Insônia: causas, tipos e dicas simples para um sono melhor
Para a insônia, a melhor evidência não começa por um calmante, e sim pela higiene do sono e pela terapia cognitivo-comportamental. Na dor crônica, dor e insônia se alimentam uma da outra, exigindo cautela com melatonina e hipnóticos.
- Insônia é a dificuldade de iniciar ou de manter o sono (ou acordar cedo demais), apesar de oportunidade adequada para dormir, com prejuízo no dia seguinte. Quando dura três meses ou mais, três ou mais noites por semana, chama-se insônia crônica.
- O tratamento de primeira linha da insônia crônica é a TCC-I (terapia cognitivo-comportamental para insônia), somada à higiene do sono, e não o uso prolongado de calmantes ou hipnóticos.
- Na dor crônica existe um círculo: a dor rouba o sono e a privação de sono aumenta a sensibilidade à dor. Tratar os dois ao mesmo tempo costuma render mais do que tratar cada um isolado.
- Melatonina e medicamentos para dormir têm indicações específicas e exigem prescrição. Alguns “calmantes para dormir fortes” geram tolerância e dependência.
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O que é insônia e quais são os tipos
Insônia não é simplesmente “dormir pouco”. É a queixa de dificuldade para iniciar o sono, para mantê-lo ao longo da noite ou de acordar mais cedo do que o desejado, mesmo havendo tempo e ambiente adequados para dormir, acompanhada de repercussão diurna: cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração ou sonolência.
O ponto que muita gente confunde é justamente esse: o que define a insônia não é o número de horas no relógio, mas o sofrimento e o prejuízo no dia seguinte. Há quem durma seis horas e funcione bem, e quem durma oito e acorde exausto. Por isso a avaliação parte da queixa e do impacto, não de uma meta rígida de horas.
Quanto ao tempo de evolução, separa-se a insônia em aguda (de curta duração, em geral ligada a um estressor identificável, como uma perda, uma viagem ou uma crise de dor) e crônica, quando as dificuldades ocorrem ao menos três noites por semana, por três meses ou mais. Quanto ao momento da noite em que aparece, o quadro costuma ser descrito em dois tipos principais, que orientam tanto a investigação da causa quanto a conduta.
| Tipo | Como se manifesta | Causas que costuma sugerir |
|---|---|---|
| Insônia inicial (de conciliação) | Demora para “pegar no sono” ao deitar, com a mente acelerada | Ansiedade, ativação mental, cafeína à tarde, telas à noite, dor ao deitar |
| Insônia de manutenção | Acordar no meio da noite ou de madrugada e custar a voltar a dormir | Dor que piora deitado, apneia do sono, refluxo, depressão, ambiente inadequado |
| Despertar precoce | Acordar muito antes do horário desejado, sem conseguir retomar | Depressão, idade avançada, adiantamento do relógio biológico |
Esses tipos não são excludentes: uma mesma pessoa pode demorar a adormecer e ainda acordar de madrugada. Reconhecer o padrão importa porque cada um aponta para causas diferentes. Quem descreve, sobretudo, o acordar de madrugada com dor nas costas ou no pescoço tem um quadro que conversa diretamente com a dor crônica, foco central deste texto.
Por que a insônia acontece
A insônia raramente tem uma causa única. O modelo mais útil na prática combina três grupos de fatores: uma predisposição individual (tendência a ter o sono mais leve ou a mente mais ativa), um gatilho que desencadeia o problema (uma dor aguda, um luto, estresse no trabalho) e, principalmente, os fatores que perpetuam o quadro depois que o gatilho já passou. São esses fatores de manutenção, e não o gatilho original, o alvo do tratamento.
Entre os perpetuadores mais comuns estão hábitos adotados na tentativa de compensar a noite ruim e que acabam piorando o sono: ficar muito tempo na cama acordado, cochilar à tarde, antecipar o horário de deitar, conferir o relógio repetidamente e desenvolver ansiedade em relação ao próprio dormir. A cama, que deveria sinalizar sono, passa a ser associada à frustração e ao estado de alerta.
