Estudo científico comentado

Terapia por ondas de choque combinada com injeção em pontos-gatilho reduz dor na síndrome miofascial do trapézio

Referência acadêmica

Periódico

American Journal of Translational Research

Ano

2022

Autores

Anwar et al.

Desenho

estudo clínico randomizado

Este estudo comparou diferentes tratamentos para dor no músculo trapézio (pescoço e ombro). Descobriu-se que combinar ondas de choque com injeção de anestésico local nos pontos doloridos funciona melhor que usar apenas um tratamento. A combinação reduziu mais a dor e deixou o músculo menos rígido. Os tratamentos foram seguros, causando apenas vermelhidão leve e temporária.

Título original do estudo: Combined effectiveness of extracorporeal radial shockwave therapy and ultrasound-guided trigger point injection of lidocaine in upper trapezius myofascial pain syndrome

🔬estudo clínico randomizado👥n=45 participantesevidência positiva
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Em adultos com dor miofascial crônica do trapézio superior, a combinação de ondas de choque com injeção de lidocaína guiada por ultrassom mostrou-se mais eficaz que ondas de choque isoladas ou tratamento convencional após quatro semanas, com boa tolerabilidade

O que isso significa para você?

Este estudo comparou diferentes tratamentos para dor no músculo trapézio (pescoço e ombro). Descobriu-se que combinar ondas de choque com injeção de anestésico local nos pontos doloridos funciona melhor que usar apenas um tratamento. A combinação reduziu mais a dor e deixou o músculo menos rígido. Os tratamentos foram seguros, causando apenas vermelhidão leve e temporária.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1Se você tem dor crônica no pescoço e ombro por tensão muscular, a combinação de ondas de choque com injeção guiada de anestésico local pode ser uma opção a discutir com seu médico,
  • 2A melhora não é imediata, mas pode começar a se notar já na primeira semana, com resultados mais claros ao final de um mês
  • 3O procedimento parece seguro, com efeitos colaterais leves e temporários, mas exige equipamento de ultrassom para guiar a injeção com precisão
  • 4Não espere que uma única sessão resolva: o estudo usou três sessões semanais, e a manutenção com exercícios e postura adequada provavelmente será necessária
  • 5Esta é uma evidência promissora, mas ainda preliminar; seu médico pode avaliar se seu perfil se assemelha ao dos participantes do estudo
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Meus sintomas se encaixam no perfil do estudo — dor crônica no trapézio superior sem problemas estruturais na coluna?
  • 2Há disponibilidade de ultrassom para guiar a injeção neste serviço, já que a precisão parece importante para o resultado?
  • 3Quais são as alternativas se eu preferir não fazer injeções, e qual a evidência para cada uma?
  • 4Como será o acompanhamento após o tratamento, considerando que o estudo só acompanhou por 4 semanas?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Nenhum efeito adverso sério foi observado neste estudo, mas a amostra foi pequena (45 participantes) e o acompanhamento curto (4 semanas), o que limita a detecção de eventos raros
  • 2A injeção de lidocaína, embora geralmente segura, pode causar em raros casos reações de hipersensibilidade ao anestésico local, e a punção sempre carrega risco mínimo de sangrament
  • 3O estudo não incluiu grupo com injeção falsa (placebo), portanto não é possível separar completamente o efeito específico do tratamento de possíveis efeitos de expectativa ou atenç
  • 4A segurança em populações especiais (gestantes, idosos acima de 65 anos, pessoas com doenças sistêmicas) não foi estabelecida, pois estas não foram incluídas no estudo

Leitura rápida para pacientes

Combinar tratamentos pode acelerar o alívio da dor no pescoço

Para quem tem dor persistente no trapézio, juntar ondas de choque com injeção guiada de anestésico mostrou resultado melhor que cada tratamento sozinho em curto prazo

Ponto 1

Melhora da dor e rigidez muscular já na primeira semana, com resultado mais consistente em 4 semanas

Ponto 2

Procedimento seguro, com apenas vermelhidão leve temporária relatada como efeito adverso

Ponto 3

Ainda são necessários estudos maiores e de mais longa duração para confirmar se o benefício se mantém

