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Istoé: Não é como sua mãe dizia: Médicos derrubam mitos sobre o corpo

Matéria publicada na Revista IstoÉ

Elas são tão antigas que ninguém mais sabe quando ou por que surgiram. Mas o fato é que dezenas de ideias equivocadas sobre nosso corpo e nossa saúde permanecem ano após ano em uma lista de verdades absolutas – sem que tenham qualquer fundamento. São falácias como a recomendação de que se deve consumir oito copos de água por dia ou então que é preciso cortar o cabelo para que os fios cresçam mais fortes.

Agora, um livro que acaba de ser lançado nos EUA se propõe a derrubar alguns dos mais populares desses mitos da medicina. Intitulada “Don’t Swallow your Gum – Miths, Half-Truths and Outright Lies about your Body and Health” (Não engula o seu chiclete – mitos, meias verdades e mentiras sobre o corpo e a saúde), a obra foi escrita pelos pediatras Aaron Carroll e Rachel Vreeman e será publicada no Brasil no próximo semestre.

Professores da Universidade de Indiana, eles escreveram o livro depois do frenesi causado na comunidade médica pelo artigo de sua autoria Medical Myths Even Doctors Believe (Mitos da medicina nos quais até os médicos acreditam), publicado no British Medical Journal em dezembro de 2007. “Os médicos têm resistência em reconhecer que estão errados, mesmo com as evidências provando o contrário”, afirmou à ISTOÉ Carroll. “Houve tanta repercussão que decidimos publicar o livro”, disse Rachel à ISTOÉ. Para julgar a validade das afirmativas, os autores contrastaram as principais crenças com a literatura médica.

Segundo a dupla, a sobrevivência de mitos ocorre pela confusão que se faz entre os conceitos de “causa” e “associação” na pesquisa médica. “Quando um fato está associado a um sintoma, não quer dizer que gere o sintoma”, explica Rachel. É o caso da ideia de que tempo frio causa resfriado. Ele não causa, mas como o resfriado, por outras circunstâncias, é mais comum no inverno, a sabedoria popular criou uma verdade por associação. Portanto, é natural que você já tenha acreditado em muitas das sentenças apresentadas nos quadros desta reportagem. Mas aqui vão os argumentos para que você não se equivoque mais a partir de agora.

Enganos sobre a comida e a bebida


Quase todo mundo já foi orientado a tomar oito copos de água por dia. O primeiro registro da recomendação é de 1945, quando o National Research Council, dos EUA afirmou que adultos deveriam tomar dois litros e meio de água diariamente. Porém, segundo os autores americanos, trata-se de um mito. A contribuir com a posição está Heinz Valtin, da Escola de Medicina Dartmouth. Ele fez uma revisão na literatura médica e consultou nutricionistas em busca de evidências que justificassem o conselho. “Não encontrei nenhum suporte científico”, disse à ISTOÉ. O tema, entretanto, suscita debate. O gastroenterologista Eduardo Berger, do Hospital Edmundo Vasconcelos, defende a recomendação. Segundo ele, perdemos cerca de três litros de água por dia através da urina, do suor e da respiração, que devem ser repostos sob o risco de desidratação.

Nessa categoria de alimentação x saúde, há outros mitos. Um deles diz respeito à alimentação noturna e ganho de peso. Uma opinião quase unânime é a de que comer à noite engorda. O conceito prevalece a despeito do fato de muitos estudos mostrarem que não existe associação entre o horário da refeição e o ganho de peso em indivíduos com peso normal.

Cortando ou não, o cabelo cresce um centímetro por mês

Um dos trabalhos citados por Carroll e Rachel foi feito na Suécia e revelou que o ganho de peso está relacionado apenas à quantidade de calorias consumidas ao longo do dia. Outra pesquisa, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, reforça a constatação. O estudo envolveu 2.980 homens e mulheres obesas e não obesas. Os estudiosos não encontraram relação significativa entre alimentação noturna e ganho de peso. Exceto entre as obesas, que ganharam em média cinco quilos. A explicação seria a de que, para elas, já com tendência ao acúmulo de gordura, a refeição à noite é ainda mais prejudicial. Magra por natureza, a arquiteta carioca Gorete Colaço, 39 anos, nunca fez dieta e come à noite sem restrições. “E levanto de madrugada para comer chocolate”, diz.

Quando você era criança, provavelmente foi repreendido pelos seus pais por querer dar um mergulho após a refeição. Mas, segundo os médicos americanos, isso também não tem respaldo da ciência. O que especialistas brasileiros acreditam, porém, é que o melhor é evitar entrar na piscina após uma refeição pesada. “Se a pessoa comer uma feijoada pode ser prejudicial”, diz Berger. Ele sustenta a ressalva com a explicação de que uma digestão mais trabalhosa exige maior quantidade de sangue.

