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Acupuntura Pediátrica

AUTORES

Marialda Höfling de Padua Dias

Doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
Pediatra do grupo de dor, responsável pelo atendimento ambulatorial de Acupuntura do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicna da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Hong Jin Pai

Pós-graduado em Medicina Tradicional Chinesa-Acupuntura pela Universidade de Pequim
Médico responsável pelo atendimento de Acupuntura do Centro de Dor do Hospital das Clínicas da FMUSP
Coordenador dos Cursos de Especialização de Acupuntura do Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa (CEIMEC)

 

 

INTRODUÇÃO À ACUPUNTURA

A palavra “acupuntura“, de origem latina, quer dizer etimologicamente “atum” (agulha) e “punctum” (punção). A tradução correta seria “Zhen Jiu“, que quer dizer, respectivamente, agulha e moxa. Embora a prática da acupuntura date de muitos milênios, os registros sobre a sua história aparecem a partir de 900 a.C aproximadamente. E o livro “Nei Jing”conhecido como Cânon de Medicina do Imperador Amarelo , surgiu no período entre 500 a 250 a.C.

Esse livro é de grande importância para a acupuntura, apesar de ser escrito com base no conhecimento primitivo de medicina em uma línguagem arcaica e filosófica da Antiguidade chinesa. Cerca de 60 % do contéudo ainda é objeto de estudo até hoje, principalmente os capítulos relacionados às técnicas e manuseio de agulhamento. Muitas dessas técnicas são semelhantes às atuais usadas na fisiatria, ortopedia ou reumatologia, podendo-se dizer que as primeiras ainda são superiores em muitos aspectos.

No século III da era cristã, surgiu o primeiro livro que trazia os pontos colocados sobre os seus respectivos meridianos, citando detalhadamente o nome de cada ponto e função do mesmo.

Esta terapia chegou à Europa no século XVI, sendo a França o primeiro país a usá-la. No entanto, começou a chamar atenção no mundo ocidental a partir da década 70 do século passado, devido ao impacto produzido na mídia por um artigo do jornalista James Reston, publicado em 26 de julho de 1971, no The New York Times, relatando sua experiência com acupuntura no tratamento da dor pós-operatória de uma cirurgia de urgência a que fora submetido na China, como integrante da comitiva do presidente americano Richard Nixon, estando presente o secretário de Estado Henry Kissinger.

Médicos norte-americanos e de outros países viajaram para a China, a fim de conhecer melhor a acupuntura e, a partir de então, centenas de países passaram a praticá-la, tendo sido publicados cerca de 9000 artigos, alguns de bom nível científico e outros um tanto questionáveis

Nos EUA, conforme os dados de Stux e Pomeranz, 2002, existem 27 escolas médicas que incluem o ensino da acupuntura no seu curriculum de graduação, entre elas: Harvard, Stanford, Columbia, Johns Hopkins, Yale, UCLA, University of California (San Francisco) e Case Western Reserve.

No Canadá, até 1997, a Fundação Canadense de Acupuntura realizou cursos para cerca de 2000 médicos.

No Brasil, desde 1995, a acupuntura é reconhecida como especialidade médica, estando difundida pelos Estados da Federação e adotada em algumas Faculdades de Medicina. Existe um curso optativo de acupuntura para os alunos quartanistas na Faculdade de Medicina da USP, e atendimento de acupuntura no Centro de Dor, Clínica Geral, no Instituto de Ortopedia e Traumatologia , na Geriatria e no Instituto de Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1979, listou algumas doenças que poderiam ser tratadas através da acupuntura, a qual foi revista em 2002. Entre os dias 03 e 05 de novembro de 1997, o “National Institute of Health” (NIH) dos Estados Unidos elaborou o “Consenso sobre a Acupuntura”, tanto na área de pesquisa como na de prática clínica, sugerindo uma lista de doenças tratáveis pela acupuntura e recomendando mais investimentos em pesquisas em acupuntura e maior utilização dessa terapêutica pelos médicos.