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRO ESTUDO DESTE TIPO

Primeira pesquisa a combinar ondas de choque radial extracorpórea com injeção de lidocaína guiada por ultrassom para dor miofascial do trapézio superior, usando múltiplas ferramentas objetivas de avaliação simultâneas

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A diferença entre o tratamento combinado e as ondas de choque isoladas foi consistente em múltiplas medidas (dor, função, rigidez), mas o efeito absoluto na escala de dor (aproximadamente 1 ponto a mais de redução) é mod

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um estudo experimental onde os participantes foram divididos aleatoriamente em grupos, o que oferece maior confiança de que as diferenças observadas são realmente devido aos

Participantes randomizados

45

15 em cada um dos 3 grupos do estudo

Participantes que completaram

41

4 abandonos ao longo do estudo (aproximadamente 9%)

Sessões de tratamento ativo

3

Ondas de choque uma vez por semana; controle fez 2 semanas de tratamento convencional

Duração do acompanhamento

4 semanas

Avaliações na baseline, 1 semana e 4 semanas após início

Redução de dor no grupo combinado

~50%

De aproximadamente 6 para 3 pontos na escala visual analógica de 0-10

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Síndrome da dor miofascial do trapézio superior

Tipo de estudo

Ensaio clínico randomizado

Participantes

45 adultos (20-65 anos) com dor cervical crônica >3 meses e pontos-gatilho ativo

Duração

4 semanas de acompanhamento

Sessões

3 sessões de ondas de choque (1 por semana) no grupo combinado; 2 semanas de tra

Comparador

Cuidado padrão com calor e exercícios, e ondas de choque isoladas como comparador ativo

Grupos do estudo

Ondas de choque radialOndas de choque + injeção de lidocaína guiada por ultrassomCuidado padrão (calor e exercícios)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

3 sessões totais

Frequência02

1 vez por semana

Duração da sessão03

Não especificada para ondas de choque; injeção aplicada no mesmo dia sem interva

Pontos / técnica04

1. 000 pulsos de ondas de choque radiais por ponto-gatilho a 5 Hz e 1,2 bar; injeção de 3 ml de lidocaína 0,5% com 0,5% soro fisiológico guiada por ultrassom com agulha de 1,25 pole

Comparador05

Cuidado padrão: terapia com calor e exercícios em dias alternados por 2 semanas, mais orientações para alongamentos e co

Nota de protocolo06

Todos os grupos receberam orientação para exercícios em casa e correção postural; no grupo combinado, ambas as intervenções foram aplicadas no mesmo dia

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos de 20 a 65 anos com dor no pescoço há mais de 3 mesesPessoas com um ou dois pontos-gatilho ativos em ambos os lados do trapézio superiorPacientes com intensidade de dor ≥3 na escala visual analógica de 0 a 10Indivíduos sem alterações estruturais significativas na coluna cervicalParticipantes que não estavam em tratamento fisioterápico ou medicamentoso ativoPessoas sem histórico de cirurgia na coluna

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Pessoas com dor aguda de pescoço (menos de 3 meses)Pacientes com hérnia de disco, artrite, espondilolistese, tumores ou fraturas na colunaIndivíduos com radiculopatia ou lesões de raízes nervosasQuem já fazia outro tratamento físico ou usava medicação para a dorPessoas que passaram por cirurgia na coluna vertebral

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Intensidade da dor

reduziu significativamente

O grupo combinado teve maior redução na escala visual analógica do que o controle e o grupo de ondas de choque isoladas em 4 semanas

🔄

Capacidade funcional do pescoço

melhorou significativamente

NDI reduziu mais nos grupos ativos que no controle, com melhora progressiva apenas no grupo combinado entre 1 e 4 semanas

🧱

Rigidez elástica do músculo

reduziu significativamente

Sonoelastografia mostrou menor rigidez no grupo combinado já na 1ª semana, com redução progressiva até 4 semanas; grupo de ondas de choque só diferiu do controle em 4 semanas

🌡️

Temperatura da pele sobre o músculo

diminuiu significativamente

Redução da temperatura em grupos de ondas de choque e combinado, interpretada como melhora da circulação e relaxamento muscular

