Dor nos adutores: virilha, pubalgia e pontos-gatilho
Os adutores, na face interna da coxa, distendem ou criam pontos-gatilho que doem na virilha, podendo imitar pubalgia, problema do quadril ou hérnia.
- Os adutores ocupam a parte interna da coxa e estabilizam a pelve quando você corre, chuta, freia ou muda de direção. Quando trabalham além da tolerância, distendem, desenvolvem tendinopatia ou criam pontos-gatilho miofasciais que doem na virilha e na face interna da coxa, com piora ao apertar as pernas, correr, chutar, abrir a perna ou voltar ao treino.
- A dor muscular costuma ser mecânica, reprodutível à palpação e modulável, mas a virilha é um endereço apertado: a mesma queixa pode vir de pubalgia, da sínfise púbica, do quadril (impacto femoroacetabular, lesão labral, artrose), de hérnia inguinal, da coluna lombar, do nervo obturatório ou de causas urológicas e pélvicas. Separar essas causas muda o tratamento.
- O tratamento é não-cirúrgico e multimodal: controle de carga, fortalecimento progressivo dos adutores e do controle de pelve, fisioterapia, agulhamento seco, infiltração de ponto-gatilho, acupuntura e ondas de choque nos casos com alvo tendíneo. A maioria melhora sem operar, com retorno ao esporte por critérios de dor e força.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Onde nasce a dor: adutores, virilha e o padrão referido

Antes de tratar, é preciso situar a anatomia. Os adutores não são um único músculo, e sim um grupo na face interna da coxa que se origina no osso púbico e desce até o fêmur. São cinco: o adutor longo, o adutor curto, o adutor magno, o grácil e o pectíneo. É essa origem comum perto do púbis que faz a sobrecarga deles ser sentida na virilha, e que aproxima a dor muscular da dor púbica.
A função do grupo é aduzir o quadril, ou seja, aproximar a coxa da linha média, e ajudar a estabilizar a pelve durante a marcha, a corrida, a desaceleração e o apoio em uma perna só. Em esportes com aceleração lateral, chute e cortes, os adutores trabalham desacelerando a abertura da perna, um gesto de freio que os expõe a sobrecarga. O adutor longo, por ter uma origem tendínea estreita perto do púbis, é o mais envolvido na dor de virilha relacionada ao esporte; o pectíneo, mais alto e medial, fica tão perto do flexor do quadril que confunde dor de adutor com dor de iliopsoas.
Quando um desses músculos passa da sua tolerância, entra num ciclo de dor-espasmo-dor e surgem pontos-gatilho miofasciais: faixas de fibras contraídas, dolorosas à palpação, que produzem dor local e, de forma característica, dor referida a distância. Nos adutores, o padrão referido costuma ocupar a virilha e a face interna da coxa, descendo em direção ao joelho medial e subindo na direção do púbis. Por isso a dor referida do adutor longo e do pectíneo imita tão bem uma dor de quadril ou uma pubalgia, e por isso a queixa quase nunca se resume ao ponto exato que o paciente aponta.
A boa notícia é que dor muscular não é dano estrutural. Um adutor cheio de pontos-gatilho dói, limita o chute e perde força de adução, mas responde bem a tratamento conservador quando a sobrecarga que o alimenta é abordada junto. A pergunta clínica que organiza tudo vai além do “onde dói”: importa se a contração resistida, o alongamento e a palpação da origem reproduzem a dor habitual do paciente. O músculo pode ser a fonte principal, o compensador de outro problema ou a consequência de uma irritação púbica, articular ou nervosa.

Distensão, tendinopatia e dor miofascial: não é tudo a mesma coisa
A mesma região pode doer por mecanismos diferentes, e separá-los evita alongar uma lesão aguda ou insistir em liberação quando o problema é carga e força. A distensão dos adutores é uma lesão muscular ou musculotendínea aguda, comum após abertura forçada da perna, chute, escorregão ou arrancada; aparece como dor súbita, em fisgada, às vezes com estalo, e nas lesões maiores há perda de força e hematoma. A tendinopatia dos adutores instala-se aos poucos, por excesso de carga e retorno rápido ao esporte; dói perto do púbis, melhora um pouco com o aquecimento e volta com o treino.
