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Quadril e virilha · Medicina esportiva

Dor na virilha em atletas

A dor na virilha é queixa comum em futebol, futsal e esportes de mudança de direção. Sob a mesma queixa escondem-se síndromes diferentes: adutores, iliopsoas, parede inguinal, púbis ou o próprio quadril.

Resposta direta
  • Virilha é uma região do corpo que abriga várias estruturas, e cada uma dá um quadro próprio. A causa mais comum no esporte é a sobrecarga dos adutores; entram também iliopsoas, osteíte púbica, parede inguinal (hérnia do esporte), impacto femoroacetabular e dor referida, e mais de uma pode coexistir.
  • Cada causa tem uma pista de localização e um gesto que reproduz a dor: o squeeze test e a adução resistida apontam o adutor, a flexão resistida aponta o iliopsoas, a manobra de FADIR aponta o quadril. Reconhecer o padrão é o que muda a conduta.
  • Alguns quadros são vermelhos: trauma com incapacidade de apoiar o peso, dor na virilha do corredor que piora e não cede pode ser fratura por estresse do colo femoral, e abaulamento que cresce ao esforço sugere hérnia inguinal verdadeira. O tratamento depende da causa.
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40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Causas musculotendíneas: o que mais aparece

Diagrama anatômico de um esqueleto humano de frente com destaque em vermelho para o musculo adutor longo na região da virilha e coxa, ampliado a direita com a legenda Pulled adductor longus muscle.
O estiramento do adutor longo e a causa muscular mais comum de dor na virilha em atletas de chute e mudança de direção.

Virilha não é um diagnóstico, é uma região. Sob a mesma queixa de dor escondem-se estruturas diferentes, e a conduta muda conforme qual delas está sobrecarregada. Um consenso internacional (a classificação de Doha) organizou o problema em entidades clínicas que se reconhecem pelo exame. A maior parte dos casos de atleta começa por tendão e músculo: os adutores e o iliopsoas, que cruzam a frente da articulação e disputam tração sobre o púbis.

Interna e alta da coxa, na adução resistida

Tendinopatia e lesão dos adutores

A causa mais comum no esporte. O adutor longo parte do púbis e leva a coxa para dentro; é exigido a cada chute, arranque e troca de direção. Dói na inserção no púbis, piora na adução contra resistência e ao chutar, e costuma seguir um pico de carga de treino. Pode ir da tendinopatia de inserção à ruptura parcial, esta última com estalo e dor aguda no gesto.

Virilha anterior e profunda, na flexão resistida

Lesão e tendinopatia do iliopsoas

O iliopsoas é o principal flexor do quadril. Quando sobrecarregado, dói na virilha anterior e na transição entre tronco e coxa, piora ao elevar o joelho contra resistência e ao subir escada ou levantar a perna na cama. Comum em corredores e em gestos de flexão de quadril repetida. Pode cursar com estalo audível na frente do quadril (snapping interno).

Parte interna, após carga ou trauma no gesto

Estiramento muscular dos adutores

Distinto da tendinopatia crônica: é a lesão aguda da fibra muscular, no ventre ou na junção miotendínea, durante um chute forçado ou uma arrancada. Dor súbita, por vezes com estalo, equimose tardia e dor à contração e ao alongamento dos adutores. A gravidade vai do estiramento leve à ruptura, o que muda o tempo de afastamento.

Fisioterapeuta auxiliando exercício com halteres azuis em paciente deitada na fisioterapia
Reabilitação na clínica Fortalecimento com halteres guiado pela fisioterapeuta

Causas ósseas e articulares

A virilha também dói por sobrecarga do osso e da articulação. A sínfise púbica é o ponto de encontro onde adutores puxam para baixo e a parede abdominal puxa para cima; o quadril, logo atrás, projeta dor profunda na virilha. E o osso pode falhar por fadiga: a fratura por estresse do colo femoral é a causa que não se pode perder.

Linha média, à palpação do osso púbico

Osteíte púbica e pubalgia atlética

Sobrecarga e edema ósseo da sínfise púbica, onde os dois lados do púbis se encontram. Dor central, à palpação direta do osso e nas transições de corrida e chute, muitas vezes acompanhando o quadro de adutor. É o que historicamente se chamava de pubalgia; a ressonância mostra edema na sínfise.