 

 

ASPECTO ATUAL DE ACUPUNTURA

acupuntura faz parte da Medicina Tradicional Chinesa, assim denominada por ser “diferente” da medicina do Ocidente em diversos aspectos: seu diagnóstico e tratamento empregados baseiam-se em várias teorias como os oito princípios ( Yin-Yang, Superficial-Profundo, Frio-Calor e Deficiência-Excesso), cinco elementos, meridianos, sistemas internos ( Zang-Fu), frutos de observação clínica e subjetiva ao longo dos séculos.

Não é, entretanto, da finalidade deste capítulo discorrer sobre esses assuntos, podendo o leitor consultar os livros clássicos de acupuntura que descrevem cada uma dessas teorias.

Com a introdução da Medicina do Ocidente para a China, no século passado,a Medicina Tradicional Chinesa sofreu grande impacto frente aos Conhecimentos modernos baseados mais em pesquisas objetivas e evidência científica. Por isso, a partir do 1970, iniciou-se o processo de integração das duas medicinas na China, em que uma complementa a deficiência da outra. Essa tendência aos poucos espalha-se pelo Mundo.

Atualmente, a nossa equipe adota a medicina ocidental para fazer o diagnóstico, orientação e acompanhamento da doença, enquanto o uso de acupuntura é mais reservado ao tratamento.

 

 

CONCEITO DE ACUPUNTURA

Entre as várias teorias que regem o conceito de MTC, ocupam um lugar de destaque a teoria de yin-yang e dos meridianos.

 

TEORIA YIN-YANG

A teoria de Yin e Yang baseia-se no conceito de que existe um equilíbrio entre duas forças opostas e complementares dentro do organismo humano: Yin e Yang.

Embora Yang e Yin sejam opostos, são também interdependentes e estão em equilíbrio dinâmico. A saúde depende do equilíbrio relativo entre estes dois elementos e a doença resulta do desequilíbrio entre eles. Na prática o Yin representa os tecidos tais como os órgãos, e o Yang as suas funções.

Os estados de desequilíbrio podem ocorrer com a preponderância de um sobre o outro, como por exemplo: uma taquicardia (o Yang de coração em excesso), ou uma hepatomegalia (o Yin de fígado em excesso) são indícios de doença.

 

TEORIA DOS MERIDIANOS

A descrição a respeito de acupuntura sempre envolve os conceitos de meridianos e seus pontos. Na verdade, estes conceitos não são tão nebulosos e místicos como se afirmam nas leituras. Ao contrário, a sua descoberta e as aplicações na prática clínica mostram a grande sabedoria dos médicos antigos chineses numa época de pouco conhecimento médico.

A teoria dos meridianos ocupa um lugar importante na Medicina Tradicional Chinesa ( MTC), pois ensina que energia ( Qi) e sangue (xue) circulam no organismo através de trajetos que são chamados de meridianos.

Estes formam uma rede complexa, que corre em parte pela superfície do corpo e em parte por regiões mais profundas, ligando-se os tecidos e órgãos entre si. Existem 14 meridianos mais importantes: os meridianos ordinários, em número de 12 e que têm relação direta com os órgãos e vísceras e outros dois extras.

Os meridianos ordinários possuem 6 meridianos yang e 6 yin. Destes, 3 meridianos yang e 3 yin localizam-se nos membros superiores Os restantes correm nos membros inferiores( 3 meridianos yin e 3 yang ). Um meridiano extra corre na linha mediana na região ventral e outro na dorsal do corpo.

Existem mais de dois mil pontos descritos, sendo que 670 mais usados se encontram nesses meridianos. Os restantes são chamados de pontos extras.

Existem muitas especulações sobre a existência estrutural desses meridianos na literatura, entretanto, se comparasse os trajetos dos meridianos com as vias nervosas e outros conhecimentos médicos, podemos sugerir seguintes conclusões, e resultados terapêuticos comprovados na prática clínica.

