Estudo científico comentado

Agulhamento Seco em Atletas com Dor no Ombro: Revisão Sistemática

Referência acadêmica

Periódico

Sports

Ano

2024

Autores

Demeco et al.

Desenho

revisão sistemática

Este estudo mostra que o agulhamento seco pode ser uma técnica eficaz para reduzir rapidamente a dor no ombro em atletas de esportes como vôlei e handebol. A técnica envolve inserir agulhas finas diretamente nos pontos dolorosos do músculo, proporcionando alívio em poucos dias. Embora os resultados sejam promissores para o alívio imediato, ainda são necessários mais estudos para confirmar os benefícios a longo prazo.

Título original do estudo: Dry Needling in Overhead Athletes with Myofascial Shoulder Pain: A Systematic Review

📚revisão sistemática👥n=145 atletasefeito de curto prazo
⚕️

Como usar este conteúdo: Este resumo ajuda a entender o estudo e a organizar perguntas para a consulta, mas não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. O conteúdo pode ser atualizado conforme novas evidências e revisão médica.

Mensagem principal

O agulhamento seco mostra potencial para reduzir rapidamente a dor e melhorar a função do ombro em atletas de esportes de overhead com pontos-gatilho miofasciais, mas os benefícios comprovados até agora são apenas de curto prazo e ainda não há consenso sobre o

O que isso significa para você?

Este estudo mostra que o agulhamento seco pode ser uma técnica eficaz para reduzir rapidamente a dor no ombro em atletas de esportes como vôlei e handebol. A técnica envolve inserir agulhas finas diretamente nos pontos dolorosos do músculo, proporcionando alívio em poucos dias. Embora os resultados sejam promissores para o alívio imediato, ainda são necessários mais estudos para confirmar os benefícios a longo prazo.

🧠

Pontos Principais

O que Vale Levar

  • 1O agulhamento seco pode oferecer alívio rápido da dor no ombro se você é atleta de esportes como vôlei, handebol ou tênis e tem pontos-gatilho musculares identificáveis.
  • 2Não espere cura definitiva com esta técnica isoladamente: os melhores resultados vieram quando ela foi combinada com exercícios e outras formas de reabilitação.
  • 3A sensibilidade local após o procedimento é normal e esperada, mas deve ser diferenciada de complicações mais sérias que exigem atenção médica.
  • 4Pergunte ao seu médico sobre a experiência do profissional que realizará o procedimento e qual protocolo será seguido, já que não há padronização estabelecida.
  • 5Se você busca solução para dor de ombro, é importante primeiro confirmar que a origem é realmente miofascial e não articular, tendínea ou de outra natureza.
🗣️

Conversa Prática

Perguntas para a Consulta

  • 1Minha dor no ombro tem características de ponto-gatilho miofascial ou pode ser de outra origem?
  • 2O agulhamento seco será combinado com exercícios e terapia manual no meu plano de tratamento?
  • 3Quantas sessões são planejadas e com qual frequência, considerando que os estudos não definiram um protocolo ideal?
  • 4Há profissionais com experiência documentada nesta técnica na minha região, e qual é a taxa de complicações na prática deles?
🛟

Leitura Consciente

Segurança & Cuidados

  • 1Nenhum evento adverso grave foi relatado nos 145 atletas dos estudos revisados, mas isso não elimina riscos raros como sangramento, reações vasovagais ou, teoricamente, pneumotórax
  • 2A dor durante o procedimento e a sensibilidade pós-agulhamento são comuns e esperadas, podendo durar vários dias; em casos raros, isso pode afetar temporariamente a tolerância à pr
  • 3A segurança em longo prazo, com múltiplas sessões repetidas ao longo de meses ou anos, não foi avaliada nestes estudos de curta duração.
  • 4Contraindicações clássicas para procedimentos invasivos — distúrbios de coagulação, uso de anticoagulantes, infecções cutâneas ativas na região, gestação — devem ser avaliadas indi

Leitura rápida para pacientes

Alívio rápido da dor do ombro para atletas

O agulhamento seco mostrou reduzir a dor e melhorar a movimentação em atletas de esportes como vôlei e handebol, mas os estudos só acompanharam por poucas semanas.

