Estudo científico comentado

Laser de baixa potência é eficaz para reduzir dor miofascial na ATM

Referência acadêmica

Periódico

Journal of Oral & Facial Pain and Headache

Ano

2018

Autores

Munguia et al.

Desenho

revisão sistemática e meta-análise

Este estudo analisou 8 pesquisas com 176 pessoas que sofriam de dor nos músculos da mandíbula (ATM). O laser de baixa potência mostrou reduzir significativamente a dor em comparação com laser falso, com melhora de cerca de 2 pontos numa escala de 0 a 10. A terapia é segura e não invasiva, mas os pesquisadores alertam que são necessários mais estudos de melhor qualidade para confirmar definitivamente estes resultados.

Título original do estudo: Efficacy of Low-Level Laser Therapy in the Treatment of Temporomandibular Myofascial Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis

📊revisão sistemática e meta-análise👥n=176⚖️evidência moderada
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Laser de baixa potência mostrou reduzir em média 2,2 pontos a dor miofascial da ATM em comparação com placebo, com evidência de qualidade moderada, mas os estudos incluídos tinham riscos de viés e alta variabilidade entre protocolos.

O que isso significa para você?

Este estudo analisou 8 pesquisas com 176 pessoas que sofriam de dor nos músculos da mandíbula (ATM). O laser de baixa potência mostrou reduzir significativamente a dor em comparação com laser falso, com melhora de cerca de 2 pontos numa escala de 0 a 10. A terapia é segura e não invasiva, mas os pesquisadores alertam que são necessários mais estudos de melhor qualidade para confirmar definitivamente estes resultados.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1O laser de baixa potência é uma opção não invasiva e segura que pode reduzir a dor muscular da ATM em cerca de 2 pontos numa escala de 0 a 10, uma melhora que muitos consideram per
  • 2Não espere resultado imediato: o protocolo típico envolve 8 a 10 sessões ao longo de 2 a 4 semanas, e o benefício se consolida gradualmente
  • 3Esta terapia foi estudada apenas para dor miofascial (muscular), não para problemas de disco, artrite ou outras causas articulares da ATM
  • 4A qualidade dos estudos ainda é limitada, com protocolos muito variados entre si, o que significa que sua resposta individual pode diferir da média reportada
  • 5Converse com seu médico sobre como o laser se encaixa no seu plano de tratamento geral e qual seria o critério para avaliar se está funcionando para você especificamente
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Meu diagnóstico é de dor puramente miofascial ou há também comprometimento articular (disco ou osteoartrite)? O laser foi estudado apenas para dor muscular
  • 2Qual protocolo de laser você utiliza e por quê? Como ele se compara aos que mostraram melhores resultados nos estudos revisados?
  • 3Se não notar melhora após 4-6 sessões, qual seria o próximo passo? Há um plano B definido?
  • 4O laser será usado isoladamente ou em combinação com outras medidas, como orientações de autocuidado, modificações dietéticas ou outras abordagens?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Nenhum evento adverso significativo foi relatado nos 176 pacientes dos 8 estudos, caracterizando a terapia como geralmente bem tolerada
  • 2O laser de baixa potência é não térmico e não invasivo, não causando queimaduras ou danos aos tecidos quando usado adequadamente
  • 3Populações específicas como gestantes, pessoas com marca-passo ou epilepsia foram excluídas dos estudos, de modo que a segurança nesses grupos não foi estabelecida formalmente
  • 4A segurança em longo prazo (além de 3-4 semanas de seguimento) não foi avaliada nos estudos incluídos, permanecendo como uma lacuna importante

Leitura rápida para pacientes

Laser para dor muscular da ATM: promissor, mas não definitivo

A evidência sugere alívio moderado e seguro para dor miofascial, com melhora de cerca de 2 pontos em 10. Ainda faltam estudos de melhor qualidade para confirmar qual protocolo func

Ponto 1

Funciona para dor muscular da ATM, não para problemas de disco ou articulação

Ponto 2

Precisa de várias sessões ao longo de 2-4 semanas; a melhora não é imediata

Ponto 3

É seguro e não invasivo, mas os estudos tinham limitações que pedem cautela na interpretação

