Estudo científico comentado

Terapia por ondas de choque radiais para síndrome de dor miofascial: estudo controlado duplo-cego

Referência acadêmica

Periódico

BMC Musculoskeletal Disorders

Ano

2025

Autores

Ogbeivor et al.

Desenho

ensaio clínico randomizado

Ambos os grupos apresentaram melhora clinicamente significativa na dor e sensibilidade muscular. Isso sugere que os exercícios podem ter um papel importante no tratamento, e as ondas de choque podem ser usadas como complemento seguro ao cuidado padrão.

Título original do estudo: The effectiveness of radial shockwave therapy on myofascial pain syndrome: a two-armed, randomized double-blind placebo-controlled trial

🎯ensaio clínico randomizado👥n=70 participantes⚖️equivalência entre grupos
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

Ondas de choque radiais somadas a exercícios não superaram placebo somado aos mesmos exercícios para dor miofascial cervical: ambos melhoraram igualmente, sugerindo que os exercícios terapêuticos são provavelmente o componente ativo mais importante do tratamen

O que isso significa para você?

Ambos os grupos apresentaram melhora clinicamente significativa na dor e sensibilidade muscular. Isso sugere que os exercícios podem ter um papel importante no tratamento, e as ondas de choque podem ser usadas como complemento seguro ao cuidado padrão.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1A dor miofascial cervical pode melhorar significativamente com tratamento estruturado, mas a tecnologia de ondas de choque não demonstrou vantagem sobre um placebo convincente
  • 2Os exercícios terapêuticos regulares parecem ser o componente mais importante do tratamento — dedicar tempo a eles é essencial
  • 3A terapia por ondas de choque é segura e pode ser oferecida como complemento, mas não como substituto dos cuidados fundamentais
  • 4A melhora tende a aparecer gradualmente, nas primeiras 4 semanas, e pode continuar evoluindo até 12 semanas
  • 5Cada pessoa responde de forma individual; se não houver melhora em 6-8 semanas de tratamento consistente, é importante reavaliar a abordagem com o médico
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Meus sintomas se enquadram no tipo de dor miofascial estudado, ou há outras condições que precisam ser investigadas primeiro?
  • 2Qual programa de exercícios terapêuticos seria mais adequado para minha situação específica, e como posso garantir a adesão?
  • 3Há indicação para tentar ondas de choque como adjuvante, considerando meu histórico, custos e expectativas?
  • 4Se não houver melhora em 8-12 semanas, quais seriam os próximos passos e alternativas de tratamento?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1O estudo relatou excelente tolerabilidade: apenas sensibilidade temporária em 2 pacientes, sem gravidade
  • 2Não há dados de segurança para populações excluídas do estudo: gestantes, crianças, pacientes com distúrbios de coagulação, implantes cardíacos ou cirurgia recente na região
  • 3A terapia deve ser aplicada sobre pele íntegra, com técnica asséptica, e a resposta ao tratamento deve ser monitorada
  • 4A segurança de doses mais altas ou número maior de sessões não foi testada neste estudo

Leitura rápida para pacientes

Exercícios parecem ser a chave

Neste estudo, quem fez ondas de choque + exercícios melhorou igual a quem fez placebo + exercícios. A melhora veio, mas provavelmente dos exercícios.

Ponto 1

Faça os exercícios terapêuticos com consistência — eles parecem ser o que realmente ajuda

Ponto 2

Ondas de choque são seguras, mas não se espera milagre da tecnologia sozinha

Ponto 3

Converse com seu médico sobre expectativas realistas e prazo para reavaliação

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRO PLACEBO ADEQUADO

Este é um dos primeiros ensaios rigorosos com placebo psicologicamente convincente (mesmo som, aparência idêntica) para ondas de choque radiais em dor miofascial cervical, mostrando que resultados anteriores positivos po

Aplicabilidade clínica

Sinal discreto

A diferença entre os grupos foi inexistente ou mínima; a melhora observada parece atribuível principalmente aos exercícios e ao efeito placebo, não à energia das ondas de choque em si. O valor prático está em reforçar a