Usamos muito mais do que 10% do cérebro

Isso implica redução do fluxo sanguíneo nos músculos no cérebro. “Qualquer atividade que exija esforço, se feita nesse período, pode provocar desmaio ou algo mais grave.” Contrariando o mito, o professor de natação Alexandre Teobaldo, da Academia Swimming Center, em São Paulo, nada logo após as refeições. “Sinto câimbra quando nado sem ter me alimentado”, diz.

Conceitos errados sobre o corpo

Quem já não ouviu a velha história de que cortar o cabelo ajuda os fios a crescerem mais fortes?

E as máximas de que ler no escuro estraga a visão, de que nunca se deve acordar um sonâmbulo ou a afirmação de que só usamos 10% do cérebro? Está tudo errado. “Não há nada que altere o ritmo de crescimento dos cabelos”, diz a dermatologista Maria Fernanda Gavazzoni, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. “Eles crescem um centímetro por mês, independentemente de terem sido cortados ou não.” A publicitária Gisele Hermeto, de São Paulo, sempre acreditou no mito. “Corto o cabelo a cada dois meses para ele ficar mais bonito.” Não há fundamento também no medo de despertar um sonâmbulo. “No máximo ele vai acordar assustado e desorientado”, diz o neurologista Luciano Ribeiro Pinto, do Instituto do Sono, de São Paulo.

Em relação aos prejuízos à visão quando se lê com pouca luz, a verdade é que a atitude gera, no máximo, ressecamento dos olhos. “Mas não há dano permanente”, diz o oftalmologista Noé Luiz De Marchi, da Associação Médica Brasileira. A crença que relaciona a intensidade da luz a prejuízos oculares apareceu depois da associação de casos de estrabismo à leitura à luz de velas, frequente nos tempos sem energia elétrica.

Já o engano de acreditar que usamos apenas 10% do cérebro surgiu na primeira metade do século XX, quando alguns gurus e – dizem – Albert Einstein teriam feito tal afirmação. Os autores do livro são enfáticos em dizer que isso não passa de uma bobagem.

“Exames de imagem mostram que nenhuma parte do cérebro permanece completamente inativa”, afirmam os médicos. “Você utiliza 100% do seu cérebro”, escreveram Rachel e Carroll.

O que não significa que seja bem usado, senão os mitos não prosperariam.

Crenças sobre bebês e crianças

Muitas são as teorias sobre técnicas que ajudam no desenvolvimento dos bebês. Nessa categoria, os vídeos educativos estão entre as opções mais usadas pelos pais. O que há de verdadeiro nisso? Segundo os pediatras americanos, nada. Uma recente pesquisa feita pela Universidade de Washington, nos EUA, indica que eles têm razão. Os cientistas entrevistaram mais de mil famílias com crianças de até dois anos que usavam os tais vídeos. Quando perguntados sobre a evolução dos bebês, eles relataram um número limitado de palavras balbuciadas. Isso ocorreria porque o conteúdo dos vídeos tende a ter pouco diálogo e cenas curtas e desconectadas.

“Os bebês ajustam sua linguagem a partir de sinais e palavras”, afirma Andrew Meltzoff, da Universidade de Washington. “Gestos dão suporte a essa aquisição e, por isso, pais e cuidadores são os melhores professores.”

Outra circunstância cercada de mitos é a dentição do bebê. A maioria dos pais acredita que a febre é um sintoma de nascimento dos dentes. Contudo, não há prova cientifica que justifique a relação, como apontou um trabalho realizado no Royal Children’s Hospital, na Austrália. “A pesquisa não confirma a forte relação feita entre a erupção dos dentes e a febre”, escreveram os autores. De acordo com o pediatra Moisés Chencinski, de São Paulo, o surgimento dos dentes é um processo natural, portanto não agressivo. “Por isso, não causa febre”, explica. Apesar da negativa entre a associação dente/febre, Paula Lopes, de São Paulo, continua acreditando que a febre que castigou seu filho André, 9 meses, foi por causa dos dentes. “Logo depois que os dentinhos apareceram, ele ficou bom.”

Equívocos sobre como contraímos e tratamos doenças

Agora que chegou o inverno e o mundo vive uma pandemia de gripe, é bom saber que o frio não causa resfriados. Eles podem ser consequência de aspectos periféricos associados às baixas temperaturas. Em busca de calor, as pessoas se aglomeram em locais fechados e se tornam suscetíveis aos agentes propagados pelo vizinho. De acordo com os americanos, os vírus atacam tanto as pessoas submetidas ao frio quanto as que estão aquecidas.

“Não há, por exemplo, relação entre gripe e pés e mãos frias”, afirmam.

Há, contudo, um ponto controverso porque o frio não causa gripe, mas facilita a entrada do vírus no corpo. “A atividade das vias aéreas superiores fica comprometida”, explica o médico Antônio Carlos Lopes, da Universidade Federal de São Paulo. Segundo ele, quando o vento frio entra nas vias nasais, não há filtragem, umidificação e aquecimento do ar na região. O ar viaja direto ao pulmão com as impurezas do exterior, inclusive os vírus.

