Qual é a diferença entre tendinite, tendinose e tendinopatia?
Tendinite é a fase aguda com inflamação; tendinose é a degeneração crônica do colágeno; tendinopatia é o termo guarda-chuva que a medicina prefere porque a maioria dos casos crônicos é degenerativa. Saber em qual cenário você está muda o tratamento.
- Tendinite é a inflamação do tendão na fase aguda, logo após uma sobrecarga; dói, incha e melhora em dias a poucas semanas.
- Tendinose é a degeneração crônica das fibras de colágeno do tendão, sem inflamação importante; é a situação mais comum em quem tem dor de tendão há meses.
- Tendinopatia é o termo guarda-chuva atual, que cobre as duas e evita afirmar que existe inflamação quando, na maioria dos casos crônicos, ela não está presente.
- A diferença não é só de nome: ela define o tratamento. A base do caso crônico é a carga progressiva orientada, somada às técnicas da clínica, sem cirurgia na grande maioria das vezes.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que cada termo quer dizer

O tendão é a estrutura que liga o músculo ao osso e transmite a força do movimento. É feito sobretudo de colágeno organizado em fibras paralelas, muito resistentes à tração. Quando esse tendão sofre, os três nomes que você lê em laudos e na internet descrevem momentos diferentes da mesma história.
Tendinite significa, ao pé da letra, inflamação do tendão (o sufixo “ite” indica inflamação). É o que acontece na fase aguda, nos primeiros dias após uma sobrecarga incomum: um treino puxado demais, uma jornada repetitiva nova, um esforço a que o tendão não estava acostumado. Há dor, por vezes leve inchaço e calor local, e o quadro costuma ceder em dias a poucas semanas. Nessa janela curta, existe de fato um componente inflamatório.
Tendinose descreve algo diferente: a degeneração crônica do tendão. Quando a sobrecarga se repete por meses e o tendão não tem tempo de se recuperar, as fibras de colágeno se desorganizam, surgem microlesões que não cicatrizam bem, o tecido fica mais frouxo e desordenado e crescem para dentro dele novos vasos e novas terminações nervosas. O que biópsias e estudos de imagem mostram, nesse estágio, é justamente a ausência das células inflamatórias clássicas. Por isso o termo “tendinite” passou a ser considerado impreciso para o caso crônico: na maioria das vezes não há inflamação ativa, e sim um tendão degenerado.
Tendinopatia é o termo guarda-chuva que a literatura passou a recomendar. Como, na prática clínica, nem sempre dá para saber só pela história se há inflamação ou degeneração, “tendinopatia” descreve o quadro de dor e perda de função do tendão sem se comprometer com a explicação microscópica. É o nome mais honesto e o mais usado hoje em diretrizes.
Quando o tendão e a bainha que o reveste inflamam juntos, fala-se em tenossinovite; quando a inflamação atinge o tecido ao redor do tendão, em peritendinite. São variações do mesmo tema.
“Tendinite e tendinopatia são a mesma coisa, é só o nome chique que o médico usa.”
Tendinite é a fase inflamatória aguda; tendinopatia é o termo amplo que cobre também a tendinose, a degeneração crônica. A diferença existe porque o tratamento muda: anti-inflamatório e gelo fazem sentido na fase aguda, mas pouco resolvem o tendão já degenerado, que precisa de carga progressiva.
A palavra “tendinite” continua estampada em laudos, bulas e textos da internet como se todo tendão dolorido estivesse inflamado, mas para o quadro crônico ela é, na prática, um diagnóstico errado. Quando se examina o tecido de quem tem dor de tendão há meses, o que aparece não são as células inflamatórias da “ite”, e sim colágeno desorganizado, microlesões mal cicatrizadas e vasos e nervos novos crescendo para dentro do tendão. O nome importa porque carrega um plano embutido: dizer “tendinite” sugere combater uma inflamação que, na maioria das vezes, já não existe, e é exatamente por isso que tanta gente passa meses só com gelo, repouso e anti-inflamatório sem sair do lugar. O termo correto para esse cenário é tendinose, e a conduta que ele pede é quase oposta à que o sufixo “ite” sugere.