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este é um dos desenhos de estudo mais confiáveis para avaliar tratamentos, pois compara grupos equivalentes de forma imparcial, embora limitações de tamanho amostral e perdas de se

n de pacientes randomizados

70

34 ondas de choque, 36 placebo; meta original era 120

redução de dor no placebo

3,6 pontos

na escala 0-10, superando a meta de melhora mínima de 2 pontos

redução de dor nas ondas de choque

2,3 pontos

também clinicamente significativa, mas inferior ao placebo

sessões de tratamento

6

uma por semana, com exercícios diários em casa

perda de seguimento

29%

20 dos 70 participantes não completaram as avaliações

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Síndrome de dor miofascial no pescoço e parte superior das costas

Tipo de estudo

Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo

Participantes

70 adultos (34 no grupo ondas de choque, 36 no placebo), maioria do sexo masculi

Duração

12 semanas de acompanhamento após 6 sessões de tratamento

Sessões

6 sessões semanais

Comparador

Placebo ativo com som idêntico e dose subterapêutica de 0,3 bar

Grupos do estudo

Ondas de choque radiais + exercíciosPlacebo (baixa energia) + exercícios

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

6 sessões no total

Frequência02

1 vez por semana

Duração da sessão03

Consulta inicial de 45 minutos; sessões de acompanhamento de 30 minutos

Pontos / técnica04

Aplicação direta sobre pontos-gatilho identificados por resposta de salto, usando transdutor de 20 mm; 2000 pulsos a 15 Hz e 1,5 bar no grupo ativo, 0,3 bar no placebo

Comparador05

Placebo com mesmo som, aparência e protocolo de exercícios, mas energia subterapêutica

Nota de protocolo06

Ambos os grupos receberam idêntico programa de alongamentos e exercícios para casa, incluindo gato-camelo, deslizamento de braço na parede, flexões adaptadas e rotação cervical (10

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Adultos com 19 anos ou mais e dor localizada no pescoço ou parte superior das costasPessoas com pontos-gatilho miofasciais palpáveis e dor à pressão na região lateral ou posterior do pescoçoIndivíduos capazes de realizar exercícios terapêuticos e dar consentimento informadoPacientes com sintomas de duração variada, desde algumas semanas até anosMaioria de homens (74% da amostra) em contexto de hospital terciário na Arábia SauditaPessoas em uso ou não de analgésicos e anti-inflamatórios

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Menores de 19 anos, gestantes ou pessoas com histórico de câncerPacientes com cirurgia de pescoço ou ombro no último ano, implantes metálicos ou marcapassoPessoas com fibromialgia, radiculopatia cervical, doenças reumáticas ou cardiovascularesIndivíduos em terapia anticoagulante ou com distúrbios de coagulação como hemofiliaQuem não pôde comparecer às sessões semanais ou completar o seguimento de 12 semanas

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Intensidade da dor

melhorou em ambos os grupos

Redução de 2,3 a 3,6 pontos na escala 0-10, considerada clinicamente significativa (meta de 2 pontos)

👆

Limiar de pressão dolorosa

melhorou em ambos os grupos

Aumento de aproximadamente 0,5-0,6 kg/cm² na tolerância à pressão sobre pontos-gatilho

🔄

Incapacidade cervical

melhorou principalmente no placebo

Placebo: melhora em todos os momentos; ondas de choque: apenas nas primeiras 4 semanas

🏃

Qualidade de vida física

melhorou no grupo placebo

Ganho significativo no SF-12 físico entre 8 e 12 semanas apenas no grupo controle

O que não mudou

  • Não houve diferença estatística ou clinicamente significativa entre os dois grupos em nenhum momento
  • A qualidade de vida mental (SF-12 mental) não mudou significativamente em nenhum dos grupos
  • O grupo de ondas de choque não manteve a melhora na incapacidade cervical além das 4 semanas iniciais

Quando a melhora apareceu

1

4 semanas

Primeira avaliação

Ambos os grupos já mostravam redução significativa na dor e melhora no limiar de pressão dolorosa

2

8 semanas

Segunda avaliação

Melhora sustentada na dor e pressão dolorosa; grupo placebo mostrou ganho adicional em qualidade de vida física