O que não mudou

  • Atividade elétrica muscular medida por eletromiografia de superfície não mostrou diferença entre grupos ou ao longo do tempo
  • Não houve comparação com grupo que recebesse apenas injeção de lidocaína, impedindo saber se a vantagem do combinado vem da adição das ondas de choque
  • Não foi avaliada amplitude de movimento cervical de forma sistemática como desfecho principal

Quando a melhora apareceu

1

1 semana

Primeira semana

O grupo combinado já mostrava redução significativa de dor e rigidez muscular em comparação ao controle; o grupo de ondas de choque isoladas ainda não diferia do controle na maiori

2

4 semanas

Quatro semanas

Todos os grupos ativos superaram o controle em dor e função, com vantagem estatística do combinado sobre as ondas de choque isoladas; melhora contínua da rigidez muscular apenas no

Antes e depois

Dor média (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes6 pontos
Depois3 pontos

Dor média (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes6 pontos
Depois4 pontos

Dor média (escala 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes6 pontos
Depois6 pontos

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Nenhum efeito adverso sério relatado em nenhum dos três grupos
  • Apenas vermelhidão local leve e temporária após injeção, sem necessidade de intervenção
  • Ondas de choque com perfil de segurança conhecido e bem estabelecido na literatura
Amarelo
  • Injeção invasiva requer técnica guiada por imagem para precisão e segurança
  • Possível desconforto durante a aplicação das ondas de choque em alguns pacientes
  • Uso de anestésico local com potencial, embora raro, de reações individuais
Vermelho
  • Estudo não incluiu grupo com injeção falsa (placebo), limitando a avaliação de efeitos específicos versus não específicos
  • Seguimento de apenas 4 semanas não permite afirmar segurança a longo prazo da combinação
  • Amostra pequena pode não detectar eventos adversos raros

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor crônica no pescoço e ombro por mais de 3 meses, com pontos-gatilho palpáveis no trapézio superior
  • Pessoas que não têm alterações estruturais na coluna cervical (sem hérnia, fraturas, tumores ou doenças reumáticas)
  • Pacientes que não obtiveram alívio satisfatório com tratamentos conservadores simples como calor e exercícios
  • Indivíduos sem contraindicações para procedimentos com anestésicos locais ou ondas de choque
  • Pessoas motivadas a seguir orientações de exercícios em casa e correção postural

Mais cautela para extrapolar

  • Pessoas com dor aguda de pescoço (menos de 3 meses) ou quadros de origem claramente neuropática
  • Pacientes com doenças estruturais da coluna cervical que exigem abordagem específica
  • Indivíduos em uso de anticoagulantes ou com distúrbios de coagulação, para os quais injeções podem ter risco aumentado
  • Gestantes ou lactantes, populações não incluídas e para as quais a segurança não foi estabelecida
  • Pessoas com expectativa de cura definitiva ou que não aceitem a necessidade de múltiplas sessões e manutenção

Expectativa realista

Melhora gradual em algumas semanas

Com a combinação de ondas de choque e injeção guiada, muitos pacientes podem esperar redução da dor e maior facilidade para movimentar o pescoço e ombros, com possível sensação de músculo menos tenso

Tempo provável

Primeiros sinais de melhora podem aparecer já na primeira semana; benefício mais consistente observado após 4 semanas

Este estudo acompanhou os participantes por apenas 4 semanas, então não se sabe quanto tempo a melhora dura; manutenção com exercícios e hábitos posturais prova

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se seus sintomas se enquadram no perfil estudado: dor crônica no trapézio superior sem sinais de comprometimento nervoso ou estrutural
  2. 2Discutir se já tentou tratamentos mais simples (exercícios, calor, postura) e qual foi o resultado
  3. 3Questionar sobre a disponibilidade de ultrassom para guiar a injeção, pois a precisão da técnica parece importante para o resultado
  4. 4Perguntar quantas sessões seriam necessárias e qual o custo, já que o estudo usou 3 sessões semanais
  5. 5Solicitar esclarecimentos sobre possíveis contraindicações pessoais, especialmente se usa anticoagulantes ou tem alergia a anestésicos locais

