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Dor articular · Reumatismo

Dor nas articulações: o que pode ser

A dor nas articulações pode ser mecânica, como na artrose, ou inflamatória, como na artrite reumatoide, na gota e no lúpus. A rigidez matinal é a pista.

Resposta direta
  • A dor nas articulações pode ser mecânica (artrose, dor que piora com o uso e rigidez matinal curta) ou inflamatória (artrite reumatoide, gota, lúpus, com rigidez matinal prolongada, inchaço e calor).
  • Dor inflamatória, em várias articulações ou com sintomas pelo corpo, pede avaliação reumatológica para diagnóstico e tratamento da doença de base.
  • Uma articulação quente, vermelha e inchada com febre é uma urgência: pode ser artrite séptica e exige atendimento imediato.
  • O tratamento começa por tratar a causa; o componente mecânico e musculoesquelético responde a um plano multimodal e não-cirúrgico.
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40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Dor mecânica ou inflamatória: a primeira pergunta

Ilustração editorial de uma mão com articulações dos dedos destacadas em terracota.
A dor nas articulações pode ser mecânica ou inflamatória, e a distinção orienta o tratamento.

Diante de dores nas articulações, a pergunta que mais muda a conduta é “que tipo de dor é esta”, antes mesmo de “qual articulação dói”. A dor articular se divide em dois grandes padrões, mecânico e inflamatório, e cada um aponta para causas e tratamentos diferentes.

A dor mecânica é a dor do desgaste. Costuma piorar ao longo do dia e com o uso da articulação, aliviar com o repouso e vir acompanhada de uma rigidez matinal curta, em geral de poucos minutos, que melhora assim que a pessoa começa a se mexer. É o padrão típico da osteoartrose (a artrose), o problema articular mais comum a partir da meia-idade, e de muitas dores ligadas a sobrecarga, tendões e bursas ao redor da articulação.

A dor inflamatória tem outra assinatura. A rigidez matinal é prolongada, costuma passar de trinta a sessenta minutos e às vezes dura horas; a dor pode acordar a pessoa na segunda metade da noite, melhora com o movimento e piora com o repouso prolongado. A articulação com frequência apresenta edema (inchaço), calor e, em alguns casos, vermelhidão, sinais de que há um processo inflamatório ativo na membrana sinovial.

Esse é o terreno das artrites propriamente ditas: artrite reumatoide, gota, artrite associada à psoríase, espondiloartrites e doenças autoimunes como o lúpus. Quando o padrão é inflamatório, o caminho correto passa por uma avaliação na reumatologia para definir a doença e iniciar o tratamento específico.

“Reumatismo” é um termo popular que reúne dezenas de condições diferentes, e por isso “sintomas de reumatismo” não correspondem a uma única doença. Na prática, o que separa um quadro do outro é justamente esse padrão de dor, a forma como as articulações são acometidas e os sintomas que aparecem fora delas. Por isso a tabela abaixo é o coração deste guia.

Dor articular mecânica x inflamatória: como diferenciar
CaracterísticaMecânica (ex.: artrose)Inflamatória (ex.: artrite reumatoide, gota, lúpus)
Rigidez matinalCurta, em geral menos de 30 minutosProlongada, costuma passar de 30 a 60 minutos
Relação com o usoPiora com o uso, alivia em repousoMelhora com o movimento, piora em repouso prolongado
Ao longo do diaPior ao fim do diaPior pela manhã ou de madrugada
Inchaço, calor, vermelhidãoPouco ou ausente; ósseo e duro quando háFrequentes; articulação quente e edemaciada
Sintomas pelo corpoEm geral ausentesFebre, cansaço, perda de peso, lesões de pele podem ocorrer
Para onde encaminharManejo da dor e reabilitação musculoesqueléticaReumatologia para a doença de base
Pérola clínica

Na prática, o detalhe que mais ajuda à beira do leito é o relógio da rigidez matinal. Quando a pessoa relata que o pescoço, as mãos ou os joelhos demoram mais de uma hora para “destravar” de manhã, o quadro tende a ser inflamatório e merece investigação reumatológica, mesmo que a dor pareça suportável.