  • As vias dos ramos nervosos nas pernas e nos antebraços praticamente coincidem com os trajetos dos meridianos, podendo-se deduzir que algumas partes destes são os próprios trajetos daqueles. Exemplificam este conceito o meridiano do pericárdio com o nervo mediano e o meridiano do pulmão com o nervo radial.
  • Alguns trechos de meridianos coincidem com o trajeto da dor desencadeada por um estímulo no ponto-gatilho. Por exemplo: o estímulo de um ponto-gatilho, também chamado ponto doloroso, na região glútea pode gerar irradiação da dor para a face lateral da coxa e perna, semelhantemente à trajetória do meridiano da vesícula biliar, no membro inferior.
  • A disposição longitudinal de alguns trechos dos meridianos situados na camada entre a pele e os músculos teoricamente correspondem aos vasos, tendões e aos próprios músculos, os quais se distribuem da mesma forma, e são inervados pelos nervos periféricos. E uma vez essas inervações fossem lesadas, comprometem seriamente o resulatdo de acupuntura.
  • Todos os trajetos dos meridianos chegam ‘a cabeça. De acordo com a Neurofisiologia moderna, a transmissão dos estímulos ao longo dos inúmeros nervos parte da periferia do corpo e chegam ao encéfalo. Experimentos realizados na década de 70 demonstraram que, quando se anestesia um ramo nervoso, os pontos situados ao seu redor tornam-se insensíveis à Acupuntura. Outro exemplo, o paciente freqüentemente queixa-se de sensação de anestesia no local da incisão cirúrgica, resultado do corte de ramos nervosos pelo bisturi. Respostas terapêuticas nos pontos dessa área também podem ser diminuídos ou até ausentes. Da mesma forma, observou-se que a Acupuntura é pouco eficaz em pacientes com lesão medular ou cerebral. Até hoje, através de diferentes métodos de exame laboratorial de alta tecnologia, ainda não se achou algo parecido aos meridianos. Desse modo, estudos atuais sugerem que a rede formada pelos meridianos e seus ramos constituem, na verdade, a denominação antiga dos Sistema Nervoso Central e Sistema Nervoso Periférico.
  • Com base em pesquisas científicas, desde a década de 60, sabe-se que em 99% dos pontos estão presentes grande quantidade de terminações nervosas, principalmente A-delta e C, onde há menor resistência elétrica, sendo que 70% dos pontos de acupuntura coincidem com os pontos-gatilho. De acordo com o conhecimento de que a rede dos meridianos está relacionada com o sistema nervoso periférico, e que os pontos correspondem, na verdade, ao local onde existe grande concentração de terminação nervosa periférica . E durante o processo do tratamento os pontos escolhidos para tratamento ficam nos dermátomos relacionados aos sintomas na maioria dos casos, assim pode-se concluir que os pontos fazem parte do sistema nervoso periférico.

 

 

MECANISMOS DE AÇÃO DA ACUPUNTURA

tratamento com acupuntura baseia-se principalmente na aplicação de estímulo em pontos específicos que se localizam na área de grande concentração de terminação nervosa ou ao redor de ramos nervosos.

A estimulação do ponto de acupuntura pode se dar de várias formas: agulhamentocalor (moxa), lasereletricidade (eletrodos), ventosas, sendo que o agulhamento ocupa uma posição de destaque na conduta terapêutica com acupuntura.

A utilização deste método milenar como recurso terapêutico pode ser justificada a partir da compreensão de seus mecanismos de ação. Em síntese, vários efeitos de relevância clínica podem ser gerados pela acupuntura (ACP) ou eletroacupuntura (EACP). Dentre eles destacam-se os efeitos: analgésico, relaxante muscular, sedativo/hipnótico, antiemético, ansiolítico, antidepressivos (leve), anti-secretor (HCl), anti-adição, antiinflamatório, indutor da imunidade, facilitador na reabilitação após acidente vascular cerebral e estimulante da reparação e cicatrização tecidual. Por isso, hoje esses efeitos são denominados de efeitos terapêuticos de acupuntura.

Os efeitos da Acupuntura e da Eletroacupuntura se fazem por meio de mecanismos neurais e neuro-químicos, que estão sendo pesquisados há várias décadas.