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA META-ANÁLISE ESPECÍFICA

Esta foi a primeira revisão sistemática com meta-análise dedicada exclusivamente à dor miofascial da ATM, diferenciando-se de revisões anteriores que misturavam pacientes com dor muscular e articular, o que permitiu uma

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A redução de 2,2-2,4 pontos na escala 0-10 supera o mínimo clinicamente significativo de 1,2 ponto, representando uma melhora que pacientes tipicamente percebem como relevante no dia a dia. No entanto, a qualidade modera

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos níveis mais altos de evidência científica, pois combina resultados de múltiplos ensaios clínicos randomizados, embora a qualidade aqui tenha sido limitada pelo risco

pacientes analisados

176

total de 8 estudos randomizados incluídos na revisão

redução de dor após tratamento

2,2

pontos na escala 0-10, em média, versus placebo (p=0,005)

redução de dor mantida

2,4

pontos na escala 0-10, 3-4 semanas após última sessão (p=0,022)

qualidade da evidência para dor

moderada

segundo GRADE, devido a risco de viés e heterogeneidade

estudos com baixo risco de viés

0

nenhum dos 8 estudos foi considerado de baixo risco globalmente

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

dor miofascial na articulação temporomandibular (ATM)

Tipo de estudo

revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados controlados

Participantes

176 adultos de 8 estudos, predominantemente mulheres, com diagnóstico confirmado

Duração

tratamentos de 2 a 4 semanas, com seguimento de 3-4 semanas após término

Sessões

8 a 10 sessões em média, variando conforme o estudo

Comparador

laser placebo — aparelho idêntico sem emissão terapêutica de energia

Grupos do estudo

laser de baixa potência ativolaser placebo (desligado ou energia muito baixa)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

8 a 10 sessões na maioria dos estudos, variando de 8 a 10 no total

Frequência02

2 a 3 vezes por semana, com um estudo usando sessões diárias (exceto fins de sem

Duração da sessão03

19 segundos a 10 minutos por sessão, dependendo do protocolo do estudo

Pontos / técnica04

aplicação sobre pontos-gatilho miofasciais ativos nos músculos da mastigação (masseter e temporal), com variação entre toque direto ou aproximação

Comparador05

laser placebo: aparelho idêntico desligado ou com energia muito baixa, sem efeito terapêutico

Nota de protocolo06

grande variabilidade entre estudos: tipos de laser (diodo, GaAlAs, Nd:YAG, In-Ga-Al-P), comprimentos de onda (660-1064 nm), densidades de energia (3,4-105 J/cm²) e potências (17,3-

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com diagnóstico confirmado de dor miofascial na ATM por critérios RDC/TMD Eixo I Grupos Ia/IbPacientes com presença de pontos-gatilho dolorosos nos músculos da mastigaçãoPessoas com dor regional e padrão de dor referida característico da síndrome miofascialIndivíduos de ambos os sexos, com predominância feminina (alguns estudos só incluíram mulheres)Faixa etária de 16 a 62 anos, dependendo do estudoPacientes que não estavam usando medicamentos analgésicos ou anti-inflamatórios durante o tratamento

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com outros tipos de DTM, como deslocamento de disco (Grupo II) ou problemas articulares (Grupo III)Pacientes com doenças sistêmicas graves, como diabetes descompensada, epilepsia, doenças cardíacas ou uso de marca-passoIndivíduos em tratamento concomitante para DTM, como uso de placa oclusal ou outras intervençõesGestantes e pessoas com distúrbios psiquiátricos ou uso de psicotrópicos, em alguns estudosAdolescentes — todos os estudos incluíram apenas adultos

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

intensidade da dor

reduziu

queda média de 2,2 pontos na escala 0-10 imediatamente após tratamento e 2,4 pontos após 3-4 semanas, comparado a placebo

duração do alívio

melhorou

benefício se manteve além do período de tratamento, sem retorno imediato ao nível basal