Intensidade não é o que decide a conduta

O que decide a conduta não é a intensidade da dor, e sim o padrão: quais articulações doem, se a rigidez de manhã passa de meia hora e se há inchaço. Uma artrose pode doer intensamente sem nenhuma urgência, enquanto uma artrite reumatoide inicial dá só um incômodo nas mãos e na rigidez matinal e, justamente por parecer leve, é adiada, perdendo a janela em que tratar a inflamação cedo muda o futuro da articulação. Por isso a dor de 9 numa escala de 0 a 10 não assusta mais do que três pequenas articulações que travam por uma hora toda manhã: a primeira é um sintoma, a segunda é uma pista diagnóstica.

Fisioterapeuta mobilizando o joelho de paciente deitada em colchonete azul de fisioterapia
Reabilitação na clínica Mobilização de joelho durante a fisioterapia

Uma articulação ou várias, e por quanto tempo

Depois de definir o tipo de dor, o segundo eixo é o número de articulações envolvidas e o tempo de evolução. Esses dois dados estreitam bastante o leque de causas, antes mesmo de qualquer exame.

  • Monoarticular. Uma única articulação. Quando surge de forma aguda, quente e muito dolorosa, levanta a hipótese de gota, de outra artrite por cristais ou, sobretudo se houver febre, de artrite séptica, que é urgência.
  • Oligoarticular. Duas a quatro articulações, padrão comum em algumas espondiloartrites e na artrite psoriásica.
  • Poliarticular. Cinco ou mais, em geral simétrica e nas pequenas articulações das mãos, padrão clássico da artrite reumatoide e de doenças autoimunes como o lúpus.
  • Tempo. Dor de instalação aguda (dias) tem causas diferentes da dor crônica (mais de seis semanas); a poliartralgia que dura poucos dias após um quadro gripal costuma ser viral e autolimitada.

A poliartralgia viral merece um parágrafo próprio porque é muito frequente e costuma assustar. Diversas infecções, de quadros gripais a arboviroses como dengue, zika e chikungunya, cursam com dor em várias articulações, às vezes intensa. Na maioria das vezes a dor acompanha ou sucede o quadro infeccioso e melhora em dias a poucas semanas. A chikungunya, em particular, pode deixar dor articular persistente por meses em parte das pessoas, o que às vezes exige acompanhamento reumatológico.

Há ainda um cenário que confunde muita gente: a dor difusa pelo corpo da fibromialgia. Apesar de ser sentida “nas juntas”, a fibromialgia não é uma artrite verdadeira: não há inflamação nem destruição articular, e os exames de articulação são normais. Trata-se de um quadro de dor crônica generalizada ligado à amplificação dos sinais de dor pelo sistema nervoso central (sensibilização central), em geral com sono não reparador, cansaço e dor à palpação de pontos musculares. Confundir fibromialgia com artrite leva a exames e tratamentos errados; reconhecê-la muda o plano por completo.

Dor “nas juntas” que é articular

Artrose, artrite, gota, bursite

Há dor, rigidez e, na inflamatória, inchaço e calor localizados em articulações específicas, com sinais ao exame.

Dor “nas juntas” que não é articular

Fibromialgia, dor referida

A dor é difusa e muscular, sem inflamação verdadeira; o exame das articulações costuma ser normal e o tratamento é diferente.

As causas por mecanismo

Reunindo os dois eixos, as causas de dor nas articulações se organizam por mecanismo: o desgaste, a inflamação autoimune, os cristais, a infecção, o que está em torno da articulação e o sistêmico. Cada grupo tem uma assinatura própria de dor, ritmo e acometimento. A lista a seguir mostra como o raciocínio se monta e por que duas dores “nas juntas” pedem condutas opostas.

Degenerativa: o desgaste mecânico

Piora ao uso · rigidez curta

Osteoartrose (artrose)

Desgaste progressivo da cartilagem e do osso adjacente. Dor que piora ao longo do dia e ao usar a articulação, rigidez matinal curta (menos de 30 minutos), crepitação e dor óssea à palpação. Acomete joelhos, mãos, quadris e coluna; é a causa mais comum de dor articular mecânica. Ver osteoartrose: mitos e verdades.

Pequenas juntas dos dedos

Artrose erosiva e nódulos de mãos

Forma de artrose que atinge as interfalângicas, com os nódulos de Heberden (distais) e de Bouchard (proximais) e dor na base do polegar (rizartrose). Pode inflamar em surtos, mas segue o padrão mecânico: piora ao uso da pinça e ao escrever, sem o acometimento simétrico e sistêmico da artrite reumatoide.