3

12 semanas

Avaliação final

Melhora máxima no grupo placebo (3,6 pontos de redução de dor); melhora persistente mas menor no grupo ondas de choque (2,3 pontos)

Antes e depois

Dor (escala 0-10) — Grupo ondas de choque

escala máx. 10 pontos

Antes6.9 pontos
Depois4.6 pontos

Dor (escala 0-10) — Grupo placebo

escala máx. 10 pontos

Antes7.1 pontos
Depois3.5 pontos

Limiar de pressão dolorosa — Grupo ondas de choque

escala máx. 5 kg/cm²

Antes2.4 kg/cm²
Depois3.1 kg/cm²

Limiar de pressão dolorosa — Grupo placebo

escala máx. 5 kg/cm²

Antes2.8 kg/cm²
Depois3.4 kg/cm²

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Apenas 2 pacientes relataram sensibilidade temporária no local do tratamento
  • Nenhum evento adverso grave foi documentado
  • Nenhuma desistência ocorreu por causa de efeitos colaterais
Amarelo
  • A taxa de perda de seguimento de 29% é mais alta que o ideal, o que introduz incerteza nos resultados
  • O placebo de 0,3 bar pode ter tido efeito fisiológico mínimo não previsto, embora considerado subterapêutico na literatura
Vermelho
  • A amostra foi menor que o planejado (70 vs 120), reduzindo a confiabilidade das conclusões negativas
  • Não há dados de segurança para uso em gestantes, crianças, pacientes com distúrbios de coagulação ou com implantes — populações excluídas do estudo

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Adultos com dor miofascial cervical persistente e pontos-gatilho palpáveis
  • Pessoas motivadas a realizar exercícios terapêuticos regulares em casa
  • Pacientes que já tentaram outras modalidades sem sucesso satisfatório
  • Indivíduos sem contraindicações como anticoagulação, implantes ou cirurgia recente na região

Mais cautela para extrapolar

  • Gestantes ou pessoas com suspeita de gravidez
  • Pacientes com fibromialgia, radiculopatia cervical ou doenças sistêmicas reumáticas
  • Quem não consegue dedicar tempo às sessões semanais e ao programa de exercícios
  • Pessoas em busca de tratamento único e exclusivo, sem disposição para autocuidado ativo
  • Indivíduos com expectativa de resultado superior ao placebo, dado que o estudo não demonstrou vantagem adicional

Expectativa realista

Melhora possível, mas não garantida pela tecnologia

Você pode experimentar redução da dor e maior tolerância à pressão muscular, especialmente se combinado com exercícios regulares. Porém, o estudo sugere que essa melhora pode ocorrer independentemente do uso das ondas de choque em dose tera

Tempo provável

Alguma melhora pode aparecer já nas primeiras 4 semanas; o pico de benefício no placebo ocorreu entre 8 e 12 semanas

Os resultados individuais variam, e a evidência atual não permite afirmar que as ondas de choque acrescentam benefício além dos exercícios e do efeito placebo

Checklist para consulta

  1. 1Pergunte se seus sintomas se enquadram no perfil estudado: dor miofascial cervical com pontos-gatilho, sem complicações neurológicas ou sistêmicas
  2. 2Discuta se você está disposto e apto a realizar o programa de exercícios terapêuticos, que parece ser o componente mais ativo do tratamento
  3. 3Questione sobre contraindicações pessoais: uso de anticoagulantes, implantes, cirurgias recentes, gestação ou doenças associadas
  4. 4Avalie o custo-benefício da terapia por ondas de choque como adjuvante, considerando que o estudo não demonstrou superioridade sobre placebo
  5. 5Peça orientação sobre expectativas realistas e prazo para reavaliação se não houver melhora

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Ondas de choque são claramente superiores a placebo para dor miofascial

Achado

O estudo não encontrou diferença significativa entre ondas de choque terapêuticas e placebo de baixa energia quando ambos foram combinados com exercícios

Mito

A tecnologia sozinha resolve a dor miofascial

Achado

A melhora ocorreu em ambos os grupos, sugerindo fortemente que os exercícios terapêuticos e possivelmente o efeito placebo são responsáveis principais pela melhora