- Comportamentais e ambientais. Horários irregulares, cafeína e álcool à noite, telas na cama, quarto com luz, ruído ou calor.
- Psicológicas. Ansiedade, estresse e depressão, que tanto causam quanto agravam a insônia, em via de mão dupla.
- Clínicas e dolorosas. Dor crônica, refluxo, necessidade de urinar à noite, problemas de tireoide, menopausa.
- Outros transtornos do sono. Apneia obstrutiva do sono e a síndrome das pernas inquietas, que precisam ser reconhecidos e tratados à parte.
- Medicamentos e substâncias. Alguns remédios, nicotina e o uso (e a retirada) de calmantes podem fragmentar o sono.
Para quem vive com dor persistente, há ainda um perpetuador específico e poderoso: a própria dor noturna e a ansiedade antecipatória de “mais uma noite mal dormida”. É sobre esse ponto que vale a pena se deter.
O círculo entre dor crônica e insônia
No consultório de dor, a insônia é quase regra, não exceção. A relação entre dor crônica e sono é bidirecional, e a seta corre nos dois sentidos. A dor atrapalha o sono, isso é evidente; o que costuma surpreender é a direção inversa: a privação de sono, por si só, aumenta a sensibilidade à dor no dia seguinte, reduzindo o limiar doloroso e amplificando a percepção dos sintomas. Estudos experimentais e clínicos sugerem, inclusive, que a má qualidade do sono prediz a piora da dor de forma mais consistente do que o contrário.
O mecanismo provável envolve a redução da analgesia natural do organismo. O sono adequado sustenta as vias inibitórias descendentes da dor, aquelas que “abaixam o volume” do sinal doloroso; a privação de sono enfraquece esse sistema e ainda favorece um estado inflamatório de baixo grau e maior ativação do estresse. O resultado é um corpo que, mal dormido, sente mais e tolera menos.
A noite encurta
A dor ao deitar ou ao mudar de posição fragmenta o sono, aumenta os despertares e reduz o sono profundo, o mais reparador.
A dor aumenta
A privação de sono reduz o limiar de dor e enfraquece a analgesia natural, de modo que no dia seguinte tudo dói mais.
Esse círculo aparece de forma marcante em condições como a fibromialgia, em que o sono não reparador é um sintoma central, e na dor lombar e cervical, em que a posição de dormir e o despertar com dor são queixas frequentes. A boa notícia clínica é que o círculo pode girar para o outro lado: tratar a dor tende a melhorar o sono, e tratar o sono tende a reduzir a dor. É por isso que, na dor crônica, sono e dor não são tratados em separado, mas como duas faces do mesmo plano.
Quando um paciente com dor crônica não evolui como o esperado, vale revisar o sono antes de escalar a medicação analgésica. Em muitos casos, é a noite mal dormida que está mantendo a dor alta, e atacar o sono destrava o quadro.
Quando a insônia merece avaliação sem demora
A maior parte das insônias é benigna e responde a mudanças de hábito e à TCC-I. Ainda assim, alguns sinais indicam que há outra condição por trás do sono ruim, ou que a repercussão já é grande, e que a avaliação não deve esperar.
Vale investigar com um profissional se houver
- Ronco alto com pausas na respiração, engasgos noturnos ou sonolência diurna intensa, que sugerem apneia obstrutiva do sono.
- Vontade incontrolável de mexer as pernas ao deitar, com desconforto que alivia ao movimentar (síndrome das pernas inquietas).
- Tristeza persistente, perda de interesse, ideias de morte ou ansiedade incapacitante associadas à insônia.
- Sonolência ao volante ou em atividades de risco, pelo perigo imediato que representa.
- Dor noturna que acorda você toda noite, piora progressiva ou associada a febre, perda de peso ou déficit neurológico.
- Uso de calmantes ou hipnóticos por conta própria, em doses crescentes, ou dificuldade de dormir sem eles.
O ronco com pausas respiratórias merece destaque: a apneia obstrutiva do sono é causa frequente de sono não reparador e de despertares, e tem tratamento próprio. Quando ela é provável, a investigação adequada (que pode incluir um exame do sono) e o encaminhamento ao especialista em medicina do sono vêm antes de qualquer remédio para dormir. A relação entre apneia e dor é detalhada no texto sobre apneia obstrutiva do sono e dor crônica.