Tendinite, tendinose e tendinopatia lado a lado
A tabela abaixo resume por que a distinção importa. O ponto que mais muda a conduta é o último: o que está acontecendo dentro do tendão e, portanto, o que tende a funcionar.
| Termo | O que é | Quanto tempo | O que predomina no tecido |
|---|---|---|---|
| Tendinite | Inflamação aguda do tendão após sobrecarga recente | Dias a poucas semanas (fase aguda) | Inflamação ativa; o tendão ainda não degenerou |
| Tendinose | Degeneração crônica das fibras de colágeno | Meses; quadro persistente ou recorrente | Colágeno desorganizado, microlesões, novos vasos e nervos; pouca inflamação |
| Tendinopatia | Termo guarda-chuva: dor e perda de função do tendão | Qualquer fase; preferido quando não se sabe o estágio | Pode ser inflamatório (agudo) ou degenerativo (crônico) |
| Tenossinovite | Inflamação do tendão e da bainha que o reveste | Aguda ou subaguda | Inflamação na bainha sinovial; comum no punho (ex.: De Quervain) |
| Peritendinite | Inflamação do tecido ao redor do tendão | Aguda ou subaguda | Inflamação peritendínea, com o tendão por vezes preservado |
Há ainda dois rótulos que aparecem em laudos e merecem nota. A tendinite calcária não é bem uma “ite” comum: trata-se de depósitos de cálcio dentro do tendão, frequentes no ombro, que podem doer muito numa fase de reabsorção; o tema tem página própria sobre a tendinite calcária. E a entesopatia é a doença da ênteses, o ponto exato em que o tendão se insere no osso, comum no calcâneo e no cotovelo. Saber o rótulo certo ajuda a alinhar a expectativa: a degeneração crônica não some em uma semana, e tentar tratá-la como se fosse uma inflamação aguda costuma frustrar.
Por que a diferença muda o tratamento
A mudança de “tendinite” para “tendinopatia” não foi só uma correção de vocabulário; ela reorganizou a forma de tratar. Se o problema crônico fosse inflamação, o caminho lógico seria combatê-la: repouso, gelo e anti-inflamatório até passar. Mas, quando se entendeu que o tendão crônico está degenerado, e não inflamado, ficou claro por que o repouso prolongado e os anti-inflamatórios isolados costumam decepcionar nesses casos: eles não estimulam o tendão a se reorganizar.
O tendão é um tecido que responde à carga. Ele se adapta e se reorganiza quando recebe estímulo mecânico progressivo e bem dosado, especialmente exercícios em que o músculo trabalha enquanto se alonga sob tensão. É por isso que, hoje, a base do tratamento da tendinopatia crônica é o exercício de carga progressiva, e não o descanso absoluto.
O repouso total tem o efeito oposto ao desejado: enfraquece ainda mais o tendão e perpetua o ciclo. A regra prática que usamos em consulta é distinguir as fases.
Acalmar e proteger
Reduzir temporariamente a carga que dispara a dor, controlar o pico inflamatório por período curto e começar a movimentar cedo. Aqui o anti-inflamatório, quando indicado pelo médico, tem papel pontual.
Recarregar e reorganizar
Exercício de carga progressiva é o eixo. As técnicas da clínica entram para reduzir a dor, melhorar a função e permitir que a pessoa tolere o programa de carga. O anti-inflamatório isolado rende pouco.
Tendão inflamado (agudo) pede calma por pouco tempo; tendão degenerado (crônico) pede carga bem dosada. Tratar o crônico como se fosse agudo, só com repouso e anti-inflamatório, é o erro mais comum e o que mais cronifica.
Na consulta, a diferença entre inflamação e degeneração deixa de ser teórica no momento em que define a conduta: quem chega com dor de poucos dias após um esforço novo responde rápido a calma e a um anti-inflamatório curto, enquanto quem convive com a dor há meses já tem um tendão degenerado, e nesse caso o mesmo anti-inflamatório quase não muda o quadro. É comum a pessoa relatar que descansou, melhorou um pouco, voltou à atividade e a dor voltou igual; o repouso aliviou o sintoma sem corrigir o tendão.