Inflamatória autoimune: a sinovite

Mãos simétricas · rigidez longa

Artrite reumatoide

Inflamação crônica e autoimune da membrana sinovial. Acomete de forma simétrica as pequenas articulações das mãos e dos punhos, com rigidez matinal prolongada (acima de uma hora), inchaço de partes moles e cansaço. Sem tratamento, leva a erosão e deformidade. O controle precoce com o reumatologista muda o prognóstico.

Dor articular · sintomas pelo corpo

Lúpus e doenças do tecido conjuntivo

O lúpus e outras conectivopatias inflamam articulações sem costumar destruí-las (artrite não erosiva), quase sempre com sinais fora delas: lesões de pele, fotossensibilidade, aftas, queda de cabelo, fenômeno de Raynaud, febre. A dor articular costuma ser a porta de entrada de uma doença sistêmica que exige a reumatologia.

Psoríase · dactilite

Artrite psoriásica

Artrite associada à psoríase, em padrão assimétrico, que pode atingir as interfalângicas distais e dar dactilite (o “dedo em salsicha”), entesite e alterações ungueais. Às vezes a artrite precede a lesão de pele. O acometimento de poucas articulações de forma assimétrica é a pista que a separa da reumatoide.

Coluna · jovem · rigidez ao acordar

Espondiloartrites axiais

Grupo que inflama o esqueleto axial e as ênteses, com dor lombar inflamatória no adulto jovem: dor que acorda na segunda metade da noite, rigidez matinal longa, melhora com o movimento e piora com o repouso. Pode somar artrite periférica assimétrica, uveíte e doença inflamatória intestinal.

Por cristais: a crise aguda

Dedão do pé · crise noturna

Gota

Depósito de cristais de ácido úrico (urato) na articulação. Crise aguda, monoarticular, intensamente dolorosa, quente e vermelha, clássica na base do dedão (podagra), muitas vezes acordando a pessoa de madrugada. Por ser tão dramática, imita a artrite séptica; a distinção às vezes exige análise do líquido articular.

Joelho ou punho · idoso

Pseudogota

Artrite por depósito de cristais de pirofosfato de cálcio, mais comum no idoso, que atinge tipicamente o joelho e o punho. A crise lembra a gota, mas costuma poupar o dedão; a radiografia pode mostrar a calcificação da cartilagem (condrocalcinose), que aponta o diagnóstico.

Infecciosa e pós-infecciosa

Uma junta quente + febre · urgência

Artrite séptica

Infecção dentro da articulação, em geral bacteriana. Uma única articulação subitamente quente, vermelha, muito inchada e dolorosa, com dificuldade de movê-la e febre. É emergência: a cartilagem se deteriora em poucos dias, e o caminho é o pronto-atendimento para artrocentese e antibiótico, não a observação em casa.

Após virose · várias juntas

Artrite viral e poliartralgia pós-arbovírus

Quadros gripais e arboviroses (dengue, zika, chikungunya, parvovírus) cursam com dor em várias articulações, às vezes intensa. Costuma acompanhar ou suceder a infecção e melhorar em dias a poucas semanas. A chikungunya pode deixar dor articular persistente por meses, exigindo acompanhamento.

Joelho · dias a semanas depois

Artrite reativa (pós-infecciosa)

Artrite estéril desencadeada dias a semanas após uma infecção intestinal ou urogenital. Padrão oligoarticular assimétrico de membros inferiores, às vezes com entesite, conjuntivite e uretrite. Não há germe na articulação: o gatilho já passou, e o que persiste é a reação inflamatória.

Área endêmica · carrapato

Doença de Lyme e febre reumática

A doença de Lyme (borreliose), em áreas endêmicas, pode dar artrite de grandes articulações após a picada do carrapato. A febre reumática, hoje rara, segue uma infecção de garganta por estreptococo e dá poliartrite migratória no jovem, parte de um quadro que pode atingir o coração e exige cuidado dirigido.