A dor miofascial é a dos pontos-gatilho: banda tensa que, à pressão, reproduz a dor habitual e responde a técnicas que reduzem a proteção muscular. As três coexistem com frequência.
Virilha e face interna da coxa
Dor que piora ao apertar as pernas, correr, chutar, abrir a perna, mudar de direção, subir escada ou voltar ao treino; pode aproximar-se do púbis e descer a coxa. O ponto-gatilho reproduz a dor habitual à palpação ou à adução resistida.
Sobrecarga esportiva e fraqueza
Futebol, corrida, artes marciais, tênis, dança e treino com aceleração lateral; aumento rápido de carga, retorno precoce após distensão, baixa força dos adutores, diferença de força entre adutores e abdutores e pouca mobilidade do quadril.
O traço mais confundente é a dor referida. Como o grupo se origina perto do púbis e os pontos-gatilho projetam dor a distância, a queixa pode parecer vir da articulação do quadril, do osso púbico ou do canal inguinal quando a origem está na musculatura adutora. Por isso o exame não se limita ao ponto que dói: testa a força de adução, o alongamento, a palpação da origem do adutor longo, a mobilidade do quadril, a região púbica e inguinal e, quando há irradiação ou formigamento, a coluna lombar e os nervos.
O que diferencia de pubalgia, problema do quadril e hérnia inguinal

Dor na virilha é um cruzamento de caminhos. Vários quadros dividem esse endereço e se confundem o tempo todo, e na prática coexistem: a dor miofascial do adutor costuma acompanhar uma tendinopatia ou uma sobrecarga púbica, somando-se a elas. A pubalgia atlética, em particular, descreve a dor de carga na sínfise púbica, na parede abdominal e nos adutores, e muitos pacientes rotulados de “pubalgia” têm contribuição clara do adutor, embora nem toda dor de adutor seja pubalgia.
A distinção que mais muda a conduta separa a dor muscular, reproduzida pela palpação e pela contração resistida, das causas que exigem investigação própria. A tabela reúne as pistas que mais ajudam.
| Quadro | Como costuma doer | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Pontos-gatilho e dor miofascial dos adutores | Dor na virilha e na face interna da coxa, que pode descer a coxa ou subir ao púbis | Banda tensa que, à pressão, reproduz a dor; piora à adução resistida e ao alongamento; sem déficit neurológico verdadeiro |
| Distensão dos adutores | Dor súbita em fisgada após chute, abertura da perna ou arrancada | Início agudo, às vezes com estalo e hematoma; perda de força de adução nas lesões maiores |
| Pubalgia atlética / dor púbica | Dor de carga perto do púbis, ao correr, chutar, tossir ou fazer abdominal | Dor à palpação da sínfise e da parede abdominal baixa; envolve adutor, púbis e abdômen juntos |
| Quadril (impacto femoroacetabular, lesão labral, artrose) | Dor inguinal profunda, com pinçamento ou rigidez | Dor e restrição à rotação interna e à flexão do quadril; imagem pode mostrar a alteração articular |
| Hérnia inguinal | Dor e sensação de pressão na virilha, pior ao esforço | Abaulamento que piora ao tossir, evacuar ou levantar peso; aumenta com a pressão abdominal |
| Nervo obturatório ou raiz lombar | Dor medial na coxa, às vezes com formigamento ou fraqueza | Sintomas neurológicos num território definido; pode haver relação com a coluna |
Note que os quadros não são excludentes. O mais comum, no consultório, é a sobreposição: um adutor sobrecarregado por treino e baixa força, que dispara pontos-gatilho, irrita a própria origem no púbis e ainda convive com algum grau de impacto femoroacetabular. Isso muda a estratégia: em vez de caçar um único culpado na imagem, trata-se cada componente que o exame identifica.