O que mais costuma surpreender quem procura a clínica é descobrir que o caminho não é parar, e sim carregar de forma controlada, e que a dor leve durante o exercício combinado é aceitável. A outra surpresa é o tempo: o tendão é pouco vascularizado e se reorganiza em semanas a meses, num ritmo bem mais lento do que a recuperação de um músculo. Boa parte das recaídas que acompanhamos não vem de falta de técnica, e sim de a carga ter sido subdosada ou abandonada cedo, assim que a dor deu uma trégua.
Onde a tendinopatia aparece com mais frequência
A tendinopatia tem locais preferidos, quase sempre tendões que recebem muita carga repetida. Identificar o tendão envolvido orienta o exame e o tratamento, e cada um deles tem uma página dedicada na clínica para o detalhe específico:
- Ombro: o manguito rotador é o campeão. Veja síndrome do manguito rotador e a tendinopatia do supraespinhal.
- Cotovelo: a tendinopatia dos extensores, o “cotovelo de tenista”, explicada na página sobre epicondilite lateral.
- Joelho: a tendinopatia patelar, o “joelho do saltador”, em tendinopatia patelar.
- Tornozelo e calcanhar: a do tendão de Aquiles, detalhada em tendinite de Aquiles; quando a dor é na sola, costuma ser fascite plantar.
- Punho: a tenossinovite de De Quervain, na borda do polegar (ver tendinopatia de De Quervain).
Em todos eles, o padrão de dor é parecido: dói ao usar o tendão (subir escada na patelar, levantar peso no manguito, segurar objetos na epicondilite), costuma doer no início da atividade, melhorar quando “aquece” e voltar depois. Esse comportamento da dor ajuda a diferenciar a tendinopatia de outras causas, como uma dor articular ou uma bursite vizinha, que muitas vezes coexistem e precisam ser separadas no exame.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico é principalmente clínico. A história (que movimento dói, há quanto tempo, o que mudou na rotina ou no treino) e o exame físico, com palpação do tendão e testes de carga que reproduzem a dor, costumam bastar para localizar o tendão e estimar a fase. O tempo de evolução é a pista mais simples para diferenciar tendinite de tendinose: dor que começou há poucos dias após um esforço novo sugere fase aguda; dor que dura meses, vai e volta e piora com o uso aponta para degeneração crônica.
A ultrassonografia é o exame de imagem mais útil para o tendão: mostra espessamento, áreas de degeneração, neovascularização (os novos vasos típicos da tendinose, vistos ao Doppler), calcificações e roturas parciais. A ressonância fica para casos selecionados, sobretudo no ombro e quando se cogita lesão associada. Vale o mesmo princípio que aplicamos em toda a coluna e nas articulações: a imagem confirma e localiza, mas não substitui o exame. Alterações degenerativas em tendões aparecem também em pessoas sem dor, então o achado só pesa quando combina com o quadro clínico.
Quando a dor de tendão não deve esperar
- Perda súbita de força ou um “estalo” seguido de incapacidade de mover, que pode indicar rotura completa do tendão.
- Inchaço importante, vermelhidão e calor com febre, sugerindo infecção (uma urgência).
- Dor que não melhora nada após semanas de tratamento bem conduzido, ou que piora de forma progressiva.
- Dor articular com travamento, deformidade ou após trauma significativo.
- Dormência, formigamento ou fraqueza que descem pelo membro, sugerindo causa de nervo em vez de tendão.
Tratamento da tendinopatia: o caminho não-cirúrgico
O tratamento da tendinopatia é conservador, multimodal e individualizado, e a grande maioria dos casos melhora sem cirurgia. Tirar a dor do momento é a parte fácil; o objetivo que de fato muda o curso é estimular o tendão a reorganizar o colágeno e devolver a ele a capacidade de tolerar carga. A base é ativa, com exercício progressivo, e as demais técnicas se somam conforme o tendão envolvido, a fase e a resposta.
Exercício de carga progressiva
Excêntricos e carga lenta e pesada para reorganizar o colágeno do tendão. É o eixo de todo o resto.
Ajuste de carga e educação
Reduzir temporariamente o que dispara a dor, corrigir erros de treino e entender que tendão crônico precisa de estímulo, não de repouso absoluto.
Ondas de choque
Microtrauma controlado que estimula reparo e fragmenta cálcio; melhor em calcárias do ombro, epicondilite, patelar, Aquiles e fascite plantar.