Ponto 1

Funciona melhor combinado com exercícios e terapia manual, não como tratamento isolado

Ponto 2

A melhora da dor pode aparecer já na primeira sessão, mas não se sabe quanto dura

Ponto 3

Fale com seu médico sobre se seu perfil se encaixa e se há profissionais qualificados disponíveis

O que este estudo acrescenta

PRIMEIRA REVISÃO DEDICADA

Esta é a primeira revisão sistemática exclusivamente focada em atletas de esportes de overhead, diferenciando-se de revisões anteriores sobre agulhamento seco em populações gerais ou regiões anatômicas amplas.

Aplicabilidade clínica

Sinal moderado

A redução da dor e melhora funcional são clinicamente significativas e rápidas, mas limitadas ao curto prazo, com heterogeneidade de protocolos e associação frequente com outras terapias que dificultam isolar o efeito es

Força do desenho do estudo

01Pré-clínico
02Série de casos
03Observacional
04RCT
05Revisão

Este estudo sintetiza múltiplos ensaios controlados, oferecendo visão mais abrangente que um único estudo, mas ainda depende da qualidade e quantidade dos trabalhos originais dispo

Atletas analisados

145

total em 6 estudos incluídos

Redução da dor

p<0. 001

significância estatística em múltiplos estudos

Melhora no DASH

20-28

queda média de pontos no questionário de incapacidade

Ganho de rotação interna

13-23°

incremento em graus em estudos com avaliação

Estudos de excelente qualidade

66%

4 de 6 estudos com baixo risco de viés

Ficha rápida do estudo

Mapa rápido do estudo

Condição

Dor miofascial no ombro em atletas de esportes de overhead

Tipo de estudo

Revisão sistemática

Participantes

145 atletas, 18-60 anos, predominantemente handebol, vôlei e tênis

Duração

Acompanhamento de imediato a 2 semanas

Sessões

1 a 3 sessões, com grande variabilidade entre estudos

Comparador

Terapia manual isolada, exercícios, fibrolise diacutânea ou ausência de tratamento

Grupos do estudo

Agulhamento secoControles diversos (terapia manual, exercícios, sem tratamento)

Protocolo de tratamento

Como o tratamento foi aplicado

Sessões01

1 a 3 sessões (variável entre estudos)

Frequência02

Intervalos de 2 dias a 1 semana entre sessões

Duração da sessão03

Não padronizado; agulhas permaneciam de 10 minutos em alguns protocolos

Pontos / técnica04

Pontos-gatilho miofasciais em músculos escapulohumerais (trapézio superior, infraespinhal, redondo maior, subescapular); técnica com ou sem busca de resposta de contração local

Comparador05

Terapia manual, exercícios de fortalecimento e alongamento, fibrolise diacutânea, ou ausência de intervenção

Nota de protocolo06

Em 4 de 6 estudos, o agulhamento seco foi combinado com outras terapias, dificultando o isolamento do efeito específico

Quem entrou no estudo

Para quem este estudo realmente olhou

Atletas de esportes de overhead (handebol, vôlei, tênis, beisebol)Adultos entre 18 e 60 anos com dor no ombroPresença de pontos-gatilho miofasciais ativos ou latentes no ombroDor de intensidade moderada a grave (≥3 em escalas de 0-10)Atletas em treinamento ou competição, em alguns estudosIndivíduos com disquinesia escapular ou déficit de rotação interna, em subgrupos

Quem ficou de fora

Quem ficou fora ou exige mais cautela

Atletas de modalidades não-overhead ou não-atletasPacientes com dor de origem não miofascial (bursite, lesão de manguito rotador, instabilidade articular)Crianças e adolescentes abaixo de 18 anosMulheres em estudos específicos de handebol masculinoPacientes em acompanhamento de longo prazo (todos os estudos foram de curta duração)

Mapa de resultados

O que melhorou, o que não mudou e quando apareceu

📉

Dor

melhorou

Redução significativa em todas as escalas utilizadas (EVA, END, McGill), com p<0. 001 em múltiplos estudos

🔄

Amplitude de movimento

melhorou

Ganhos de 13-23° na rotação interna, com melhorias também em flexão e abdução

🤚

Função do membro superior

melhorou

Queda de 20-28 pontos no escore DASH, indicando menos incapacidade nas atividades diárias