Mais de uma dezena de neurotransmissores e seus receptores participam das respostas à Acupuntura, como peptídeos opóides endógenos, b-endorfinas, Leu-encefalina e dinorfinas, serotonina, acetilcolina, dopamina, adenosina, somatostatina, ácido gama-aminobutírico, neurotensina, substância P, vasopressina, angiotensina. colecistoquinina, ácido glutâmico

Embora o assunto envolva inúmeros estudos, alguns aspectos atuais do conhecimento são importantes:

Pai et al, 2003 relatam “ o sistema inibitório opióide participa da analgesia por acupuntura via péptides opiódes endógenos em diferentes níveis do Sistema Nervoso Central (SNC):

  • medular: encefalina e dinorfina-A, bloqueando a barragem aferente nociceptiva.
  • mesencefálica: encefalinas e b-endorfinas: após ativação primária de neurônios opioidérgicos e, secundariamente, após liberação por 5HT e noradrenalina(NA); monoaminas localizadas em neurônios dos núcleos da rafe e loco cerúleo, respectivamente entre outros.
  • Hipotálamo-hipófise: b-endorfina (co-liberada com ACTH), que penetra no líquido cefalo-raquidiano e circulação sistêmica, produzindo analgesia.

Muitos autores admitem que a estimulação com alta freqüência e baixa intensidade liberaria predominantemente peptídeos opióides, enquanto a baixa freqüência e alta intensidade liberaria catecolamina e serotonina, que agiriam sem que seus efeitos pudessem acumular.

 

 

INDICAÇÕES GERAIS DA ACUPUNTURA

As principais indicações da acupuntura podem, assim, ser resumidas:

1.Dores e processos inflamatórios em geral: A acupuntura tem melhores resultados em dor de origem músculo-esquelética cuja etiologia pode ser trauma, artrose, exercícios repetitivos, tensão emocional, erro de postura, lesão de tecidos moles ou dor orofacial.

2.Doenças neurovegetativas, psicossomáticas, estresse , depressão e outros transtornos psíquicos.

3.Doenças viscerais de grau leve como asma, bronquite, gastrite, angina do peito, colite, rinite.

4. Doenças e sintomas neurológicos como enxaqueca, cefaléias em geral.

 

 

VANTAGENS DO TRATAMENTO COM ACUPUNTURA NA PEDIATRIA

É eficaz no tratamento da dor, principalmente de origem músculo-esquelética, exercendo também efeito relaxante muscular, antiinflamatório além de melhorar a ansiedade, depressão e sintomas somáticos que acompanham a dor tanto aguda como crônica. É um método seguro, a probabilidade de complicações é extremamente baixa. Em casos de respostas insatisfatórias, pode-se associar a tratamentos medicamentosos, com a vantagem de se poder empregar, muitas vezes, menores doses.

Em pacientes acometidos de alergia medicamentosa, insuficiência renal, hepática, hipertensão arterial maligna, suscetíveis à hemorragia digestiva, a acupuntura pode ser considerada como a primeira escolha. Em pacientes com dor crônica, há, às vezes, necessidade de uso de drogas antidepressivas associadas ao tratamento de acupuntura, podendo-se diminuir o emprego desses medicamentos.

As experiências demonstram, no nosso serviço, que o tratamento de acupuntura é bem tolerado e aceito pelas crianças/adolescentes, e o uso de agulhas descartáveis afasta problemas de infecção. Para pacientes que têm fobia de agulha, dispõem-se de outros métodos de estímulo mais confortáveis e indolores, porém os resultados são mais lentos .

 

 

DESVANTAGENS DO TRATAMENTO COM ACUPUNTURA

As desvantagens do tratamento são mínimas, mais ligadas a problemas operacionais e preconceituosos, porque é raro o paciente que procura a acupuntura como a primeira opção de tratamento

A dor aguda por espasmo muscular pode ser resolvida em poucas sessões, o que não ocorre com a dor crônica ou dor causada por lesão orgânica pois há necessidade na maioria das vezes de 10 sessões, exigindo o comparecimento à consulta, pelo menos uma vez por semana, o que requer tempo disponível das mães ou responsáveis e das crianças/adolescentes, que na maioria são escolares.