Mito

Quanto mais energia, melhor o resultado

Achado

O grupo com dose mais alta (1,5 bar) não superou o grupo com dose mínima (0,3 bar); na verdade, o grupo placebo teve tendência a melhor desfechos em algumas medidas

Mito

O tratamento é rápido e não requer esforço do paciente

Achado

Foram necessárias 6 sessões semanais mais exercícios domiciliares regulares, e a melhora máxima só se observou após 12 semanas

Como isso pode funcionar

🔊

ESTÍMULO MECÂNICO

O dispositivo emite ondas acústicas que penetram na pele e atingem os tecidos musculares — o mecanismo exato de ação na dor miofascial ainda não é completamente compreendido

🩸

EFEITOS PROPOSTOS

Teoricamente, poderia aumentar o fluxo sanguíneo local, modular substâncias relacionadas à dor e promover mudanças microestruturais, mas estes efeitos não foram confirmados como clinicamente relevantes neste estudo

🧠

COMPONENTE PLACEBO

O som e a sensação do procedimento podem ativar mecanismos de modulação da dor no sistema nervoso central — este componente parece ter contribuído substancialmente para a melhora observada

💪

EXERCÍCIOS TERAPÊUTICOS

O componente mais robustamente associado à melhora: movimentação regular, fortalecimento e alongamento dos músculos cervicais e escapulares

O que ainda é incerto

  • ?A amostra de 70 participantes foi consideravelmente menor que os 120 planejados, reduzindo a capacidade de detectar diferenças menores entre os grupos
  • ?A taxa de 29% de perda de seguimento, embora tratada estatisticamente, pode ter distorcido os resultados finais em direções imprevisíveis
  • ?Não está claro se uma dose diferente de ondas de choque, outro número de sessões ou técnica de aplicação poderia produzir resultados distintos
  • ?A generalização para outras regiões do corpo, outras faixas etárias ou contextos culturais diferentes do estudo (Arábia Saudita, maioria masculina) é
🎯

O que o estudo quis responder

Comparar ondas de choque radiais com placebo para dor miofascial no pescoço e parte superior das costas

👥

QUEM PARTICIPOU

70 adultos com síndrome de dor miofascial no pescoço e parte superior das costas

📈

O QUE MUDOU

Ambos os grupos melhoraram igualmente na dor e limiar de pressão dolorosa

🛟

SEGURANÇA

Apenas 2 pacientes relataram sensibilidade temporária, sem eventos adversos graves

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

PLACEBO BEM ENGANOSO

Os pesquisadores criaram um placebo com som idêntico e aparência idêntica, difícil de distinguir do tratamento real — isso eleva a qualidade da evidência e sugere que estudos anteriores menos rigorosos podem ter superest

🧭

EXERCÍCIOS COMO PILAR

Pela primeira vez em um desenho duplo-cego robusto, a evidência aponta que o programa de exercícios terapêuticos, não a energia das ondas de choque, pode ser o verdadeiro motor da recuperação na dor miofascial cervical

📌

MELHORA DURADOURA, MAS NÃO ESPECÍFICA

A melhora se manteve por 12 semanas em ambos os grupos, o que é clinicamente relevante — mas como ocorreu igualmente com placebo, abre questões sobre como alocar recursos de forma mais eficiente no tratamento

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Terapia por ondas de choque radiais para síndrome de dor miofascial: estudo controlado duplo-cego

A síndrome de dor miofascial é uma condição extremamente prevalente, estimada em afetar entre 30% e 93% das pessoas que experimentam dor musculoesquelética ao longo da vida, com especial incidência na região do pescoço e ombros. Caracteriza-se pela presença de pontos-gatilho musculares dolorosos e hiperirritáveis, que podem causar dor localizada, tensão muscular, distúrbios do sono, limitação funcional e impacto significativo na qualidade de vida e na capacidade de trabalho. Diante da multiplicidade de tratamentos disponíveis — que incluem desde massagens e laser de baixa intensidade até injeções e terapias manuais — ainda não existe consenso claro sobre qual abordagem oferece melhores resultados, o que motiva a busca contínua por evidências de alta qualidade para orientar as decisões clínicas. Neste contexto, a terapia por ondas de choque radiais tem ganhado atenção como opção não invasiva.