🦴

Disquinesia escapular

melhorou

70% de melhora no grupo combinado vs. 30% no grupo controle em um estudo

💪

Extensibilidade muscular

melhorou

Ganho de 13,6° em extensibilidade do redondo maior em um estudo controlado

O que não mudou

  • Força isométrica de rotação externa e máxima: sem melhorias consistentes entre grupos
  • Rigidez e tônus muscular do redondo maior: sem diferença significativa em avaliação com miotonometria
  • Pressão de tolerância à dor (PPT) no trapézio superior: resultados conflitantes, com piora possível por sensibilidade pós-agulhamento em um estudo
  • Diferenças claras entre agulhamento seco e fibrolise diacutânea: ambas melhoraram, sem superioridade definida

Quando a melhora apareceu

1

minutos a horas após

Imediato pós-sessão

Redução significativa da dor em estudos com avaliação aguda

2

2 dias a 1 semana

Após 1-3 sessões

Melhora da função (DASH) e amplitude de movimento em protocolos com múltiplas sessões

3

período máximo de acompanhamento

Até 2 semanas

Manutenção dos ganhos no curto prazo, sem dados além deste período

Antes e depois

Dor (EVA 0-10)

escala máx. 10 pontos

Antes7 pontos
Depois3 pontos

Incapacidade (DASH 0-100)

escala máx. 100 pontos

Antes45 pontos
Depois22 pontos

Rotação interna do ombro

escala máx. 90 graus

Antes45 graus
Depois62 graus

Segurança e perfil

Segurança, expectativa e perfil de paciente

Sinal de segurança

Verde
  • Nenhum evento adverso grave relatado nos 145 atletas incluídos
  • Técnica sem uso de medicamentos, evitando efeitos sistêmicos de analgésicos
  • Possibilidade de aplicação próxima a competições, sem restrições antidoping
Amarelo
  • Dor durante o procedimento, que pode afetar a adesão de alguns pacientes
  • Sensibilidade pós-agulhamento que pode persistir por vários dias
  • Edema local intramuscular temporário relatado na literatura
Vermelho
  • Ausência de dados de segurança em longo prazo ou com múltiplas sessões repetidas
  • Contraindicações não detalhadas nos estudos (coagulopatias, infecções locais, gestação)
  • Risco teórico de pneumotórax em região de base do pescoço/ombro, embora não relatado nesta revisão

Perfil de paciente

Mais parecido com a amostra

  • Atletas de vôlei, handebol, tênis, beisebol, natação ou arremesso com dor de ombro de padrão miofascial
  • Indivíduos com pontos-gatilho palpáveis e reprodutíveis no ombro e região escapular
  • Pacientes que buscam alívio rápido da dor para manter ou retomar atividades
  • Quem deseja reduzir o uso de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios
  • Atletas em período de competição que precisam de intervenção de recuperação ágil

Mais cautela para extrapolar

  • Pacientes com dor de origem claramente articular, tendínea ou ligamentosa não associada a pontos-gatilho
  • Indivíduos com distúrbios de coagulação, infecções cutâneas ativas ou hipersensibilidade conhecida
  • Quem espera cura definitiva ou solução isolada sem programa reabilitador complementar
  • Atletas fora do perfil estudado (modalidades não-overhead, idosos, crianças)
  • Pacientes que não toleram procedimentos invasivos ou têm fobia de agulhas

Expectativa realista

Alívio rápido, mas não definitivo

A maioria dos atletas experimenta redução significativa da dor já na primeira sessão ou nas primeiras 24-72 horas, com melhora da capacidade de movimentar o ombro. No entanto, os estudos só acompanharam os participantes por até duas semanas

Tempo provável

Melhora da dor: imediata a poucos dias; ganhos funcionais: 1-3 sessões em 1-2 semanas

Não se sabe se os benefícios persistem sem manutenção, e a técnica funcionou melhor quando combinada com exercícios e terapia manual.