Acupuntura e eletroacupuntura
Modulam a dor que limita a carga e tratam a musculatura tensa ao redor do tendão; ponte para a fase de exercício.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
Desativam pontos-gatilho na musculatura que move o tendão doente; tenotomia por agulha tenta reativar o reparo na área degenerada.
Laser de alta intensidade e mesoterapia
Adjuvantes para dor localizada, somados à base ativa; evidência mais heterogênea, uso seletivo.
Infiltrações guiadas e toxina botulínica
Corticoide com parcimônia na tendinose (risco ao tendão); toxina A só em refratários com espasmo ou dor associada.
Medicação adjuvante
Anti-inflamatório por curto prazo na fase aguda; analgésico simples pontual para tolerar o exercício. Não trata a degeneração.
Organizamos o plano como uma escada de cuidado, do mais simples ao mais específico, sempre com o exercício como base.
Exercício de carga progressiva: a base
- O que é
- A intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na tendinopatia, e o eixo de todo o resto. Usa exercícios excêntricos (o músculo trabalha enquanto se alonga, como descer devagar numa elevação de panturrilha no Aquiles) e protocolos de carga lenta e pesada.
- Mecanismo
- A carga mecânica controlada estimula as células do tendão (os tenócitos) a sintetizar e reorganizar colágeno, melhorando a estrutura e a tolerância do tecido.
- Evidência
- Forte É o tratamento que mais muda o curso da doença; os demais recursos existem em boa parte para permitir que a pessoa consiga fazê-lo.
- O que esperar
- Resposta gradual ao longo de semanas a meses. A dor leve durante o exercício, dentro de um limite combinado, é tolerada e não significa piora. O programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências.
- Limitações
- Depende da continuidade e da dose correta; progredir carga cedo demais provoca piora, e o repouso absoluto enfraquece ainda mais o tendão.
Ondas de choque (terapia extracorpórea)
- O que é
- Terapia por ondas de choque, feita no consultório, com melhor evidência sobretudo nas calcárias do ombro, na epicondilite, na patelar, no Aquiles e na fascite plantar.
- Mecanismo
- O estímulo de alta energia induz microtrauma controlado, estimula angiogênese e fatores de crescimento, ajuda a fragmentar depósitos de cálcio e modula os receptores de dor locais.
- Evidência
- Forte Um dos tratamentos com melhor evidência na tendinopatia crônica.
- O que esperar
- Em geral 3 a 5 sessões semanais; o benefício costuma aparecer ao longo de semanas. Mais detalhes na página sobre ondas de choque musculoesquelético.
- Limitações
- Pode causar desconforto durante a aplicação e dor leve por um a dois dias.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
- O que é
- A técnica de agulha com vínculo mais direto à tendinopatia: a musculatura que move o tendão doente quase sempre desenvolve pontos-gatilho — o tríceps sural no Aquiles, os extensores do antebraço na epicondilite, o quadríceps na patelar, o infraespinhal e o trapézio no ombro.
- Mecanismo
- A agulha no ponto-gatilho dispara a contração involuntária característica e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, com efeito analgésico que extrapola o ponto puncionado. Há ainda a tenotomia por agulha: punções repetidas guiadas na área de degeneração provocam sangramento controlado que tenta reativar o reparo onde a cicatrização travou. Quando o ponto resiste, a infiltração com anestésico local quebra o ciclo dor-espasmo-dor.
- O que esperar
- A dor melhora em ritmo variável; é comum um aumento transitório no dia seguinte à punção.
- Limitações
- Em nenhum cenário a agulha dispensa o exercício, que é o que reorganiza o colágeno.
Acalmar a fase aguda
Ajustar a carga que dói, controlar o pico de dor e iniciar movimento cedo. Se houver tendinite franca, o anti-inflamatório pode ter papel pontual.
