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Revista Época: O bálsamo das picadas

Algumas agulhas, espetadas criteriosamente nos lugares certos do corpo para combater doenças, trouxeram a China para dentro do Brasil. A milenar técnica chinesa da acupuntura abriu espaço no mundo da medicina ocidental nos últimos anos e se impôs como terapia auxiliar importante. Em menos de dez anos dobrou o número de médicos que praticam a técnica – de 2.500 em 1990 para cerca de 5 mil neste ano, segundo a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura. O que era visto com desconfiança, quase beirando o charlatanismo, tornou-se uma especialidade respeitada. Os motivos dessa virada são facilmente explicáveis: a alta eficiência da técnica e a demonstração científica de como ela funciona no organismo.

A acupuntura tem grande espectro de indicação, que vai da lombalgia à depressão, embora seja usada, no Brasil, basicamente para aliviar dores de todos os tipos. É útil, por exemplo, para amenizar o desconforto causado por tensões musculares, mas é importante também para pessoas que têm restrições a alguns tipos de medicamento. Não é à toa que já há serviços de acupuntura em 16 hospitais universitários brasileiros e cursos de especialização de dois anos em universidades federais e estaduais de seis estados. No Sistema Único de Saúde (SUS) há 60 serviços de acupuntura espalhados pelo país que fazem mais de 12 mil atendimentos mensais. O interesse por essa área tem crescido de tal forma que há uma semana 700 médicos do Brasil e do exterior participaram em Recife do maior congresso internacional da especialidade.

A procura pela terapia aumentou porque seus resultados são visíveis e os princípios simples. Ela consiste no estímulo elétrico de algumas terminações nervosas por meio de finas agulhas de aço. Quando penetram levemente na pele, liberam substâncias produzidas naturalmente pelo organismo, como endorfina e serotonina, ligadas à sensação de bem-estar e de efeito analgésico, que provocam vasodilatação (permitem maior passagem do sangue pelos vasos sanguíneos) e removem o ácido lático e as toxinas. O resultado é imediato: a dor diminui ou some em poucos minutos.

Essa é a explicação ocidental. Para os chineses, é diferente. Eles afirmam que a técnica se baseia na teoria milenar dos pólos opostos yin (negativo) e yang (positivo), encontrados em todos os seres vivos. Essas duas forças da natureza se combinariam para formar a energia vital chamada de chi, distribuída pelo corpo por meio dos meridianos. As doenças e dores derivariam do desequilíbrio dessas forças. Os acupunturistas agem nos pontos que passam pelos meridianos para desbloquear os caminhos dessa energia. Uma vez sem obstáculos, o chi percorre o corpo normalmente, o equilíbrio é restabelecido e as doenças desaparecem.

Partindo desse princípio, os chineses afirmam que quase todas as moléstias podem ser tratadas pelas agulhas. “Sua grande vantagem é o fato de não ter efeito colateral e poder ser aplicada junto com outros tratamentos”, diz o clínico geral Hong Jin Pai, um dos pioneiros a cursar pós-graduação nessa área na China, coordenador das unidades de acupuntura do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “O estímulo provocado pelas agulhas muitas vezes facilita a ação de um medicamento que não vinha fazendo efeito”, afirma. Ela também pode ser um complemento eficaz da fisioterapia.

Foi o que aconteceu com o ator Eduardo Moscovis, 30 anos, o Carlão da novela Pecado Capital, da Rede Globo. Há seis anos ele teve de interromper a temporada da peça infantil Robin Hood em razão de uma “indescritível dor na coluna”. Ele conta que na hora da crise ficou todo torto. “Tomei relaxante muscular, mas fui obrigado a parar minhas atividades”, recorda. No ortopedista, ele descobriu que sofria de um deslizamento de vértebra e há três anos começou a fazer fisioterapia e acupuntura. “Só então retomei meus exercícios normais”, diz o ator. Hoje, ele não abre mão da acupuntura uma vez por semana, mesmo gravando a novela todos os dias. “Se fico 15 dias sem ‘tomar agulha’ começo, aos poucos, a sentir a dor chegar e procuro logo assistência”, diz.