📊

significância estatística

confirmada

p=0,005 para dor imediata e p=0,022 para dor tardia, indicando baixa probabilidade de achado ao acaso

🦷

abertura da boca

melhorou parcialmente

aumento significativo apenas em 1 mês, não imediatamente; evidência de baixa qualidade com apenas 2 estudos

O que não mudou

  • Não houve diferença significativa na abertura interincisal imediatamente após o término do tratamento
  • Não foi possível determinar qual protocolo de laser (comprimento de onda, dose, número de sessões) seria o mais eficaz devido à alta variabilidade ent
  • Não houve padronização da técnica de aplicação (pontos específicos vs. área geral, tempo de irradiação por ponto)

Quando a melhora apareceu

1

ao final das 2-4 semanas de sessões

imediato após tratamento

redução média de 2,2 pontos na escala 0-10 de dor, significativamente maior que placebo

2

3 a 4 semanas após última sessão

persistência da melhora

redução média de 2,4 pontos mantida, sugerindo efeito duradouro além do período de tratamento

3

1 mês após tratamento

abertura da boca

aumento significativo de abertura interincisal apenas neste momento, não imediatamente após as sessões

Antes e depois

dor imediatamente após tratamento

escala máx. 10 pontos (estimado)

Antes7 pontos (estimado)
Depois4.8 pontos (estimado)

dor 3-4 semanas após tratamento

escala máx. 10 pontos (estimado)

Antes7 pontos (estimado)
Depois4.6 pontos (estimado)

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Terapia não invasiva e não térmica, sem queimaduras ou danos aos tecidos
  • Nenhum evento adverso significativo relatado nos 8 estudos incluídos
  • Não requer uso de medicamentos sistêmicos com potenciais efeitos colaterais
Amarelo
  • Cegamento dos pacientes nem sempre foi verificado formalmente nos estudos
  • Um estudo apresentou desequilíbrio de abandonos entre grupos (14% vs 25%) sem explicação clara
  • A segurança em populações específicas (gestantes, pacientes com marca-passo, epilepsia) não foi bem estabelecida, embora o laser de baixa potência sej
Vermelho
  • Qualidade metodológica dos estudos foi baixa a incerta, o que limita a confiança em todas as conclusões, incluindo segurança
  • Falta de padronização dos protocolos dificulta prever riscos em diferentes configurações de laser
  • Não há dados de longo prazo sobre segurança além de 3-4 semanas de seguimento

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com diagnóstico claro de dor miofascial na ATM sem comprometimento articular (deslocamento de disco ou osteoartrite)
  • Pacientes que preferem ou precisam evitar abordagens farmacológicas ou invasivas
  • Pessoas com pontos-gatilho musculares palpáveis e dor regional característica
  • Indivíduos que já tentaram outras medidas conservadoras sem alívio satisfatório
  • Pacientes com expectativas realistas sobre resultados moderados e que entendem a necessidade de múltiplas sessões

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com diagnóstico de deslocamento de disco com ou sem redução, artralgia ou osteoartrite da ATM (excluídos nos estudos)
  • Pacientes que buscam resultado imediato e definitivo em uma única sessão
  • Indivíduos com dor de origem predominantemente articular ou neuropática, não muscular
  • Pessoas que não conseguem comparecer ao número de sessões necessárias ao longo de 2-4 semanas
  • Pacientes com expectativas baseadas em promessas de cura total, dado que a melhora média foi de cerca de 2 pontos numa escala de 10

Expectativa realista

Alívio gradual, não milagre imediato

Se o laser funcionar para você, espere uma redução gradual da dor ao longo de 2 a 4 semanas de tratamento, com melhora média de cerca de 2 pontos numa escala de 0 a 10. Algumas pessoas podem sentir mais, outras menos.