Checklist para consulta

  1. 1Perguntar se seus sintomas se parecem com os descritos: dor localizada em pontos específicos do músculo, que piora com movimentos repetitivos acima da cabeça
  2. 2Questionar se há pontos-gatilho palpáveis que reproduzem sua dor ao toque
  3. 3Discutir se você está disposto a combinar o agulhamento seco com exercícios de fortalecimento e alongamento
  4. 4Verificar se há contraindicações pessoais: problemas de coagulação, medicamentos anticoagulantes, infecções na pele da região
  5. 5Perguntar sobre a experiência do profissional com a técnica e o protocolo planejado (número de sessões, intervalos, músculos-alvo)

Como ler este estudo

Como interpretar esse artigo sem exagerar

Mito e achado

Mito

Agulhamento seso cura a lesão de ombro do atleta

Achado

A técnica reduz a dor e melhora a função no curto prazo, mas não trata causas estruturais como lesões tendíneas ou instabilidade articular

Mito

Uma sessão é suficiente para resolver definitivamente

Achado

Os estudos mostraram melhora após 1-3 sessões, mas o acompanhamento máximo foi de apenas 2 semanas; não há evidência de efeito duradouro sem manutenção

Mito

Funciona sozinho, sem necessidade de outros tratamentos

Achado

Na maioria dos estudos revisados, o agulhamento seco foi combinado com exercícios, terapia manual ou outras modalidades; apenas um estudo testou a técnica isoladamente

Mito

É totalmente indolor e sem qualquer desconforto

Achado

A dor durante o procedimento e a sensibilidade local pós-agulhamento são esperadas e foram mencionadas nos estudos, embora geralmente toleráveis

Como isso pode funcionar

🎯

ESTÍMULO MECÂNICO

A inserção da agulha no ponto-gatilho pode provocar uma resposta de contração local — um breve espasmo que sugere ativação do ponto correto. Mecanismo observado, mas ainda não totalmente compreendido.

🧬

ALTERAÇÃO BIOQUÍMICA LOCAL

Estudos sugerem redução de substância P (mediadora da dor) e aumento de β-endorfina no local, além de melhora da microcirculação e oxigenação tecidual. Estas mudanças são propostas, não diretamente comprovadas nesta revi

🧠

MODULAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO

A estimulação pode ativar mecanismos de controle da dor tanto periférica quanto centralmente, incluindo a teoria do portão e vias descendentes inibitórias. Interpretação teórica baseada em estudos de mecanismos, não dire

💪

RESTAURAÇÃO FUNCIONAL

Com a redução da dor e do tônus muscular anormal, pode haver retorno de padrões de movimento mais adequados, embora a força e a rigidez muscular nem sempre melhorem conforme os estudos mostraram.

O que ainda é incerto

  • ?Qual é o número ideal de sessões e o intervalo ótimo entre elas? Os estudos variaram de 1 a 3 sessões com intervalos de 2 dias a 1 semana, sem consens
  • ?Os benefícios persistem além de 2 semanas? Nenhum estudo incluído teve acompanhamento de médio ou longo prazo.
  • ?O agulhamento seco isolado é superior a outras terapias? Na maioria dos estudos ele foi combinado, e as comparações diretas foram poucas ou inconclusi
  • ?A técnica funciona igualmente em mulheres, outros esportes e faixas etárias diferentes? A amostra foi predominantemente masculina e de handebol/vôlei,
🎯

O que o estudo quis responder

Avaliar a eficácia do agulhamento seco para dor miofascial no ombro em atletas de esportes overhead

👥

QUEM PARTICIPOU

145 atletas de 18-60 anos com pontos-gatilho miofasciais no ombro (vôlei, handebol, tênis)

🧪

COMO FOI FEITO

Revisão de 6 estudos comparando agulhamento seco com outras terapias ou controle

📈

O QUE MUDOU

Redução significativa da dor e melhora da função em curto prazo

🛟

SEGURANÇA

Nenhum evento adverso relatado nos estudos incluídos

Achados Interessantes

O que chamou atenção neste estudo

FOCO ESPORTIVO ESPECÍFICO

Diferente de revisões anteriores sobre pescoço ou lombar, este trabalho concentrou-se exclusivamente em atletas de overhead, onde a demanda mecânica do ombro é única e intensa.

🧭

EFICÁCIA PRÉ-COMPETIÇÃO

A rapidez do efeito analgésico sugere potencial utilidade em momentos críticos da temporada, embora isso precise de mais estudos para ser recomendado rotineiramente.

📌

AUSÊNCIA DE EVENTOS ADVERSOS

Em 145 atletas tratados, nenhum efeito colateral grave foi documentado, o que é tranquilizador, embora não exclua riscos raros em prática clínica mais ampla.