Como acabar com a insônia: o manejo passo a passo
O manejo da insônia é escalonado e começa pelo que tem mais evidência e menos risco. A base são as medidas comportamentais e a higiene do sono; sobre elas se constrói a TCC-I, primeira linha para a insônia crônica. O tratamento da dor noturna entra em paralelo, e a medicação para dormir, quando indicada, vem por último, por tempo limitado e sempre sob prescrição. A ideia de “tomar um calmante para resolver” inverte essa ordem e costuma criar um problema novo.
Higiene do sono
Ajustar horários, luz, telas, cafeína e ambiente. A base de qualquer plano, e às vezes suficiente nos casos leves.
TCC para insônia (TCC-I)
Primeira linha na insônia crônica: reorganiza a relação com a cama e com o sono, com efeito duradouro.
Tratar a dor noturna
Acupuntura, eletroacupuntura, reabilitação e fármacos que ajudam dor e sono ao mesmo tempo, sob prescrição.
Medicação para dormir
Por tempo limitado e indicação precisa, com cautela quanto a tolerância e dependência. Nunca por conta própria.
Higiene do sono: os passos práticos
Higiene do sono é o conjunto de hábitos que prepara o corpo e o cérebro para dormir. Isoladamente, costuma bastar nos quadros leves e recentes; nos crônicos, é a fundação sobre a qual a TCC-I atua. O mecanismo é simples e fisiológico: regularizar o relógio biológico e reduzir os estímulos que mantêm o cérebro em estado de alerta na hora de dormir.
- Horários regulares
Acorde e durma sempre nos mesmos horários, inclusive nos fins de semana. A hora de acordar é a âncora mais importante do relógio biológico.
- Luz e telas
Reduza luz e telas (celular, TV, computador) na hora antes de deitar. A luz, sobretudo a azul, atrasa a liberação natural de melatonina. De manhã, busque luz natural.
- Cafeína e álcool
Evite café, chá preto, energéticos e refrigerante de cola da metade da tarde em diante. O álcool até dá sono no início, mas fragmenta o sono na segunda metade da noite.
- Ambiente do quarto
Quarto escuro, silencioso, fresco e confortável. Para quem tem dor, o colchão e o travesseiro adequados e a posição de dormir fazem diferença.
- A cama é para dormir
Não use a cama para trabalhar, comer ou rolar a tela. Se não pegar no sono em cerca de vinte minutos, levante, faça algo calmo com pouca luz e volte só com sono.
- Cuidado com cochilos
Evite cochilos longos ou no fim da tarde, que roubam a “pressão de sono” necessária à noite. Se cochilar, que seja curto e no começo da tarde.
O que esperar: aplicada de forma consistente, a higiene do sono produz ganho gradual ao longo de duas a quatro semanas. Ela raramente resolve sozinha uma insônia crônica instalada, mas sem ela nenhum outro tratamento se sustenta. Para quem tem dor na coluna, ajustar posição e suporte ao dormir é parte da higiene, tema aprofundado no texto sobre a importância do sono para uma coluna sem dores.
TCC para insônia (TCC-I): a primeira linha
A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é o tratamento de primeira linha para a insônia crônica, recomendado por diretrizes internacionais à frente da medicação. Não se trata de “terapia para relaxar”: é um protocolo estruturado, em geral de quatro a oito sessões, conduzido por profissional capacitado, que ataca diretamente os fatores que perpetuam a insônia.
O mecanismo combina componentes bem definidos. O controle de estímulos reassocia a cama ao sono, e não à vigília ansiosa. A restrição de tempo na cama aumenta a pressão de sono ao limitar as horas deitado, consolidando o sono antes de expandi-lo de novo.
A reestruturação cognitiva trabalha as crenças catastróficas sobre o dormir (“se eu não dormir oito horas, meu dia será arruinado”), que mantêm o estado de alerta. Somam-se técnicas de relaxamento e de higiene do sono.