Há ainda um conjunto de sinais que não devem ser tratados como simples dor muscular: dor testicular, sintomas urinários, sangue na urina, febre, dor abdominal ou pélvica nova e dor noturna progressiva pedem investigação de causas urológicas, ginecológicas ou sistêmicas. Quando a suspeita é de origem no músculo da face interna da coxa de outro segmento, vale o paralelo com a dor dos flexores e extensores; quando a dor profunda da nádega entra no diferencial, a página sobre síndrome do piriforme ajuda a organizar o raciocínio.
“Dor na virilha é sempre uma contratura do adutor, basta alongar e massagear que passa.”
A virilha concentra músculo, tendão, púbis, quadril e canal inguinal. A dor do adutor é uma causa frequente, mas precisa ser separada de pubalgia, problema do quadril e hérnia antes de se escolher o tratamento. Alongar com força uma distensão recente pode atrasar a recuperação.
Como se faz o diagnóstico: exame e quando pedir imagem

O diagnóstico da dor miofascial e da maioria das dores de adutor é clínico, feito com as mãos e com testes de função, não com a ressonância. O exame busca alguns elementos no músculo doloroso: uma banda tensa palpável na face interna da coxa; um ponto de dor exuberante sobre essa banda; a reprodução da dor habitual do paciente quando se pressiona esse ponto, o critério mais valioso; e a dor à adução resistida. Soma-se o teste de squeeze, apertar uma bola ou o punho do examinador entre os joelhos em diferentes ângulos de quadril, que sobrecarrega os adutores e o púbis; o alongamento, para ver se a abertura da perna reproduz a queixa; e a palpação dirigida da origem do adutor longo no púbis.
A separação das causas vizinhas é deliberada: testamos a mobilidade e a rotação do quadril, palpamos a sínfise púbica e a parede abdominal, procuramos abaulamento ou dor inguinal ao esforço e, quando há irradiação, avaliamos a coluna lombar e os nervos. A imagem tem papel coadjuvante. Ultrassonografia e ressonância servem para investigar ruptura muscular, tendinopatia, alteração da sínfise púbica, lesão do quadril ou hérnia quando há suspeita, mas não enxergam o ponto-gatilho, que é um fenômeno funcional do músculo. O exame de imagem deve responder a uma pergunta clínica: se não muda a conduta, o foco continua sendo a função, a força e a tolerância à carga.
- Minha dor fica na virilha ou na face interna da coxa, e piora ao apertar as pernas ou ao chutar.
- A dor começou ou piorou depois que aumentei a corrida, o treino ou voltei cedo demais ao esporte.
- Doer não vem com formigamento, abaulamento na virilha, dor testicular, febre nem sintomas urinários.
- Apertar uma bola entre os joelhos ou abrir a perna reproduz a dor que eu sinto no dia a dia.
Identificar-se com vários itens sugere um componente miofascial ou de sobrecarga do adutor.
Tratamento: do fortalecimento dos adutores ao agulhamento seco
O tratamento da dor nos adutores é não-cirúrgico, multimodal e individualizado. O objetivo é reduzir a irritação, desativar os pontos-gatilho, devolver força e controle ao quadril e à pelve e corrigir o que sobrecarrega o músculo, com a reabilitação ativa como base e as demais técnicas somando-se a ela conforme a apresentação e a resposta. Quando há tendinopatia ou sobrecarga púbica associadas, esses geradores entram no mesmo plano. O retorno ao esporte é decidido por critérios de dor e força, não por calendário.
Educação e controle de carga
Reduzir temporariamente o gesto que dispara a dor (chute, arrancada, abertura ampla) sem repouso absoluto e ajustar a progressão do treino.
Reabilitação e fortalecimento dos adutores
Base do plano: isométricos, força excêntrica (Copenhagen adaptado) e controle de pelve e quadril.
Agulhamento seco
Agulha fina até o ponto-gatilho do adutor longo ou pectíneo, sem injetar substância; busca a resposta de contração local.
Infiltração de ponto-gatilho
Anestésico local (ou soro) na banda tensa; útil no ponto fundo perto da origem púbica que não tolera a técnica seca.
Acupuntura e eletroacupuntura
Camada de neuromodulação na dor de virilha persistente, em paralelo à reabilitação; pontos locais e a distância na pelve.
Ondas de choque e laser
Somam-se quando há tendinopatia da origem púbica do adutor; não desativam o ponto-gatilho por si sós.
