Quais são as fases da hérnia de disco?
A hérnia de disco tem duas leituras de fase: o continuum anatômico (degeneração, abaulamento, protrusão, extrusão, sequestro) e as fases clínicas. A maioria das hérnias regride sozinha, sobretudo as extrusas, e a maior parte melhora sem cirurgia.
- Existem fases anatômicas (degeneração do disco, abaulamento, protrusão, extrusão e sequestro) e fases clínicas (aguda inflamatória, subaguda e crônica). Uma descreve o disco; a outra, o momento da sua dor.
- A história natural é favorável: a maioria das hérnias reabsorve com o tempo, e quanto maior e mais extrusa, maior a chance de regressão espontânea. A imagem costuma melhorar junto com o quadro.
- O tratamento muda conforme a fase clínica e é, na grande maioria dos casos, conservador e não-cirúrgico, com controle da dor na fase aguda e reabilitação ativa como base na sequência.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Dois sentidos para “fases”
Quando alguém pergunta pelas fases da hérnia de disco, costuma estar misturando duas coisas diferentes, e ambas importam. Há a fase anatômica, que descreve quanto o material do disco se deslocou e o que o laudo da ressonância mostra. E há a fase clínica, que descreve em que momento da doença você está: a crise aguda, a recuperação ou a dor que se arrasta.
Separar as duas evita um erro comum: achar que o nome mais assustador no laudo (uma “extrusão”, por exemplo) define a gravidade do caso. Não define. O que dita a conduta é a fase clínica, a intensidade dos sintomas e o exame neurológico, não o tamanho do achado na imagem. Para entender o quadro completo, da definição às causas e aos tratamentos, vale ler o pilar sobre hérnia de disco.
Antes de qualquer coisa, uma revisão rápida da anatomia. O disco intervertebral é o amortecedor entre duas vértebras. Tem um centro gelatinoso e rico em água, o núcleo pulposo, contido por anéis de fibra resistentes, o ânulo fibroso.
A hérnia acontece quando parte desse núcleo ultrapassa o ânulo. Onde ela ocorre tem nome: na coluna lombar, os níveis L4-L5 e L5-S1 concentram a maioria das hérnias, porque são os segmentos que mais recebem carga, e por isso aparecem com tanta frequência nos laudos de quem tem dor lombar e ciática.
O que o disco fez
Quanto material deslocou e como o laudo descreve: abaulamento, protrusão, extrusão ou sequestro. É uma fotografia da estrutura.
Onde você está
O momento da doença: crise aguda inflamatória, recuperação subaguda ou dor crônica. É o que define o tratamento.
O continuum anatômico: do desgaste ao sequestro
As fases anatômicas formam um continuum, uma sequência gradual em que o material do disco se desloca cada vez mais para fora. Nem todo mundo percorre a sequência inteira, e o ponto em que cada um para varia muito. Os termos abaixo são os que a radiologia padronizou e que você encontra no laudo.
Tudo começa na degeneração discal, o terreno em que a hérnia surge. Com o tempo, o núcleo perde água, o disco fica mais baixo e o ânulo desenvolve fissuras. Esse desgaste, isolado, é comum e frequentemente indolor, e é o tema da página sobre discopatia ou doença degenerativa do disco. A partir desse terreno, o material pode se deslocar em graus crescentes.
Degeneração discal
O disco perde água e altura e o ânulo fissura. É o ponto de partida, não a hérnia em si. Muito comum e em geral assintomático.
Abaulamento discal
O disco se projeta de forma simétrica e difusa para além das bordas da vértebra, em mais de metade da sua circunferência. O ânulo está estendido, mas íntegro. O “abaulamento do disco intervertebral” é dos achados mais frequentes do laudo e, sozinho, raramente explica a dor.
Protrusão
Deslocamento focal e localizado do material, ainda contido pelas fibras do ânulo. A base da herniação é mais larga do que a parte que se projeta. É a verdadeira hérnia contida.
Extrusão
O material rompe o ânulo e se projeta para fora, e a parte que escapou é mais larga do que a abertura por onde passou, como pasta de dente que extravasa o tubo. Ainda mantém ligação com o disco de origem.
Sequestro (hérnia sequestrada)
Um fragmento se desprende por completo e migra para dentro do canal, sem conexão com o disco. Soa como o pior cenário, mas, paradoxalmente, é a fase com a maior chance de reabsorção espontânea.