Tempo provável

A melhora mais consistente aparece ao final do tratamento e tende a se manter por pelo menos 3 a 4 semanas após a última

Não há garantia de resultado: a variabilidade entre pessoas é grande, e os estudos incluídos tinham limitações metodológicas importantes que reduzem a certeza d

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se seu diagnóstico é de dor miofascial pura ou se há também componente articular (disco ou osteoartrite), pois o laser foi estudado apenas para dor muscular
  2. 2Questione qual protocolo de laser será usado (tipo, comprimento de onda, dose, número de sessões) e como o profissional decidiu por essa configuração
  3. 3Peça para que lhe expliquem como será feito o acompanhamento da sua resposta e qual o plano se não houver melhora após 4-6 sessões
  4. 4Informe sobre qualquer condição de saúde pré-existente, uso de marca-passo, gravidez ou medicamentos, mesmo que o laser seja considerado seguro
  5. 5Discuta como o laser se encaixa no seu plano de tratamento geral: ele será usado isoladamente ou combinado com outras abordagens?

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Laser de baixa potência é uma cura definitiva para qualquer dor na ATM

Achado

O estudo mostrou redução moderada de dor (cerca de 2 pontos em 10) apenas para dor miofascial, não para problemas de disco ou articulação, e os resultados não são definitivos devido à qualidade limitada dos estudos

Mito

Funciona igualmente bem para todos os pacientes e com qualquer tipo de laser

Achado

Houve alta heterogeneidade entre estudos com diferentes tipos de laser, doses e protocolos; não foi possível identificar qual configuração é ideal, e a resposta individual certamente varia

Mito

Se não melhorar na primeira sessão, não vai funcionar

Achado

A melhora significativa foi observada ao final de um curso de 2-4 semanas com múltiplas sessões, não imediatamente; paciência e adesão ao protocolo são necessárias

Mito

Como é natural e não invasivo, pode ser usado por qualquer pessoa sem riscos

Achado

Embora não haja eventos adversos relatados, certas populações foram excluídas dos estudos (gestantes, pessoas com marca-passo, epilepsia), e a segurança em longo prazo não foi avaliada

Como isso pode funcionar

🔬

PROPOSTA 1: Bioestimulação celular

O laser de baixa potência pode estimular as mitocôndrias das células musculares, potencialmente aumentando a produção de energia celular (ATP) e promovendo reparo tecidual — mecanismo proposto, mas não confirmado especif

🩸

PROPOSTA 2: Melhora da microcirculação

Há evidência de que o laser pode aumentar o fluxo sanguíneo local e a formação de novos vasos, melhorando o suprimento de oxigênio em áreas musculares que podem estar em hipóxia — especialmente relevante nos pontos-gatil

🛡️

PROPOSTA 3: Modulação inflamatória

Estudos em células e animais sugerem que o laser pode reduzir marcadores bioquímicos da inflamação, produzindo efeito anti-inflamatório local — porém, a tradução direta para alívio da dor miofascial em humanos ainda care

O que ainda é incerto

  • ?Qual é o protocolo ótimo de laser? Os estudos variaram drasticamente em tipo de laser, dose, tempo de aplicação e número de sessões, sem consenso sobr
  • ?A melhora se manterá por mais de 3-4 semanas? O seguimento mais longo nos estudos foi de apenas um mês após o tratamento, deixando em aberto a duração
  • ?Quem se beneficia mais? Não foi possível identificar características de pacientes (idade, sexo, duração da dor, gravidade) que predizam melhor respost
  • ?Como o laser se compara a outras terapias ativas? Todos os estudos compararam com placebo; nenhum comparou diretamente com fármacos, placa oclusal ou
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar se laser de baixa potência reduz dor miofascial na articulação temporomandibular em comparação com laser placebo

👥

QUEM PARTICIPOU

176 adultos com dor miofascial na ATM de 8 estudos randomizados

🧪

COMO FOI FEITO

Comparação entre laser ativo versus laser placebo (sem energia) com protocolos variados

📈

O QUE MUDOU

Redução significativa da dor: 2,2 pontos na escala 0-10 logo após o tratamento

🛟

SEGURANÇA

Terapia não invasiva e segura, sem eventos adversos relatados

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

FOCO EXCLUSIVO NA DOR MIOFASCIAL

Ao contrário de revisões anteriores que misturavam tipos de DTM, esta meta-análise isolou especificamente a dor miofascial, revelando um efeito mais claro do que se sabia para este subgrupo