Medicação adjuvante
Analgésicos e anti-inflamatórios em curso curto abrem janela para a reabilitação; não recuperam a força do adutor.
Toxina botulínica
Casos refratários com forte componente de espasmo do adutor; não é primeira linha e a evidência é limitada nessa indicação.
Reabilitação e fortalecimento dos adutores: a base que sustenta o resultado
Aliviar o ponto-gatilho ajuda, mas é a reabilitação que evita que ele volte, porque a baixa força e a má distribuição de carga são o motor de quase todos esses quadros. O programa é individualizado, em geral um a um.
- O que é
- Fortalecimento progressivo dos adutores como espinha dorsal do plano, somado ao controle de pelve e de quadril e à mobilidade.
- Como progride
- Começa com isométricos toleráveis (apertar uma bola entre os joelhos) e avança para concêntricos e excêntricos, com destaque para variações do Copenhagen adaptado, que treina a força excêntrica de adução.
- Evidência
- Forte Boa base na prevenção e no manejo da dor de virilha em atletas; o exercício é a intervenção não farmacológica mais bem sustentada.
- O que esperar
- Resposta ao longo de semanas; o critério prático é a dor no dia seguinte: se piorou, recua-se a carga. O programa é mantido depois do alívio para reduzir recaídas, sobretudo em quem corre e muda de direção. O Pilates orientado pode ser um bom veículo desse trabalho.
- Limitações
- O resultado depende de continuidade; o problema raramente é um músculo “encurtado” que precisa de mais alongamento, e insistir em esticar uma musculatura já sobrecarregada tende a frustrar.
Agulhamento seco e infiltração de ponto-gatilho
São as ferramentas mais diretas contra o ponto-gatilho, sempre acopladas à reabilitação que evita a recaída.
- O que é
- No agulhamento seco (dry needling), com a banda tensa do adutor longo ou do pectíneo presa entre os dedos (palpação em pinça), uma agulha fina é avançada até o nódulo doloroso, sem injetar nenhuma substância. Na infiltração, injeta-se anestésico local (ou soro fisiológico).
- Mecanismo
- O sinal de acerto é a resposta de contração local, um repuxão involuntário que dispara a dor referida (descendo a face interna da coxa ou subindo ao púbis) e em seguida afrouxa a banda; caem a atividade elétrica espontânea da placa motora e as substâncias álgicas, com analgesia local e segmentar.
- Evidência
- Moderada Ensaio duplo-cego e controlado por sham da nossa equipe (Grupo de Dor do HC-FMUSP) mostrou analgesia mantida por sete dias — feito na dor de ombro, não nos adutores; sustenta o mecanismo, que se transfere por ser a dor adutora miofascial pela mesma lógica. Pai MYB e cols., Pain Reports, 2021.
- O que esperar
- Muitos saem da maca já apertando as pernas com menos dor, mas é frequente a face interna da coxa ficar dolorida e “pesada” por um a dois dias antes de o alívio se firmar. A virilha em geral pede mais de uma sessão do que um trapézio isolado. As páginas de dry needling e de infiltração de ponto-gatilho detalham indicações e riscos.
- Cuidado anatômico
- O feixe vásculo-nervoso femoral e os ramos do nervo obturatório correm perto da musculatura adutora; a profundidade e a direção da agulha são guiadas pela palpação e, no ponto alto e medial, pelo ultrassom, com o quadril em leve rotação externa para abrir o plano e afastar os vasos.
- Limitações
- São abertura de janela, não o tratamento que resolve: sem o fortalecimento na sequência, o ponto-gatilho tende a voltar. Efeitos adversos são pequenos (desconforto local, equimose), com atenção redobrada à equimose em quem usa anticoagulante, justo porque a região é vascularizada.
