Enxaqueca: o que é, sintomas, causas e tratamentos
A enxaqueca é uma doença neurológica, não uma dor de cabeça comum.
A enxaqueca é uma cefaleia primária, ou seja, a dor é a própria doença, e não o sintoma de outra coisa. A crise nasce da ativação do sistema trigeminovascular e da liberação de um neuropeptídeo chamado CGRP, com sensibilização progressiva das vias da dor. O diagnóstico é clínico, guiado pelos critérios da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), e a imagem serve para excluir causas secundárias diante de sinais de alerta. O tratamento tem dois eixos, o agudo (abortivo) e o preventivo (profilático), apoiados numa base de higiene de sono, manejo de gatilhos e exercício.
- A dor costuma ficar de um lado só da cabeça, podendo trocar de lado entre as crises?
- A dor é pulsátil ou latejante, como uma batida acompanhando o pulso?
- A dor piora com esforço físico de rotina, como subir escada ou caminhar rápido?
- Vem com náusea ou vômito, ou incômodo forte com luz e som ao mesmo tempo (foto e fonofobia)?
- Cada crise dura, sem tratar, entre 4 e 72 horas?
Quanto mais respostas “sim”, mais o padrão se aproxima dos critérios da enxaqueca (ICHD-3). Isto não é diagnóstico — sinais compatíveis pedem avaliação médica para confirmar e descartar outras causas.
- O que causa a enxaqueca? Não é estresse nem fraqueza: a enxaqueca é uma predisposição neurológica, em grande parte genética, em que o cérebro reage demais a estímulos. Hormônios (queda do estrogênio), o peptídeo CGRP e gatilhos do dia a dia (jejum, sono irregular, álcool, estresse) disparam a crise em quem já tem essa predisposição.
- A enxaqueca é uma doença neurológica, não fraqueza nem frescura. A dor costuma ser de um lado, pulsátil, de intensidade moderada a forte, piora com esforço e vem com náusea e sensibilidade à luz e ao som.
- Na maioria das vezes não é grave, mas alguns sinais de alerta pedem avaliação sem demora antes de assumir que é enxaqueca.
- O tratamento tem dois eixos: tratar a crise (abortivo) e reduzir a frequência (profilático). A toxina botulínica no protocolo PREEMPT e os anticorpos anti-CGRP entram na enxaqueca crônica. O uso frequente de analgésicos pode, sozinho, transformar a enxaqueca em dor diária.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Se a crise já começou, estes passos ajudam enquanto o efeito do tratamento se instala:
- Trate cedo, ainda com a dor leve. Use o analgésico ou anti-inflamatório que você já costuma tomar (ou o triptano, se já prescrito) assim que perceber a crise; tratar cedo é o que dá mais chance de resolver rápido.
- Procure um ambiente escuro e silencioso e deite-se, se possível; luz e som costumam piorar a dor enquanto a crise dura.
- Hidrate-se e, se a náusea permitir, coma algo leve; jejum prolongado alimenta a crise.
- Anote o dia no diário de cefaleia (ou no celular): quantos dias por mês você usa medicação de alívio é a informação mais importante para o próximo passo do tratamento.
Procure avaliação sem demora se a dor for súbita e explosiva, como a pior da vida, vier com febre, rigidez de nuca ou alteração da consciência, ou trouxer um déficit neurológico que persiste (fraqueza, alteração da fala ou da visão que não se resolve como uma aura) — ver «Sinais de alerta», abaixo.
O que é a enxaqueca e por que dói
A enxaqueca é uma cefaleia primária: a dor não é o sintoma de uma lesão estrutural, ela é a própria doença. O que está alterado é a forma como o cérebro de quem tem enxaqueca processa estímulos sensoriais, o que o torna mais reativo a luz, som, cheiro, hormônios, jejum e mudanças de rotina.
Do ponto de vista clínico, a crise típica é uma dor de cabeça unilateral (em cerca de dois terços das vezes), de qualidade pulsátil ou latejante, de intensidade moderada a forte, que piora com a atividade física rotineira, como subir escadas, e que vem acompanhada de náusea, vômito, fotofobia (incômodo com a luz) e fonofobia (incômodo com o som). É a combinação completa que caracteriza a doença; a dor isolada não basta para o diagnóstico. Sem tratamento, uma crise dura de 4 a 72 horas. Quem quiser entender melhor a duração das fases pode ler quanto tempo dura uma enxaqueca.
A fisiopatologia hoje é entendida como um evento que começa dentro do próprio cérebro. Na enxaqueca com aura, o gatilho neural é a onda de depressão cortical alastrante, uma onda lenta de excitação seguida de inibição da atividade dos neurônios, que avança pelo córtex a uma velocidade de poucos milímetros por minuto e explica os sintomas visuais que progridem. Essa onda ativa o sistema trigeminovascular, a rede de fibras do nervo trigêmeo que inerva os vasos sanguíneos das meninges, a membrana que envolve o cérebro.
Uma vez ativadas, essas terminações trigeminais liberam neuropeptídeos inflamatórios, e o protagonista é o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina). O CGRP provoca dilatação vascular, extravasamento de plasma e uma inflamação neurogênica estéril ao redor dos vasos, e ao mesmo tempo amplifica a transmissão da dor. Esse sinal sobe pelo complexo trigêmino-cervical, no tronco encefálico, e segue até o tálamo e o córtex, onde a dor é percebida. Entender que o CGRP está no centro desse processo é o que tornou possível criar remédios desenhados especificamente contra ele, tema do capítulo de tratamento.
Há ainda um fenômeno que explica por que uma crise mal controlada tende a piorar: a sensibilização. Na sensibilização periférica, as terminações trigeminais ficam mais sensíveis, e a dor passa a latejar a cada batimento. Na sensibilização central, os neurônios do tronco e do tálamo ficam hiperexcitáveis, e surge a alodínia cutânea, quando até pentear o cabelo, usar óculos ou o toque do travesseiro doem. A alodínia é um sinal clínico importante: quando ela já se instalou, o abortivo tende a funcionar menos, o que reforça a regra de tratar a crise cedo.
“Enxaqueca é só uma dor de cabeça forte, basta tomar um analgésico e esperar passar.”
A enxaqueca é uma doença neurológica com mecanismo próprio, e está entre as principais causas de anos vividos com incapacidade no mundo. Tratá-la apenas com analgésico, e em excesso, pode piorar o quadro a longo prazo.
Dois pontos mudam o desfecho da enxaqueca. O primeiro: a enxaqueca é uma doença neurológica, e o eixo que de fato reduz o sofrimento ao longo dos meses é o preventivo, que é justamente o mais subutilizado, enquanto o abortivo recebe toda a atenção. O segundo, contraintuitivo: tomar analgésico demais piora a enxaqueca. O remédio que resolve a crise de hoje, usado acima do limite de dias por mês, transforma a doença em dor quase diária. Por isso o número que mais importa no acompanhamento não é a intensidade da pior crise, e sim quantos dias por mês você teve dor e quantos usou medicação de alívio.