🧭

DURAÇÃO DO EFEITO ALÉM DO TRATAMENTO

A melhora não foi apenas imediata: persistiu por 3-4 semanas após as sessões, sugerindo que o benefício do laser pode ir além de um efeito passageiro durante a aplicação

📌

AUSÊNCIA DE PROTOCOLO PADRÃO

O achado principal foi a grande variabilidade entre estudos — tipos de laser, doses e técnicas tão diferentes que, apesar do resultado geral positivo, ninguém sabe ainda qual 'receita' funciona melhor

⚠️

NECESSIDADE DE CEGAMENTO VERIFICADO

Os autores destacaram que poucos estudos verificaram se os pacientes realmente não sabiam qual laser receberam; este detalhe metodológico, aparentemente técnico, é crucial para a validade de toda a evidência

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Laser de baixa potência é eficaz para reduzir dor miofascial na ATM

A dor miofascial na articulação temporomandibular, popularmente conhecida como dor muscular da ATM, é uma condição que afeta milhões de pessoas e pode transformar ações simples como mastigar, falar ou até mesmo bocejar em momentos de desconforto significativo. Essa dor se origina nos músculos da mastigação e nas fascias que os envolvem, frequentemente associada a pontos-gatilho sensíveis que irradiam dor para outras regiões da face, cabeça e pescoço. Para quem convive com esse problema, a busca por tratamentos eficazes e que não envolvam medicamentos ou cirurgia é uma prioridade constante. Neste cenário, a terapia com laser de baixa potência tem despertado crescente interesse como uma opção não invasiva e potencialmente acolhedora.

O estudo que analisamos aqui, conduzido por Munguia e colaboradores e publicado em 2018 no Journal of Oral & Facial Pain and Headache, representa um marco importante: foi a primeira revisão sistemática com meta-análise dedicada especificamente a avaliar se o laser de baixa potência realmente reduz a dor miofascial na ATM quando comparado a um laser placebo, ou seja, um aparelho idêntico em aparência, mas sem emitir a energia terapêutica. Essa abordagem é considerada o padrão-ouro para testar a eficácia real de uma intervenção, pois elimina a influência das expectativas dos pacientes sobre os resultados.

Para realizar essa análise, os pesquisadores vascularam meticulosamente as principais bases de dados científicas mundiais até fevereiro de 2017, identificando inicialmente 167 referências. Após rigorosa triagem, apenas oito estudos preencheram todos os critérios de inclusão, totalizando 176 adultos com diagnóstico confirmado de dor miofascial na ATM segundo critérios estabelecidos internacionalmente. A maioria dos participantes era do sexo feminino, com idades variando de 16 a 62 anos, refletindo a maior prevalência dessa condição em mulheres. Os estudos incluídos foram realizados em diferentes países — Brasil, Irã e Turquia — e utilizaram diversos tipos de laser, como diodo, GaAlAs e Nd:YAG, com comprimentos de onda que variavam de 660 a 1064 nanômetros, densidades de energia de 3,4 a 105 J/cm², e protocolos de aplicação que iam de 8 a 10 sessões ao longo de duas a quatro semanas.

Os resultados da meta-análise trouxeram motivos para otimismo moderado. Quando os dados dos seis estudos que reportaram dor de forma comparável foram agrupados, o grupo tratado com laser ativo apresentou redução significativamente maior da intensidade da dor em comparação com o grupo placebo. Em termos práticos, quem recebeu o laser real relatou, em média, 2,2 pontos a menos de dor numa escala de 0 a 10 imediatamente após o término do tratamento — uma diferença que os autores consideram clinicamente relevante, já que supera o mínimo de 1,2 ponto que especialistas consideram significativo para o paciente. Mais interessante ainda: essa melhora não foi passageira.

Três a quatro semanas após a última sessão, a vantagem do laser ativo se manteve em 2,4 pontos, sugerindo que o benefício persiste além do período de tratamento.