Algumas observações de consultório:
A queixa que mais aponta para o adutor é a dor que aparece ao apertar as pernas ou ao chutar, e não na caminhada lenta; quando o squeeze entre os joelhos reproduz exatamente o incômodo do dia a dia, a musculatura adutora costuma ter peso grande no quadro. O que mais confunde é a profundidade: a dor referida do adutor longo e do pectíneo costuma ser descrita como “lá no fundo da virilha”, o mesmo lugar que o paciente aponta para uma lesão do quadril, e a distinção raramente sai da história, só do exame que testa rotação do quadril, palpa o púbis e procura abaulamento inguinal. Quando há tendinopatia da origem púbica somada, costuma haver um ponto muito específico e doloroso no osso, que não some só com o agulhamento e cobra o trabalho excêntrico para virar. E surpreende muita gente que a agulha no ponto certo reproduza a dor antes de aliviá-la, e que o passo que de fato segura o resultado seja chato: a progressão de força do adutor, mantida por semanas depois que a dor já passou.
Acupuntura médica, eletroacupuntura, ondas de choque e laser
A acupuntura médica modula a dor por mecanismos neurofisiológicos: ação segmentar no corno dorsal da medula (teoria da comporta), ativação das vias inibitórias descendentes e liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência conectada às agulhas tende a recrutar mais esses sistemas. Na dor de virilha persistente é uma camada útil de neuromodulação, especialmente quando há dor difusa, sono ruim ou quando se quer reduzir medicação no começo; pode-se trabalhar pontos locais sobre os adutores e pontos a distância no mesmo segmento da pelve e do quadril, em paralelo à reabilitação. Aqui a acupuntura é praticada por médicos com formação na área.
Quando o exame e a imagem mostram tendinopatia do adutor na origem púbica junto da dor miofascial, dois recursos somam-se ao plano: as ondas de choque extracorpóreas, que estimulam a regeneração do tendão por mecanotransdução e neovascularização, em ciclos de cerca de 3 a 5 sessões semanais, e o laser de alta intensidade, que atua por fotobiomodulação com efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade. São complementos do componente tendíneo; não desativam o ponto-gatilho por si sós, nem substituem o fortalecimento e o controle de carga.
Medicação e toxina botulínica
A medicação alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não substitui a base ativa — o detalhamento das classes está na seção de tratamento medicamentoso. A toxina botulínica tipo A fica reservada a quadros que não respondem ao tratamento bem conduzido, sobretudo quando há forte componente de espasmo do adutor mantendo a dor: injetada em pontos selecionados, bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (CGRP, substância P). Não é primeira linha e a evidência nessa indicação é limitada; o efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, sempre dentro de um plano que mantém a reabilitação e com escolha de produto e doses pelo médico.
Controle inicial
Reduzir o gesto que dispara a dor, manter caminhada e movimento tolerável, iniciar isométricos dos adutores e a primeira sessão de agulhamento, se indicado.
Progressão
Fortalecimento concêntrico e excêntrico, Copenhagen adaptado, controle de pelve e mobilidade de quadril, técnicas em clínica conforme o quadro; a dor costuma começar a ceder.
Reavaliação e retorno
Reintrodução graduada de corrida, aceleração, mudança de direção e chute por critérios; sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico (há pubalgia, quadril ou hérnia predominando?).
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
As técnicas de agulha desativam o ponto-gatilho do adutor e abrem a janela de alívio; é a reabilitação ativa que mantém essa janela aberta, porque a baixa força de adução, o desequilíbrio entre adutores e abdutores e o mau controle de pelve são o motor de quase todos esses quadros. RPG, Pilates clínico, cinesioterapia e terapia manual não competem com o agulhamento seco nem com o controle de carga: dão a eles força excêntrica, controle motor e progressão segura de volta ao esporte. São abordagens conduzidas dentro da clínica, sempre individuais, um paciente por sala.