A cantora Elba Ramalho também é grata à acupuntura. Em 1983 ela estava completamente estafada – fazia 300 shows por ano. “Foi quando fui apresentada à acupuntura, que me tirou do estresse em apenas três sessões”, conta Elba. O efeito foi tão positivo que ela chegou a ir de Belém a São Paulo, no meio de uma temporada de shows, para fazer apenas uma sessão. O médico que ajudou a cantora, Jou Eel Jia, o favorito das estrelas paulistas, explica que a milenar terapia chinesa age para reequilibrar o organismo. “A liberação de substâncias pela estimulação das agulhas nada mais é que uma maneira de regular o corpo humano”, diz Jou, dono de uma clínica em São Paulo com outros três médicos. Eles trabalham também no Hospital do Servidor Público Municipal, cujo setor de acupuntura atende gratuitamente.

O sucesso da terapia no ambulatório levou o Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo, a criar um departamento exclusivo de pronto atendimento no começo deste ano, o primeiro do país. “Atendemos 2.500 pacientes por mês no nosso ambulatório”, diz o médico Ysao Yamamura, chefe do setor. O pronto atendimento foi criado para desafogar o ambulatório. “O paciente é avaliado, faz uma sessão para aliviar as dores e, se o problema persistir, é enviado para o ambulatório”, explica. Todos os médicos que usam a técnica enfatizam a importância do diagnóstico.

“Se o paciente não melhora depois de duas semanas, peço todos os exames possíveis para não correr risco”, afirma Hong Jin Pai, do HC. Normalmente, as dores causadas por lesões ou tensão são as mais facilmente tratáveis.

O ex-governador paulista Franco Montoro, 82 anos, procura a ajuda das agulhas para suas pernas. “Tenho um problema antigo nos joelhos, ainda do tempo em que jogava futebol. E as dores diminuem depois de cada sessão”, conta. Mas o uso da acupuntura não está restrito à dor. A pediatra paulistana Ana Maria Mesquita Rodrigues Antun recorreu à terapia para ajudar o filho Henrique, de 9 meses, portador de síndrome de Down. Um dos problemas dessa síndrome é a flacidez da musculatura. Por isso, é fundamental estimular precocemente todos os sentidos da criança. Por meio de amigos, ela levou o filho para fazer curtas sessões de acupuntura, de 5 minutos cada uma, a partir dos 6 meses. “Após cada sessão, ele sempre fica um pouco mais ativo”, diz Ana Maria. Ela recomenda a acupuntura como complemento importante de outras terapias, como fisioterapia e fonoaudiologia.

As agulhas são usadas também em Rachel Lyra Pedrosa, 53 anos, de São Paulo. Portadora de encefalomielite aguda e difusa, doença semelhante a esclerose múltipla, ela tem dificuldades para andar e já ficou um mês em coma. Hoje Rachel faz uma sessão semanal no ambulatório do Hospital São Paulo, gratuitamente, para melhorar o equilíbrio e o tremor nas mãos. “Me sinto tão mais segura para andar depois de cada sessão que morro de medo que me dêem alta”, afirma. Nos consultórios particulares as aplicações custam, cada uma, de R$ 30 a R$ 65.

Há especialistas que defendem a acupuntura como método para auxiliar a emagrecer ou livrar-se do alcoolismo e da dependência das drogas. “A liberação de endorfina certamente ajuda as pessoas a tratar-se das compulsões, mas só dá certo com quem quer realmente parar”, alerta Hong.

A terapia tem usos tão diversos que dentistas e até veterinários começam a aplicá-la. “A partir da conclusão de que as patologias que aparecem na boca nunca estão sozinhas, adotei a acupuntura”, explica a dentista carioca Marina de Castro. A aceitação dos pacientes tem sido surpreendente. “Os clientes estão mais aptos a acreditar na técnica como opção de tratamento do que os dentistas”, afirma.