Periarticular: o que simula dor “na junta”

Dor à pressão local · um ponto

Bursite

Inflamação de uma bursa, a bolsa que reduz o atrito entre tendões, músculos e ossos. Causa comum de dor no ombro, no quadril (bursite trocantérica) e no joelho, com dor à pressão sobre o ponto e ao usar o membro. Não é dor de dentro da articulação: a amplitude passiva costuma estar preservada.

Dor ao mover · resistência

Tendinite e tendinopatias

Sobrecarga e degeneração de um tendão na inserção (manguito rotador, epicôndilos, patelar, aquileu). Dor localizada que piora ao contrair o músculo contra resistência e ao usar o membro, mecânica e ligada a esforço. Simula dor articular, mas o alvo é o tendão, e responde bem ao tratamento de carga.

Dor difusa · exames normais

Fibromialgia e dor miofascial

Dor difusa pelo corpo, sentida “nas juntas”, sem inflamação nem dano articular: os exames de articulação são normais. Ligada à sensibilização central, com sono não reparador, cansaço e pontos musculares dolorosos. Confundi-la com artrite leva a exames e tratamentos errados. Ver fibromialgia.

Sistêmica e endócrina

Dor articular · doença de fundo

Causas endócrinas e metabólicas

Hipotireoidismo, hiperparatireoidismo, hemocromatose e diabetes podem cursar com dor e rigidez articular, às vezes como primeira manifestação. A pista é a dor articular que não fecha com nenhum padrão clássico e vem com sintomas da doença de fundo; tratá-la costuma aliviar as juntas.

Bandeira vermelha · idoso

Causas paraneoplásicas e ósseas

Dor articular ou óssea que progride, é pior à noite, não alivia com o repouso e vem com perda de peso ou sudorese noturna exige investigar causas secundárias, incluindo neoplasia e doença óssea. É a dor que foge do padrão mecânico e do inflamatório benigno e merece avaliação dirigida.

>30 min
Rigidez matinal sugestiva de inflamação
5+
Articulações: padrão poliarticular
1
Quente + febre: pensar em séptica
Multi
Plano multimodal para o componente mecânico

Como diferenciar pelo padrão

Com a lista de causas em mãos, o que separa um quadro do outro são quatro eixos: uma ou várias articulações (mono x poli), mecânica ou inflamatória, aguda ou crônica e o padrão de acometimento (simétrico, assimétrico, migratório). A tabela liga cada grupo ao seu comportamento típico e ao que ele costuma exigir.

Padrão da dor articular por mecanismo e o que costuma orientar a conduta
GrupoQuantas e quais juntasRitmo e pista que confirmaO que costuma orientar
Degenerativa (artrose)Mono ou oligo; joelhos, mãos, quadrisCrônica, mecânica; piora ao uso, rigidez curtaReabilitação e controle de peso; imagem confirma
Inflamatória autoimunePoli e simétrica (reumatoide) ou assimétrica (psoriásica)Crônica, inflamatória; rigidez longa, inchaço, sintomas pelo corpoReumatologia para a doença de base, sem demora
Por cristais (gota, pseudogota)Mono; dedão, joelho, punhoAguda, intensa; crise quente e vermelha, líquido com cristaisTratar a crise e o ácido úrico; analisar o líquido
SépticaMono, quente, com febreAguda; uma junta inflamada e febrePronto-atendimento: artrocentese e antibiótico (urgência)
Viral e pós-infecciosaPoli (viral) ou oligo assimétrica (reativa)Aguda a subaguda, após uma infecçãoEm geral autolimitada; acompanhar se persistir
Periarticular (bursite, tendinite)Localizada, um pontoMecânica; dor à pressão e ao mover contra resistênciaReabilitação de carga; amplitude passiva preservada
Difusa (fibromialgia)Generalizada, “nas juntas”Crônica; sem inflamação, exames de articulação normaisExercício, sono e manejo da dor crônica
Sistêmica e ósseaVariável; não fecha padrão clássicoDor que progride, pior à noite, sintomas de outro órgãoInvestigar a causa de base; bandeira vermelha

Quatro perguntas resolvem a maior parte da dúvida. Quantas juntas: uma única e quente aguda puxa para gota e séptica; cinco ou mais e simétricas, para a reumatoide. O relógio da manhã: rigidez que passa de meia hora favorece o inflamatório; curta, o mecânico. O tempo: dias separam o agudo (cristais, infecção) do crônico (artrose, autoimune). Fora das juntas: febre, lesão de pele, perda de peso e olho vermelho tiram a dor do terreno benigno e apontam doença sistêmica. E vale o teste de bancada: uma junta isolada, quente e com febre não é caso de exame e observação, é pronto-socorro no mesmo dia.