O alvo funcional é comum a todas: corrigir o que sobrecarrega a face interna da coxa e a origem púbica do adutor. Isso significa devolver força excêntrica de adução, equilibrar a relação entre adutores e abdutores do quadril (uma razão adutor/abdutor baixa é fator de risco descrito para dor de virilha no esporte), treinar o controle de pelve no apoio em uma perna e na desaceleração, e ganhar mobilidade de quadril. O fortalecimento progressivo dos adutores, detalhado na seção de tratamento como base do plano, é o eixo ao redor do qual essas abordagens se organizam; aqui o foco recai sobre o controle motor e o gesto esportivo.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas. Por meio de contração isométrica de caráter excêntrico, reduz o encurtamento das cadeias internas da coxa e da cadeia anterior do quadril, normaliza o tônus e devolve consciência da pelve, aliviando a tensão sobre a origem púbica do adutor. Forma supervisionada e bem tolerada de iniciar o movimento em quem tem muita rigidez ou dor para começar a carregar o adutor. Limitações: não substitui o fortalecimento excêntrico progressivo nem o agulhamento; posturas de abertura mantidas em excesso podem incomodar uma origem púbica irritada no início, o que se ajusta com a dose.
Pilates clínico
Exercício terapêutico de baixo impacto centrado em controle motor e estabilização do core e do quadril, adaptado por fisioterapeuta ao quadro de dor. Trabalha os estabilizadores profundos do tronco e da pelve e a estabilização lombopélvica, reduzindo a sobrecarga sobre a origem púbica e os adutores na desaceleração e no apoio unipodal — justamente os gestos que doem. Bom para integrar força, mobilidade e controle de forma graduada e sustentar a constância na transição de volta à corrida e ao chute. Limitações: precisa ser clínico e individualizado; carga adutora avançada cedo demais provoca piora e abandono. O Pilates orientado para a dor miofascial detalha esse trabalho.
Cinesioterapia, exercício excêntrico e protocolo Copenhagen
A reabilitação ativa propriamente dita: prescrição individualizada de fortalecimento progressivo dos adutores, ênfase no trabalho excêntrico (exercício de adução de Copenhagen e variações adaptadas), treino de controle de pelve e de quadril e retorno graduado à corrida, à aceleração e à mudança de direção. Um adutor mais forte e com melhor tolerância excêntrica suporta o gesto de freio da abertura da perna e deixa de realimentar pontos-gatilho. É a intervenção não farmacológica mais bem sustentada na dor de virilha do adutor, com papel descrito também na prevenção em atletas. Limitações: o resultado depende de continuidade; abordagens puramente passivas não sustentam o ganho.
Terapia manual como adjuvante
Liberação miofascial, mobilização de tecidos moles e mobilização articular do quadril aplicadas sobre as bandas tensas da face interna da coxa e a região próxima do púbis. A pressão sustentada reduz a tensão local, melhora a mobilidade do tecido e dessensibiliza a área, criando uma janela de conforto para avançar o fortalecimento excêntrico. Limitações: benefício de curto prazo e de magnitude modesta, maior quando combinada com exercício; efeito passageiro se não vier acompanhada de movimento ativo; cautela na palpação profunda perto de estruturas vasculares e nervosas da virilha.
O fio condutor é claro: na dor do adutor, o movimento supervisionado e graduado é tratamento, e a melhor reabilitação é a que o paciente consegue manter. A escolha entre RPG, Pilates ou cinesioterapia depende do perfil, da preferência e da tolerância de cada pessoa, e com frequência se combinam ao longo do tempo, sempre com o exercício excêntrico de adução como espinha dorsal.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Na imensa maioria dos casos a dor do adutor é manejada de forma conservadora, e a cirurgia é exceção, reservada a quadros bem selecionados que falharam ao tratamento ativo bem conduzido. Em situações específicas, parte do cuidado é conduzida por outros especialistas fora da nossa clínica.
Conservador · 1ª escolha
O que resolve quase todos os casos
- Controle de carga e redução temporária do gesto que dispara a dor
- Fortalecimento excêntrico dos adutores e controle de pelve e quadril
- Técnicas em clínica: agulhamento seco, infiltração, acupuntura
- Ondas de choque ou laser quando há tendinopatia da origem púbica
- Resposta ao longo de semanas a poucos meses; sem lesão estrutural a corrigir, não há indicação cirúrgica
Cirúrgico · exceção
Quadros refratários bem selecionados
- Tenotomia do adutor (liberação do tendão do adutor longo na origem púbica): procedimento raro
- Reservada à dor adutora crônica e refratária, sobretudo tendinopatia púbica em atletas com dor incapacitante após meses de reabilitação adequada
- Decisão de exceção, individualizada, com reabilitação pós-operatória longa e retorno ao esporte por critérios
- Operar dor de origem miofascial pura não faz sentido: o problema está na placa motora e na banda tensa
- Não realizada em nossa clínica
O cuidado decisivo, antes de cogitar qualquer cirurgia, é diferenciar a dor adutora de outras causas de dor inguinal que têm caminhos de tratamento próprios. Confundir esses quadros com dor de adutor leva a tratar a coisa errada; por isso o exame separa adutor, púbis, quadril e canal inguinal antes de qualquer encaminhamento. Estas opções não são realizadas em nossa clínica.