É comum o laudo mencionar mais de um nível ao mesmo tempo, como “abaulamentos dos discos intervertebrais em L4-L5 e L5-S1”, ou descrever quatro ou cinco discos com algum grau de alteração. Ver “4 hérnias de disco” ou “5 hérnias na coluna” no relatório assusta, mas quase sempre reflete o desgaste difuso da idade, não cinco geradores ativos de dor. O que importa é qual desses achados, se algum, corresponde ao lado e ao trajeto do seu sintoma.
“Minha hérnia é extrusa, então é a mais grave e o caso só se resolve com cirurgia.”
Hérnias extrusas e sequestradas são justamente as que mais regridem sozinhas. O tamanho e o tipo no laudo não definem a indicação cirúrgica; quem define é a clínica, o exame neurológico e a resposta ao tratamento.
As fases clínicas: aguda, subaguda e crônica
Em paralelo ao quadro anatômico, o paciente atravessa fases clínicas com o tempo. Elas se definem pela duração e pelo comportamento dos sintomas, e são o que de fato orienta o tratamento. A dor da hérnia, quando há compressão ou irritação de uma raiz nervosa, não é só mecânica: há um forte componente inflamatório, porque o material do núcleo, ao vazar, libera substâncias que inflamam a raiz. Isso explica por que a fase inicial costuma ser a mais intensa e por que ela tende a ceder.
| Fase | O que é | Conduta de base |
|---|---|---|
| Aguda inflamatória (até cerca de 6 semanas) | Dor intensa, muitas vezes irradiada para a perna ou o braço, com componente inflamatório forte. É o pico do sintoma. | Controle da dor, manter o movimento possível e bloqueio quando a dor radicular é intensa e refratária. |
| Subaguda (cerca de 6 a 12 semanas) | A dor cede em intensidade e a função começa a voltar. Janela de ouro para reabilitar. | Reabilitação ativa progressiva como base, somando técnicas de neuromodulação da dor. |
| Crônica (além de 3 meses) | Dor ou limitação que persiste, em geral com a hérnia já em reabsorção, mas com sensibilização e descondicionamento mantendo a queixa. | Exercício progressivo, manejo multimodal da dor e atenção a fatores que perpetuam o quadro. |
A transição entre as fases não é uma linha exata no calendário, e a evolução não é perfeitamente linear; pode haver dias melhores e piores dentro de uma mesma fase. Ainda assim, a tendência geral, na ausência de sinais de alerta, é de melhora progressiva. Saber em que fase você está ajuda a calibrar a expectativa: na aguda, o foco é atravessar a crise; na subaguda, é reconstruir; na crônica, é destravar o que ficou.
A fase anatômica responde “o que o disco fez”; a fase clínica responde “onde você está hoje”. O tratamento se decide pela segunda, não pela primeira.
A história natural: a hérnia tende a reabsorver
Esta é a parte que mais tranquiliza e que raramente é dita com clareza. A hérnia de disco não é uma lesão permanente que só piora. Ao contrário: o corpo a reabsorve. O fragmento herniado é reconhecido como “estranho” pelo organismo e removido por um processo inflamatório, com células de defesa, enzimas e reabsorção de água. A hérnia encolhe, e a imagem de controle frequentemente mostra menos material do que a primeira ressonância.
O dado mais surpreendente vem da relação entre tipo de hérnia e chance de regressão: quanto mais avançada a fase anatômica, maior a probabilidade de reabsorção. As hérnias extrusas e sequestradas regridem com mais frequência e de forma mais completa do que as protrusões e os abaulamentos, justamente porque o material exposto fora do ânulo é mais acessível à resposta inflamatória do corpo. Revisões da literatura mostram que a regressão espontânea é a regra, não a exceção, e que as hérnias maiores e mais extrusas lideram esse ranking de reabsorção. É um dos motivos pelos quais a paciência tratada, e não a pressa cirúrgica, costuma ser a melhor estratégia na maioria dos casos.
Há uma consequência prática direta dessa biologia. Como a hérnia tende a reabsorver e os sintomas a melhorar, a ressonância de controle precoce raramente muda a conduta na ausência de déficit neurológico, e operar uma hérnia que iria regredir por conta própria expõe a pessoa a um risco evitável. O tempo, acompanhado de um tratamento ativo bem conduzido, funciona como um aliado terapêutico, uma espera que trabalha a favor do disco enquanto a reabilitação devolve função.