O dispositivo emite pulsos acústicos que se propagam pela pele em direção aos tecidos afetados, com a proposta de estimular a circulação local, modificar a sinalização da dor e promover reparação tecidual através de mecanismos que incluem aumento do fluxo sanguíneo, alterações microestruturais e liberação de substâncias como substância P e prostaglandina E2. Apesar de sua popularidade crescente, os estudos anteriores apresentavam limitações metodológicas importantes: amostras pequenas, ausência de grupos placebo adequados, falta de seguimento em médio prazo e heterogeneidade nos protocolos de aplicação. O estudo de Ogbeivor e colaboradores, publicado em 2025 na BMC Musculoskeletal Disorders, foi desenhado especificamente para preencher essa lacuna com rigor científico. Trata-se de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado o padrão-ouro para avaliar intervenções terapêuticas.

Foram recrutados 70 adultos com diagnóstico de síndrome de dor miofascial no pescoço e parte superior das costas, todos com pontos-gatilho palpáveis confirmados por resposta de contração local, dor persistente e idade igual ou superior a 19 anos. Os critérios de exclusão foram cuidadosos, excluindo condições que pudessem confundir os resultados, como histórico de câncer, uso de anticoagulantes, implantes metálicos, cirurgia recente na região, fibromialgia, radiculopatia cervical, gravidez e diversas doenças sistêmicas. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: 34 receberam ondas de choque radiais em dose terapêutica (1,5 bar, equivalente a 0,068 mJ/mm², com 2000 pulsos a 15 Hz, aplicados com transdutor de 20 mm diretamente sobre os pontos-gatilho identificados) e 36 receberam placebo (0,3 bar, ou 0,01 mJ/mm², uma dose considerada não terapêutica, embora ainda produzisse som para manter a credibilidade psicológica do procedimento). A randomização foi realizada por computador com blocos permutados e alocação oculta em envelopes selados, e tanto os participantes quanto os avaliadores de desfechos permaneceram cegos ao longo de todo o estudo.

Ambos os grupos realizaram o mesmo protocolo de alongamentos e exercícios terapêuticos, incluindo movimentos como gato-camelo em posição de quadrúpede, deslizamento de braço na parede, flexões adaptadas (de parede, modificadas no chão e padrão conforme tolerância), rotação cervical e adução horizontal de ombros. Cada exercício era realizado em 10 a 15 repetições, 2 séries, 3 a 4 vezes por semana em casa. O tratamento compreendeu seis sessões semanais de 30 minutos, com avaliações realizadas no início e após 4, 8 e 12 semanas. Os desfechos primários incluíram escala numérica de dor de 0 a 10, índice de incapacidade cervical (NDI, de 0 a 50 pontos), limiar de pressão dolorosa medido com algômetro digital e qualidade de vida pelo SF-12 (aspectos físicos e mentais).

Os resultados revelaram uma surpresa importante: ambos os grupos melhoraram significativamente, mas de maneira praticamente equivalente. Na escala numérica de dor, o grupo placebo reduziu a dor em média 2,4 pontos até a 4ª semana, 2,6 pontos até a 8ª semana e 3,6 pontos até a 12ª semana, todas com significância estatística. O grupo de ondas de choque reduziu 1,9, 2,1 e 2,3 pontos nos mesmos intervalos, também significativos, mas numericamente inferiores ao placebo em todos os momentos. A diferença entre os grupos não atingiu significância estatística em nenhum ponto, exceto um valor isolado de p = 0,047 na comparação da redução de dor entre 0 e 12 semanas, que deve ser interpretado com cautela dada a multiplicidade de comparações.