Virilha profunda, sinal C, dor à FADIR

Impacto femoroacetabular e lesão do labrum

Conflito entre o colo femoral e a borda do acetábulo (morfologia cam ou pincer) que pode lesar o labrum. Dor profunda na virilha, em fisgada, com sensação de travamento ou de pegar, reproduzida pela manobra de flexão, adução e rotação interna (FADIR). Pode nem responder ao trabalho miofascial; ver o impacto femoroacetabular.

Sinal de alerta · corredor, dor que piora

Fratura por estresse do colo femoral

Falha óssea por fadiga no colo do fêmur, típica de corredores e em quem aumentou muito o volume, na tríade do atleta (baixa disponibilidade energética). Dor na virilha que piora com o impacto, persiste em repouso e no apoio do peso, e não cede como uma lesão muscular. É urgência: sem reconhecimento pode evoluir para fratura completa. Exige ressonância e suspensão da carga.

Adolescente, dor com claudicação

Epifisiólise e apofisites do crescimento

No atleta jovem em fase de crescimento, a dor na virilha obriga a examinar o quadril. O escorregamento da epífise femoral (epifisiólise) e as avulsões ou apofisites das inserções musculares na pelve têm como pista a idade e a claudicação após esforço, e a conduta é distinta da do adulto.

1ª
A dor dos adutores é a apresentação mais frequente da virilha no esporte
+1
É comum mais de uma causa coexistir no mesmo atleta
4a6
Semanas é a faixa típica de recuperação de um quadro de adutor sem ruptura grave

Parede abdominal, hérnia e dor referida

Falta o grupo que confunde mais: a parede inguinal. A sobrecarga da parede sem hérnia verdadeira (a hérnia do esporte) convive na mesma região com a hérnia inguinal real, que se vê e se palpa. E há a dor que nem nasce na virilha: vem da coluna lombar, do nervo ou de uma víscera, e só se projeta ali.

Canal inguinal, piora à tosse e ao esforço

Lesão da parede inguinal, a hérnia do esporte

Sobrecarga da parede posterior do canal inguinal sem hérnia palpável clássica. Em inglês, sports hernia: dói no trajeto do canal, piora com esforço, tosse e ao contrair a parede abdominal, e melhora com repouso. Não é uma hérnia verdadeira; é um diagnóstico de exclusão, depois de afastar adutor, púbis e hérnia real.

Abaulamento que cresce ao esforço

Hérnia inguinal verdadeira

Protrusão de conteúdo abdominal pelo canal inguinal, com abaulamento palpável que aumenta ao esforço e à tosse e às vezes some ao deitar. Distinta da hérnia do esporte por ter abaulamento de verdade. Dor súbita, abaulamento que não reduz, vômito ou pele avermelhada sugerem encarceramento, e isso é emergência.

Dor que desce ou que muda com a coluna

Dor referida da coluna, do nervo ou de víscera

Nem toda dor de virilha nasce ali. A coluna lombar alta e o quadrado lombar referem dor na virilha; o aprisionamento dos nervos ílio-inguinal, ílio-hipogástrico ou genitofemoral dá queimação e dormência na região. Pista: a dor não acompanha o gesto esportivo e muda com a posição da coluna. Causas urológicas, ginecológicas ou um cálculo renal também se projetam na virilha.

Como diferenciar pelo padrão

A boa notícia é que cada causa tem uma pista de localização e um gesto que reproduz a dor. Reconhecer esse desenho é o que separa uma conduta certeira de meses de fisioterapia genérica. A tabela mapeia cada causa ao seu padrão típico e ao que fazer; a confirmação depende da história e do exame, descritos adiante.