A enxaqueca também tem um forte componente genético e hormonal. É cerca de duas a três vezes mais comum em mulheres a partir da adolescência, e a flutuação do estrogênio explica boa parte das crises ligadas ao ciclo menstrual; quem percebe esse padrão se beneficia da leitura sobre enxaqueca hormonal. Por fim, classifica-se a doença pela frequência: na enxaqueca episódica há menos de 15 dias de dor de cabeça por mês; na enxaqueca crônica, 15 ou mais dias de dor por mês, dos quais ao menos 8 com características de enxaqueca, por mais de três meses. Essa fronteira não é burocrática, ela muda o tratamento, porque a forma crônica tem opções específicas.
Vale ainda separar a enxaqueca das outras cefaleias com que ela mais se confunde. A cefaleia tensional costuma ser bilateral, em aperto, sem náusea importante e sem piorar com esforço. A cefaleia cervicogênica nasce no pescoço e é referida para a cabeça. E a presença ou não de aura define dois subtipos, detalhados em enxaqueca com e sem aura. A tabela abaixo resume as pistas, lembrando que nenhum item isolado fecha o diagnóstico.
| Característica | Enxaqueca | Tensional | Em salvas |
|---|---|---|---|
| Lado | Unilateral, pode trocar de lado | Bilateral, em faixa | Estritamente unilateral, ao redor do olho |
| Qualidade | Pulsátil, latejante | Pressão, aperto, peso | Em facada, excruciante |
| Intensidade | Moderada a forte | Leve a moderada | Muito forte |
| Duração sem tratar | 4 a 72 horas | 30 minutos a 7 dias | 15 a 180 minutos |
| Piora com esforço | Sim, característica | Não | Inquietação, não repouso |
| Sintomas associados | Náusea, foto e fonofobia, aura | Poucos; sem náusea importante | Olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido do mesmo lado |
Sintomas da enxaqueca
Os sintomas da enxaqueca vão muito além da dor de cabeça. A crise é uma combinação característica: dor de um lado da cabeça, pulsátil, que piora ao se mexer, somada a enjoo e a uma sensibilidade exagerada à luz e ao som. É esse conjunto, e não a dor isolada, que define a doença. Reconhecer os sintomas ajuda a tratar cedo, quando o remédio funciona melhor.
Na prática, os sintomas da enxaqueca se organizam em alguns blocos. A lista abaixo reúne o que a maioria das pessoas descreve, do mais típico ao que costuma passar despercebido.
- Dor de um lado da cabeça, pulsátil ou latejante, que pode trocar de lado de uma crise para outra.
- Dor que piora ao se movimentar: andar, subir escada, abaixar a cabeça ou fazer esforço.
- Náusea e vômito, e perda de apetite durante a crise.
- Incômodo com a luz (fotofobia) e com o som (fonofobia), e às vezes com cheiros, que levam a pessoa a procurar um quarto escuro e silencioso.
- Aura em cerca de um terço das pessoas: pontos de luz, linhas em ziguezague ou um borrão que cresce no campo visual, às vezes formigamento que sobe pelo braço, antes ou no início da dor.
- Sinais que antecedem a crise (pródromo): bocejos repetidos, vontade de comer doce, irritabilidade, dificuldade de concentração e rigidez no pescoço, horas a um dia antes.
- Cansaço e mente nublada depois que a dor passa, a chamada ressaca da enxaqueca.
- Alodínia: quando até pentear o cabelo, usar óculos ou encostar o rosto no travesseiro incomoda, sinal de que a crise já avançou.
Não é preciso ter todos os sintomas. A combinação de dor de um lado, pulsátil, com náusea e sensibilidade à luz já é bastante sugestiva de enxaqueca.
A descrição completa de cada fase, do pródromo ao pósdromo, está logo adiante, em As quatro fases da crise. Aqui interessa fixar o essencial: os sintomas da enxaqueca formam um padrão reconhecível, e é esse padrão, e não um exame de imagem, que faz o diagnóstico na maioria dos casos.
Enxaqueca emocional: o estresse como gatilho
Muita gente descreve a própria crise como uma enxaqueca emocional ou enxaqueca nervosa, porque percebe que ela aparece em dias de tensão, ansiedade ou após uma forte carga emocional. A observação está correta, com uma ressalva importante: o estresse não cria a enxaqueca, ele a dispara em quem já tem a predisposição neurológica. O emocional é um dos gatilhos mais relatados, ao lado de sono irregular, jejum e flutuação hormonal.
Há ainda um detalhe que confunde: muitas vezes a crise vem não no auge do estresse, mas no alívio dele, a enxaqueca de fim de semana, que aparece quando a pessoa finalmente relaxa depois de uma semana puxada. Isso reforça que o problema não é fraqueza de caráter, e sim um sistema nervoso sensível a variações. O caminho não é apenas “evitar se estressar”, e sim regularizar sono, refeições e atividade física, tratar a ansiedade quando ela existe, e, se as crises forem frequentes, entrar com tratamento preventivo. Os gatilhos, emocionais e outros, estão detalhados na seção de prevenção.
Enxaqueca dura quantos dias e o que é enxaqueca persistente
Uma crise de enxaqueca, sem tratamento, costuma durar de 4 a 72 horas, ou seja, de algumas horas a cerca de três dias. Tratada cedo e bem, ela tende a ser mais curta. Quando a dor passa, ainda pode sobrar um dia de cansaço e mente nublada, o pósdromo, que algumas pessoas confundem com a continuação da crise.
Quando uma única crise se arrasta por mais de 72 horas sem ceder, dá-se o nome de estado de mal enxaquecoso (status migrainosus): é uma enxaqueca persistente e contínua que exige avaliação médica, porque costuma precisar de medicação específica para ser interrompida e pode levar à desidratação pela náusea. Isso é diferente da enxaqueca crônica, em que a pessoa tem dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses, dos quais ao menos 8 com cara de enxaqueca: aqui não é uma crise que não acaba, e sim crises que se repetem quase todo dia, em geral por excesso de analgésico ou enxaqueca mal controlada. Os dois quadros, a crise que não passa e a enxaqueca que virou quase diária, têm tratamento próprio e merecem consulta.
O que causa a enxaqueca
A pergunta o que causa a enxaqueca tem uma resposta de duas camadas. A causa de fundo é uma predisposição neurológica, em grande parte herdada: o cérebro de quem tem enxaqueca reage demais a estímulos. Sobre essa base, os gatilhos do dia a dia disparam cada crise. Por isso a enxaqueca não é culpa de quem a tem, e tampouco se resume a um único vilão a ser eliminado.
As causas e os fatores que pesam na enxaqueca podem ser resumidos assim:
Genética: a predisposição que se herda
A enxaqueca corre em família. Quem tem pai ou mãe com enxaqueca tem chance bem maior de também ter, e há formas raras com mutações já identificadas. O que se herda não é a dor em si, e sim um sistema nervoso mais excitável, com menor limiar para disparar a crise. É a razão pela qual duas pessoas expostas ao mesmo gatilho, uma noite mal dormida, por exemplo, reagem de formas tão diferentes.
Hormônios: por que é mais comum em mulheres
A enxaqueca é cerca de duas a três vezes mais comum em mulheres a partir da adolescência, e o motivo é hormonal. A queda do estrogênio nos dias que antecedem a menstruação é um gatilho potente, o que explica a enxaqueca menstrual. Gravidez, uso de anticoncepcional e menopausa também mudam o padrão das crises. Quem percebe esse vínculo com o ciclo encontra orientação no texto sobre enxaqueca hormonal.