As fases da hérnia correm em dois relógios diferentes, e o relógio do disco e o relógio da dor não andam juntos. A imagem pode ainda mostrar uma extrusão volumosa numa pessoa que já está praticamente sem dor, porque a inflamação da raiz cedeu antes de o fragmento terminar de encolher; e o oposto também ocorre, com dor mantida pela camada muscular e pela sensibilização depois de a hérnia já ter regredido na ressonância. Por isso o tamanho no laudo, lido isoladamente, é um péssimo termômetro do momento clínico. A leitura por fases existe justamente para separar esses dois tempos: tratar a fase da dor em que a pessoa está, e deixar a fase anatômica seguir seu curso biológico, que na grande maioria dos casos é de reabsorção.
O que se observa no consultório
O que mais costuma surpreender quem chega com um laudo na mão é descobrir que a “extrusão” que assustou tende a ser a hérnia com melhor prognóstico de reabsorção, e não a pior. A fase que mais sofre é quase sempre a aguda inflamatória das primeiras semanas, com dor que parece insuportável e depois afrouxa à medida que a inflamação da raiz cede, antes mesmo de o fragmento encolher; reconhecer isso já muda a expectativa de quem está no pico.
Na conduta, vale casar o recurso à fase: pouco esforço de fortalecimento na crise inflamatória, que é hora de controlar a dor e manter o movimento possível, e foco no exercício e no trabalho da musculatura quando a fase subaguda abre a janela. E há a linha que muda tudo: o quadro neurológico. Fraqueza que progride, um pé que começa a cair, alteração de controle urinário ou intestinal ou dormência em sela tiram o caso da rota da paciência tratada e o colocam na via da urgência. Esses sinais valem mais do que qualquer descrição de tamanho no laudo.
Diagnóstico: clínica primeiro, ressonância depois
O diagnóstico da hérnia de disco é, antes de tudo, clínico: a história e o exame físico definem se há e onde está a raiz comprometida, e a ressonância magnética entra depois, para confirmar e localizar.
O ponto delicado é a ordem dos fatores. A ressonância não deve ser o primeiro passo de uma dor lombar comum, sem sinais de alerta, nas primeiras semanas, porque acha alterações degenerativas em quase todo mundo e gera alarme desnecessário.
Pergunta-chave
Pedir ressonância agora?
Quando a dor é radicular e persistente, quando há déficit neurológico, ou quando se cogita um procedimento.
Numa dor lombar comum, sem sinais de alerta, nas primeiras semanas: a imagem acha alterações degenerativas em quase todo mundo e gera alarme desnecessário.
Em outras palavras: a imagem confirma e detalha o que a clínica já suspeitou, ela não substitui o exame nem dita sozinha o tratamento.
Tratamento por fase
Como a hérnia tende a reabsorver, o objetivo do tratamento conservador, não-cirúrgico e multimodal não é “consertar” o disco na imagem, mas controlar a dor, proteger a raiz nervosa e devolver função enquanto a biologia faz seu trabalho. O que muda de uma fase para outra é a ênfase: na aguda, dominar a dor; na subaguda e crônica, reconstruir com exercício. A cirurgia fica reservada a poucas situações, descritas no fim desta seção.
Reabilitação e exercício progressivo
Controle motor e estabilização do tronco: a base das fases subaguda e crônica e a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança.
Manter-se ativo na crise
Movimento dentro do tolerável em vez de repouso absoluto na cama, que piora o desfecho. Evitar apenas o que claramente agrava.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Modula a dor por mecanismos segmentares e vias descendentes; lugar mais claro na subaguda e crônica, para cortar a dor residual e poupar medicação.
Agulhamento seco (dry needling)
Alvo do componente miofascial paravertebral, quadrado lombar e glúteos que sustenta a queixa na fase crônica quando a imagem já melhorou.
Bloqueio anestésico / epidural
Injeção de anestésico, por vezes com corticoide, guiada por imagem, para a dor radicular intensa e refratária da fase aguda. Abre janela para reabilitar.
Medicação adjuvante
Anti-inflamatórios, analgésicos simples, relaxantes e neuromoduladores por tempo curto e definido, para abrir uma janela de alívio. Detalhada na seção medicamentosa.
Reabilitação e exercício progressivo
- O que é
- Reabilitação ativa que se torna o eixo do tratamento passada a fase mais aguda, conduzida individualmente. Há conteúdo dedicado na página de fisioterapia para hérnia de disco.