Causas da dor na virilha no esporte: onde dói, o que reproduz e o que fazer
CausaOnde dói e o que reproduzO que fazer
Adutores (tendinopatia, estiramento)Interna e alta da coxa, junto ao púbis; adução resistida, squeeze test, chutarCausa mais comum; controle de carga e excêntrico de adutores
IliopsoasVirilha anterior, profunda; flexão de quadril resistida, subir escadaCuidar da flexão repetida; reabilitação do flexor de quadril
Osteíte púbicaSínfise, na linha média; palpação do osso púbico, transição de corrida e chuteControle de carga; ressonância confirma o edema ósseo
Impacto femoroacetabular / labrumVirilha profunda, sinal C; manobra de FADIR, rotação do quadrilAvaliar o quadril; pode não responder ao trabalho miofascial
Parede inguinal (hérnia do esporte)Trajeto do canal; esforço, tosse, contração abdominal, sem abaulamentoDiagnóstico de exclusão; reabilitação da parede e do core
Hérnia inguinal verdadeiraAbaulamento palpável que cresce ao esforço e à tosseAvaliação cirúrgica; sinais de encarceramento são emergência
Fratura por estresse do colo femoralCorredor, dor ao impacto que persiste em repouso e ao apoiar o pesoSinal de alerta: suspender carga, ressonância sem demora
Dor referida (coluna, nervo, víscera)Não acompanha o gesto; muda com a posição da coluna ou tem queimaçãoReavaliar a origem; pode pedir investigação fora do aparelho locomotor

Repare que a fronteira nem sempre é nítida. A região púbica funciona como um ponto de encontro de tração: adutores que puxam para baixo e parede abdominal que puxa para cima. Por isso as causas do adutor, púbica e inguinal costumam se sobrepor, e o que antes se chamava genericamente de pubalgia hoje é detalhado por qual estrutura predomina. Uma dor profunda, em fisgada, com a sensação de travamento, levanta a hipótese de origem no próprio quadril, como o impacto femoroacetabular.

Mito

“Dor na virilha do atleta é sempre hérnia, e hérnia se opera.”

Fato

A maioria dos quadros não tem hérnia verdadeira e responde ao tratamento conservador. A causa mais comum são os adutores. A cirurgia fica reservada a casos selecionados, depois de um programa bem conduzido.

“Estiramento de virilha” não é um diagnóstico

“Estiramento de virilha” não é um diagnóstico único: é um rótulo guarda-chuva para pelo menos cinco entidades com reabilitações diferentes. O consenso de Doha nomeia qual estrutura está em causa: adutor, iliopsoas, parede inguinal, púbis ou o próprio quadril. Nomear a síndrome certa muda todo o plano. Um quadro de adutor caminha para excêntrico de adutores; um de iliopsoas exige cuidado com a flexão de quadril repetida; uma origem articular do quadril pode nem responder ao trabalho miofascial. “Fortalecer a virilha” em bloco, sem definir a entidade, é o que arrasta o quadro por meses.

Sinais de alerta

A grande maioria das dores de virilha no esporte é de sobrecarga e tem evolução benigna. Alguns sinais, porém, indicam que a avaliação não deve esperar e que outras causas precisam ser afastadas. Procure atendimento sem demora diante de qualquer um destes:

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Trauma agudo com estalo, dor intensa e incapacidade de andar ou sustentar o peso.
  • Dor na virilha do corredor que piora com o impacto e persiste em repouso e no apoio do peso, pela possibilidade de fratura por estresse do colo femoral.
  • Abaulamento na virilha que aumenta com o esforço ou a tosse, sugerindo hérnia verdadeira; abaulamento que não reduz, com vômito ou pele avermelhada, é emergência (encarceramento).
  • Febre, vermelhidão, calor local ou mal-estar geral associados à dor.
  • Dor que piora à noite, em repouso, ou perda de peso inexplicada.
  • Dor que desce pela perna com formigamento ou perda de força, sugerindo origem na coluna ou no nervo.
  • Em adolescentes, dor após esforço com claudicação, pela possibilidade de epifisiólise ou de lesão da cartilagem de crescimento.

Cada sinal aponta para uma causa que muda a conduta: o abaulamento sugere hérnia inguinal verdadeira, que é cirúrgica; a dor do corredor que não cede pede ressonância para afastar fratura por estresse antes de carregar de novo; febre com dor levanta a hipótese de infecção; dor noturna implacável e perda de peso pedem investigação sem demora. No adolescente, a dor na virilha sempre obriga a examinar o quadril. Afastados esses pontos, o caminho é a avaliação dirigida e o tratamento descritos a seguir.