Quando o fortalecimento não corrige
Cirurgia geral · herniorrafia
Hérnia inguinal verdadeira, com abaulamento que piora ao tossir ou ao fazer força: trata-se a hérnia, que é a causa; o fortalecimento não corrige um defeito da parede abdominal.
Dor inguinal profunda do quadril
Ortopedia · artroscopia / osteoplastia
Impacto femoroacetabular ou lesão labral refratários ao tratamento conservador: corrige-se o gerador articular em casos selecionados; a dor adutora associada se trata em paralelo, antes e depois.
Artrose avançada incapacitante
Ortopedia · artroplastia
Coxartrose com dor que não cede ao tratamento conservador: prótese de quadril quando indicada, com reabilitação pós-operatória progressiva.
Pubalgia atlética refratária
Medicina esportiva
Conduzida por equipe especializada, com cirurgia da parede inguinal reservada a casos muito selecionados.
Na dor adutora comum de fundo miofascial ou de sobrecarga, não há indicação para procedimentos invasivos com promessa de cura nem para cirurgia da dor muscular em si. A literatura não os sustenta e expõem o paciente a risco sem benefício. O caminho que muda o curso do quadro continua sendo o tratamento dirigido ao ponto-gatilho somado ao fortalecimento excêntrico dos adutores e ao controle da carga, com o encaminhamento a outros especialistas reservado para confirmar diagnósticos e tratar uma causa estrutural de base, como hérnia, problema do quadril ou tendinopatia refratária, quando ela de fato existe.
Tratamento medicamentoso
Na dor dos adutores, o papel da medicação é limitado e adjuvante: o tratamento é sobretudo de exercício e controle de carga. Os remédios servem para abrir uma janela de alívio que permita avançar a reabilitação e o fortalecimento excêntrico, e nunca substituem o exercício nem a correção da sobrecarga. São usados por períodos definidos, em dose individualizada, e a escolha depende da fase e do perfil de cada pessoa.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / cautelas |
|---|---|---|---|
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Controlar a dor na fase aguda, como após uma distensão | Moderada | Aliviam, mas não recuperam a força do adutor — esse é trabalho do exercício. |
| Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco) | Somar por poucos dias quando há componente inflamatório agudo | Limitada | Efeito sobre o ponto-gatilho é limitado, pois ele não é inflamação clássica; curso curto, com cautela em uso prolongado pelos riscos gástrico, renal e cardiovascular. |
| Relaxantes musculares (ciclobenzaprina) | Rigidez e sono por curtos períodos quando há espasmo importante do adutor | Limitada | Causa sonolência e não trata a causa; papel pontual e sobretudo noturno, não é base do tratamento. |
| Antidepressivos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) | Dor que cronifica ou componente neuropático; duloxetina reforça as vias inibitórias descendentes e cobre contribuição do nervo obturatório | Moderada | Efeito analgésico próprio e melhora do sono; atenção a boca seca, constipação e sonolência (tricíclicos) e a náusea no início (duloxetina), com cautela em idosos e em alterações de condução cardíaca. |
| Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Componente neuropático real (queimação, formigamento), como irritação do nervo obturatório — não na dor miofascial pura | Limitada | Vigiar sonolência, tontura e edema; a dose é titulada e não se suspende de forma abrupta. |
| Opioides | Não têm lugar na dor adutora comum | Sem indicação | Não tratam o mecanismo e trazem riscos de tolerância e dependência que não compensam. |
Para entender o papel de cada classe, há o guia de remédios para dor.