- Mecanismo
- Foco em controle motor e estabilização do tronco: ativação da musculatura profunda (transverso do abdome e multífidos), fortalecimento progressivo de glúteos e cadeia posterior, e dessensibilização ao movimento, para a pessoa voltar a confiar na própria coluna.
- Evidência
- É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na hérnia de disco; de forma consistente na literatura, base do tratamento conservador, com benefício na dor e na função.
- O que esperar
- A resposta se constrói ao longo de semanas, e o programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências. A progressão é graduada conforme a tolerância.
- Limitações
- A magnitude do efeito varia entre estudos e a prescrição é individualizada. Na fase aguda muito intensa, a progressão é mais lenta e centrada no que é tolerável.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- Mecanismo
- Modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (teoria da comporta), pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas.
- Evidência
- Evidência moderada para a lombalgia crônica e para a dor cervical, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados.
- O que esperar
- Lugar mais claro depois do pico inflamatório, na subaguda e na crônica, para cortar a dor residual e poupar medicação enquanto a hérnia segue reabsorvendo. O número de sessões se ajusta à fase, com reavaliação objetiva de dor e função. Na clínica, é o médico que indica e conduz a acupuntura integrada ao plano de reabilitação.
- Limitações
- Não é técnica para acelerar a regressão do fragmento, que depende da biologia do próprio corpo; serve para tornar a janela de reabilitação mais tolerável.
Agulhamento seco para o componente miofascial
- O que é
- Agulha mecânica no ponto-gatilho da musculatura paravertebral, do quadrado lombar e dos glúteos, que respondem à crise com espasmo de proteção e mantêm a dor mesmo depois de a hérnia já estar reabsorvendo.
- Mecanismo
- A agulha desencadeia uma contração breve e involuntária da banda tensa e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, soltando o espasmo que a fase aguda deixou para trás.
- O que esperar
- Ferramenta da subaguda e da crônica, para destravar a musculatura e permitir avançar o fortalecimento. É comum sentir dor surda no local por um ou dois dias, seguida do alívio do segmento trabalhado.
- Limitações
- Não é tratamento da hérnia, que segue seu próprio curso de reabsorção; atua apenas sobre o componente miofascial associado.
Quando se pensa em cirurgia
A cirurgia tem papel restrito e bem definido na hérnia de disco, e não é decidida pelo tamanho da hérnia no laudo. Ela é considerada diante de síndrome da cauda equina (uma urgência, ver os sinais de alerta abaixo), de déficit neurológico motor progressivo ou grave, ou de dor radicular incapacitante e persistente que não responde a um tratamento conservador completo e bem conduzido ao longo de semanas a poucos meses. Fora dessas situações, o caminho da maioria das pessoas é justamente o oposto da cirurgia: controlar a dor, fortalecer e dar tempo para a hérnia reabsorver, com decisão sempre compartilhada entre paciente e equipe. O detalhamento dos procedimentos está na seção de tratamento cirúrgico.
Fase aguda
Controle da dor inflamatória, manter o movimento possível e, na dor radicular intensa e refratária, considerar bloqueio. Evitar o repouso prolongado.
Transição para a subaguda
A dor começa a ceder. Inicia-se a progressão de fortalecimento e estabilização, somando neuromodulação da dor conforme a necessidade.
Reabilitação e reavaliação
Reabilitação ativa como base. Sem a resposta esperada, ou diante de déficit, revê-se o diagnóstico e discutem-se procedimentos.
Se a dor radicular não cede após semanas de tratamento bem conduzido, ou se surge déficit, a conduta correta é reabrir o raciocínio diagnóstico e reconsiderar a imagem e o encaminhamento, em vez de prolongar o mesmo programa que não está respondendo.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
Passada a crise, a reabilitação ativa deixa de ser um complemento e passa a ser o eixo do tratamento da hérnia de disco. É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança, e a que de fato muda o curso: enquanto a hérnia reabsorve sozinha, o exercício devolve força, controle e confiança à coluna e reduz a chance de recorrência. As técnicas de mão e de aparelho aliviam o sintoma e abrem janela, mas é o movimento graduado que sustenta o resultado. Na clínica, essa etapa é conduzida individualmente, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal com indicação médica.