Carga progressiva
Exercício excêntrico e de carga lenta e pesada, progredido por metas, com técnicas em clínica (ondas de choque, acupuntura) para permitir avançar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, a adesão à carga e consideram-se procedimentos guiados ou investigação adicional.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a tolerância à carga e questionários de função do tendão, como o VISA para o Aquiles e a patelar. Quando a melhora estaciona, a primeira pergunta não é qual técnica acrescentar, e sim se a carga vinha sendo dosada e progredida de verdade. A tendinopatia crônica costuma responder bem, mas em semanas a meses, porque o tendão é menos vascularizado que o músculo.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
As técnicas de agulha e as ondas de choque reduzem a dor e abrem a janela para reabilitar; é o exercício orientado que converte esse alívio em tendão mais forte e duradouro. Na tendinopatia, a reabilitação ativa não é um complemento opcional: é o tratamento que muda o curso. RPG, Pilates clínico, cinesioterapia e terapia manual são conduzidos dentro da nossa clínica, sempre de forma individual, um paciente por sala, e desenham o programa de carga progressiva que sustenta o resultado.
A lógica é comum a todas: o tendão é um tecido que responde à carga mecânica, e o estímulo bem dosado faz os tenócitos sintetizarem e reorganizarem colágeno. Devolver força, controle motor e capacidade de carga ao tendão e à musculatura que o move, corrigindo o padrão postural e técnico que o sobrecarrega, é o que retira o terreno onde a degeneração se perpetua. Por isso a progressão importa mais do que a intensidade, e o programa é mantido depois do alívio justamente para reduzir recorrências.
Cinesioterapia e exercício de carga progressiva
A reabilitação ativa propriamente dita: exercício excêntrico (o músculo trabalha enquanto se alonga sob tensão, como descer devagar numa elevação de panturrilha no Aquiles) e carga lenta e pesada (heavy-slow resistance), progredidos por fisioterapeuta. A carga controlada estimula os tenócitos a remodelar a matriz de colágeno, melhora o alinhamento das fibras e a tolerância do tecido e recruta as vias inibitórias descendentes da dor. Resposta gradual ao longo de semanas a meses; dor leve dentro do limite combinado é tolerada. Limitação: depende da continuidade e da dose; progredir cedo demais piora, e o repouso absoluto enfraquece o tendão.
Reeducação postural global (RPG)
Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas e contração isométrica de caráter excêntrico. Reduz o encurtamento das cadeias que sobrecarregam o tendão (a cadeia posterior no Aquiles e na patelar, a cintura escapular no manguito), normaliza o tônus e alivia a tração assimétrica sobre a ênteses e o ventre do tendão. Forma supervisionada e bem tolerada de iniciar o movimento em quem tem muita rigidez ou medo de carregar. Limitação: não substitui o fortalecimento progressivo nem o exercício de carga, que continuam sendo o eixo.
Pilates clínico
Exercício terapêutico de baixo impacto centrado em controle motor e estabilização, adaptado por fisioterapeuta ao tendão acometido. Trabalha o recrutamento dos músculos profundos do tronco e a estabilização da escápula e do quadril, distribuindo melhor a carga e reduzindo a sobrecarga concentrada sobre o tendão doente. Efeito comparável a outras formas de exercício supervisionado, de magnitude modesta e dependente de adesão. Limitação: precisa ser clínico e individualizado; carga avançada cedo demais provoca recidiva.
Terapia manual como adjuvante
Técnicas manuais (mobilização de tecidos moles, liberação miofascial, mobilização articular) sobre a musculatura ligada ao tendão e as articulações vizinhas. A pressão sustentada reduz a tensão local, melhora a mobilidade do tecido e dessensibiliza a área, criando uma janela de conforto para avançar a reabilitação ativa; não atua sobre a degeneração do tendão. Benefício de curto prazo, maior quando combinada com exercício. Limitação: efeito passageiro se não vier acompanhada de exercício ativo.
O fio condutor é claro: na tendinopatia, o movimento supervisionado e graduado é o tratamento de fundo, e a melhor reabilitação é a que a pessoa consegue manter. A escolha entre RPG, Pilates e cinesioterapia depende do tendão envolvido, do perfil e da tolerância de cada um, e com frequência se combinam ao longo do tempo. Nenhuma técnica passiva isolada substitui esse trabalho ativo.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia tem lugar restrito na tendinopatia, e parte dos procedimentos, em situações específicas, é conduzida por outros especialistas fora da nossa clínica.
Conservador · 1ª escolha
O caminho que muda o curso
- Resolve a grande maioria dos casos, mesmo crônicos e antigos.
- Base em exercício de carga progressiva somado às técnicas para controle da dor.