O que acontece no cérebro: CGRP e onda cortical
No nível biológico, a crise envolve a ativação do sistema trigeminovascular e a liberação de um neuropeptídeo chamado CGRP, que provoca inflamação ao redor dos vasos das meninges e amplifica a dor. Na enxaqueca com aura, tudo começa com uma onda de excitação que atravessa o córtex e explica os sintomas visuais. Entender que o CGRP está no centro do processo é o que permitiu criar remédios desenhados contra ele, detalhados na seção de tratamento. O mecanismo completo está descrito em O que é a enxaqueca e por que dói.
Gatilhos: o que dispara cada crise
Sobre a predisposição, os gatilhos acendem o pavio. Os mais relatados são jejum e pular refeições, sono irregular (de menos ou de mais), estresse e emoções fortes, álcool (em especial vinho tinto), desidratação, mudanças bruscas de rotina e a flutuação hormonal já citada. Vale uma ressalva: nem tudo que parece gatilho é causa.
A vontade de comer doce e os bocejos, por exemplo, costumam ser sintomas de que a crise já começou, e não o que a provocou. Como os gatilhos são individuais, o diário de cefaleia é a melhor forma de descobrir os seus, assunto retomado na prevenção.
Confundir causa com gatilho leva a tratamentos frustrantes. A pessoa elimina o chocolate, o café e o glúten, um a um, e segue com crises, porque a causa de fundo (a predisposição) continua lá. Os gatilhos ajudam a reduzir a frequência, mas, quando as crises são muitas, o que de fato muda o jogo é o tratamento preventivo, que atua sobre o sistema que dispara a dor, e não sobre um alimento isolado.
As quatro fases da crise
A enxaqueca raramente é só a dor. Em muitas pessoas, a crise se desenrola em até quatro fases, e reconhecê-las tem valor prático: a fase de pródromo pode avisar com horas de antecedência que a dor vem, abrindo uma janela para agir cedo, quando o tratamento funciona melhor. Nem toda crise passa por todas as fases.
- Pródromo (horas a 1 a 2 dias antes)
Sintomas premonitórios mediados pelo hipotálamo: bocejos repetidos, desejo por doces, irritabilidade, dificuldade de concentração, retenção de líquido, rigidez de nuca e sensibilidade à luz que antecede a dor. Aprender a reconhecer esses sinais ajuda a antecipar a crise.
- Aura (5 a 60 minutos, antes ou no início da dor)
Presente em cerca de um terço das pessoas. Sintomas neurológicos focais e transitórios, mais comumente visuais (pontos luminosos, linhas em ziguezague, escotoma cintilante que cresce), e às vezes sensitivos (formigamento que sobe pelo braço) ou de fala. A aura é totalmente reversível.
- Dor (4 a 72 horas)
A cefaleia propriamente dita: unilateral, pulsátil, que piora com esforço, com náusea, vômito, fotofobia e fonofobia. É a fase mais incapacitante, e a que leva a pessoa a procurar um quarto escuro e silencioso.
- Pósdromo (até 1 a 2 dias depois)
A “ressaca” da enxaqueca: cansaço, sensação de mente nublada, dificuldade de concentração, humor alterado e dor residual ao movimento brusco. A pessoa não está doente, mas ainda não voltou ao normal.
A aura merece atenção especial porque seus sintomas se sobrepõem aos de quadros que pedem avaliação imediata. Uma aura típica é gradual (instala-se em minutos, não em segundos), positiva (acrescenta algo ao campo visual, como luzes, mais do que apaga) e reversível, com duração de até uma hora. Sintomas de início abrupto, perda de força de um lado do corpo, ou um primeiro episódio de aura após os 50 anos não devem ser presumidos como enxaqueca e justificam investigação, ponto retomado no próximo capítulo.
Sinais de alerta: avaliar antes de assumir enxaqueca
A imensa maioria das dores de cabeça recorrentes é primária e benigna, mas cefaleia é um sintoma que exige descartar causas secundárias perigosas antes de assumir o diagnóstico de enxaqueca. Os sinais abaixo seguem a lógica do roteiro SNNOOP10, usado para rastrear cefaleias secundárias, e não são típicos da enxaqueca: quando presentes, mudam a prioridade.
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor de cabeça súbita e explosiva, que atinge a intensidade máxima em segundos a minutos (a chamada “thunderclap”, a pior dor da vida).
- Febre, rigidez de nuca, mal-estar intenso ou alteração da consciência.
- Déficit neurológico que persiste: fraqueza de um lado do corpo, alteração da fala, da visão ou da marcha que não se resolve como uma aura.
- Dor de cabeça nova ou diferente após os 50 anos, ou uma mudança importante no padrão habitual.
- Padrão progressivo, dor que piora dia após dia, desperta à noite ou aumenta com esforço, tosse ou ao deitar.
- Histórico de câncer, imunossupressão (HIV, uso de imunossupressores) ou perda de peso sem explicação.
- Início ou piora importante da dor na gravidez ou no pós-parto.
- Dor após trauma recente de cabeça ou pescoço.
Cada sinal aponta para uma hipótese que tem prioridade sobre o diagnóstico de cefaleia primária: a dor explosiva levanta a suspeita de hemorragia subaracnóidea; febre com rigidez de nuca, de infecção do sistema nervoso central; déficit focal que progride, de uma lesão que ocupa espaço; a dor da gestante exige pensar em causas próprias desse período. Na ausência desses achados, e diante de um padrão de crises repetidas e estereotipadas, a avaliação segue o caminho da cefaleia primária. A presença de qualquer um deles justifica investigação antes de tratar a dor como enxaqueca.
Como é diagnosticada
O diagnóstico da enxaqueca é clínico. Não existe exame de sangue, ressonância ou tomografia que confirme a doença: a imagem serve para excluir causas secundárias diante de sinais de alerta, não para fechar o diagnóstico. O raciocínio combina a história detalhada das crises, um exame neurológico normal e a aplicação de critérios reconhecidos.
A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) define a enxaqueca sem aura por critérios objetivos. A enxaqueca com aura tem critérios próprios, centrados em sintomas de aura totalmente reversíveis. Conhecer esses critérios ajuda a entender por que o médico faz tantas perguntas sobre o padrão da dor.
Com esses critérios em mente, a avaliação segue um roteiro prático:
História dirigida
Frequência mensal de dias com dor, duração, lado, qualidade pulsátil, gatilhos, sintomas associados, presença e tipo de aura, e impacto na vida. O diário de cefaleia é a ferramenta central aqui.
Rastreio de sinais de alerta
Aplicação sistemática do roteiro de cefaleias secundárias (padrão SNNOOP10), para decidir se há indicação de exame de imagem antes de seguir.
Exame neurológico
Fundo de olho, campo visual, força, reflexos, sensibilidade, marcha e equilíbrio. Na enxaqueca, o exame entre as crises é normal; qualquer achado persistente exige investigação.
Medida de impacto
Questionários validados de impacto quantificam quantos dias de produtividade a doença consome, e a intensidade vai pela escala de 0 a 10. Servem de linha de base para medir a resposta ao tratamento.
O diário de cefaleia é insubstituível e simples: registrar a data, a duração, a intensidade, os possíveis gatilhos e, sobretudo, quantos dias por mês se usou medicação de alívio. Esse último dado é decisivo, porque define se há risco de cefaleia por uso excessivo de medicação e orienta a escolha entre tratar só a crise ou iniciar profilaxia.