Em alguns casos, é difícil vencer o medo de agulhas.

 

 

TIPOS DE ACUPUNTURA

Os mais freqüentemente utilizados são:

Acupuntura clássica

São utilizadas agulhas como será descrito mais adiante.

Eletroacucupuntura

Especialmente útil em sindromes de dores crônicas, consiste em estimular as agulhas de acupuntura com uma corrente elétrica. As agulhas são ligadas a um aparelho de eletroestimulação que gera impulsos elétricos às agulhas ligadas a ele por meio de fios com pequenos “clipes”, não devendo permanecer ligados por mais de 30 minutos. Comparativamente à técnica clássica, ela é relativamente recente no seu emprego, pois a maioria dos autores julgam que se iniciou após 1940. Este método não é muito bem aceito por crianças.

Quando se estuda a eletroacupuntura de baixa freqüência (2 Hz) e de alta freqüência (100 Hz), verifica-se que induz à liberação de encefalinas e dinorfinas tanto em animais experimentais quanto em seres humanos. Se forem utilizadas estimulações alternadas entre ambas freqüências, com pequenos intervalos de 3 segundos, todos os três tipos de peptídios opiáceos podem ser liberados simultaneamente, produzindo efeito analgésico mais potente.

Não deve ser usada em pacientes com marcapasso cardíaco.

Eletroacupuntura Ryodoraku

A técnica foi idealizada por Nakatani, no Japão em 1950. É um método de estímulo elétrico através da agulha inserida em pontos reativos eletropermeáveis (PREPs) com finalidade analgésica. Realiza-se a estimulação em pontos localizados nos dermatômeros, onde a dor se localiza ou em pontos onde a resistência elétrica está diminuída. Esses pontos podem coincidir ou não com os pontos descritos nos meridianos.

Acupuntura com ou sem agulha por meio de estímulo pelo aparelho denominado “Hans”.

Este aparelho possui dois pares de fios ligados às agulhas ou a placas com adesivos , que são colocados no local do ponto a ser utilizado. O aparelho está programado para funcionar durante 30 minutos, emitindo impulsos com intensidade ajustável de acordo com a tolerância de cada paciente a freqüências variáveis de 2Hz a 100 Hz. A técnica com adesivos não provoca dor, apenas um pequeno desconforto totalmente aceitável pelas crianças.

Auriculoterapia

auriculoterapia (ou acupuntura auricular) é uma técnica baseada no conceito de que existem relações fisiológicas entre o pavilhão auricular e diversas partes do corpo. A auriculoterapia consiste em estimular pontos específicos no pavilhão auricular. Pode-se utilizar pequenas esferas ou sementes próprias para essa finalidade, que são fixas por meio de esparadrapo fino (micropore).

A nossa impressão é que qualquer ponto na orelha possui efeito analgésico inespecífico, porém de duração menor e de pouco efeito como relaxante muscular.

 

 

ABORDAGEM DA DOR

Conhecendo melhor as vantagens da integração da medicina tradicional chinesa e a medicina ocidental, o paciente que vai ser submetido ao tratamento com acupuntura deve seguir o curso normal de uma consulta, começando pela anamnese, onde se dá ênfase às características da dor, à sua localização, intensidade, medicação em uso.

No exame físico é importante ressaltar que o paciente com dor deve ser analisado sob a ótica de várias especialidades médicas como neurologia, ortopedia, reumatologia e fisiatria além de exames complementares. Analisa-se também a interferência da dor na vida quotidiana do cliente e sua relação com o estado emocional.

No que se refere à intensidade da dor é sempre útil a utilização da escala analógica de dor (VAS) e outros instrumentos, que permitam avaliar a evolução do tratamento.