TCC-I como tratamento inicial da insônia crônica
Revisões sistemáticas e diretrizes de medicina do sono posicionam a TCC-I como tratamento de primeira linha da insônia crônica, com eficácia comparável ou superior à dos medicamentos no curto prazo e benefício mais duradouro depois de encerrada, sem os riscos do uso prolongado de hipnóticos. O efeito depende da adesão aos componentes comportamentais, sobretudo ao controle de estímulos e à restrição de tempo na cama, e a intensidade do ganho varia conforme o caso.
Ver referências →O que esperar: a melhora costuma aparecer ao longo de algumas semanas e, diferentemente do remédio, tende a se manter depois que a terapia termina, porque a pessoa aprende a manejar o próprio sono. A clínica de dor encaminha ou orienta a TCC-I como parte do plano, em especial quando a insônia coexiste com dor crônica, ansiedade ou estresse, situação discutida no texto sobre tratamento de ansiedade e estresse.
O tratamento com melhor evidência para a insônia crônica não é um comprimido, e sim a TCC-I, e o seu componente mais eficaz é também o mais contraintuitivo, a restrição de tempo na cama. Em vez de passar mais horas deitado tentando dormir, a pessoa passa, de propósito, menos tempo na cama por algumas semanas. Isso comprime e fortalece a pressão de sono, faz o sono voltar a ser contínuo e só então o tempo na cama é ampliado de novo. Some-se a regra de deixar a cama quando o sono não vem, e o princípio fica claro: a cama precisa reaprender que significa dormir, e não esperar pelo sono. Forçar mais sono costuma piorar; recuperar a associação entre cama e sono é o que resolve.
Tratar a dor noturna: acupuntura, eletroacupuntura e reabilitação
Quando a dor é o que rouba o sono, controlá-la é tratar a insônia pela raiz. A acupuntura médica e a eletroacupuntura modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação das vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Para o sono especificamente, há um segundo mecanismo de interesse: a regulação autonômica. Ao deslocar o equilíbrio simpático-parassimpático no sentido vagal e reduzir a hiperativação que sustenta a insônia, a acupuntura pode favorecer o relaxamento e a qualidade do sono em parte dos pacientes, efeito coerente com revisões que apontam redução de ansiedade e melhora de índices de sono na insônia crônica.
Aqui o objetivo não é “dar sono” naquela noite, e sim baixar o nível basal de alerta ao longo das semanas, de modo que o adormecer volte a acontecer por conta própria. Como o efeito sobre dor e sono é cumulativo, costuma-se planejar uma sequência de sessões semanais e reavaliar a resposta a cada poucas semanas, com a sedação noturna esperada como ganho gradual, e não como efeito de uma sessão isolada.
A reabilitação ativa (fisioterapia, cinesioterapia e Pilates clínico, com indicação médica) é a base do tratamento da dor musculoesquelética que mantém a noite ruim. Ao reduzir a dor ao deitar e ao melhorar a tolerância às posições de dormir, o exercício orientado age indiretamente sobre o sono; tem ainda a vantagem de aumentar a pressão de sono, desde que praticado mais cedo no dia, já que treino intenso perto da hora de dormir eleva a temperatura central e o estado de alerta. Quando há um forte componente miofascial, o agulhamento seco dos pontos-gatilho ajuda a quebrar o ciclo dor-espasmo-dor que costuma se intensificar à noite, quando a pessoa fica imóvel e mais atenta ao próprio corpo. A escolha entre essas opções, a dose e a sequência são definidas em consulta, conforme o tipo de dor e o padrão de sono de cada pessoa.
Medicação: melatonina, fármacos que ajudam dor e sono, e a cautela com hipnóticos
A medicação para dormir tem papel adjuvante e por tempo limitado, nunca como primeira e única resposta à insônia crônica. A escolha de fármaco, dose e duração é do médico assistente, levando em conta as comorbidades e o quadro de dor. Muitos dos “calmantes para dormir fortes” vendidos como solução rápida pertencem a classes que causam tolerância e dependência.