Quando pedir imagem?
Há sinal de alerta, exame neurológico alterado ou mudança importante no padrão da dor?
A imagem (ressonância de preferência) entra de forma seletiva diante de qualquer sinal de alerta, de exame neurológico alterado ou de uma mudança importante no padrão.
Pedida sem critério em quem tem enxaqueca típica e exame normal, a imagem costuma trazer achados incidentais que geram ansiedade sem mudar a conduta.
Tratamento na clínica
O tratamento da enxaqueca é multimodal e individualizado, e se organiza em dois eixos que se complementam: o tratamento agudo (abortivo), que age na crise, e o tratamento preventivo (profilático), que reduz a frequência e a intensidade ao longo do tempo. Sobre os dois se assenta uma base de higiene de sono, manejo de gatilhos e condicionamento físico. A meta é reduzir a frequência e a intensidade das crises e devolver função, nem sempre eliminar a dor por completo. Este capítulo cobre o que é conduzido na clínica; as classes de remédios estão no capítulo de tratamento medicamentoso, a reabilitação física no capítulo seguinte, e as opções de especialista fora da clínica no capítulo sobre cirurgia e terapias avançadas.
A lógica é começar pelas medidas com a melhor relação entre evidência e segurança e escalonar conforme a resposta e a frequência das crises. Quem tem crises raras pode precisar só de um bom abortivo; quem tem crises frequentes, incapacitantes ou que já exigem muitos dias de medicação por mês tem indicação de profilaxia. Na clínica, a abordagem é não-cirúrgica e combina o manejo farmacológico, conduzido por médicos do Grupo de Dor do HC-FMUSP, com técnicas que reduzem a dependência de medicação, como a acupuntura médica, o agulhamento seco, os bloqueios e a neuromodulação.
O panorama abaixo reúne as modalidades conduzidas na clínica, organizadas por categoria. A regra de ouro do abortivo é tratar cedo, ainda na dor leve, antes que a alodínia se instale e reduza a eficácia; a do preventivo é dar tempo a cada opção, porque o efeito é gradual.
Abortivo (crise)
Anti-inflamatório e analgésicos para crises leves a moderadas; triptanos para as moderadas a fortes, melhor no início da dor. Gepantes e ditanos para quem não pode usar triptanos.
Profilaxia oral
Propranolol, amitriptilina, topiramato, flunarizina e candesartana reduzem a frequência em cerca de metade. Escolha pelas comorbidades. Efeito gradual.
Toxina botulínica (PREEMPT)
Preventivo da enxaqueca crônica (15+ dias/mês), não da episódica. 31 pontos, 155 unidades, a cada 12 semanas; efeito cumulativo.
Anticorpos anti-CGRP
Terapia-alvo subcutânea mensal ou trimestral, para episódica e crônica, inclusive após falha de orais. Bem tolerada. Indicação do especialista.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Profilaxia com redução de dias de dor comparável a alguns preventivos orais e bom perfil de segurança. Útil para reduzir polifarmácia ou na gestação. Não é abortiva.
Agulhamento seco e infiltração
Desativa pontos-gatilho miofasciais do trapézio e suboccipitais que referem dor para a cabeça. Soma-se ao tratamento de fundo; não trata a enxaqueca em si.
Bloqueios de nervo
Bloqueio do nervo occipital maior (e supraorbital) com anestésico, por vezes corticoide. Para crises refratárias, enxaqueca crônica e estado de mal; opção em situações da gestação.
Neuromodulação (PENS)
Estimulação elétrica nervosa percutânea sobre o trajeto do nervo, em ciclos de sessões, para componentes neuropáticos e miofasciais selecionados.
Sono, gatilhos e exercício
Base do tratamento: exercício aeróbico regular (evidência preventiva), sono em horário constante, hidratação e refeições sem grandes jejuns, manejo do estresse e TCC.
Como se escalona o tratamento
A escolha entre tratar só a crise ou somar profilaxia depende da frequência e do impacto das crises. O escalonamento abaixo resume a lógica usada na clínica.
A seguir, três modalidades em detalhe, por serem as de maior impacto ou as mais específicas da enxaqueca.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- O que é
- Ato médico, praticado por médicos com formação na área, integrado ao plano farmacológico e ao manejo de gatilhos. Na enxaqueca é profilático, não abortivo: a sessão não corta a crise de hoje, atua sobre a frequência das próximas semanas.
- Mecanismo
- Modula a dor por vias segmentares no corno dorsal da medula, ativa as vias inibitórias descendentes do tronco encefálico (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostral ventromedial) e estimula a liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência nas agulhas tende a recrutar mais esses sistemas. O protocolo costuma combinar pontos cervicais e pericranianos (que descarregam o componente miofascial do trapézio e da musculatura suboccipital) com pontos à distância.
- Evidência
- Uma das indicações com melhor base na enxaqueca e na cefaleia tensional. Revisões sistemáticas e diretrizes reconhecem o papel na profilaxia, com redução de dias de dor comparável à de alguns preventivos orais e perfil de efeitos adversos favorável.
- O que esperar
- O ganho surge ao longo de algumas semanas, com reavaliação pelo diário de cefaleia (dias de dor e dias de medicação de alívio), porque na enxaqueca o desfecho que importa é a contagem mensal, não a sensação de uma sessão isolada.
- Indicações
- Especialmente útil para quem deseja reduzir a polifarmácia, não tolera os preventivos ou está grávida e tem opções limitadas; e quando há muitos dias de dor por mês (a eletroacupuntura como escolha para profilaxia).
- Limitações
- Não corta a crise no dia (não é abortiva). Desconforto ou pequena equimose no local são possíveis e pouco frequentes.
Toxina botulínica: o protocolo PREEMPT
- O que é
- Toxina botulínica tipo A como opção preventiva da enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês), e não da forma episódica. Decisão clínica criteriosa, em geral quando a pessoa já tem a forma crônica e respondeu mal a preventivos orais ou não os tolera. A escolha do produto e das doses cabe exclusivamente ao médico.
- Mecanismo
- Vai além do relaxamento muscular. O que importa para a enxaqueca é a ação antinociceptiva: reduz a liberação periférica de neuropeptídeos da dor, em especial o CGRP, a substância P e o glutamato, nas terminações trigeminais sensitivas, diminuindo a sinalização que alimenta o complexo trigêmino-cervical e atenuando a sensibilização que mantém a dor crônica.
- Evidência
- Indicação validada nos ensaios de fase III (PREEMPT) que aprovaram o uso na enxaqueca crônica.
- O que esperar
- Técnica fixa: 31 pontos de injeção, 155 unidades em sete grupos musculares da cabeça e do pescoço (corrugador, prócero, frontal, temporal, occipital, paraespinhais cervicais e trapézio), com pontos adicionais conforme a dor. Efeito em 2 a 4 semanas, dura cerca de 3 meses e tende a ser cumulativo entre ciclos; os blocos são repetidos a cada 12 semanas e reavaliados.
- Indicações
- Enxaqueca crônica; não indicada na forma episódica.
- Limitações
- Dor leve no local e fraqueza transitória de músculos da fronte são os efeitos mais comuns. Sem indicação na enxaqueca episódica.