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Ondas de choque sozinhas são sempre suficientes para dor miofascial

Achado

As ondas de choque foram melhores que o tratamento convencional, mas a combinação com injeção de lidocaína mostrou resultados superiores em dor, função e rigidez muscular

Mito

Injeções em pontos-gatilho funcionam apenas como 'máscara' da dor

Achado

A injeção guiada por ultrassom, combinada com ondas de choque, foi associada a mudanças objetivas na rigidez do músculo medida por elastografia, sugerindo efeito estrutural além do analgésico imediato

Mito

Qualquer profissional pode fazer injeção em ponto-gatilho com os mesmos resultados

Achado

O estudo enfatiza o uso de ultrassom para guiar a injeção, visando precisão anatômica e segurança; a técnica cega não foi testada nesta pesquisa

Mito

Se a dor melhorar, o músculo está necessariamente funcionando melhor eletricamente

Achado

Apesar da melhora clínica, a eletromiografia de superfície não detectou mudanças na atividade elétrica muscular, indicando que nem toda melhora percebida se reflete em todos os parâmetros fisiológicos medidos

Como isso pode funcionar

🎯

LOCALIZAÇÃO PRECISA

O ultrassom identifica o ponto-gatilho no trapézio superior, que aparece como área alterada na imagem, permitindo aplicação exata tanto da injeção quanto das ondas de choque — mecanismo bem estabelecido clinicamente

💉

INTERVENÇÃO QUÍMICA E MECÂNICA

A injeção de lidocaína pode bloquear temporariamente sinais dolorosos e, pelo efeito mecânico da agulha, ajudar a desfazer a contração sustentada das fibras musculares — mecanismo proposto, não totalmente comprovado

ESTÍMULO MECÂNICO DAS ONDAS DE CHOQUE

As ondas de choque radiais promovem estímulo mecânico que pode melhorar a circulação local, reduzir substâncias inflamatórias e estimular reparo tecidual — mecanismo sugerido por estudos prévios, com evidência moderada

🔄

SINERGIA PROPOSTA

A combinação teórica seria: a injeção proporciona alívio mais rápido e preciso, enquanto as ondas de choque mantêm e potencializam o efeito — esta sinergia é uma hipótese dos autores, ainda não confirmada por mecanismos

O que ainda é incerto

  • ?Não se sabe se a vantagem do tratamento combinado persiste por mais de 4 semanas, pois não houve acompanhamento de médio ou longo prazo
  • ?Faltou um grupo que recebesse apenas injeção de lidocaína, o que impede saber se a combinação é superior à injeção isolada ou se as ondas de choque ac
  • ?A atividade elétrica muscular não mudou em nenhum grupo, levantando dúvidas sobre se os tratamentos realmente alteram a fisiologia do ponto-gatilho ou
  • ?O estudo foi realizado em um único centro na China, e não se sabe se os resultados se reproduziriam em outras populações e contextos de atenção
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar se combinar ondas de choque com injeção em pontos-gatilho é mais eficaz que cada tratamento isolado para dor no músculo trapézio

👥

QUEM PARTICIPOU

45 pessoas com dor no pescoço e ombro por mais de 3 meses, com pontos-gatilho no trapézio superior

🧪

COMO FOI FEITO

Três grupos: ondas de choque, tratamento combinado e cuidado padrão, avaliados por 4 semanas

📈

O QUE MUDOU

Tratamento combinado reduziu mais a dor e rigidez muscular comparado aos outros grupos

🛟

SEGURANÇA

Nenhum efeito adverso sério relatado, apenas leve vermelhidão local temporária

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

MULTIMODALIDADE OBJETIVA

O estudo usou cinco ferramentas de avaliação diferentes simultaneamente — dor, função, rigidez muscular, temperatura da pele e atividade elétrica — algo incomum e que permite ver a condição por ângulos distintos

🧭

GUIAGEM POR IMAGEM COMO PADRÃO

A injeção foi feita sob ultrassom, não às cegas, elevando a precisão e a reprodutibilidade; isto reforça a tendência de que procedimentos em pontos-gatilho beneficiam-se de imagem em tempo real