Sinais de alerta: quando não esperar

A maioria das dores articulares é benigna ou tratável de forma programada, mas alguns cenários mudam a urgência. O mais importante é a articulação quente com febre.

Sinais de alerta · procure atendimento sem demora

Uma articulação quente, vermelha e muito dolorosa com febre é urgência

  • Articulação única subitamente quente, vermelha, inchada e muito dolorosa, ainda mais com febre: pode ser artrite séptica, uma infeção dentro da articulação que exige diagnóstico e tratamento imediatos para evitar destruição articular.
  • Dor articular após trauma significativo, com incapacidade de mover ou apoiar o membro.
  • Dor com sintomas sistêmicos importantes: febre persistente, perda de peso, suores noturnos.
  • Inchaço articular acompanhado de manchas na pele, feridas na boca ou sintomas em outros órgãos.
  • Fraqueza, dormência ou perda de função que progride.

A artrite séptica merece destaque porque o tempo importa: quanto antes a articulação infectada é drenada e tratada, menor o risco de dano permanente. Por isso, diante de uma única articulação quente e febre, o caminho é o pronto-atendimento, não a observação em casa. As demais bandeiras apontam para causas sistêmicas que precisam de investigação dirigida, e não de analgésico isolado.

Como a dor nas articulações é avaliada

A avaliação parte da mesma lógica do início deste guia e quase sempre define o caminho antes de qualquer exame. As três perguntas-chave são: a dor é mecânica ou inflamatória, quantas articulações estão envolvidas e há sinais fora das articulações?

  1. História dirigida

    Tipo de dor, duração da rigidez matinal, número e localização das articulações, relação com infecções recentes, histórico familiar e sintomas pelo corpo.

  2. Exame das articulações

    Busca de inchaço, calor, vermelhidão e derrame articular, amplitude de movimento e dor à palpação, comparando os dois lados.

  3. Avaliação sistêmica

    Pele, mucosas, olhos e sinais gerais, que ajudam a identificar doenças autoimunes e espondiloartrites.

  4. Exames quando indicados

    Provas inflamatórias, fator reumatoide e anti-CCP, ácido úrico, análise do líquido articular e imagem são pedidos de forma seletiva, conforme a hipótese, e não em bloco.

Vale uma ressalva sobre imagem. Alterações degenerativas em radiografias e ressonâncias são muito comuns com a idade e nem sempre explicam a dor. Pedir imagem cedo demais, sem uma pergunta clínica clara, costuma revelar achados próprios da idade e gerar preocupação e procedimentos desnecessários. O exame é solicitado quando muda a conduta, por exemplo diante de suspeita de artrite inflamatória, de dor que não responde ou de bandeiras de alerta.

Quando o padrão é claramente inflamatório, poliarticular ou acompanhado de sintomas sistêmicos, a avaliação reumatológica é a prioridade. O papel do médico da dor, nesse cenário, é reconhecer o padrão, orientar e encaminhar, e cuidar em paralelo do componente musculoesquelético e da dor que limita a função.

Da prática clínica

Algumas observações de quem avalia dor articular no dia a dia, que costumam mudar a rota do atendimento:

  • A pergunta sobre a manhã separa os caminhos. Antes de qualquer exame, saber quanto tempo a rigidez leva para passar e se as articulações incham já divide a consulta entre o caminho mecânico, que cuidamos aqui com reabilitação, e o inflamatório, que encaminhamos à reumatologia. Quem chega trazendo uma ressonância cheia de achados, mas sem essa informação, em geral fez o exame antes da pergunta que mais importava.
  • O quadro que não pode esperar é a articulação única, quente e inchada com febre. Diante dela a conduta não é marcar exame nem prescrever anti-inflamatório e observar: é o pronto-socorro no mesmo dia, pela hipótese de artrite séptica, em que cada dia de atraso na drenagem aumenta o risco de a articulação se perder.
  • O que mais surpreende o paciente é descobrir que parte da dor “da junta” vem do músculo ao redor: ao tratar o ponto-gatilho no vasto medial ou no glúteo, o joelho ou o quadril melhoram sem que a artrose da radiografia tenha mudado. A imagem assusta mais do que costuma explicar a dor.
  • Surpreende também ver que exercício alivia uma dor de desgaste. A intuição manda poupar a articulação gasta, e é o contrário: o repouso enfraquece o músculo que a protege e perpetua a dor, enquanto a carga graduada a descarrega.
Assista: DOR ARTICULAR: o que causa e como tratar