Anticorpos anti-CGRP: a terapia-alvo
- O que é
- Primeira classe de remédios desenhada especificamente para a enxaqueca. Anticorpos monoclonais anti-CGRP (erenumabe, que bloqueia o receptor; galcanezumabe, fremanezumabe e eptinezumabe, que neutralizam o peptídeo), preventivos de uso subcutâneo mensal ou trimestral.
- Mecanismo
- Agem sobre uma via única e bem definida, a do CGRP, no centro da crise.
- Evidência
- Os ensaios mostram redução consistente do número de dias de dor tanto na enxaqueca episódica quanto na crônica, inclusive em quem já falhou a vários preventivos orais.
- O que esperar
- Por agirem sobre uma via única, costumam ser bem tolerados. Mudaram o horizonte do tratamento preventivo, mas não dispensam a base de hábitos nem o manejo dos gatilhos.
- Indicações
- Opção quando os preventivos clássicos não funcionaram ou não foram tolerados.
- Limitações
- A indicação, o acompanhamento e a decisão sobre custo e disponibilidade são sempre médicos.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
Muita gente com enxaqueca também tem um componente miofascial pericraniano relevante: pontos-gatilho na musculatura suboccipital, no trapézio superior, no esplênio e no temporal que referem dor para a cabeça e funcionam como gatilho e amplificador das crises. No agulhamento seco desses pontos, a agulha alcança a banda tensa e desencadeia a resposta de contração local, uma fasciculação breve que sinaliza ter atingido a placa motora disfuncional; com isso cai a atividade elétrica espontânea daquela placa e a liberação local de substâncias álgicas, e a aferência nociceptiva que chegava ao complexo trigêmino-cervical diminui. O alvo é específico da cefaleia: pontos suboccipitais e do trapézio cuja palpação reproduz a dor referida para a têmpora ou para trás do olho. Não há injeção de substância; quando o ponto é resistente, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) interrompe o ciclo dor-espasmo-dor.
A dor leve no local por um a dois dias após a sessão é esperada. O agulhamento não trata a enxaqueca em si: desativa um gatilho miofascial que se soma à doença, por isso anda sempre junto do exercício do pescoço e do tratamento de fundo, e seu sucesso se mede pela queda de dias de dor no diário.
Bloqueios de nervo e neuromodulação (PENS)
Bloqueio do nervo occipital maior
Injeção de anestésico local, por vezes com corticoide, ao redor do nervo, na base do crânio. Interrompe temporariamente a condução nociceptiva que chega ao complexo trigêmino-cervical, reduzindo a sensibilização central e abrindo uma janela de alívio. Tem papel no manejo de crises refratárias, da enxaqueca crônica e do estado de mal enxaquecoso, e pode ser usado em situações específicas da gestação por ser um procedimento local.
Bloqueio supraorbital
Opção quando a dor predomina na fronte.
PENS (estimulação elétrica nervosa percutânea)
Aplica corrente por agulhas posicionadas sobre o trajeto do nervo, com efeito de neuromodulação periférica e segmentar, em ciclos de sessões com resposta reavaliada, para componentes neuropáticos e miofasciais selecionados.
Tanto os bloqueios quanto o PENS são recursos pontuais dentro do plano multimodal, e não substituem a base de prevenção. Quem tem componente cervical associado se beneficia de entender a relação entre dor no pescoço e dor de cabeça.
Higiene de sono, gatilhos e exercício: a base
Nenhum remédio rende o que poderia sobre uma rotina desregulada. O exercício aeróbico regular, de intensidade leve a moderada, tem evidência como medida preventiva, com magnitude comparável à de algumas opções farmacológicas em quem o mantém. O sono regular, em horário constante (nem pouco nem em excesso), e a hidratação e refeições sem grandes jejuns estabilizam o sistema que dispara as crises.
O manejo do estresse, incluindo técnicas de relaxamento e a terapia cognitivo-comportamental, completa essa base. O detalhe de cada gatilho e como mapeá-los está em 10 gatilhos de cefaleias e enxaquecas.
O alerta da cefaleia por uso excessivo de medicação (MOH)
Este é o ponto mais importante do tratamento e o mais negligenciado. O uso frequente de medicação de alívio pode, por si só, transformar uma enxaqueca episódica em dor de cabeça quase diária: é a cefaleia por uso excessivo de medicação (MOH). O paradoxo é cruel: o remédio que alivia a crise de hoje, usado em excesso, perpetua a dor de amanhã, num ciclo vicioso de dor, medicação e mais dor.
Os limites são concretos e devem ser monitorados pelo diário de cefaleia: analgésicos simples e anti-inflamatório não devem ser usados em mais de 15 dias por mês; triptanos, opioides, ergotamínicos e analgésicos combinados não devem passar de 10 dias por mês, tudo por mais de três meses. Quando o limite é ultrapassado de forma sustentada, instala-se a MOH, e a saída exige um plano de desmame da medicação de alívio combinado com a introdução de um preventivo eficaz. É um quadro frequente e subdiagnosticado, detalhado em cefaleia por uso excessivo de medicação.
O que esperar ao longo do tempo
Diagnóstico e crise
Confirmar o diagnóstico, iniciar o diário de cefaleia, estabelecer um abortivo eficaz e revisar gatilhos, sono e o uso de analgésicos.
Preventivo e técnicas
Se indicado, iniciar a profilaxia em dose baixa com titulação, e somar acupuntura, agulhamento do componente miofascial e ajuste comportamental.
Reavaliação
Medir a resposta pelo diário e por um questionário de impacto. Sem o resultado esperado, ajustar o preventivo, considerar toxina (PREEMPT) ou anti-CGRP na forma crônica, ou revisar o diagnóstico.
Considera-se um bom resultado a redução de cerca de metade dos dias de dor. Quando essa meta não é alcançada após semanas em dose-alvo, a conduta é mudar o preventivo de classe, checar a adesão e, sobretudo, reabrir o diário para descartar a armadilha clássica: o uso excessivo de analgésico que sabota qualquer profilaxia. A maior parte das pessoas alcança controle expressivo; a enxaqueca é uma condição que se controla mais do que se cura, com fases melhores e piores ao longo da vida.
Algumas observações recorrentes do consultório. A primeira aparece quando a pessoa começa o diário de cefaleia: o que ela jurava ser o gatilho (o chocolate, o queijo) costuma cair, e o que emerge é o trivial e regulável, jejum, noite mal dormida, o fim de semana que quebrou o horário do sono.
A segunda é a confusão entre os dois eixos do tratamento. Muita gente chega cobrando do remédio preventivo um efeito que ele não tem, querendo que ele “corte” a crise no dia, ou usa o abortivo diariamente achando que assim previne. Explicar que abortivo e profilático respondem a perguntas diferentes, um para a crise de hoje, outro para a frequência dos próximos meses, costuma ser o ponto de virada da consulta.
A terceira é a armadilha do uso excessivo de analgésico. É comum a pessoa relatar que “nada funciona mais” justamente porque toma medicação de alívio quase todo dia, sem perceber que isso, por si só, mantém a dor. A quarta, que costuma surpreender, é o peso do pescoço: tratar pontos-gatilho do trapézio e da musculatura suboccipital, em quem tem esse componente, alivia uma parcela das crises que o paciente atribuía inteiramente à cabeça.