Como o quadro é avaliado

A avaliação parte da história do gesto esportivo: qual movimento dispara a dor, se houve um pico recente de volume ou intensidade de treino e se a dor é localizada ou difusa. Em seguida, o exame dirigido tenta reproduzir a dor a partir de cada estrutura. Reproduzir o sintoma habitual do atleta é o que confirma a origem.

  1. Squeeze test (adução isométrica)

    O atleta aperta um objeto entre os joelhos, com as pernas a 0, 45 e 90 graus de flexão de quadril. Dor e fraqueza na adução apontam para a origem nos adutores, e o teste serve também para acompanhar a evolução ao longo do tratamento.

  2. Adução resistida e palpação

    Resistir à adução com o quadril em posição neutra e palpar a inserção do adutor longo no púbis localizam o ponto doloroso. A palpação da sínfise púbica investiga o componente púbico.

  3. Flexão de quadril resistida

    Resistir à elevação do joelho com o quadril fletido testa o iliopsoas. Dor na virilha anterior nesse gesto desloca a suspeita para o flexor de quadril.

  4. Parede inguinal e esforço

    Avalia-se dor no canal inguinal ao tossir e ao contrair o abdome, e procura-se ativamente afastar uma hérnia verdadeira, que muda a conduta.

  5. Manobra de impacto do quadril (FADIR)

    Flexão, adução e rotação interna do quadril. Quando reproduz dor profunda na virilha, sugere origem articular, como o impacto femoroacetabular, avaliado em página própria.

A imagem é dirigida pela suspeita, não pedida de rotina. A ultrassonografia e a ressonância ajudam a caracterizar a lesão do adutor, o edema ósseo no púbis (osteíte púbica) ou a alteração da parede inguinal, e a ressonância do quadril investiga o labrum e o impacto. Vale lembrar que achados de imagem na virilha são frequentes em atletas sem dor, de modo que a imagem confirma a hipótese clínica, não a substitui.

Pérola clínica

O squeeze test cumpre dois papéis numa só manobra: aponta para os adutores como fonte da dor e, repetido ao longo das semanas, vira um marcador objetivo de evolução. Quando o atleta consegue gerar força máxima na adução sem dor, deu um passo concreto rumo ao retorno ao esporte.

Da prática clínica

Na prática clínica, o que mais atrasa esses casos não é a dor em si, é o rótulo: o atleta chega com meses de “estiramento de virilha” tratado em bloco, quando o exame separa com facilidade a dor do adutor (interna, na adução resistida) da dor anterior do iliopsoas (profunda, na flexão de quadril contra resistência) e da dor articular do quadril (em fisgada, reproduzida pela manobra de FADIR). Essa distinção entre adutor, quadril e parede inguinal é o que mais muda a conduta na primeira consulta.

Costuma surpreender o paciente que o retorno seja decidido por critérios, não por data. Quando a dor cede, vem a pressão para voltar logo, e é aí que recai a maior parte das recidivas que vemos: o atleta interrompe o programa de adutores no dia em que para de doer, justamente quando ele ainda é necessário. Mais de uma síndrome pode coexistir no mesmo quadro, o que explica a dor que melhora em parte e teima em não passar de todo.

Assista: dor na virilha pode ser lesão muscular (pubalgia atlética)

O tratamento depende da causa

Ilustração em três níveis mostrando uma banda muscular tensa, um foco ativo de ponto-gatilho e um corte com nódulos de contração entre fibras musculares normais.
Pontos-gatilho nos adutores formam nódulos de contração que perpetuam a dor e respondem a agulhamento e liberação miofascial.

Não existe um tratamento único para a dor na virilha: o plano nasce do diagnóstico do item anterior. O princípio é tratar a estrutura que está em causa. No atleta, isso quase nunca é repousar até passar; é controlar a carga e reintroduzir o gesto esportivo de forma graduada, com retorno decidido por critérios objetivos (dor à palpação, força de adução simétrica, amplitude indolor e progressão de corrida, mudança de direção e gesto do esporte).

