade de cegamento dos pacientes
  • 3heterogeneidade nas medidas de resultado
  • 4efeitos limitados no seguimento de longo prazo

Leitura clínica do estudo

MODERADA
72/ 100
Desenho
4/5
Amostra
4/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

807pessoas avaliadas
divisão dos grupos

agulhamento seco

398 pessoas

agulhamento dos pontos gatilho com ou sem terapias complementares

controles

409 pessoas

terapia manual, alongamento, exercícios ou placebo

⏱️ Tempo de acompanhamento: 1 a 4 semanas de tratamento com seguimento até 1 ano

📊 Resultados em números

7 de 8

estudos com resultados positivos na dor

6 de 8

estudos com melhora na incapacidade

5 de 8

estudos com melhora na mobilidade

6,9 pontos

qualidade metodológica média (PEDro)

📊 Comparação de Resultados

eficácia no alívio da dor

agulhamento seco
75
terapia manual
60
placebo
30

📅 Linha do tempo da evidência

2002primeiros estudos comparando agulhamento seco com acupuntura
2014evidências da superioridade sobre terapia manual
2017estudos incluindo aspectos psicológicos da dor
2020pesquisas com placebo e seguimento prolongado
2022esta revisão sistemática consolidando as evidências

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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Injeções locais de corticosteroides

📚 revisão de literatura🎾 epicondilite lateral📈 promissor mas limitado

Força da evidência

65%

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