As experiências com animais também são promissoras. O médico veterinário Tetsu Inada, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, diz que é possível tratar todos os animais, mas a procura mais freqüente é por cães, gatos e cavalos. Vítima de um tombo de uma laje de 4 metros, a cadela Frederica está há dois meses com os membros traseiros paralisados. “Na primeira sessão, há 15 dias, ela já apresentou melhora”, garante o veterinário Denilson Peixoto, adepto da terapia.

Até os médicos mais conservadores, como os alopatas tradicionais, reconhecem os benefícios da acupuntura, mas com reservas. “Para dor sabemos que resolve bem. O problema é que hoje recomenda-se acupuntura para todas as doenças e isso pode ser perigoso”, observa o infectologista Vicente Amato Neto, ex-superintendente do HC de São Paulo. As pesquisas sobre a milenar terapia chinesa estão longe de terminar. Nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, no Brasil e na própria China, os cientistas continuam tentando entender como ela funciona e seu alcance. Para quem quer se tratar, a melhor maneira de evitar problemas é procurar médicos acupunturistas de confiança por indicação de pacientes e de outros médicos que já conhecem a técnica.

marcus yu bin pai


infografico breve historico acupuntura no brasil por dr Marcus Yu Bin Pai


PRÁTICA ANTIGA

Surgida há 4.500 anos, a acupuntura só se espalhou pelo Ocidente neste século

Década de 50: O governo chinês cria centros de pesquisa e integra os conhecimentos de medicina ocidental e oriental.

1972: Durante a viagem do presidente Richard Nixon à China, o jornalista James Reston tem de ser operado às pressas, vítima de apendicite, e é anestesiado com acupuntura. O mundo descobre a terapia chinesa.

1988: O tratamento é introduzido no Sistema Único de Saúde (SUS).

1995: O Conselho Federal de Medicina brasileiro reconhece a prática como especialidade médica.

1997: O Instituto Nacional de Saúde dos EUA recomenda aos sistemas de saúde que subsidiem o tratamento.

1998: A Associação Médica Brasileira (AMB) reconhece oficialmente a prática como especialidade.

PERFIL DO PACIENTE

Pesquisa do médico Marcus Vinicius Ferreira, da Sociedade Médica de Acupuntura do Rio de Janeiro, com base em 3.133 fichas clínicas de clientes

Sexo

Mulheres procuram 1,5 vez mais atendimento que os homens

Idade média

46,5 anos

Razões da procura

Experiência de amigos e parentes

Tratamento convencional não teve efeito

É mais natural

Não apresenta efeitos colaterais

Queixas mais freqüentes

Dores e tensão

Dores mais comuns

Lombar, cervical, joelho e ombro

Medos mais freqüentes

Agulhas, dor e contaminação

Número médio de sessões

6,9

Resultado final

85,5% foram bem-sucedidos

AS ESTRELAS DA MEDICINA CHINESA

As agulhas usadas na acupuntura não causam danos à pele

A maioria das agulhas é feita de aço inoxidável, esterilizada em óxido de etileno. O cabo pode ser banhado em prata, de cobre ou de outro material.

Os franceses chegaram a usar agulhas de prata para sedar e de ouro para tonificar, mas hoje utilizam as de aço inox.

Seu tamanho é variável. Elas podem ir de 1 até 12 centímetros, mas as mais usadas têm 3 centímetros. As aplicadas na orelha medem apenas 3 milímetros.

Elas têm 20% da espessura de uma agulha de injeção comum, são flexíveis e maciças. A ponta é arredondada e não cortante. Por isso penetram na pele sem causar ferimento.

Alguns médicos utilizam apenas agulhas descartáveis para evitar a transmissão de doenças virais ou bacterianas como hepatite e Aids. “Não corro riscos. Essa é uma tendência mundial na área médica”, diz Hong Jin Pai, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Outros especialistas vendem agulhas não descartáveis para seus pacientes e as limpam depois de cada sessão.