Nenhuma inverdade é mais persistente do que o valor preventivo, para gripes e resfriados, da vitamina C ou dos suplementos de zinco. Vários trabalhos científicos atestam a ineficácia.

Um deles foi feito pelo Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha. “Não importa quanto você ingere de vitamina C ou zinco. Seu risco de ter um resfriado é o mesmo da população em geral”, disse à ISTOÉ Bahi Takkouche, autor da pesquisa.

Carroll e Rachel também questionam a relação entre levantamento de peso e desenvolvimento de hérnia de disco. Segundo eles, é possível, mas raro, que isso aconteça. Em geral, a dor que pode ser sentida quando se levanta algum peso apenas evidencia a existência prévia de uma hérnia. Os principais fatores que geram o problema são a predisposição genética, os vícios de postura e o desgaste das cartilagens ocorrido com o envelhecimento. “Ela pode surgir também a partir de uma fissura gerada por um movimento brusco”, afirma o reumatologista Milton Helfenstein, da Unifesp.

Estudo com 129 pacientes com hérnia de disco revelou que nenhuma foi causada por levantamento de peso

Apenas 10% das hérnias necessitam de intervenção cirúrgica. A Acupuntura tem eficácia muito grande no tratamento delas.

Dr. Hong Jin Pai

Apenas 10% das hérnias necessitam de intervenção cirúrgica. A maioria se resolve com tratamentos como acupuntura, a técnica que enfrentou preconceitos e resistências da classe médica ocidental até praticamente o final do século passado. No livro, eles provam que a colocação das agulhas funciona. “Sua eficácia é muito grande”, afirma o médico Hong Jin Pai, diretor do Centro de Dor do Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi graças ao método que a bancária Márcia Meirelles, 51 anos, de São Paulo, conseguiu o que parecia um milagre: amenizar o incômodo provocado pela síndrome das pernas inquietas, distúrbio neurológico caracterizado por sensações anormais nas pernas, como tremores. “Hoje, consigo ficar sentada sem que as pernas se movimentem sozinhas.”

Mitos sobre sexo e gravidez

Nenhum tema de saúde parece tersofrido mais preconceito que os relacionados à gravidez e ao sexo. Afinal, é verdade que solteiros têm vida sexual mais prazerosa que os casados? Segundo os pediatras americanos, nem sempre. Um estudo citado no livro, feito por uma entidade americana que analisa o comportamento sexual, mostrou que homens solteiros fazem menos sexo que os casados. Cerca de 23% dos solteiros afirmaram não ter tido relação sexual no ano anterior à pesquisa. Já entre os casados esse índice era de apenas 1%. “A satisfação sexual independe do estado civil”, afirma o ginecologista e terapeuta sexual José Carlos Riechelmann, presidente da Associação Brasileira de Sexologia.

Entre outras dúvidas que também mereceram a atenção dos autores está a ideia de que virgens não têm abertura no hímen, membrana presente na entrada da vagina. De acordo com a ginecologista Maria Cecília Erthal, do Centro de Fertilidade Rede D’Or, do Rio de Janeiro, o hímen de mulheres virgens possui sim uma pequena abertura por onde passa, por exemplo, o sangue menstrual. O medo de ter a ruptura da membrana durante um exame ginecológico é infundado.

“Existem aparelhos exclusivos para virgens”, diz a médica.

Os médicos americanos acabaram ainda com o engano de achar que repouso previne parto prematuro. Apesar de ser frequente, a recomendação não tem amparo científico.

Os trabalhos mais importantes feitos a respeito do assunto não apontaram benefício. “Não há evidência de que o descanso tenha algum efeito na prevenção de parto prematuro”, escreveram, por exemplo, os autores de uma revisão sobre o tema, realizada pelo Instituto Cochrane.

Polêmicas sem fundamento

Outro equívoco é acreditar que vacina causa autismo (transtorno psiquiátrico que pode levar a retardo mental e isolamento). A origem deste mito data de 1998, quando um estudo publicado na revista científica The Lancet lançou a suspeita. O trabalho analisou 12 crianças, nove delas autistas. Oito pais acreditavam que a doença havia se desenvolvido depois de as crianças terem recebido a vacina tríplice viral (contra rubéola, caxumba e sarampo).

Desde então, vários experimentos foram realizados para investigar a possível associação. Nenhum encontrou qualquer indício de que isso era verdadeiro. Em 2005, uma revisão de 31 pesquisas sobre o assunto realizada pelo Instituto Cochrane garantiu mais sustentação à inexistência de vínculo. “A ideia de fato não passa de um temor infundado”, diz o médico Fábio Castro, vice-presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

Desde então, vários experimentos foram realizados para investigar a possível associação. Nenhum encontrou qualquer indício de que isso era verdadeiro. Em 2005, uma revisão de 31 pesquisas sobre o assunto realizada pelo Instituto Cochrane garantiu mais sustentação à inexistência de vínculo. “A ideia de fato não passa de um temor infundado”, diz o médico Fábio Castro, vice-presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.