📌

RIGIDEZ MUSCULAR MENSURÁVEL

A sonoelastografia mostrou que o músculo ficou objetivamente menos rígido no grupo combinado, dando suporte físico à sensação de 'alívio da tensão' que pacientes relatam

🔍

LACUNA INESPERADA

Apesar da melhora clínica clara, a eletromiografia de superfície não capturou mudança alguma, sugerindo que nossa compreensão sobre como os pontos-gatilho respondem a tratamentos ainda está incompleta

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Terapia por ondas de choque combinada com injeção em pontos-gatilho reduz dor na síndrome miofascial do trapézio

A síndrome da dor miofascial é uma das principais causas de dor no pescoço e ombro, especialmente em quem passa muitas horas sentado, dirigindo ou usando dispositivos eletrônicos. Nessa condição, aparecem pontos doloridos e tensos nos músculos — chamados pontos-gatilho — que podem irradiar dor, limitar movimentos e comprometer a qualidade de vida. O músculo trapézio superior, que liga o pescoço aos ombros, é particularmente vulnerável por sua função de sustentar a cabeça e estabilizar a região cervical.

Este estudo chinês, publicado em 2022 no American Journal of Translational Research, investigou uma abordagem combinada para esse problema: a aplicação de ondas de choque extracorpóreas radiais junto com injeção de anestésico local (lidocaína) nos pontos-gatilho, guiada por ultrassom. A pergunta central era simples e prática: será que juntar dois tratamentos conhecidos seria melhor do que usar cada um separadamente?

Para responder, os pesquisadores recrutaram 45 participantes com dor cervical crônica — definida como dor persistente há mais de três meses — e pelo menos um ou dois pontos-gatilho ativos no trapézio superior. Os critérios de exclusão foram rigorosos: não entraram no estudo pessoas com dor aguda, problemas na coluna cervical como hérnias, artrite, tumores ou fraturas, nem quem já estava fazendo outro tratamento fisioterápico ou tinha passado por cirurgia na coluna. Essa seleção cuidadosa ajuda a isolar o efeito dos tratamentos sobre a dor miofascial pura, sem confusão com outras condições estruturais.

Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos de 15 pessoas cada. O primeiro grupo recebeu apenas terapia por ondas de choque: 1. 000 pulsos por ponto-gatilho, com frequência de 5 Hz e intensidade de 1,2 bar, aplicados uma vez por semana durante três semanas. O segundo grupo recebeu a mesma dose de ondas de choque, mas imediatamente antes era feita uma injeção de 3 ml de lidocaína a 0,5% no ponto-gatilho, guiada por ultrassom para garantir precisão.

O terceiro grupo, de controle, fez o tratamento convencional: terapia com calor e exercícios supervisionados, realizados em dias alternados durante duas semanas. Todos receberam orientações para exercícios em casa e correção postural.

As avaliações foram feitas antes do tratamento, após uma semana e após quatro semanas, usando cinco ferramentas diferentes: escala visual de dor (VAS), índice de incapacidade cervical (NDI), eletromiografia de superfície, termografia infravermelha e sonoelastografia por ondas de cisalhamento — esta última capaz de medir a rigidez elástica do músculo de forma objetiva. A combinação de tantos métodos de avaliação é um diferencial do estudo, pois vai além da simples pergunta "melhorou ou não? " e tenta capturar mudanças reais na estrutura e função muscular.

Os resultados mostraram que todos os grupos melhoraram em alguma medida, mas em ritmos e intensidades diferentes. Após uma semana, apenas o grupo combinado já apresentava redução significativa de dor em comparação ao controle. Após quatro semanas, tanto o grupo de ondas de choque isolado quanto o grupo combinado tinham menos dor que o controle, mas a redução era maior no grupo combinado — e essa diferença era estatisticamente significativa também em comparação ao grupo de ondas de choque sozinhas. Na prática, isso sugere que a injeção de lidocaína potencializou o efeito das ondas de choque.