O tratamento depende da causa

Não existe um tratamento único para a dor nas articulações, porque a origem é que define a conduta. O princípio que organiza tudo é simples: trata-se a causa, não o sintoma. Quando o padrão é inflamatório, por cristais, infeccioso ou sistêmico, a prioridade é o tratamento de base com o especialista, e nenhuma técnica de dor o substitui. Quando há um componente mecânico e musculoesquelético, que é o terreno da clínica, soma-se um plano multimodal, não cirúrgico e individualizado, com a reabilitação ativa como eixo.

Na causa musculoesquelética (artrose, bursite, tendinopatia, dor miofascial), que responde pela maioria dos casos, o eixo é a reabilitação com cinesioterapia e fortalecimento dirigido, conduzida individualmente, com um paciente por sala. O exercício é a intervenção de primeira linha das diretrizes de osteoartrose, com benefício sobre dor e função comparável ao dos anti-inflamatórios e sem o perfil de risco deles: na artrose de joelho prioriza-se o quadríceps e a musculatura do quadril para controlar o valgo dinâmico e descarregar a articulação; nas tendinopatias, o trabalho de carga progressiva (isométricos na fase irritável, depois excêntricos e resistência pesada e lenta) remodela o tendão. RPG e Pilates clínico entram como formas estruturadas de exercício terapêutico, conforme o componente postural e de controle motor, sem superioridade demonstrada sobre a cinesioterapia.

A melhora costuma aparecer ao longo de 6 a 12 semanas e se sustenta enquanto o estímulo é mantido. Abandonar o repouso prolongado é parte do tratamento: poupar a articulação enfraquece o músculo que a protege e perpetua a dor.

Fisioterapia e técnicas em clínica para o componente miofascial

Parte do que o paciente chama de “dor na junta” tem origem fora da articulação, na musculatura periarticular que entra em sobrecarga quando a articulação dói: o joelho com artrose vem com pontos-gatilho no vasto medial e nos isquiotibiais, o ombro no infraespinhal e no supraespinhal. Para esse componente, somam-se o agulhamento seco e a infiltração de ponto-gatilho, em que a agulha busca a banda tensa e provoca a resposta de contração local que reduz a hiperatividade da placa motora, e a acupuntura médica, que modula a dor por vias segmentares e inibitórias descendentes, especialmente útil no idoso que tolera mal anti-inflamatórios. Para a tendinopatia e a bursite que acompanham muitas dores articulares, as ondas de choque estimulam a remodelação do tendão, em geral em 3 a 5 sessões. Esses recursos potencializam a reabilitação ativa, não a substituem.

Em casos selecionados de artrose e bursite, a infiltração intra ou peri-articular, por vezes guiada por ultrassom, abre uma janela para avançar o exercício: o corticoide controla a inflamação local e o ácido hialurônico (viscossuplementação) melhora a viscoelasticidade do líquido articular, com benefício de semanas a meses, mais consistente no joelho. O corticoide intra-articular deve ser usado com parcimônia, e há contraindicação diante de suspeita de infecção. A infiltração é parte de um plano, não um substituto da reabilitação.

Nas causas inflamatória, por cristais e infecciosa, o tratamento de base é específico e muda o prognóstico: na artrite reumatoide e na psoriásica, os fármacos antirreumáticos modificadores da doença (DMARDs, como metotrexato), biológicos e pequenas moléculas conduzidos pelo reumatologista; na gota, o controle do ácido úrico (alopurinol) com meta de uricemia, além da colchicina na crise; na artrite séptica, drenagem e antibiótico em ambiente hospitalar, com urgência. Aqui o papel da clínica é reconhecer o padrão, encaminhar e cuidar em paralelo do componente musculoesquelético. A medicação para a dor mecânica é adjuvante e tem prazo: anti-inflamatórios na menor dose eficaz pelo menor tempo (cautela renal, cardiovascular e gástrica, sobretudo no idoso), anti-inflamatório tópico como primeira escolha na artrose de joelho e de mãos, e, na dor crônica com sensibilização central, duloxetina ou tricíclicos em dose baixa. Para aprofundar, veja o guia de remédios para dor.

