AVISO: Retornaremos o atendimento parcialmente a partir de 07/04. Para maiores informações, favor entrar em contato via WhatsApp

Mecanismos de ação da Acupuntura

Ação local

Os nervos sensitivos periféricos (fibra C) nos “acupontos”, ao serem estimulados induzem a liberação de substância P e de outros mediadores (proteína do gene relacionado à calcitonina) que causam vasodilatação, aumento do fluxo sangüíneo local e edema localizados, portanto uma pequena resposta inflamatória. Esses mecanismos explicam por que no local de penetração da agulha ocorrem pequena mancha vermelha (efeito da vasodilatação) e coceira (liberação de histamina pelos mastócitos).

Efeitos cicatrizantes e regeneração tecidual devido à acupuntura decorrem da migração e da aceleração da proliferação de fibroblastos promovidos pela substância P liberada localmente. Essa ação, além de induzir efeitos estéticos suavizando rugas das expressões faciais, melhora as estrias recentes da pele.

Alguns pesquisadores demonstram que a acupuntura promove analgesia periférica. Acredita-se que essa analgesia periférica seja devido aos peptídeos opióides circulantes, que alcançam a área onde há inflamação, e aí atuam em receptores opióides presentes nas terminações nervosas sediadas, principalmente, nas regiões das articulações. Um exemplo disso é quando uma pessoa é picada por um inseto, aparecendo dor, inflamação e coceira no local, e ao coçar a região atingida com a unha causa uma microinflamação e, em seguida, ocorre diminuição dessa coceira.

 

 

Efeito analgésico segmentar via medula espinal

A liberação dos neurotransmissores ácido gama-aminobutírico (GABA), dinorfina e encefalina impede a transmissão da dor, exercendo efeito analgésico. Na medula ocorre também efeito inibidor da transmissão do potencial nocivo, pela ação dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina, que atuam com os peptídeos opióides. Há provas de que a liberação de encefalina por mecanismo similar reduza a secreção ácida no estômago; desse modo, explicar-se-ia a ação da acupuntura no tratamento de gastrite.

As técnicas atuais permitem o registro de marcadores genéticos da atividade elétrica do neurônio do SNC (proteínas C-fos), de maneira que, após o agulhamento, há aumento quantitativo dessas proteínas em nervos que contêm encefalinas e b-endorfinas. Isso provocaria a redução da liberação de substâncias neuroexcitatórias (glutamato) e o aumento das neuroinibitórias (acetilcolina e noradrenalina), com redução da atividade elétrica do nervo e, conseqüentemente, da transmissão dolorosa no SNC.

A acupuntura também é efetiva na redução da inflamação periférica que ocorre após a injeção de substâncias tóxicas na pata de animais de experimentação, diminuindo o tamanho do volume da pata e da transmissão dolorosa evidenciada pela redução da expressão de C-fos na medula espinhal. Em ratos com lesão do nervo ciático e dor, a estimulação de pontos de acupuntura com veneno de abelha provoca alívio da dor decorrente de trauma mecânico ou térmico. Como esse efeito não foi revertido por drogas que bloqueiam a ação das encefalinas, é possível que a acupuntura, na dor por lesão de nervo, module o sistema nervoso neurovegetativo, inibindo a liberação de substâncias neuroexcitatórias.

 

 

Efeito analgésico supra-segmentar (cerebral)

Sistema inibitório opióide do tronco encefálico: liberação de encefalina e endorfina após a ativação de neurônios opioidérgicos e, secundariamente, liberação de serotonina e noradrenalina no SNC.

Hipotálamo-hipófise: liberação simultânea de endorfinas e ACTH (adrenocorticotrofina). A primeira penetra no líquido cérebro-espinal e na circulação sangüínea sistêmica induzindo analgesia. O ACTH induz a liberação de cortisol da glândula supra-renal, que é um corticóide “natural” com ação antiinflamatória.

O emprego de técnicas com neuroimagem (ressonância magnética funcional) já registrou a ativação de determinadas áreas do SNC sensitivo (córtex somestésico SI e SII, frontal orbital, tálamo ventral) e motor (córtex primário motor, tálamo dorsal) após o agulhamento de pontos clássicos de acupuntura (E 36, BP 6, B 57 e VB 34). Isso reforça a hipótese de que a acupuntura modula a resposta sensitiva e motora decorrente da dor crônica.