A melatonina é um hormônio que sinaliza ao cérebro o início da noite; seu papel é mais claro em distúrbios do ritmo circadiano (como trabalho noturno ou adiantamento do horário de dormir) e na população mais idosa, do que na insônia comum, em que o efeito tende a ser modesto. Mesmo as apresentações em gotas exigem orientação quanto a dose e horário, e devem ser usadas sob prescrição.
No paciente com dor crônica, há uma vantagem terapêutica: alguns medicamentos tratam dor e sono ao mesmo tempo. Os antidepressivos tricíclicos em dose baixa, como a amitriptilina e a nortriptilina (sempre pelo nome do princípio ativo, não por marca), são usados na dor crônica e neuropática e, por seu efeito sedativo, podem ajudar a iniciar e a manter o sono quando tomados à noite. A duloxetina e os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) também atuam sobre a dor e, em parte dos casos, sobre o sono. São, contudo, medicamentos com efeitos adversos e interações, indicados e ajustados exclusivamente pelo médico.
| Classe | Para que costuma servir | Cautelas |
|---|---|---|
| Melatonina | Ajuste do ritmo circadiano; efeito modesto na insônia comum | Dose e horário sob orientação; resposta variável |
| Antidepressivos tricíclicos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina) | Dor crônica/neuropática com efeito sedativo que pode auxiliar o sono | Boca seca, sedação diurna, contraindicações; só com prescrição |
| Duloxetina, gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Componente de dor crônica; algum efeito sobre o sono | Efeitos adversos e interações; ajuste médico |
| Hipnóticos e benzodiazepínicos | Uso pontual e de curto prazo em casos selecionados | Tolerância, dependência e quedas; evitar uso prolongado |
O que esperar da medicação: ela alivia e abre uma janela para que a higiene do sono, a TCC-I e o tratamento da dor façam o trabalho de fundo. A retirada de hipnóticos usados por longo período deve ser gradual e supervisionada, para evitar a insônia de rebote. O guia geral de uso racional de medicamentos para dor traz mais detalhes em guia de remédios para dor.
Higiene e diário do sono
Regularizar horários, luz, cafeína e ambiente, e registrar o sono para identificar padrões e gatilhos.
TCC-I e dor noturna
Início do protocolo comportamental e do tratamento da dor que atrapalha o sono; o sono costuma começar a consolidar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, investiga-se apneia ou outra causa e ajusta-se o plano.
Vale alinhar a expectativa: a meta não é uma noite perfeita imediata, mas reconstruir, ao longo de semanas, um sono confiável e reparador, reduzindo a ansiedade em torno do dormir. Na dor crônica, a melhora do sono e a da dor costumam caminhar juntas.
A medida que mais surpreende quem chega pedindo um remédio é contraintuitiva: levantar da cama quando não se está dormindo. A reação inicial é quase sempre de protesto, porque a pessoa passou anos fazendo o oposto, ficando deitada no escuro à espera do sono. Mas é justamente o tempo acordado na cama, rolando de um lado para o outro, que ensina o cérebro a associar o colchão a alerta e frustração. Quando oriento sair do quarto após uns vinte minutos sem sono, fazer algo monótono com pouca luz e voltar só quando a sonolência aparecer de verdade, a cama volta, em poucas semanas, a significar sono.
O segundo padrão é o do paciente que já depende do comprimido para dormir e tem medo de uma noite sequer sem ele. Costumo explicar que o hipnótico crônico não conserta a insônia, ele a congela: enquanto o remédio está em uso, os fatores que perpetuam o problema seguem intactos, e a tentativa de parar revela o sono ainda desorganizado, agora com rebote por cima. A retirada, quando indicada, é lenta e combinada com as medidas comportamentais, nunca um corte abrupto por conta própria.
No paciente com dor, há um detalhe que muda a conversa: a queixa quase nunca é só “durmo mal”. É a dor lombar ou cervical que desperta na virada de lado e a certeza, já às nove da noite, de que a madrugada será ruim. Essa antecipação ansiosa ativa o corpo antes mesmo da dor chegar. Outro hábito silencioso é o relógio: a cada despertar a pessoa confere a hora e calcula quanto sono “perdeu”, o que dispara mais alerta. Virar o relógio para a parede é um conselho pequeno que rende noites melhores.