O exame físico é também feito com a finalidade de procura da possível causa de dor, porque o fato de se eliminar ou atenuar dor miofascial ou pontos- gatilho não significa a cura de uma patologia dolorosa.

No caso de dor crônica músculo-esquelética localizada pode-se abordar o tratamento levando em consideração o meridiano acometido e as áreas dolorosas conforme os dermátomos. Em outros casos, como por exemplo na síndrome de fibromialgia, existem várias opções de tratamento , e uma delas baseia-se no raciocínio da MTC.

Atualmente a anamnese pela Medicina Tradicional Chinesa nestes casos de dor está cada vez mais em desuso por causa de sua imprecisão em diagnóstico.

 

 

ESCOLHA DA TÉCNICA UTILIZADA

A abordagem da criança e do adolescente que inicia o tratamento é feita de modo muito cuidadoso e paciente, pois em geral eles nunca tiveram contato com o método e têm medo da agulha.

agulha utilizada é esterilizada, descartável e mede geralmente 0,25/25 mm ou 0,25/40mm

É importante que se explique à criança e ao responsável no que consiste esse tratamento e a segurança que o método oferece além da necessidade de disponibilidade de tempo para o mesmo.

Inicia-se a aplicação com uma ou duas agulhas, nos pontos que costumam doer menos. Após aceitação do método passa-se a colocar mais agulhas, segundo a tolerância da criança/adolescente e a necessidade.

O número de agulhas vai depender de cada situação.

A criança precisa ser tranqüilizada, avisada sobre a ocorrência da dor da picada e só prosseguir, se ela concorda com a colocação das agulhas.

O tratamento é , em geral, realizado uma vez por semana, com uma média de 10 aplicações, podendo, em muitos casos se estender por mais sessões. É o que acontece em geral com a fibromialgia, que dificilmente alcança bom resultado com esse número de aplicações.

Nas crianças mais sensíveis, as agulhas são aplicadas mais superficialmente e o tempo das sessões também é menor. Varia entre 5 a 10 minutos para os de mais baixa idade e de acordo com a tolerância.

Na prática é a partir dos 5 anos de idade, que se pode esperar a compreensão do tratamento, mas é a partir dos 7 a 8 anos da idade que a aceitação da agulha é mais fácil .

 

 

POSIÇÕES DOS PACIENTES NO TRATAMENTO

Deve-se colocar o paciente em decúbito ventral, dorsal ou lateral, de acordo com o local de aplicação das agulhas e com o conforto do paciente. Quando este não tolera o decúbito ventral, coloca-se o mesmo em decúbito lateral.

Evita-se realizar o tratamento com a criança sentada, a fim de se evitar uma possível lipotimia (desmaio), a qual é muito rara. Em geral, vencendo-se a resistência inicial, a criança/adolescente tolera bem as sessões de acupuntura.

Ao manipular as agulhas, na tentativa de efetuar estímulo maior ou adequado de acordo com a condição clínica, muitas vezes pode-se provocar mais dor e aumentar o desconforto do paciente e a probabilidade de abandono de tratamento.

Portanto, deve-se adotar as técnicas mais simples e menos doloridas no manuseio de estímulo.

Em certos casos, o paciente pode apresentar medo da agulha, motivo pelo qual pode-se iniciar a sessão com o aparelho “Hans”, que executa o estímulo similar à acupuntura, porém sem agulhas.

Muitas crianças rejeitam determinados pontos mais dolorosos e o uso desse aparelho pode permitir facilmente a aceitação pela criança. Além dessas opções , pode-se utilizar, como complemento, a auriculoterapia.

 

DURAÇÃO DO EFEITO DO TRATAMENTO PELA ACUPUNTURA

A duração do efeito terapêutico é muito variável. Pode variar, desde horas e dias a até meses e anos, havendo situações de desaparecimento completo dos sintomas e até a cura da doença causadora da dor.

A duração do efeito depende da causa dos sintomas e da patologia, da experiência dos médicos acupunturistas e da responsibildade de cada paciente.

Desconhecem-se estudos científicos sobre a duração do efeito da acupuntura, em crianças.