 

 

Efeitos no comportamento

A acupuntura ativa um circuito neurofuncional, que compreende o loco cerúleo, os núcleos da rafe, amígdala, córtex pré-frontal e temporal, giro do cíngulo, hipotálamo e sistema límbico. Essa atividade é importante no tratamento do transtorno da ansiedade. Neurotransmissores como serotonina e ácido gama-aminobutírico (GABA) são importantes para essas funções.

A acupuntura ativa o loco cerúleo e libera noradrenalina, neurotransmissor envolvido com a sedação. Em caso de dependência química ou psicológica e de sintomas devido à síndrome de abstinência, a acupuntura atuaria no núcleo acumbente e no loco cerúleo, respectivamente. Desse modo, explica-se o uso da acupuntura como coadjuvante no tratamento do tabagismo e da dependência de drogas. Nessas circunstâncias, o efeito da acupuntura está mais relacionado ao controle da ansiedade que intercorre como comorbidade nesses transtornos, o que torna melhor a adesão aos tratamentos convencionais. Guimarães e cols. (1997) observaram que a acupuntura aplicada durante estresse agudo em um grupo de ratos, imobilizados durante 60 minutos, atenuou alguns comportamentos de luta ou fuga.

É importante ressaltar que estados de ansiedade e tensão nervosa, o próprio medo, entre outras alterações psicológicas, aumentam a tensão muscular e geram mais dor. É uma espécie de círculo vicioso. Esse estado alterado pode gerar certas substâncias algiogênicas (substâncias que causam mais dor), modificar o pH local do sangue e ampliar o processo doloroso e degenerativo em curso. Por essa razão, o efeito tranqüilizante (sedante, ansiolítico) da acupuntura é extremamente relevante para o bem-estar do paciente.

 

 

Efeitos sinérgicos contra círculo vicioso

As ações da acupuntura, muitas vezes, são sinérgicas (somam-se ou potencializam-se). Esse sinergismo pode manifestar-se desde o início do tratamento e em etapas diferentes de sua aplicação. Por exemplo, o efeito analgésico e o relaxamento muscular são mais imediatos, enquanto a ação antiinflamatória manifesta-se três ou quatro dias após, e os efeitos ansiolítico (calmante) e antidepressivo surgem gradativa e simultaneamente. Desse modo, interrompe-se o círculo vicioso de dor-inflamação-espasmo muscular-ansiedade e desespero / angústia-depressão.

 

 

Náuseas e vômitos

O vômito e as náuseas de diversas causas decorre da ativação da área postrema sediada no tronco cerebral. Essas condições são muito bem controladas pelos estímulos da acupuntura. O mecanismo envolve liberação de peptídeo opióide, entre outros neurotransmissores. Tougas e cols. (1992) demonstraram que a acupuntura é capaz de reduzir a secreção ácida do estômago.

Embora os mecanismos envolvidos na náusea e no vômito sejam complexos e a etiologia multifatorial, existe um volume crescente de evidências que confirmam uma parte da eficácia clínica da acupuntura. Apesar de ainda não se ter a compreensão total do mecanismo de ação de acupuntura em controlar a náusea e o vômito, sabe-se que a técnica é bastante segura e eficaz nos casos provocados por distúrbio emocional, gravidez, pós-operatório e tratamento de radio e quimioterapia.

 

 

Imunidade

A partir de diversos ensaios clínicos e experimentais, sabe-se que a acupuntura tem um papel modulatório sobre o sistema imunológico. Porém, esse sistema é bastante complexo, seus componentes interdependentes e os ensaios são fragmentados e mapeiam segmentos do sistema imunológico. Por exemplo, Kasahara (1993) relata supressão da reação de hipersensibilidade tardia, sugerindo mecanismos mediados por receptores opióides. Karst e cols. (2003) descrevem ativação fagocitária dos neutróficos por estimulação do ponto IG 11.

Em síntese, a acupuntura pode estimular a função de células do corpo (neutrófilos) na defesa contra infecções bacterianas e fúngicas. Isso pode ser demonstrado pelo aumento da produção de produtos relativos ao aumento da atividade metabólica dessas células (citocinas), favorecendo a idéia de que a acupuntura modula a resposta imune.

Alguns autores acreditam que a estimulação do ponto E 36 provoque efeito antialérgico, que é máximo após 7 dias de tratamento, isso por meio da interação de substâncias produzidas pelo hipotálamo com as secretadas pelas células do sistema imune.

Esses trabalhos sugerem que a acupuntura pode ser bastante útil no tratamento de alergia, rinite, asma, e outras doenças imunológicas, mas não é capaz de eliminar infecções bacterianas, fúngicas e virais.