- A degeneração responde à carga, não ao bisturi.
- Operar antes de dar ao tendão a chance de se reorganizar costuma ser precoce.
Cirúrgico · exceção
Reservado à minoria que não responde
- Falha do tratamento conservador completo, em geral após seis meses ou mais.
- Rotura completa do tendão (Aquiles, manguito), sobretudo em pessoas ativas.
- Desbridamento, tenotomia ou remoção de depósito calcário volumoso no ombro.
- Conduzido pela ortopedia — não é realizado em nossa clínica.
O ponto mais importante é este: a cirurgia raramente é necessária na tendinopatia. A grande maioria dos casos melhora com tratamento conservador completo e prolongado. Há cenários em que a avaliação do ortopedista muda a conduta. A rotura completa do tendão (perda súbita de força com “estalo”, como a rotura do Aquiles ou uma rotura extensa do manguito rotador) pode ter indicação de reparo cirúrgico.
Na tendinopatia refratária bem documentada, procedimentos como o desbridamento do tecido degenerado, a tenotomia percutânea ou aberta e, no ombro, a remoção de um grande depósito calcário, podem ser considerados. Essas opções não são realizadas em nossa clínica; a decisão cabe ao cirurgião que acompanha o caso.
- Quando considerar
- Falha do tratamento conservador completo após cerca de seis meses; rotura completa do tendão com perda de força; déficit funcional progressivo apesar de reabilitação adequada.
- Procedimentos
- Reparo da rotura tendínea; desbridamento do tecido degenerado; tenotomia percutânea ou aberta; remoção de depósito calcário volumoso no ombro. Conduzidos pela ortopedia.
- O que esperar
- Recuperação lenta, com imobilização inicial em parte dos casos e reabilitação guiada por meses; o resultado depende da reabilitação pós-operatória tanto quanto do ato cirúrgico.
- Outras vias fora da clínica
- Investigação de imagem adicional e seguimento ortopédico; quando há doença reumática inflamatória de base que acomete ênteses, o acompanhamento é com a reumatologia.
Vale a contrapartida: não há indicação para procedimentos invasivos com promessa de cura rápida na tendinopatia comum, e a literatura não sustenta operar um tendão degenerado que nunca recebeu um programa de carga adequado. O caminho que muda o curso do quadro continua sendo a reabilitação ativa somada às técnicas de controle da dor, com o encaminhamento ao cirurgião reservado às roturas e aos casos genuinamente refratários.
Tratamento medicamentoso
O remédio tem, na tendinopatia, um papel adjuvante e bem delimitado: ajuda a controlar a dor para que a pessoa tolere a reabilitação, mas não trata a degeneração do tendão nem substitui a carga progressiva.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / cuidados |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno) | Controle da dor na fase aguda (tendinite), em que existe componente inflamatório real, por poucos dias | Limitada | Na tendinose crônica o anti-inflamatório isolado rende pouco e não corrige a estrutura do tendão. Pesam riscos gástricos, renais e cardiovasculares, sobretudo em uso prolongado e em idosos ou com comorbidades. |
| Analgésico simples (paracetamol) | Alívio pontual da dor para tolerar o exercício na fase crônica | Limitada | Uso pontual; abre espaço para a reabilitação, mas não trata a degeneração do tendão. |
| Infiltração de corticoide | Alívio marcante e rápido em tenossinovite aguda (como na De Quervain) | Limitada | Na tendinose o benefício costuma ser de curto prazo e há risco para a estrutura do tendão: o corticoide repetido enfraquece o colágeno e há relato de rotura em tendões de carga (Aquiles, patelar). Indicação caso a caso, parcimoniosa; nunca uma sequência de aplicações em tendão que sustenta peso. |
| Plasma rico em plaquetas (PRP) e outros injetáveis | Tentativa de estimular o reparo do tendão degenerado | Limitada | Evidência heterogênea; não são primeira linha. |
| Adjuvantes para dor crônica | Quando há componente miofascial ou neuropático associado | Limitada | Considerados pelo médico, sempre dentro de um plano multimodal e individualizado. |
É importante separar o que é medicamento do que são procedimentos. As ondas de choque extracorpóreas e o laser de alta intensidade, descritos na seção de tratamento, não são remédios: são recursos físicos aplicados na clínica para modular a dor e estimular o reparo, somados à base de exercício. Em todos os casos, a medicação alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não trata a degeneração do tendão e não substitui a base ativa. O detalhamento dos analgésicos e anti-inflamatórios está no guia de remédios para dor.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Tendinite e tendinopatia é a mesma coisa? Qual a diferença entre tendinite e tendinopatia?
