Eflúvio telógeno: queda de cabelos
Perder 50 a 100 fios por dia é fisiológico. Quando a queda dispara de forma difusa, em geral dois a três meses após um gatilho (estresse, pós-parto, doença febril, deficiência de ferro, alguns fármacos), o quadro mais provável é o eflúvio telógeno, autolimitado e reversível ao corrigir o gatilho.
- O eflúvio telógeno é a queda capilar difusa mais comum: um gatilho empurra de forma sincronizada muitos folículos da fase de crescimento (anágena) para a fase de repouso (telógena), e os fios caem 2 a 3 meses depois, ao serem substituídos pelo novo cabelo que nasce embaixo.
- Na forma aguda, é reversível e autolimitado: a queda em geral não passa de seis meses e o cabelo se recupera em poucos meses depois que o gatilho cessa. A forma crônica dura mais de seis meses, em surtos que vão e voltam.
- O manejo central é tratar o gatilho e dar tempo: corrigir deficiência de ferro/vitamina D quando documentada, revisar fármacos, cuidar de tireoide e estresse. Reposição só quando há carência comprovada; minoxidil tópico pode ser usado para encurtar a fase visível da queda. O diagnóstico é dermatológico (pull test, tricoscopia, exames dirigidos).
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O que é o eflúvio telógeno
Cada folículo capilar tem um ciclo próprio e independente dos vizinhos: cresce por anos (fase anágena), faz uma transição curta (fase catágena) e descansa por cerca de três meses (fase telógena), ao fim da qual o fio cai e dá lugar a um novo. Em condições normais, 85% a 90% dos fios estão em anágena e 10% a 15% em telógena, e essa dessincronização faz a queda diária de 50 a 100 fios passar despercebida. O eflúvio telógeno é o que acontece quando esse mosaico se sincroniza.
Diante de um gatilho metabólico ou emocional, uma proporção anormalmente grande de folículos é empurrada precocemente para a fase telógena ao mesmo tempo. Como a telógena dura cerca de três meses até a queda efetiva, o paciente percebe o aumento da perda de fios dois a três meses depois do evento desencadeante — uma latência que é a chave do diagnóstico, porque desconecta a causa do sintoma no tempo. A queda fica evidente na escova, no ralo do banho durante a lavagem e na fronha do travesseiro, e a pessoa pode passar a perder 200 a 300 fios por dia. É uma perda difusa por todo o couro cabeludo, sem áreas de calvície bem delimitadas, o que a diferencia das alopecias localizadas.
Trata-se de uma condição reversível, porque o folículo não é destruído: ele apenas adianta o ciclo. Por isso o eflúvio telógeno não causa, por si só, rarefação permanente nem couro cabeludo visível através dos fios — desde que não coexista com outra causa, como a alopecia androgenética ou a alopecia senil. Quando a queda revela um afinamento progressivo na coroa ou nas entradas, é sinal de que há um segundo processo associado, e não eflúvio telógeno isolado.
Gatilhos e causas
Cerca de um terço dos casos permanece sem causa identificada, mas na maior parte das vezes há um evento de estresse metabólico ou emocional rastreável dois a três meses antes da queda. Reconstruir esse intervalo com o paciente é parte do diagnóstico. Os gatilhos se agrupam em alguns blocos, e mais de um pode coexistir.
| Grupo | Exemplos | Observação clínica |
|---|---|---|
| Hormonal / reprodutivo | Pós-parto (eflúvio telógeno do puerpério), suspensão de anticoncepcional, menopausa | No pós-parto a queda surge 2 a 4 meses após o parto, pela queda abrupta do estrogênio que prolongava a anágena; costuma resolver-se sozinha |
| Doença e febre | Doença febril aguda, infecções, COVID-19, cirurgias de grande porte, internação | O estresse sistêmico e a febre sincronizam a entrada em telógena; a queda aparece semanas a meses depois |
| Nutricional / metabólico | Deficiência de ferro (ferritina baixa), deficiência de vitamina D e de zinco, dietas muito restritivas, cirurgia bariátrica | O folículo piloso é tecido de alta proliferação e sensível a déficits; o ferro é cofator e o zinco inibe a regressão folicular |
| Endócrino | Hipotireoidismo e hipertireoidismo | A disfunção tireoidiana altera diretamente o ciclo do folículo; rastrear com TSH |
| Farmacológico | Retinoides, anticoagulantes, betabloqueadores, antitireoidianos, alguns anticonvulsivantes, lítio, interrupção de hormônios | Revisar a linha do tempo de início/troca de fármacos; muitos são reversíveis ao ajustar a prescrição |
| Emocional | Estresse intenso, luto, distresse prolongado | Frequente e válido, mas é diagnóstico de probabilidade — vale excluir antes as causas mensuráveis |
A pergunta que mais orienta a consulta é “o que aconteceu há dois ou três meses?” — porque o gatilho do eflúvio telógeno quase sempre antecede a queda nesse intervalo, e nomeá-lo é metade do tratamento.