O limiar de pressão dolorosa melhorou aproximadamente 0,5 a 0,6 pontos em ambos os grupos de forma semelhante. Quanto à incapacidade cervical, o grupo placebo mostrou melhora consistente e significativa em todos os momentos (6,5 pontos às 4 semanas, 6,1 às 8 semanas e 8,2 às 12 semanas), enquanto o grupo de ondas de choque apresentou melhora significativa apenas nas primeiras 4 semanas (5,6 pontos), perdendo a significância nas avaliações posteriores. A qualidade de vida física, medida pelo SF-12, melhorou significativamente no grupo placebo entre 8 e 12 semanas, sem alteração correspondente no grupo ativo. Nenhuma característica basal como idade, sexo ou duração dos sintomas predisse os resultados.

A interpretação desses achados exige cautela e consideração de múltiplos fatores. A melhora expressiva no grupo placebo pode refletir o efeito placebo propriamente dito, a resposta natural da condição ao longo do tempo, e especialmente os exercícios terapêuticos realizados por todos os participantes, que podem ter sido o verdadeiro motor da recuperação. Os autores levantam a hipótese de que até mesmo a dose muito baixa de 0,3 bar possa ter tido algum efeito fisiológico mínimo, citando estudo que mostrou melhora na elasticidade muscular com 0,03 mJ/mm² em atletas saudáveis, embora isso não esteja confirmado para pacientes com dor miofascial. Também discutem influências culturais: em contextos como a Arábia Saudita, pacientes podem ter expectativas mais positivas em relação a tratamentos tecnológicos, potencialmente amplificando respostas placebo.

A taxa de abandono de 29% — substancialmente mais alta que a prevista de 20% — e a amostra final menor que o planejado (70 em vez de 120 participantes calculados para 90% de poder) reduzem a precisão das estimativas e aumentam a incerteza sobre conclusões definitivas, especialmente a possibilidade de um falso negativo por insuficiência de poder estatístico. Do ponto de vista da segurança, a terapia por ondas de choque radiais foi confirmada como bem tolerada: apenas dois pacientes no grupo ativo relataram sensibilidade temporária no local, sem eventos adversos graves ou desistências por causa de efeitos colaterais. Um participante do grupo placebo interrompeu o tratamento por aumento da dor, mas este evento não foi atribuído diretamente à intervenção. Para o paciente, o que este estudo oferece de mais relevante é a evidência de que os exercícios terapêuticos desempenham papel central na recuperação, independentemente do uso do dispositivo de ondas de choque.

A melhora clinicamente significativa observada em ambos os grupos — especialmente a redução de mais de 2 pontos na escala de dor e o ganho no limiar de pressão dolorosa — sugere que a abordagem conservadora com movimentação regular é fundamental.

O que fortalece a leitura

  • 1Desenho duplo-cego rigoroso com placebo apropriado
  • 2Randomização adequada com ocultação de alocação
  • 3Múltiplos desfechos validados
  • 4Seguimento de 12 semanas
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Taxa alta de perda de seguimento (29%)
  • 2Amostra menor que o planejado (70 vs 120)
  • 3Possível efeito terapêutico do placebo (0,3 bar)
  • 4Influências culturais no resultado

Leitura clínica do estudo

MODERADA
75/ 100
Desenho
4/5
Amostra
3/5
Confirmação
4/5

🔬 Como o estudo foi organizado

70pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Ondas de choque

34 pessoas

1,5 bar (0,068 mJ/mm²), 2000 pulsos, 15 Hz + exercícios

Placebo

36 pessoas

0,3 bar (0,01 mJ/mm²) + exercícios idênticos

⏱️ Tempo de acompanhamento: 12 semanas de seguimento

📊 Resultados em números

2,3 pontos

Melhora na dor (ondas de choque)

3,6 pontos

Melhora na dor (placebo)

0,6 pontos

Melhora no limiar de dor (ondas de choque)

p > 0,05

Diferença entre grupos em 12 semanas

📊 Comparação de Resultados

Redução da dor (escala 0-10) em 12 semanas

Ondas de choque
2.3
Placebo
3.6

📅 Linha do tempo da evidência

2018Estudos prévios mostram resultados mistos para ondas de choque em dor miofascial
2020Meta-análises questionam eficácia das ondas de choque para síndrome miofascial
2022NICE aprova ondas de choque para certas tendinopatias
2025Estudo atual não encontra diferença entre ondas de choque e placebo

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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