Tratamento não farmacológico: fisioterapia, RPG e Pilates
A enxaqueca é uma doença do sistema nervoso, e nenhum exercício atua sobre o gatilho neural da crise. Mesmo assim, a reabilitação física tem um papel concreto em duas frentes: tratar o componente cervical que coexiste com muita enxaqueca e amplifica as crises, e sustentar o condicionamento aeróbico, que é a medida comportamental com melhor evidência preventiva. A reabilitação é ativa, individualizada e não-cirúrgica, conduzida por fisioterapeutas em conjunto com a equipe médica.
A ligação com o pescoço tem base anatômica. As fibras sensitivas das três primeiras raízes cervicais (C1 a C3) convergem, no tronco encefálico, para os mesmos neurônios de segunda ordem que recebem a aferência do nervo trigêmeo: é o complexo trigêmino-cervical. Por essa convergência, a dor que nasce de estruturas do pescoço (articulações facetárias altas, musculatura suboccipital, esplênio, trapézio superior, elevador da escápula) é referida para a cabeça e pode disparar ou agravar a crise.
Tratar esse componente cervicogênico reduz a carga aferente que alimenta o sistema trigeminovascular. Quem tem dor cervical associada se beneficia de entender melhor a relação entre dor no pescoço e dor de cabeça.
Exercício aeróbico regular
Acima de qualquer técnica específica. Intensidade leve a moderada, progressão gradual (esforço súbito e intenso pode ser gatilho). Atua por modulação das vias de dor, melhora do sono, redução do estresse e do peso, e regularização autonômica. É o alicerce sobre o qual as demais medidas rendem mais.
Fisioterapia e cinesioterapia do componente cervical
Reabilitação ativa com exercício dirigido à coluna cervical e à cintura escapular. O foco é o controle motor dos flexores profundos do pescoço (flexão craniocervical), com estabilização escapulotorácica e fortalecimento dos extensores, descarregando as estruturas cervicais altas que referem dor. A terapia manual entra como adjuvante, abrindo uma janela de menor dor para o exercício avançar, nunca isolada.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trabalha o corpo em cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo sustentado e contração isométrica e excêntrica da musculatura encurtada. Devolve comprimento e reduz a tensão de repouso das cadeias posteriores (suboccipital, paraespinhais cervicais, trapézio), fonte de dor referida. Efeito postural e miofascial, sem ação direta sobre a via trigeminovascular.
Pilates clínico
Exercício terapêutico de controle motor e estabilização, conduzido por profissional, com foco na musculatura estabilizadora do tronco e da cintura escapular e na consciência postural. Reduz a sobrecarga sustentada sobre a musculatura cervical alta e, como exercício regular, soma-se ao efeito do condicionamento sobre a frequência das crises.
A resposta da reabilitação é progressiva, ao longo de semanas, e exige adesão à prática domiciliar; o programa é mantido como medida preventiva, não como ciclo com data de alta fixa. O ganho se concentra em quem tem componente cervical ou postural associado, não como tratamento da crise enxaquecosa pura. Nenhuma técnica passiva substitui o exercício ativo, e é contraproducente esperar que postura, sozinha, controle uma enxaqueca de mecanismo predominantemente neural. Desconforto muscular transitório no início da progressão de carga é comum e esperado.
Cirurgia e opções fora da clínica
Esta seção delimita o que não faz parte do tratamento da enxaqueca e o que pertence ao território de outros especialistas. Não existe cirurgia de rotina para enxaqueca. As opções que faltam ao arsenal clínico apresentado acima não são cirúrgicas, e sim terapias avançadas conduzidas por neurologista. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; descrevemos o quadro completo e o momento de buscá-las.
Conservador · padrão
Tratamento clínico multimodal
- Doença neurológica funcional, sem lesão estrutural que uma operação corrija.
- Abortivo + profilático + base de hábitos e manejo de gatilhos.
- Toxina (PREEMPT), anti-CGRP, acupuntura, bloqueios e neuromodulação na forma crônica ou refratária.
- Recomendado por todas as diretrizes; controla a doença sem cirurgia.
Cirúrgico · não indicado
“Cirurgia de enxaqueca”
- Nenhuma diretriz a inclui como tratamento de rotina.
- “Descompressão de pontos-gatilho” (occipital, supraorbital): experimental e controversa, evidência limitada, seleção não padronizada, não recomendada fora de pesquisa.
- Fechamento de forame oval patente: não eficaz para prevenir enxaqueca em estudos controlados; sem essa indicação.
- Diante de oferta de “cirurgia que cura a enxaqueca”, buscar avaliação de neurologista ou médico de cefaleia antes de qualquer decisão.
Há uma exceção conceitual que não é “cirurgia de enxaqueca”, mas vale mencionar: em casos muito raros e refratários de outras cefaleias, como a cefaleia em salvas crônica resistente a tudo, existem técnicas de neuroestimulação implantável conduzidas em centros terciários. Isso pertence a um cenário muito específico e distinto da enxaqueca comum, e não ao manejo da imensa maioria das pessoas com a doença.
Terapias avançadas conduzidas por neurologista
O que costuma estar “fora da clínica” para muitas pessoas não é a cirurgia, e sim o acesso a terapias de especialista quando os recursos anteriores não bastaram. Estas são as opções a buscar com um neurologista ou médico de cefaleia, sempre como parte do mesmo plano multimodal, não em substituição à base de hábitos e ao manejo dos gatilhos.
Quando procurar um médico de cefaleia
Vale o encaminhamento a um neurologista ou médico de cefaleia quando
- As crises não respondem a abortivos adequados.
- Ao menos dois ou três preventivos orais, em dose e tempo corretos, não funcionaram.
- Já existe enxaqueca crônica ou suspeita de cefaleia por uso excessivo de medicação.
- O diagnóstico está em dúvida.
- Surge qualquer sinal de alerta dos descritos no Capítulo 03.
Esse encaminhamento não significa recomeçar do zero, e sim somar ao plano os recursos que dependem de avaliação especializada. A base de hábitos, o manejo dos gatilhos e o tratamento do componente miofascial e cervical continuam valendo em paralelo.
Tratamento medicamentoso
Este capítulo detalha as classes de medicamentos usadas na enxaqueca, organizadas pelos dois eixos já apresentados: os abortivos, que tratam a crise, e os profiláticos, que reduzem a frequência. As doses são citadas apenas como faixas, para orientar a leitura. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente, com reavaliação periódica.