A incapacidade funcional, medida pelo NDI, seguiu padrão semelhante: ambos os grupos ativos superaram o controle em uma e quatro semanas, com vantagem do combinado, que foi o único a mostrar melhora contínua entre a primeira e a quarta semana. A rigidez muscular, avaliada pela sonoelastografia, também cedeu mais no grupo combinado, com redução significativa já na primeira semana e progressão até o final do acompanhamento. A temperatura da pele sobre o músculo, medida por termografia, diminuiu nos grupos de ondas de choque e combinado — o que os autores interpretam como sinal de relaxamento muscular e melhora da circulação, com redução dos estímulos químicos que mantêm a dor.

Há, porém, um resultado negativo importante: a atividade elétrica muscular, medida por eletromiografia de superfície, não mudou em nenhum grupo. Os autores admitem que essa ferramenta pode não ser sensível o suficiente para capturar as alterações dos pontos-gatilho, sugerindo que estudos futuros deveriam usar eletromiografia de agulha, mais invasiva porém mais precisa para esse fim.

Sobre segurança, o estudo é tranquilizador: nenhum efeito adverso sério foi relatado em nenhum dos grupos. Alguns participantes do grupo combinado mencionaram vermelhidão leve e sensibilidade local após a injeção, mas esses sintomas foram temporários e autolimitados. As ondas de choque também têm perfil de segurança favorável, com eventuais relatos de dor durante a aplicação, vermelhidão ou pequenos hematomas em outros estudos.

As limitações do estudo devem ser consideradas com atenção. A amostra de 45 participantes é pequena, e apenas 41 completaram todas as avaliações. O acompanhamento de quatro semanas é curto para uma condição crônica — não sabemos se os benefícios se manteriam por meses. Além disso, faltou um quarto grupo que recebesse apenas a injeção de lidocaína, o que impediria saber se a vantagem do combinado vem da adição das ondas de choque ou se a injeção sozinha já seria superior.

A ausência de grupo com injeção falsa (placebo) também limita a interpretação sobre efeitos específicos versus expectativa.

Para pacientes com dor miofascial do trapézio superior, este estudo oferece uma mensagem prática: a combinação de ondas de choque com injeção guiada de anestésico local parece acelerar e potencializar a melhora da dor e da rigidez muscular, comparada tanto ao tratamento convencional quanto às ondas de choque isoladas. No entanto, trata-se de uma única pesquisa de pequeno porte e curta duração, que precisa ser confirmada por estudos maiores e com seguimento mais prolongado antes de se tornar recomendação definitiva. A decisão pelo tratamento combinado deve ser individualizada, considerando a gravidade dos sintomas, resposta a tratamentos anteriores, preferências do paciente e avaliação cuidadosa de contraindicações.

O que fortalece a leitura

  • 1Primeiro estudo a combinar esses dois tratamentos específicos
  • 2Usou múltiplas ferramentas objetivas de avaliação (ultrassom, elastografia)
  • 3Injeção guiada por ultrassom para maior precisão
  • 4Avaliação em múltiplas dimensões da dor miofascial
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Amostra pequena (45 participantes)
  • 2Seguimento de apenas 4 semanas
  • 3Não incluiu grupo apenas com injeção
  • 4Não detectou mudanças na atividade elétrica muscular

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
2/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

45pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Ondas de choque

15 pessoas

Terapia por ondas de choque radial

Combinado

15 pessoas

Ondas de choque + injeção de lidocaína guiada por ultrassom

Controle

15 pessoas

Cuidado padrão (calor e exercícios)

⏱️ Tempo de acompanhamento: 4 semanas

📊 Resultados em números

Significativa vs controle

Redução da dor (grupo combinado)

Significativa vs outros grupos

Melhora da incapacidade funcional

Maior no grupo combinado

Redução da rigidez muscular

Significativa em 4 semanas

Diminuição da temperatura da pele

📊 Comparação de Resultados

Intensidade da dor (escala visual analógica)

Controle
6
Ondas de choque
4
Combinado
3

📅 Linha do tempo da evidência

2010Primeiros estudos com ultrassom para localizar pontos-gatilho
2012Evidências da eficácia das ondas de choque em dor miofascial
2018Desenvolvimento da elastografia por ondas de cisalhamento
2022Primeiro estudo combinando ondas de choque radial com injeção guiada por ultrassom

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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