Um mito que atrapalha o tratamento
“O jeito mais rápido de acabar com a insônia é tomar um calmante forte todas as noites até o sono voltar ao normal.”
O uso prolongado de hipnóticos gera tolerância e dependência e não corrige a causa. A primeira linha da insônia crônica é a TCC-I com higiene do sono; a medicação, quando indicada, é adjuvante, de curto prazo e sob prescrição.
Esse equívoco é frequente justamente porque o calmante dá um alívio imediato que reforça o hábito. O problema é que ele não desfaz os fatores que perpetuam a insônia, e a tentativa de parar revela o sono ainda desorganizado, agora somado ao risco de rebote. Por isso a sequência correta começa pelo comportamento e pela causa, e reserva o remédio para o seu devido lugar.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Como acabar com a insônia?
O caminho com melhor evidência começa pela higiene do sono (horários regulares, menos luz e telas à noite, controle de cafeína e ambiente adequado) e, na insônia crônica, pela TCC-I, a terapia cognitivo-comportamental para insônia, considerada primeira linha. Quando há dor que atrapalha o sono, tratá-la em paralelo é parte da solução. A medicação entra de forma adjuvante, por tempo limitado e sob prescrição. Não existe atalho seguro com calmante de uso contínuo.
Por que acordo de madrugada e não consigo voltar a dormir?
Esse padrão, chamado insônia de manutenção, pode ter várias causas: dor que piora deitado, apneia do sono, refluxo, vontade de urinar, álcool no fim do dia, ansiedade ou depressão. Conferir o relógio e tentar forçar o sono costuma piorar. Se o acordar de madrugada é frequente e há ronco com pausas ou sonolência de dia, vale investigar apneia. Uma avaliação ajuda a identificar a causa e direcionar o tratamento.
Melatonina em gotas resolve a insônia?
A melatonina ajuda principalmente quando o problema é de ritmo (trabalho noturno, horário de dormir adiantado) e na população mais idosa; na insônia comum, o efeito tende a ser modesto. Mesmo em gotas, dose e horário precisam de orientação, e o uso deve ser sob prescrição. Ela não substitui a higiene do sono nem a TCC-I.
Existe calmante para dormir forte que eu possa usar todo dia?
Medicamentos sedativos e hipnóticos, sobretudo os mais potentes, não são para uso contínuo por conta própria: causam tolerância (precisar de doses maiores), dependência e risco de quedas, além de insônia de rebote ao parar. São reservados a situações selecionadas, por curto prazo e com prescrição. O tratamento de fundo da insônia crônica é comportamental, com a TCC-I, não medicamentoso.
A dor nas costas pode estar causando minha insônia?
Sim, e é muito comum. A dor crônica fragmenta o sono, e a noite mal dormida aumenta a sensibilidade à dor no dia seguinte, num círculo que se retroalimenta. Por isso, tratar a dor (com reabilitação, acupuntura e, quando indicado, fármacos que atuam sobre dor e sono) costuma melhorar também o sono. Ajustar a posição de dormir e o suporte da coluna faz parte do cuidado.
Ansiedade causa insônia?
Ansiedade e insônia se reforçam em via de mão dupla: a ansiedade mantém o cérebro em alerta na hora de dormir, e a privação de sono piora a ansiedade. A TCC-I trabalha justamente as crenças e a ativação que sustentam esse círculo. Quando a ansiedade ou o estresse são proeminentes, abordá-los faz parte do tratamento do sono.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências3 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Riemann D, et al. European guideline for the diagnosis and treatment of insomnia. Journal of Sleep Research. 2023;32(6):e14035.
- Edinger JD, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2021;17(2):255-262.
- Finan PH, Goodin BR, Smith MT. The association of sleep and pain: an update and a path forward. The Journal of Pain. 2013;14(12):1539-1552.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Cada pessoa dorme e responde de um jeito, de modo que o plano de sono, da higiene do sono à TCC-I e à medicação, precisa ser individualizado após consulta.