Como o dermatologista faz o diagnóstico
O diagnóstico é clínico, apoiado por exame do couro cabeludo e por exames dirigidos. A primeira tarefa é confirmar que a queda é difusa e telógena, e a segunda é separar o eflúvio telógeno puro de uma alopecia androgenética sobreposta — que muda o prognóstico e o tratamento.
No consultório, o pull test (teste de tração) é a manobra de beira de leito: o examinador traciona delicadamente um feixe de 40 a 60 fios em diferentes regiões; a saída de mais de 10% dos fios (mais de 4 a 6 fios), com a raiz em “clava” branca típica da telógena, sugere eflúvio ativo. A tricoscopia (dermatoscopia do couro cabeludo) avalia as áreas frontal, occipital e temporais e procura sinais de eflúvio (predomínio de fios em crescimento, com pelos curtos novos) e, sobretudo, sinais de androgenética — a variabilidade do diâmetro dos fios (anisotricose) e a miniaturização, que apontam para o diagnóstico associado. Em casos selecionados, o tricograma quantifica a relação anágena/telógena.
Os exames de sangue são dirigidos pela história, não um pacote automático: hemograma e ferritina (o marcador mais sensível de reserva de ferro), TSH para tireoide, vitamina D e zinco conforme suspeita, e, quando a história aponta, sorologias ou rastreio de doença sistêmica. A ferritina merece destaque: valores baixos, mesmo sem anemia franca, associam-se a queda capilar e são corrigíveis.
“Está caindo muito cabelo, então vou ficar careca.”
No eflúvio telógeno o folículo não é perdido — apenas adianta o ciclo. Por isso o quadro é reversível e não produz calvície por si só. Rarefação permanente indica outra causa associada (como a alopecia androgenética), que o exame do couro cabeludo identifica.
Manejo: tratar o gatilho, repor o que falta, dar tempo
Não existe um fármaco que “desligue” a queda do eflúvio telógeno de imediato, porque a queda já reflete um ciclo disparado meses antes. O manejo se organiza em três frentes que se somam: remover ou tratar o gatilho, corrigir deficiências documentadas e, quando se quer encurtar a fase visível da queda, estimular o folículo com minoxidil. Na forma aguda, o curso é autolimitado e a maior parte da recuperação vem do tempo após o gatilho cessar.
Tratar o gatilho
É a medida com maior impacto. Repor ferro quando a ferritina está baixa, compensar o hipotireoidismo com levotiroxina, ajustar uma dieta restritiva, controlar a infecção ou o estresse desencadeante, e revisar com o prescritor qualquer fármaco temporalmente associado. Corrigida a causa, o folículo retoma o ciclo normal e a queda cede ao longo de semanas a meses. Doenças sistêmicas e carências nutricionais que apareçam na investigação devem ser tratadas em si, o que também reduz a ansiedade que a própria queda alimenta.
Reposição nutricional dirigida
- O que é
- Suplementação de um nutriente apenas quando há deficiência comprovada em exame — sobretudo ferro (ferritina baixa), e, conforme o caso, vitamina D e zinco.
- Mecanismo
- O folículo piloso é um dos tecidos de proliferação mais rápida do corpo e depende de cofatores: o ferro participa da síntese de DNA na matriz do folículo, e o zinco inibe a regressão folicular (apoptose) e participa da formação da queratina. Corrigir o déficit remove o freio metabólico sobre a anágena.
- Evidência
- Consistente para a correção da deficiência de ferro associada à queda; para zinco e vitamina D, a reposição faz sentido quando há carência, mas suplementar sem déficit não traz benefício e o excesso de alguns nutrientes pode ser prejudicial. A biotina só tem papel na deficiência rara e verdadeira — suplementá-la sem carência não melhora o cabelo e interfere em exames laboratoriais (tireoide, troponina).
- O que esperar
- A resposta é gradual, ao longo de meses, acompanhando o novo ciclo de crescimento; a ferritina costuma ser remarcada para confirmar a correção.
- Indicações
- Deficiência demonstrada em exame, transtornos alimentares, má absorção, dietas muito restritivas, pós-bariátrica.
- Limitações
- Não há benefício em suplementar sem deficiência. A reposição de ferro pode causar intolerância gastrointestinal e exige dose e duração definidas pelo médico; multivitamínicos genéricos “para cabelo” não substituem a correção do déficit específico.
Minoxidil tópico
- O que é
- Medicação tópica (solução ou espuma a 5%) que estimula o crescimento capilar; o nome de busca mais conhecido é a marca Aloxidil/Rogaine, mas o princípio é o minoxidil.
- Mecanismo
- É um abridor de canais de potássio com efeito vasodilatador; no folículo, prolonga a fase anágena e antecipa a saída da telógena, encurtando o intervalo de queda e densificando o fio. Por adiantar a troca de fios, pode causar um aumento transitório da queda (“shedding”) nas primeiras semanas.
- Evidência
- Bem estabelecido na alopecia androgenética; no eflúvio telógeno é usado para encurtar a fase visível da queda e sustentar a recuperação, com evidência mais limitada e uso individualizado.
- O que esperar
- Efeito gradual ao longo de meses, com uso contínuo; ao suspender, o benefício se perde e os fios dependentes do estímulo podem cair.