Não exatamente. Tendinite é a fase aguda, com inflamação, que dura dias a poucas semanas. Tendinopatia é o termo guarda-chuva que cobre tanto a tendinite quanto a tendinose (a degeneração crônica do tendão). A medicina passou a preferir “tendinopatia” porque a maioria dos casos crônicos não tem inflamação ativa, e sim degeneração, o que muda o tratamento.
O que é tendinose e como ela difere da tendinite?
Tendinose é a degeneração crônica das fibras de colágeno do tendão, com microlesões que não cicatrizaram bem e pouca ou nenhuma inflamação. A tendinite, ao contrário, é a fase aguda e inflamatória, logo após uma sobrecarga. A diferença é prática: a tendinose precisa de carga progressiva para o tendão se reorganizar, enquanto na tendinite o anti-inflamatório por período curto pode ajudar.
Tendinopatia e tendinite é a mesma coisa no laudo?
Quando um laudo de ultrassom ou ressonância usa “tendinopatia”, ele descreve uma alteração do tendão sem afirmar que há inflamação ativa, justamente porque na maioria dos casos crônicos predomina a degeneração. Pode incluir um quadro que, na linguagem antiga, seria chamado de tendinite. O que define a conduta é o seu quadro clínico, não só o termo do laudo.
Tendinose o que é, em palavras simples?
É o tendão “gasto”: com o uso repetido e sem recuperação suficiente, as fibras que dão resistência ao tendão se desorganizam e ele perde qualidade, sem estar inflamado. Dói ao usar e melhora devagar. O tratamento principal é o exercício de carga progressiva, que estimula o tendão a se reorganizar, somado a técnicas para controlar a dor.
Anti-inflamatório resolve tendinite e tendinose?
Na tendinite aguda, o anti-inflamatório pode ajudar a controlar a dor por período curto, com indicação médica. Na tendinose crônica, ele rende pouco, porque não há inflamação relevante para combater; o que muda o quadro é a carga progressiva. Em nenhum caso o remédio trata a degeneração do tendão. Veja o guia de remédios para dor.
Tendinose tem cura ou fica para sempre?
A maioria das pessoas recupera função e fica sem dor com tratamento bem conduzido, sobretudo com o exercício de carga progressiva. O tendão pode não voltar exatamente ao aspecto de imagem original, mas isso não impede o controle da dor e o retorno às atividades. A recuperação é mais lenta que a de um músculo, costuma levar semanas a meses, e manter o programa reduz recorrências.
Posso continuar treinando com tendinopatia?
Em geral sim, com ajuste, e não com repouso total. Reduz-se temporariamente o que dispara muita dor e mantém-se a carga dentro de um limite tolerável, progredindo conforme o tendão responde. Parar tudo costuma enfraquecer o tendão e prolongar o problema. O ideal é que um profissional ajuste a carga ao seu caso e ao tendão envolvido.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas e princípios éticos da publicidade médica e da informação em saúde ao público. Brasília: CFM.
- Scott A; Squier K; Alfredson H; Bahr R; Cook JL; Coombes B; de Vos RJ; Fu SN; Grimaldi A; Lewis JS; Maffulli N; Magnusson SP; Malliaras P; Mc Auliffe S; Oei EHG; Purdam CR; Rees JD; Rio EK; Gravare Silbernagel K; Speed C; Weir A; Wolf JM; Akker-Scheek IVD; Vicenzino BT; Zwerver J. ICON 2019: International Scientific Tendinopathy Symposium Consensus: Clinical Terminology. British journal of sports medicine. 2020. doi:10.1136/bjsports-2019-100885. PMID:31399426.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A fase do tendão (inflamatória aguda ou degenerativa crônica), o local acometido e a tolerância à carga variam de pessoa para pessoa, então a conduta descrita aqui só faz sentido depois de individualizada em consulta.