Causa musculoesquelética: reabilitação ativa, agulhamento seco e ondas de choque

É o cenário mais comum (adutores, iliopsoas, osteíte púbica, parede inguinal). A base é a reabilitação ativa da clínica: cinesioterapia com fortalecimento progressivo dos adutores e do core, ênfase na contração excêntrica e isométrica (o protocolo de Copenhagen é a referência, e o mesmo exercício serve de prevenção), apoiada por RPG e Pilates clínico para reorganizar a cadeia que traciona o púbis. Quando há componente miofascial nos adutores ou no iliopsoas, somam-se o agulhamento seco da banda tensa, a infiltração de ponto-gatilho com anestésico e a acupuntura médica, que permitem treinar a reabilitação com menos dor e poupar anti-inflamatório na fase de recuperação do tecido.

Para a tendinopatia de inserção do adutor longo no púbis que persiste apesar do exercício, as ondas de choque entram como adjuvante por mecanotransdução, em ciclos curtos. O atendimento é individual, um paciente por sala, e a resposta é gradual, ao longo de semanas.

Agulhamento seco

Há boa evidência de que o agulhamento seco alivia o ponto-gatilho, mas o eixo do tratamento continua sendo o exercício de carga.

Causa neuropática, articular e o que se encaminha

Quando há componente neuropático confirmado (queimação, choque ou formigamento de aprisionamento dos nervos ílio-inguinal ou genitofemoral), trata-se o nervo e a causa, e o médico pode considerar neuromoduladores como os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) ou os antidepressivos com ação sobre a dor (duloxetina, tricíclicos em dose baixa), com titulação e metas claras. Uma origem articular do quadril, como o impacto femoroacetabular com lesão do labrum, pode não responder ao trabalho miofascial e exige reabilitação dirigida ao quadril. As causas que fogem ao aparelho locomotor (hérnia inguinal verdadeira, fratura por estresse do colo femoral, dor referida visceral) seguem a regra de reconhecer e encaminhar: cada uma tem conduta própria fora do escopo conservador.

Medicação e quando a cirurgia é considerada

A medicação é adjuvante e por prazo definido: anti-inflamatórios não esteroidais em ciclos curtos na fase aguda, quando não há contraindicação, ajudam a dor mais intensa para a reabilitação avançar, mas não recuperam o tendão. O uso prolongado de anti-inflamatório só para seguir treinando, mascarando a dor que orienta a progressão, não trata a causa e pode atrasar a recuperação do tecido; a prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico. A cirurgia é exceção: a grande maioria melhora sem operar, e a indicação não nasce de um achado de imagem isolado, mas de dor incapacitante que persiste apesar de um programa bem conduzido, com diagnóstico estrutural definido (reforço da parede inguinal na hérnia do esporte refratária, correção da hérnia inguinal verdadeira, ou artroscopia do quadril no impacto com labrum sintomático). Esses procedimentos não são realizados na clínica; o papel do cuidado de base é reconhecer o momento de encaminhar e manter o exercício como eixo antes e depois.

Medimos a dor numa escala de 0 a 10, a força na adução com o squeeze test seriado, a amplitude do quadril e o retorno às demandas do esporte. Quando o squeeze test continua doloroso e a força não recupera em três a quatro semanas, o diagnóstico precisa ser revisitado (um iliopsoas que passou despercebido, uma osteíte púbica ou uma origem articular), antes de insistir no mesmo programa.

Retorno ao esporte e prevenção

O erro mais comum é voltar pelo calendário (passaram duas semanas, então volto a jogar). O retorno seguro é definido por critérios: ausência de dor à palpação e nos testes, força de adução simétrica em relação ao lado sadio, amplitude completa e indolor, e a progressão bem-sucedida de corrida, mudança de direção e gesto específico do esporte, nessa ordem. Pular etapas é a principal causa de recidiva.

Critérios para retornar

Por marcos, não por data

Sem dor à palpação e nos testes; força de adução simétrica; amplitude completa indolor; corrida, mudança de direção e gesto do esporte progredidos sem dor no dia seguinte.

Sinais de que é cedo

Recuar e progredir devagar

Dor que retorna após o treino, fraqueza persistente na adução ou desconforto ao chutar indicam que falta etapa. Voltar cedo demais recicla a lesão.

A prevenção, sobretudo no futebol, tem hoje uma base bem definida: o fortalecimento dos adutores. O exercício mais estudado é o Copenhagen adduction, um exercício de adução em prancha lateral com apoio do membro superior na perna do parceiro ou num banco, executado de forma progressiva. Programas que incluem esse exercício de forma regular ao longo da temporada reduziram de maneira relevante a ocorrência de novos problemas de virilha em jogadores, o que o torna uma ferramenta concreta de prevenção, com o mesmo exercício servindo de tratamento na fase ativa.