- Indicações
- Quando se deseja acelerar a recolocação capilar, em eflúvio prolongado, ou quando há alopecia androgenética associada.
- Limitações
- Pode causar irritação do couro cabeludo, prurido e hipertricose facial (mais com a solução, pelo veículo); o shedding inicial assusta mas é esperado. Exige prescrição e orientação dermatológica; não é tratamento para a forma aguda autolimitada, que costuma resolver-se sem ele.
Cuidado multidisciplinar e suporte
O cabelo tem peso psicossocial grande, e a queda costuma elevar a ansiedade e prejudicar o sono, o que realimenta o estresse — um dos próprios gatilhos. Por isso, além do acompanhamento dermatológico, vale o trabalho conjunto com nutrição (quando há carências), manejo do estresse e, se necessário, psicoterapia. Não há benefício em cosméticos “milagrosos”; a base é diagnóstico correto, correção do gatilho e tempo.
Curso, prognóstico e quando procurar avaliação
A forma aguda é a regra e o prognóstico é bom: a queda em geral não passa de seis meses e a densidade se recupera em dois a quatro meses depois que o gatilho cessa, desde que não haja outra alopecia associada. Como o fio novo nasce mais curto, muitos pacientes notam, na fase de recuperação, uma “franja” de pelos curtos nascendo na linha do couro cabeludo — sinal de que o folículo voltou a crescer, e não de nova queda.
A forma crônica dura mais de seis meses e tende a cursar em surtos cíclicos, com fases de queda intensa alternadas com crescimento, ao longo de anos. Costuma cursar com mais volume na base do que no comprimento, mas, isoladamente, não rarefaz o couro cabeludo a ponto de torná-lo visível. Quando isso ocorre, há quase sempre uma alopecia androgenética ou outra causa associada que precisa ser tratada à parte.
Sinais que pedem investigação
- Queda difusa que persiste por mais de seis meses ou que recidiva em surtos.
- Áreas de rarefação ou de couro cabeludo visível, entradas ou afinamento na coroa (sugerem alopecia androgenética associada).
- Falhas localizadas e bem delimitadas, descamação, vermelhidão, coceira ou dor no couro cabeludo (sugerem outra alopecia ou inflamação).
- Sintomas sistêmicos associados: cansaço, intolerância ao frio ou calor, alterações menstruais, perda de peso (podem indicar tireoide, anemia ou doença sistêmica).
- Queda que começou após introdução de um novo medicamento.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Quantos fios por dia é normal cair?
Entre 50 e 100 fios por dia é fisiológico e passa despercebido. No eflúvio telógeno a perda pode chegar a 200 a 300 fios diários, de forma difusa e notada na escova, no ralo e na fronha. É a magnitude e o caráter difuso, mais do que um número exato, que chamam a atenção.
Por que o cabelo cai dois ou três meses depois do gatilho?
Porque o gatilho empurra os folículos para a fase de repouso (telógena), que dura cerca de três meses até a queda efetiva do fio. Esse atraso é característico e explica por que a pessoa muitas vezes já esqueceu o evento (parto, doença, dieta, estresse) quando a queda começa.
Eflúvio telógeno causa calvície?
Não por si só. O folículo não é destruído, apenas adianta o ciclo, por isso o quadro é reversível. Rarefação permanente ou couro cabeludo visível indicam outra causa associada, como a alopecia androgenética, que o exame do couro cabeludo (tricoscopia) identifica.
Preciso fazer exames de sangue?
Em geral sim, dirigidos pela história. Os mais úteis são ferritina (reserva de ferro), TSH (tireoide) e, conforme o caso, vitamina D e zinco. A ferritina baixa, mesmo sem anemia, associa-se à queda e é corrigível.
A queda do pós-parto melhora sozinha?
Na maioria das vezes, sim. O eflúvio telógeno do puerpério aparece 2 a 4 meses após o parto, pela queda do estrogênio que prolongava a fase de crescimento durante a gestação, e costuma resolver-se de forma espontânea ao longo de alguns meses.
Biotina e vitaminas para cabelo funcionam?
Só fazem diferença quando há deficiência real do nutriente. A deficiência verdadeira de biotina é rara; suplementá-la sem carência não melhora o cabelo e ainda interfere em exames laboratoriais (tireoide, troponina). O caminho é corrigir o déficit específico identificado em exame, não tomar multivitamínico genérico.
Minoxidil serve para o eflúvio telógeno?
O minoxidil tópico prolonga a fase de crescimento e pode encurtar a fase visível da queda e sustentar a recuperação, sobretudo em quadros prolongados ou com alopecia androgenética associada. Nas primeiras semanas pode haver aumento transitório da queda (shedding), que é esperado. Na forma aguda autolimitada nem sempre é necessário. O uso é orientado pelo dermatologista.
Qual médico procurar?
O dermatologista. Ele confirma que a queda é difusa e telógena, exclui ou identifica uma alopecia androgenética associada por tricoscopia e pull test, pede os exames dirigidos e define a conduta — incluindo, quando há carência, o trabalho conjunto com nutrição.
Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual.