🔍

LACUNA DE PADRONIZAÇÃO

O estudo revelou mais o que ainda não se sabe do que o que está consolidado: número de sessões, músculos ideais, técnica de inserção e duração do efeito permanecem sem consenso.

📝

Leitura comentada do estudo

Resumo detalhado em linguagem acessível

Agulhamento Seco em Atletas com Dor no Ombro: Revisão Sistemática

A dor no ombro é uma queixa extremamente comum entre atletas de esportes que exigem movimentos acima da cabeça, como vôlei, handebol, tênis, beisebol e natação. Esses movimentos explosivos e repetitivos, realizados milhares de vezes durante treinos e competições, sobrecarregam os músculos e tendões da região, criando condições ideais para o desenvolvimento de pontos-gatilho miofasciais — pequenas áreas de tensão dentro do músculo que causam dor local e, muitas vezes, irradiada. Estes pontos-gatilho podem reduzir a amplitude de movimento, alterar a postura e comprometer a força muscular, impactando diretamente o desempenho esportivo e a qualidade de vida do atleta.

Neste cenário, o agulhamento seco surge como uma técnica minimamente invasiva que utiliza agulhas finas, sem medicamentos, inseridas diretamente nos pontos-gatilho identificados. A revisão sistemática conduzida por Demeco e colaboradores, publicada em 2024 na revista Sports, buscou consolidar as evidências científicas disponíveis sobre a eficácia dessa técnica especificamente para atletas com dor miofascial no ombro. Para isso, os pesquisadores realizaram uma busca abrangente em três grandes bases de dados científicas — PubMed, Scopus e Web of Science — até março de 2024, aplicando critérios rigorosos de seleção.

Dos 399 artigos inicialmente identificados, apenas seis estudos preencheram todos os requisitos para inclusão, totalizando 145 atletas avaliados. A maioria dos participantes era composta por adultos jovens, entre 18 e 60 anos, com predomínio masculino (96 homens e 49 mulheres), praticantes de handebol, vôlei e tênis. Quatro dos seis estudos eram ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão-ouro para avaliação de intervenções terapêuticas, enquanto dois eram estudos de caso. Essa predominância de desenhos robustos confere maior confiabilidade às conclusões da revisão.

Os protocolos de agulhamento seco variaram consideravelmente entre os estudos, refletindo a falta de padronização ainda existente na área. O número de sessões oscilou de uma única aplicação até três sessões, com intervalos que variaram de dois dias a uma semana entre elas. Os músculos mais frequentemente tratados foram o trapézio superior, o infraespinhal, o redondo maior e o subescapular — todos musculatura-chave para a estabilidade e mobilidade do ombro em atletas de arremesso. Em alguns estudos, o agulhamento seco foi aplicado isoladamente; em outros, combinado com terapia manual, exercícios de fortalecimento, alongamento ou crioterapia pós-exercício.

Os resultados, embora limitados ao curto prazo, foram consistentemente favoráveis. Todos os estudos que avaliaram dor — utilizando escalas validadas como a Escala Visual Analógica (EVA) e a Escala Numérica de Dor (END) — relataram reduções significativas após o agulhamento seco. Em alguns casos, a melhora foi observada imediatamente após uma única sessão, o que representa uma vantagem importante no contexto esportivo, onde o tempo de recuperação é crítico. A redução da dor foi acompanhada, em vários estudos, por melhorias na função do membro superior, medida pelo questionário DASH (Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand), com quedas de 20 a 28 pontos em média — uma mudança clinicamente relevante para quem convive com limitações diárias.

Quanto à amplitude de movimento, os ganhos foram mais expressivos para a rotação interna do ombro, com incrementos de 13 a 23 graus em alguns estudos, além de melhorias na flexão e abdução. A rotação interna é especialmente importante para atletas de overhead, pois seu déficit — conhecido como GIRD (Glenohumeral Internal Rotation Deficit) — é um dos principais fatores de risco para lesões de ombro. Curiosamente, a força isométrica não mostrou melhorias consistentes, e um estudo que avaliou rigidez muscular não encontrou diferenças significativas, sugerindo que os mecanismos de ação do agulhamento seco podem ser mais complexos do que simples alterações mecânicas no tecido.