 

 

Anomalias cardiocirculatórias

A acupuntura promove profundas alterações no sistema cardiovascular. Diversos estudos demonstraram que a técnica tem um papel homeostático, ou seja, estimula o sistema a retornar a seus níveis normais. Ballegaard e cols. (1993) relataram que a acupuntura apresenta ação modulatória sobre o fluxo sangüíneo da pele, reduzindo a temperatura desta, quando elevada e vice-e-versa. Yao (1993) demonstrou que a acupuntura pode baixar a pressão arterial elevada em pessoas hipertensas e elevar a pressão baixa nos indivíduos com hipotensão.

West e Colquhoun (1993) relataram que a estimulação elétrica transcutânea pode ser útil para aliviar os sintomas da angina pectoris e melhorar o desempenho cardíaco, provavelmente devido a uma combinação de analgesia com inibição da estimulação nervosa simpática do coração.

Estudos sugerem que a acupuntura pode reduzir a hipertensão, porém muitos ensaios carecem de rigor metodológico. Kalish e cols. (2004), em uma proposta de estudo rigoroso, fazem uma revisão dos possíveis mecanismos de ação da acupuntura na redução da pressão sangüínea em pacientes hipertensos. Estudos prévios demonstraram que a acupuntura reduz a atividade da renina, aldosterona e angiotensina II, aumenta a excreção de sódio e promove alterações plasmáticas de noradrenalina, serotonina e endorfina. Alguns desses mecanismos são os mesmos provocados por algumas classes de medicamentos anti-hipertensivos.

 

 

Obesidade

Asamoto e Takeshige (1992) demonstraram que acupuntura auricular reduz o peso em ratos obesos mediante ativação do núcleo ventromedial do hipotálamo (centro da saciedade). Em revisão recente, Lacey, Tershakovec e Foster (2003) descreveram que a possível ação da acupuntura no tratamento da obesidade se deve ao fato de a orelha ser inervada por vários nervos, incluindo o vago, glossofaríngeo, trigêmeo, facial e ramos de nervos espinhais cervicais. O nervo vago interage com os nervos cranianos e estes com o trato digestivo. A estimulação dos nervos interfere nos sinais de apetite do trato gastrintestinal.

 

 

Reabilitação em neuropatias

Em trabalho-piloto para o tratamento por acupuntura de acidente vascular cerebral (AVC) agudo, Alexander e cols. (2004) revêem os possíveis mecanismos de ação da acupuntura no AVC. Esta induz modificações no fluxo sangüíneo cerebral regional, que podem aumentar o fluxo em áreas hipodifundidas da penumbra isquêmica. Mudanças no fluxo sangüíneo podem se dever também à ação da acupuntura nos sistemas límbico-hipofisário em resposta à estimulação de pontos analgésicos. Além disso, recentes estudos em animais demonstram que a acupuntura pode estimular a expressão de fatores neurotróficos que promovem a sobrevivência das células e previnem a apoptose.

Wu (2001), em sua tese de doutorado, demonstrou a eficácia da acupuntura na melhora e na reabilitação de pacientes crônicos vítimas de AVC. O trabalho foi realizado com 62 pacientes com seqüelas de derrame, com história da doença com média de sete anos e meio. Segundo o autor, “as células nervosas do cérebro reagem para começar a funcionar. As células mortas não são ressuscitadas. São as células quietas, afetadas pela falta de sangue em conseqüência do derrame, que provavelmente começam a funcionar, como se fossem células em hibernação ativas que se recuperassem”.

 

 

Efeitos endócrinos

Existem poucos trabalhos na área de endocrinologia. Alguns estudos clínicos sugerem que a acupuntura possa melhorar a alteração dos ciclos menstruais de causa disfuncional, aumentar a chance de fertilidade na mulher, aumento de produção de espermatozóides e diminuição de desconfortos no período de menopausa, como as ondas de calor. E há relatos clínicos de melhora de diabetes. Ainda se desconhecem os mecanismos de ação da acupuntura neste campo, mas, de acordo com alguns resultados de trabalhos publicados na China, a acupuntura apresenta boa perspectiva para essas doenças.

No que se refere às doenças de tireóide tanto hiper como hipo, até o momento não está comprovado que a acupuntura possa funcionar para inibir ou aumentar a produção do hormônio tiroideano. Além disso,quase não há pesquisas ou trabalhos de tratamento clínicos para outros tipos de distúrbios endocrinológicos.

Send this to a friend