Um achado secundário, porém mais tênue, diz respeito à abertura da boca. Dois estudos avaliaram se o laser melhorava a capacidade de abertura interincisal, e os resultados foram mistos: não houve diferença significativa imediatamente após o tratamento, mas sim um mês depois. Como apenas dois estudos contribuíram com esses dados, a qualidade da evidência foi classificada como baixa, e essa observação deve ser interpretada com grande cautela.

É fundamental que pacientes compreendam os limites dessas descobertas. Apesar dos resultados estatisticamente significativos, os autores do estudo foram explicitamente prudentes em suas conclusões. Nenhum dos oito estudos incluídos foi considerado de baixo risco de viés em sua avaliação global; quatro apresentaram risco incerto e quatro, risco alto. Problemas metodológicos incluíam falta de clareza sobre como os pacientes foram randomizados, como foi garantido o sigilo da alocação, e como o cegamento foi conduzido — embora seja tecnicamente fácil cegar pacientes no laser (usando um aparelho idêntico desligado), poucos estudos descreveram essa estratégia adequadamente.

Além disso, a heterogeneidade entre os estudos foi alta, o que significa que os protocolos de laser variaram tanto que fica difícil saber qual configuração exata seria ideal.

A qualidade geral da evidência, segundo o sistema GRADE, foi classificada como moderada para a redução da dor — um nível que indica que pesquisas futuras podem alterar a confiança na estimativa de efeito. Para a abertura da boca, a qualidade foi ainda menor: baixa. Isso não invalida os achados, mas coloca-os em perspectiva: o laser de baixa potência parece promissor, mas ainda não podemos afirmar com certeza absoluta que funcionará para todos, nem qual é o protocolo ideal.

Para o paciente que sofre com dor miofascial na ATM, o que isso significa na prática? Significa que existe uma terapia não invasiva, segura e sem eventos adversos relatados nos estudos, que pode oferecer redução média de cerca de dois pontos numa escala de dor de 0 a 10 — uma melhora que muitas pessoas considerariam perceptível e valiosa em sua qualidade de vida. No entanto, significa também que essa não é uma solução universal: a resposta individual pode variar, o número de sessões e parâmetros do laser ainda não estão padronizados, e a terapia deve ser vista como parte de uma abordagem multidisciplinar que pode incluir outras estratégias conforme orientação médica. A decisão de experimentar o laser deve ser tomada em consulta, considerando o perfil individual de cada paciente, a gravidade dos sintomas e as expectativas realistas sobre o que pode ser alcançado.

O que fortalece a leitura

  • 1primeira meta-análise focada especificamente em dor miofascial da ATM
  • 2análise rigorosa com critérios de inclusão bem definidos
  • 3resultados estatisticamente significativos e clinicamente relevantes
  • 4terapia segura e não invasiva
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1alta heterogeneidade entre os estudos incluídos
  • 2qualidade metodológica variável dos estudos
  • 3protocolos de laser muito diferentes entre si
  • 4amostras pequenas nos estudos individuais

Leitura clínica do estudo

MODERADA
70/ 100
Desenho
3/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

176pessoas avaliadas
divisão dos grupos

laser ativo

88 pessoas

laser de baixa potência com diferentes protocolos

laser placebo

88 pessoas

laser desligado ou com energia muito baixa

⏱️ Tempo de acompanhamento: 2 a 4 semanas de tratamento com seguimento de 3-4 semanas

📊 Resultados em números

2,2 pontos

redução da dor imediatamente após tratamento

2,4 pontos

redução da dor 3-4 semanas após

p=0,005

significância estatística imediata

p=0,022

significância estatística tardia

📊 Comparação de Resultados

redução da dor (escala 0-10)

laser ativo
2.2
laser placebo
0

📅 Linha do tempo da evidência

2006primeiros estudos controlados sobre laser em ATM
2009estabelecimento de critérios diagnósticos para dor miofascial
2014crescimento do interesse em terapias não invasivas
2016busca sistemática da literatura realizada
2018publicação desta meta-análise confirmando eficácia do laser

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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