Abortivos: tratar a crise
O objetivo do abortivo é interromper a crise rápido, e a regra de ouro é tratar cedo, ainda na dor leve, antes que a alodínia reduza a eficácia. Para crises leves a moderadas, os anti-inflamatório em dose adequada, muitas vezes associados a um antiemético, costumam resolver. Para crises moderadas a fortes, os triptanos são os abortivos específicos.
| Classe (exemplos) | Mecanismo | Quando se usa | Limites e cautelas |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatório (ibuprofeno, naproxeno, cetoprofeno) e analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Reduzem a inflamação neurogênica e a transmissão da dor | Crises leves a moderadas, em dose plena e precoce | Não usar em mais de 15 dias por mês; cautela gástrica, renal e cardiovascular |
| Triptanos (sumatriptana, naratriptana, zolmitriptana, rizatriptana) | Agonistas 5-HT1B/1D: vasoconstrição craniana e inibição da liberação de CGRP no complexo trigêmino-cervical | Crises moderadas a fortes, ou que não respondem a anti-inflamatório; melhor no início | Não passar de 10 dias por mês; contraindicados em doença coronariana, cerebrovascular, vascular periférica e hipertensão não controlada |
| Antieméticos (metoclopramida, bromoprida) | Controlam náusea e vômito e melhoram a absorção do abortivo | Associados ao abortivo quando há náusea importante | Sonolência; sintomas extrapiramidais com uso repetido |
| Gepantes (abortivos) e ditanos | Gepantes: antagonistas do receptor de CGRP. Ditanos: agonistas 5-HT1F, sem ação vascular | Quando os triptanos são contraindicados ou não tolerados | Acesso ainda restrito no Brasil; indicação do especialista |
| Ergotamínicos (tartarato de ergotamina, di-hidroergotamina) | Agonistas serotoninérgicos não seletivos, com efeito vasoconstritor | Uso hoje restrito, em situações específicas | Não passar de 10 dias por mês; perfil de efeitos e contraindicações vasculares desfavorável; pouco usados |
O ponto crítico, comum a qualquer abortivo, é o limite de dias de uso por mês: ultrapassá-lo de forma sustentada leva à cefaleia por uso excessivo de medicação, descrita no capítulo de tratamento na clínica. É por isso que o diário de cefaleia, registrando os dias de medicação, é parte do tratamento.
Profiláticos: reduzir a frequência
A profilaxia é indicada quando as crises são frequentes (em geral a partir de 4 dias de dor por mês), muito incapacitantes, prolongadas, respondem mal ao abortivo, ou quando há risco de uso excessivo de medicação. O objetivo não é zerar as crises, e sim reduzir a frequência e a intensidade em cerca de metade, tornando-as mais respondedoras ao abortivo. O efeito é gradual: começar com dose baixa, subir devagar e dar tempo a cada medicação (em geral 8 a 12 semanas em dose-alvo) antes de julgá-la ineficaz.
| Classe (exemplos) | Mecanismo | Útil sobretudo quando | Efeitos e cautelas |
|---|---|---|---|
| Betabloqueador (propranolol) | Modula o tônus autonômico e a excitabilidade central | Há também ansiedade, tremor ou hipertensão | Fadiga, bradicardia, broncoespasmo; cautela em asma e depressão |
| Antidepressivo tricíclico (amitriptilina) | Modula vias de dor por ação serotoninérgica e noradrenérgica | Coexistem cefaleia tensional, insônia ou dor crônica | Sonolência, boca seca, ganho de peso; cautela cardíaca e em idosos |
| Anticonvulsivante (topiramato) | Reduz a excitabilidade neuronal e a depressão cortical alastrante | Há também sobrepeso a evitar; enxaqueca crônica | Parestesias, perda de peso, alteração cognitiva; evitar na gravidez (teratogênico) |
| Bloqueador de canais de cálcio (flunarizina) | Estabiliza a excitabilidade neuronal e vascular | Opção de primeira linha bem tolerada para muitos | Sonolência, ganho de peso, sintomas depressivos e extrapiramidais com uso prolongado |
| Antagonista da angiotensina (candesartana) | Modula o sistema renina-angiotensina com efeito preventivo | Há hipertensão associada ou intolerância a outros | Tontura, hipotensão; evitar na gravidez |
A escolha leva em conta as comorbidades e os efeitos adversos: um mesmo remédio pode tratar dois problemas ao mesmo tempo (propranolol em quem também tem tremor, amitriptilina em quem também tem insônia), ou ser evitado em outra situação (topiramato na gravidez). Para a enxaqueca crônica, somam-se às orais a toxina botulínica no protocolo PREEMPT e os anticorpos anti-CGRP, descritos nos capítulos anteriores. Todas as opções exigem prescrição, e nenhuma dispensa a base de hábitos e o manejo dos gatilhos.
Na gestação, várias dessas opções são contraindicadas ou de uso restrito, e o tratamento prioriza medidas não farmacológicas, com a acupuntura médica como recurso útil quando indicada; a condução é sempre individualizada com o pré-natal. Há ainda suplementos com algum suporte na profilaxia, como o magnésio e a riboflavina (vitamina B2), cujo uso, dose e real benefício devem ser avaliados pelo médico, e não assumidos como inócuos por serem “naturais”.
Gatilhos e prevenção no dia a dia
Os gatilhos não causam a enxaqueca, eles disparam a crise em quem já tem a predisposição. Identificá-los e manejá-los reduz a frequência sem remédio, e o diário de cefaleia é a melhor forma de descobrir os seus, porque os gatilhos são individuais. Uma ressalva importante: nem tudo o que parece gatilho é causa. O desejo por doces e os bocejos, por exemplo, costumam ser sintomas do pródromo, ou seja, a crise já começou, e não o que a provocou.
- Manter horário de sono regular, dormindo e acordando em horários próximos todos os dias, inclusive nos fins de semana.
- Evitar grandes jejuns: comer em intervalos regulares e manter-se hidratado ao longo do dia.
- Manter atividade aeróbica leve a moderada de forma regular, evitando picos súbitos de esforço.
- Observar o consumo de álcool (em especial vinho tinto) e moderar a cafeína, evitando excesso e abstinência abrupta.
- Cuidar da postura e fazer pausas em tarefas de tela, reduzindo a sobrecarga da musculatura do pescoço.
- Observar e respeitar o limite de dias de uso de medicação de alívio por mês, para não cair na cefaleia por uso excessivo.
Hábitos mantidos reduzem a frequência das crises.
Na prática, três frentes concentram o maior retorno: regularidade (sono, refeições e hidratação em horários estáveis), condicionamento (exercício aeróbico constante) e vigilância da medicação (não ultrapassar os limites de dias por mês). Pequenos ajustes constantes costumam render mais do que grandes esforços esporádicos. Quem tem crises ligadas ao ciclo menstrual ou desconfia de um padrão hormonal encontra orientação específica no texto sobre enxaqueca hormonal.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Enxaqueca tem cura?
A enxaqueca é uma condição que se controla, não que se cura no sentido de desaparecer para sempre. Com o tratamento certo, a maioria das pessoas reduz de forma expressiva a frequência e a intensidade das crises e recupera a qualidade de vida. A doença pode ter fases melhores e piores ao longo da vida, e em muitas mulheres tende a melhorar após a menopausa. A meta é o controle, e o plano deve ser individualizado após avaliação.
Qual a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça tensional?
A enxaqueca costuma ser de um lado, pulsátil, de intensidade moderada a forte, piora com esforço e vem com náusea e sensibilidade à luz e ao som. A cefaleia tensional costuma ser dos dois lados, em aperto ou peso, de intensidade leve a moderada, não piora com esforço e não traz náusea importante. As duas podem coexistir na mesma pessoa. A tabela do Capítulo 01 resume as pistas, e há um texto dedicado à cefaleia tensional.
O que tomar para cortar a crise de enxaqueca?