Em adultos com dor crônica, conforme estudo da equipe de acupuntura do Centro de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, cada sessão de acupuntura pode provocar, em média, alívio da dor por 3 dias e 9 horas , sendo que 4 meses após o tratamento, cerca de 55% dos pacientes, que já foram submetidos aos diversos tratamentos convencionais sem sucesso, mantiveram alívio de dor, melhora de insônia, depressão e melhora de atividade geral, concluindo-se, portanto, que a acupuntura possui efeitos de melhora de qualidade de vida.

Carlsson e Sjölund em 1994, realizaram um estudo em pacientes tratados em um hospital universitário, constatando que após 6 meses, 23% daqueles que apresentavam dor nociceptiva, ainda mantinham alívio da dor, porcentagem bem maior do que aqueles que tinham dor neuropática (12%)

Nos pacientes com diagnóstico de dor psicogênica, nenhum deles continuava com alívio após 6 meses de tratamento Os mesmos autores, em 2001 publicaram um estudo controlado randomizado, utilizando acupuntura manual e eletroacupuntura em pacientes de ambos os sexos, com dor lombar, tendo concluido que houve melhora significante na intensidade da dor após 1 a 3 meses, no grupo tratado com acupuntura.

Após 6 meses a 48 meses houve melhora em alguns pacientes com dor nociceptiva, sendo este grupo representado somente por mulheres.

 

 

EFEITOS ADVERSOS

Efeitos adversos são descritos na literatura, os quais podem ser minimizados se for utilizada técnica correta e cuidados já descritos acima.

O desconhecimento da anatomia e possíveis implicações de uma técnica incorreta podem levar a acidentes mais sérios como pneumotórax, tamponamento cardícaco, lesão de medula espinal, infecção.

Esses acidentes são perfeitamente evitáveis quando a acupuntura é realizada por um acupunturista cuidadoso e bem preparado.

As ocorrências mais comuns são pequenos hematomas no local de um ponto, dor no local da aplicação, desconforto, pequeno sangramento no local da agulha, quando esta é retirada.

Pacientes ansiosos, cansados ou debilitados podem ter reações desfavoráveis como náuseas, tontura, palidez, sudorese.

Quando ocorre retiram-se as agulhas, coloca-se o paciente deitado em decúbito dorsal, com a cabeça baixada, comprimindo-se com o dedo a região medial entre o nariz e o lábio.

Esses fenômenos nunca ocorreram no ambulatório do Instituto da Criança, a não ser uma ocorrência efêmera de palidez.

Yamashita H, et al. observaram 65.482 pacientes durante 6 anos e encontraram 0.14% de efeitos adversos, sendo que nenhum acidente sério foi relatado.

 

 

PATOLOGIAS MAIS COMUNS TRATADAS COM ACUPUNTURA

Desde 1996 o Instituto da Criança “Prof. Pedro de Alcântara” do Hospital das Clínicas da FMUSP mantém um ambulatório para tratamento com acupuntura em crianças e adolescentes.

Como são inúmeros os motivos de ocorrência de dor, a presença de dor crônica, que não cede a tratamento medicamentoso é motivo mais freqüente de solicitação de tratamento, como por exemplo:

Cefaléia

Tanto a cefaléia em geral como a enxaqueca se beneficiam com o tratamento. É importante no caso de cefaléia afastar causas orgânicas ou doenças que venham acompanhadas de cefaléia. A experiência do Instituto da Criança se refere a tratar cefaléia não associada à doença orgânica e, entre estas, a enxaqueca.

As localizações mais comuns de cefaléia tratadas são: frontal, temporal, parietal, occipital, no topo da cabeça.

O tratamento consiste em tratar durante 10 ou mais sessões, de acordo com a necessidade e controle periódico a seguir. Em caso de recidiva , a qual é geralmente acompanhada de dor menos intensa, o tratamento é reiniciado, até a remissão, que, em geral ocorre após 4 a 5 sessões.