Sinais de alerta
A dor dos adutores é benigna na imensa maioria das vezes. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, porque apontam para causas que mudam a conduta. Procure atendimento sem demora se notar qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor súbita intensa com estalo, hematoma extenso e incapacidade de andar, sugerindo lesão muscular importante.
- Abaulamento na virilha, dor ao tossir ou ao fazer força, que levanta a hipótese de hérnia inguinal.
- Dor testicular, sintomas urinários, sangue na urina, dor pélvica ou abdominal nova, que pedem investigação urológica ou ginecológica.
- Formigamento persistente, perda de força ou perda de sensibilidade num território definido da coxa.
- Febre, perda de peso sem explicação, história de câncer ou dor noturna intensa e progressiva.
Cada item aponta para uma hipótese que sai do terreno muscular: o estalo com hematoma pede avaliação de lesão grave; o abaulamento que piora ao esforço sugere hérnia; sintomas urinários, testiculares ou pélvicos novos levam a investigação fora da dor musculoesquelética; febre e perda de peso pedem investigação sistêmica. Na ausência desses sinais, a dor do adutor de fundo miofascial ou de sobrecarga costuma responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Dor nos adutores é a mesma coisa que dor na virilha?
Muitas vezes a dor nos adutores aparece como dor na virilha, mas nem toda dor na virilha vem dos adutores. O quadril, o púbis, o canal inguinal, a parede abdominal, os nervos e os órgãos pélvicos também podem doer nessa região. Por isso o exame separa a dor muscular, reproduzida pela palpação e pela adução resistida, das outras causas antes de escolher o tratamento.
Dor nos adutores pode ser pubalgia?
Pode coexistir. A pubalgia atlética descreve a dor de carga na sínfise púbica, na parede abdominal e nos adutores juntos, comum em atletas. Muitos pacientes com pubalgia têm contribuição clara do adutor, mas nem toda dor de adutor é pubalgia. A avaliação precisa separar adutor, púbis, parede abdominal, quadril e canal inguinal, porque o tratamento muda conforme o que predomina.
Como saber se distendi o adutor?
A distensão costuma ter início súbito, às vezes com fisgada ou estalo, dor ao abrir a perna ou apertar as pernas, dificuldade para correr ou chutar e, em lesões maiores, hematoma ou perda de força. A tendinopatia, ao contrário, instala-se aos poucos e piora com o treino. Avaliação é importante se a dor for intensa, houver estalo com hematoma ou limitação para caminhar.
Alongar resolve a dor nos adutores?
Pode aliviar em alguns casos, mas alongamento isolado raramente é suficiente, e em lesão aguda alongar com força pode piorar. A causa de fundo costuma ser sobrecarga e baixa força de adução, e isso só melhora com controle de carga e fortalecimento progressivo, com destaque para o trabalho excêntrico. O alongamento entra como complemento, não como tratamento principal.
O exame de imagem mostra o ponto-gatilho do adutor?
Geralmente não de forma direta. A dor miofascial é principalmente um diagnóstico clínico, apoiado pelo padrão de dor, pela palpação e pela resposta ao movimento. A ressonância e a ultrassonografia são úteis para investigar ruptura, tendinopatia, alteração do púbis, lesão do quadril ou hérnia quando há suspeita, mas não enxergam o ponto-gatilho em si.
Posso treinar com dor nos adutores?
Depende da intensidade e da evolução. Dor leve e estável pode permitir adaptação de carga sob orientação. Dor aguda, progressiva, com perda de força, hematoma, estalo ou piora no dia seguinte exige redução de carga e avaliação. O retorno ao esporte é decidido por critérios de dor e força, com reintrodução graduada de corrida, mudança de direção e chute, não por um prazo fixo no calendário.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Pai MYB, et al. Dry needling has lasting analgesic effect in shoulder pain: a double-blind, sham-controlled trial. Pain Reports. 2021;6(2):e939.
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas para publicidade e conteúdo médico.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Na dor de virilha, em que adutor, púbis, quadril e hérnia se confundem, só o exame define o que cada pessoa tem e qual plano individualizado faz sentido.