Depende da intensidade e do seu histórico, e a escolha é sempre médica. Para crises leves a moderadas, anti-inflamatórios em dose adequada, muitas vezes com um antiemético, costumam resolver. Para crises mais fortes, os triptanos são os abortivos específicos, com contraindicações que precisam ser avaliadas. A regra mais importante é tratar cedo e não ultrapassar o limite de dias de uso por mês, para não desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação.
Tomar remédio para dor todo dia pode piorar a enxaqueca?
Sim, e esse é um dos pontos mais importantes. O uso frequente de medicação de alívio pode transformar uma enxaqueca episódica em dor de cabeça quase diária, num quadro chamado cefaleia por uso excessivo de medicação. Os limites de segurança são de até 15 dias por mês para analgésicos simples e anti-inflamatórios, e até 10 dias por mês para triptanos, opioides e analgésicos combinados. Se você usa medicação acima disso, procure avaliação, porque a saída envolve um plano de desmame e prevenção.
A toxina botulínica serve para qualquer enxaqueca?
Não. A toxina botulínica no protocolo PREEMPT é indicada para a enxaqueca crônica, que é a forma com 15 ou mais dias de dor por mês, e não para a enxaqueca episódica. Ela age reduzindo a liberação de neuropeptídeos da dor, como o CGRP, nas terminações nervosas, e seu efeito é cumulativo a cada ciclo de aplicação. É uma decisão clínica criteriosa, e a indicação e as doses são definidas pelo médico.
Acupuntura funciona para enxaqueca?
A acupuntura médica é uma das técnicas com melhor evidência na profilaxia da enxaqueca, com redução do número de dias de dor reconhecida por revisões sistemáticas e diretrizes, e um bom perfil de segurança. Ela é especialmente útil para quem quer reduzir o número de medicações, não tolera os preventivos orais ou está grávida e tem opções limitadas. É um recurso preventivo, não abortivo: a resposta aparece ao longo de algumas semanas de tratamento e se mede pela queda de dias de dor no diário, dentro de um plano que inclui hábitos e, quando necessário, medicação.
Toda enxaqueca tem aura?
Não. Apenas cerca de um terço das pessoas tem aura, que são sintomas neurológicos transitórios, mais comumente visuais, que precedem ou acompanham a dor. A maioria tem enxaqueca sem aura. Algumas pessoas têm aura sem dor de cabeça. Um primeiro episódio de aura após os 50 anos, ou uma aura de início abrupto e com perda de força, não deve ser presumido como enxaqueca e merece avaliação. O tema está detalhado em enxaqueca com e sem aura.
Quando a enxaqueca é uma emergência?
Procure atendimento sem demora diante de uma dor de cabeça súbita e explosiva (a pior da vida), febre com rigidez de nuca, perda de força ou da fala que não se resolve, uma dor nova e diferente após os 50 anos, ou uma crise que não cede após mais de 72 horas (o estado de mal enxaquecoso). Esses sinais estão no Capítulo 03 e fogem do padrão habitual da enxaqueca. Sobre a duração das crises e quando ir ao pronto-atendimento, veja quanto tempo dura uma enxaqueca.
Qual especialista trata enxaqueca?
O neurologista e o médico da dor são as referências para o diagnóstico e o tratamento da enxaqueca. Um médico fisiatra ou da dor com formação em acupuntura pode integrar o manejo farmacológico com as técnicas que reduzem a dependência de medicação, como acupuntura, agulhamento do componente miofascial, bloqueios e neuromodulação, dentro de um plano multimodal. Diante de qualquer sinal de alerta, a avaliação não deve esperar.
Existe cirurgia para enxaqueca?
Não existe cirurgia de rotina para enxaqueca, e nenhuma diretriz a recomenda como tratamento padrão, porque a enxaqueca é uma doença neurológica funcional, sem lesão estrutural que uma operação corrija. A chamada cirurgia de descompressão de pontos-gatilho permanece experimental e controversa. O que pode faltar ao tratamento não é cirurgia, e sim terapias avançadas conduzidas por neurologista, como os anticorpos anti-CGRP, a toxina botulínica no protocolo PREEMPT e a neuromodulação não invasiva. Diante de uma oferta de cirurgia que “cura” a enxaqueca, busque a avaliação de um médico de cefaleia antes de qualquer decisão.
Fisioterapia ou Pilates ajudam na enxaqueca?
Ajudam sobretudo quando há um componente cervical associado, que é comum. A fisioterapia com exercício para o controle motor do pescoço, a reeducação postural global e o Pilates clínico reduzem a dor referida da musculatura cervical e da cintura escapular, que funciona como gatilho e amplificador das crises. Acima de qualquer técnica específica, o exercício aeróbico regular é a medida não farmacológica com melhor evidência preventiva. Essas abordagens são adjuvantes ao tratamento médico, e seu papel é menor na enxaqueca sem qualquer componente postural ou cervical.
Qual a diferença entre o tratamento da crise e o tratamento preventivo?
São dois eixos que respondem a perguntas diferentes. O tratamento agudo, ou abortivo, age na crise de hoje, para interromper a dor o quanto antes, e funciona melhor quando usado cedo. O tratamento preventivo, ou profilático, é de uso contínuo e tem o objetivo de reduzir ao longo das semanas a frequência e a intensidade das crises, não de cortar a dor no dia. A profilaxia costuma ser indicada quando as crises são frequentes, muito incapacitantes ou já exigem muitos dias de medicação por mês, e na clínica ela se apoia numa abordagem multimodal, que soma hábitos e técnicas não farmacológicas ao remédio. A escolha de cada eixo é definida pelo médico assistente conforme o padrão das crises.
Quando a enxaqueca é considerada crônica?
A enxaqueca é classificada como crônica quando há dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, dos quais ao menos 8 com características de enxaqueca, por mais de três meses; abaixo disso, fala-se em enxaqueca episódica. Essa fronteira não é apenas um rótulo, porque a forma crônica tem opções de tratamento específicas, como a toxina botulínica no protocolo PREEMPT e os anticorpos anti-CGRP. Um fator que costuma estar por trás da cronificação é o uso excessivo de medicação de alívio, motivo pelo qual o diário de cefaleia é tão importante. A avaliação define a forma e orienta o plano.
Existe algum alimento que causa enxaqueca?
Nenhum alimento causa a enxaqueca, que é uma predisposição neurológica, mas alguns podem funcionar como gatilho de crise em quem já tem a doença, e isso é bastante individual. Os relatos mais comuns envolvem o álcool, em especial o vinho tinto, e a abstinência ou o excesso de cafeína, enquanto pular refeições e ficar muitas horas em jejum costuma pesar mais do que qualquer item isolado. O melhor caminho é usar o diário de cefaleia para identificar os seus próprios gatilhos, em vez de cortar vários alimentos por precaução. O mapeamento dos gatilhos está detalhado em 10 gatilhos de cefaleias e enxaquecas.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3). Cephalalgia. 2018;38(1):1 a 211.
- Coeytaux et al. Role of Acupuncture in the Treatment or Prevention of Migraine, Tension-Type Headache, or Chronic Headache Disorders. Headache. 2016.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Na enxaqueca, a escolha entre abortivo e profilático, a dose e o ritmo de titulação dependem do padrão das suas crises, das suas comorbidades e dos dias de medicação que você já usa, e por isso o plano é sempre individualizado em consulta.

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Brilhante conteúdo….tenho formação em acupuntura e especialização…faculdade São Jose Timon Maranhão.