A segurança da técnica foi um ponto tranquilizador: nenhum evento adverso grave foi relatado nos estudos incluídos. O desconforto mais comum mencionado foi a dor durante a inserção da agulha e a sensibilidade local após o procedimento, que pode persistir por alguns dias. Um estudo observou que essa sensibilidade pós-agulhamento pode, paradoxalmente, reduzir a pressão de tolerância à dor no curto prazo, embora isso não tenha comprometido os resultados globais de alívio da dor. É importante ressaltar que, apesar da ausência de complicações graves nos estudos revisados, a técnica envolve riscos inerentes a qualquer procedimento invasivo, como sangramento local ou reações vasovagais, embora estas sejam descritas na literatura como raras e geralmente leves.

As limitações desta revisão são importantes para uma interpretação equilibrada. Primeiramente, o acompanhamento em todos os estudos foi curto, variando de imediato a duas semanas, o que impede qualquer conclusão sobre a durabilidade dos efeitos. Não se sabe se a melhora observada se mantém por meses ou se desaparece rapidamente, exigindo sessões repetidas. A heterogeneidade dos protocolos — número de sessões, músculos tratados, técnica de inserção, associação ou não com outras terapias — dificulta a determinação do regime ideal.

Além disso, a maioria dos estudos envolveu amostras pequenas, e dois deles incluíram apenas atletas de handebol do sexo masculino, limitando a generalização para outras modalidades e para atletas femininas. A ausência de grupos controle ou placebo em alguns estudos, e o fato de que em vários casos o agulhamento seco foi parte de um programa reabilitador mais amplo, dificultam isolar o efeito específico da técnica.

Do ponto de vista prático, esta revisão sugere que o agulhamento seco pode ser uma ferramenta útil no manejo da dor miofascial do ombro em atletas de esportes de overhead, especialmente quando o objetivo é obter alívio rápido da dor e melhoria funcional em curto prazo. Sua natureza livre de medicamentos é particularmente relevante no contexto esportivo, onde o uso de analgésicos e anti-inflamatórios é frequente e pode ter implicações para a saúde renal, gastrointestinal e cardiovascular, além de potencialmente interferir na adaptação muscular ao treinamento. No entanto, a evidência ainda não permite recomendar a técnica como tratamento isolado ou de primeira linha; o ideal é que ela seja integrada a um programa reabilitador abrangente, que inclua avaliação da core stability, correção de desequilíbrios musculares, exercícios específicos e, quando necessário, abordagem multidisciplinar. Pacientes interessados nesta abordagem devem discutir com seu médico se seu perfil se adequa às populações estudadas e se há profissionais adequadamente treinados disponíveis em sua região.

O que fortalece a leitura

  • 1Foco específico em atletas overhead
  • 2Ausência de eventos adversos
  • 3Resultados consistentes entre estudos
  • 4Técnica livre de medicamentos
⚠️

Onde é preciso cautela

  • 1Apenas efeitos de curto prazo avaliados
  • 2Heterogeneidade nos protocolos de tratamento
  • 3Amostras pequenas nos estudos
  • 4Falta de padronização no número de sessões

Leitura clínica do estudo

MODERADA
72/ 100
Desenho
4/5
Amostra
3/5
Confirmação
3/5

🔬 Como o estudo foi organizado

145pessoas avaliadas
divisão dos grupos

Agulhamento seco

75 pessoas

1-3 sessões com agulhas finas em pontos-gatilho

Controles diversos

70 pessoas

terapia manual, exercícios ou sem tratamento

⏱️ Tempo de acompanhamento: 1 dia a 2 semanas de acompanhamento

📊 Resultados em números

significativa

Melhora na dor (escala visual)

20-28 pontos

Redução da incapacidade (DASH)

13-23°

Aumento da amplitude de movimento

0%

Estudos de qualidade excelente

Destaques percentuais

66%
Estudos de qualidade excelente

📊 Comparação de Resultados

Melhora da dor (escala 0-10)

Agulhamento seco
4
Controle
6

📅 Linha do tempo da evidência

2010Primeiros relatos em jogadoras de vôlei de elite
2019Comparação entre músculos trapézio e infraespinhal
2021Estudos controlados em atletas de handebol
2024Revisão sistemática atual consolida evidências

Curadoria Médica

Dr. Marcus Yu Bin Pai

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 | RQE: 65523

Doutor em Ciências pela USP e especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.

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