Cope-nhagen
O exercício de adução de referência para fortalecer os adutores
1min
Programas curtos, poucas vezes por semana, já mostram benefício preventivo
Reduz de forma relevante novos problemas de virilha ao longo da temporada

Além do exercício, prevenir passa por progredir a carga de treino com bom senso (evitar saltos bruscos de volume e intensidade), preparar a pré-temporada, cuidar do controle de core e da mobilidade de quadril, e tratar cedo as primeiras queixas, antes que virem um quadro arrastado. Quem já teve dor de virilha tem mais chance de repetir, e é justamente esse atleta quem mais se beneficia de manter o programa de adutores como rotina.

Reconhecimento

Centro de Dor

Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)

Centro de Tratamento por Ondas de Choque

Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)

Clínica listada

Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)

Perguntas frequentes

O que causa dor na virilha em quem joga futebol?

Na maioria das vezes, a sobrecarga dos músculos adutores, exigidos a cada chute e mudança de direção. Outras causas frequentes são o iliopsoas, a parede inguinal e a sínfise púbica, e mais de uma pode coexistir. Um aumento rápido de volume ou intensidade de treino é o gatilho mais comum. O exame dirigido define qual estrutura predomina.

Dor na virilha do atleta é sempre hérnia?

Não. A maioria dos quadros não tem hérnia verdadeira. A chamada sports hernia é uma sobrecarga da parede inguinal, e não uma hérnia que se vê e se palpa. Um abaulamento que aumenta com esforço e tosse, esse sim, sugere hérnia verdadeira e precisa de avaliação cirúrgica. A causa mais comum continua sendo os adutores.

Posso continuar treinando com dor na virilha?

O caminho não é parar tudo nem treinar empurrando a dor com remédio. A conduta é controlar a carga: manter o que não dói, reduzir o gesto que dói e progredir o fortalecimento de forma graduada. Seguir jogando com dor importante tende a arrastar o quadro e aumentar o risco de recidiva. A decisão de voltar é por critérios, não por calendário.

Quanto tempo demora para voltar ao esporte?

Varia conforme a estrutura afetada e a gravidade. Um quadro de adutor sem ruptura grave costuma responder em algumas semanas, com retorno guiado por marcos: ausência de dor, força simétrica e progressão de corrida, mudança de direção e gesto do esporte. Lesões mais extensas ou com componente púbico podem levar mais tempo. O retorno seguro evita recidivas.

O que é o exercício de Copenhagen?

É um exercício de fortalecimento dos adutores feito em prancha lateral, com a perna de cima apoiada, executado de forma progressiva. É a base dos programas de prevenção de dor na virilha no futebol, com boa evidência de reduzir novos episódios ao longo da temporada. Funciona tanto como tratamento quanto como prevenção, sobretudo em quem já teve dor de virilha.

Dor na virilha pode ser do quadril e não dos músculos?

Pode. Uma dor profunda, em fisgada, com sensação de travamento e que piora com a manobra de flexão, adução e rotação interna do quadril sugere origem articular, como o impacto femoroacetabular. Por isso o quadril entra sempre no diferencial da virilha do atleta, e o exame inclui as manobras articulares.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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  4. Serner A, van Eijck CH, Beumer BR, et al. Study quality on groin injury management remains low: a systematic review on treatment of groin pain in athletes. Br J Sports Med. 2015;49(12):813. acessar
  5. Pavkovich. Agulhamento Seco Combinado com Fisioterapia Reduz Dor Crônica no Quadril e Coxa. The International Journal of Sports Physical Therapy. 2015. ver resumo
  6. Romero-Morales, et al. Prevalência, diagnóstico e tratamento de lesões musculoesqueléticas em atletas de elite. Disease-a-Month. 2024. ver resumo
Atualizado em 31 mai 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Cada síndrome da virilha tem uma conduta própria, e o plano de tratamento e de retorno ao esporte é individualizado a partir do exame, depois de afastadas as causas que exigem outro encaminhamento.

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