Esse pode ser realizado de acordo com a localização da dor e seu meridiano (Zhongyin, 1994 )Trabalhos na literatura comprovam a eficácia da acupuntura em cefaléia (Hesse et al, 1994, Lifu & Lanmin, 1995, Pintov et al, 1997, L et al, 2000).

Em trabalho de revisão mais recente de Melchart et al, 2003, em um estudo da Cochrane Library, concluiu-se que as evidências existentes comprovam o valor da acupuntura no tratamento de cefaléias idiopáticas.

Painel organizado pelo National Institute of Health (NIH), 1998 com 12 representantes do campo da acupuntura, para uma audiência de 1200 pessoas, concluiu que a acupuntura pode ser útil em muitas situações, sendo a cefaléia uma delas.

Fibromialgia

Requer mais tempo de tratamento, mas em crianças/adolescentes, a remissão ou melhora dos sintomas se faz após 12 a 14 sessões, podendo demorar mais tempo.

Os sintomas que desaparecem em primeiro lugar são os problemas de sono, os quais às vezes persistem mesmo após a diminuição ou desaparecimento da dor.

O princípio de tratamento baseia-se no conceito da Medicina Tradicional Chinesa, podendo-se em fases posteriores tratar as dores músculo-esqueléticas localizadas que permanecem ainda.

Tivemos oportunidade de tratar e seguir algumas crianças/adolescentes com fibromialgia observando que de dez tratadas com os mesmos pontos, 3 tiveram desaparecimento da dor, 6 apresentavam dor localizada de fraca intensidade e uma abandonou por não sentir melhora após 8 sessões.

Os sintomas mais predominantes foram cansaço ao acordar e problemas de sono, sendo que em sete pacientes, esses sintomas desapeceram, persistindo em 3.

Em adultos a eficácia da acupuntura na fibromialgia já tem sido estudada (Deluze et al, 1992) inclusive no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Targino et al, 2002).

Anemia Falciforme

Pode-se utilizar a acupuntura nas fases de crises de dor, as quais entretanto não prescindem da terapêutica medicamentosa. Essas crises podem ser tão intensas que necessitam de internação para tratamento adequado.

A acupuntura pode ser muito útil como prevenção das crises, diminuindo o número de internações, a intensidade da dor e o tempo de internação além de diminuição de uso de morfina e derivados, fato particularmente importante em crianças , porque o seu uso prolongado certamente interfere na esfera de comportamento cognitivo e a capacidade de desempenho escolar.

Distrofia simpático-reflexa

Crianças com distrofia simpático-reflexa podem se beneficiar da acupuntura, como referem Lotito et al, 2004.

Artrite reumatóide juvenil

A acupuntura é utilizada como complemento ao tratamento medicamentoso, para alívio dos sintomas e inflamação.

Outras

Dor miofascial, dores causadas por traumatismos ou outras causas podem ser tratadas também com acupuntura.

As adolescentes que apresentam dismenorréia também se beneficiam com o tratamento de acupuntura, que , além de alívio de dor, também proporciona uma condição emocional mais calma, diminuição de retenção de líquido e prevenção de crises futuras.

 

 

CONCLUSÕES

A introdução de tratamento de acupuntura como mais um arsenal terapêutico abre uma perspectiva de melhora de qualidade de vida para as crianças/adolescentes.

Esta técnica oferece um leque de benefícios como analgesia, relaxamento muscular, efeito antiinflamatório, ansiolítico, antidepressivo e melhora da imunidade, ou melhor os efeitos aparecem de forma conjunta, desse modo, ela pode quebrar o circulo vicioso: lesão -> inflamação -> contratura muscular ->dor -> transtorno emocional -> má qualidade de vida -> piora de quadro clínico.

Como outras vantagens, pode-se citar a diminuição do consumo de medicamentos.

A sua associação com as drogas antidepressivas ou anticonvulsivantes exercem ação sinérgica dessas drogas, e sendo a primeira opção, no tratamento da dor, para aqueles acometidos de lesão hepática, renal, aplasia medular, risco de sangramento gastrintestinal e grávidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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