Quanto à cirurgia, ela é a exceção, não a regra, e é conduzida fora desta clínica pelo ortopedista: entra na artrose avançada e incapacitante que esgotou o tratamento conservador (artroplastia) e nas emergências como a artrite séptica e a fratura. Bursite, tendinopatia e dor miofascial praticamente não têm indicação cirúrgica, e em lesões degenerativas a artroscopia não costuma superar um programa estruturado de exercício. Medimos a dor ao subir escada, os graus de flexão, a distância caminhada sem parar. Quando elas não andam no prazo, o que se revisa primeiro é o diagnóstico, porque uma artrose que não cede ao exercício pode esconder um componente inflamatório que precisa de reumatologia, não de mais sessões da mesma técnica.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Dores nas articulações: o que pode ser?

Pode ser dor mecânica, como na artrose, que piora com o uso e tem rigidez matinal curta, ou dor inflamatória, como na artrite reumatoide, na gota e no lúpus, com rigidez matinal prolongada, inchaço e calor. Bursite, tendinite, infecções virais e fibromialgia também causam dor “nas juntas”. O padrão da dor e o exame definem a causa.

Quais são os sintomas de reumatismo?

“Reumatismo” reúne muitas doenças. Quando há padrão inflamatório, costumam aparecer rigidez matinal prolongada, articulações inflamadas (inchadas, quentes), dor que melhora com o movimento e, às vezes, sintomas pelo corpo, como cansaço e febre. Esse conjunto pede avaliação reumatológica.

Como diferenciar artrite de artrose?

A artrose é mecânica e degenerativa: dor que piora com o uso, rigidez matinal curta e pouco inchaço. A artrite, no sentido inflamatório, tem rigidez matinal prolongada, inchaço e calor na articulação, e pode vir com sintomas sistêmicos. A tabela deste guia detalha as diferenças.

Articulações inflamadas, o que fazer?

Inchaço e calor em articulações apontam para um processo inflamatório que merece avaliação. Se for uma única articulação quente, vermelha e com febre, procure atendimento sem demora, pois pode ser artrite séptica. Nos demais casos, a avaliação reumatológica define a causa e o tratamento.

O que é bursite e por que dói tanto?

Bursite é a inflamação de uma bursa, pequena bolsa que reduz o atrito ao redor das articulações. Causa dor localizada, que piora à pressão e ao usar o membro, sendo comum no ombro, no quadril e no joelho. Costuma responder bem à reabilitação e, em casos selecionados, à infiltração.

Artrose no quadril tem tratamento sem cirurgia?

Sim. A base é o exercício e a reabilitação, que descarregam a articulação e melhoram a função, somados a controle da dor e, em casos selecionados, infiltração. A cirurgia é considerada em situações específicas. Veja a página de dor no quadril.

Dor em várias articulações depois de uma virose é normal?

A poliartralgia viral é comum após quadros gripais e arboviroses, e costuma melhorar em dias a poucas semanas. A chikungunya pode deixar dor articular por mais tempo. Se a dor persistir, vier com inchaço importante ou sintomas sistêmicos, procure avaliação.

Dor nas juntas pode ser fibromialgia?

A fibromialgia causa dor difusa pelo corpo, sentida “nas juntas”, mas não é uma artrite verdadeira: não há inflamação nem dano articular e os exames de articulação são normais. O tratamento é diferente, com foco em exercício, sono e manejo da dor crônica. Saiba mais em fibromialgia.

Quando devo procurar um especialista?

Procure avaliação quando a dor for inflamatória, atingir várias articulações, vier com sintomas pelo corpo ou não melhorar. Diante de uma articulação quente com febre, o atendimento deve ser imediato. Um médico fisiatra ou da dor pode definir o padrão, tratar o componente musculoesquelético e encaminhar à reumatologia quando indicado.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências9 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 13 min

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