Carga graduada, não repouso: o repouso prolongado piora o desfecho da dor lombar e radicular, e o caminho é reduzir temporariamente o que dói muito enquanto se reintroduz movimento de forma progressiva, respeitando a tolerância. E nenhuma técnica passiva substitui o exercício; a terapia manual, a tração e a eletroterapia somam, não substituem a base ativa. A escolha entre as abordagens e a ordem de introdução dependem da fase clínica, da apresentação neurológica e da resposta inicial de cada pessoa.
Cinesioterapia: controle motor e estabilização do tronco
Exercício terapêutico progressivo conduzido por fisioterapeuta, com foco em estabilização lombopélvica. Começa pela ativação da musculatura profunda (transverso do abdome e multífidos), inibida pela dor, e progride para glúteos e cadeia posterior e para a dessensibilização ao movimento; distribui melhor a carga, reduz o espasmo protetor e devolve a confiança de mover a coluna. A resposta se constrói ao longo de semanas, e o programa é mantido após o alívio para reduzir recidivas; na fase aguda intensa, a progressão é mais lenta.
RPG (reeducação postural global)
Trabalha o corpo em cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e contração isométrica excêntrica. Atua sobre a retração das cadeias posteriores e os desequilíbrios que aumentam a carga sobre o disco, buscando reduzir a sobrecarga segmentar e ampliar a mobilidade sem agredir a raiz irritada. É abordagem ativa, bem tolerada na subaguda e crônica, útil em quem tem componente postural marcado; o alívio é progressivo e integra o plano da cinesioterapia. Sem superioridade robusta demonstrada sobre outros exercícios bem conduzidos.
Pilates clínico
Exercícios de controle do movimento com ênfase no core, no solo ou em aparelhos com molas, adaptados e supervisionados como reabilitação, não como academia. Permite graduar a exigência com precisão e treinar a estabilização em posições funcionais, protegendo o segmento doloroso enquanto se ganha força. Ganhos ao longo de semanas. Exige supervisão e individualização, sobretudo com dor radicular: flexão repetida sob carga ou amplitude excessiva pode agravar e deve ser ajustada.
Método McKenzie (diagnóstico e terapia mecânica)
Avaliação e tratamento pela resposta dos sintomas a movimentos repetidos e posições sustentadas. Em parte das hérnias, movimentos numa direção (com frequência a extensão lombar) produzem a centralização, em que a dor irradiada recua em direção à coluna, sinal de melhor prognóstico; o método usa isso para individualizar o exercício domiciliar e dar uma ferramenta de autocontrole. Não há direção única para todos: a preferência é definida no exame, e a ausência de centralização também é informação útil. Complementar ao fortalecimento.
Terapia manual como adjuvante
Mobilização articular e de tecidos moles para reduzir dor e rigidez e facilitar o movimento, modulando a dor por vias neurofisiológicas e criando uma janela de menor dor para avançar o exercício ativo. O efeito é sobretudo de curto prazo; somada a exercício tem benefício, mas isolada não muda o curso da hérnia. Manipulações de alta velocidade exigem cautela e seleção criteriosa na dor radicular ou em qualquer sinal de alerta, e são contraindicadas diante de déficit neurológico progressivo.
Na clínica, a reabilitação é integrada à avaliação médica, de modo que o programa é calibrado à fase clínica e ao componente predominante de cada pessoa, e a progressão de carga é revista ao longo do tratamento.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia tem papel restrito e bem definido na hérnia de disco, e não é decidida pelo tamanho da hérnia no laudo. Como a história natural é favorável e a maioria das hérnias reabsorve, operar uma hérnia que regrediria por conta própria expõe a pessoa a um risco evitável. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; o quadro abaixo descreve o que cada uma faz e em que momento encaminhar a um cirurgião de coluna.
Conservador · 1ª escolha
Caminho da maioria das pessoas
- Controlar a dor, fortalecer e dar tempo para a hérnia reabsorver.
- Reabilitação ativa como base, conduzida por fase.
- Resultado a médio e longo prazo se aproxima do cirúrgico na maioria dos estudos.
- Decisão compartilhada, acima da aparência da hérnia na ressonância.
Cirúrgico · exceção
Três situações definidas
- Síndrome da cauda equina: emergência, descompressão em caráter de urgência (atraso pode deixar sequela permanente).
- Déficit motor progressivo ou grave: fraqueza que piora ou pé caído, para preservar a função da raiz.
- Dor radicular incapacitante e refratária por cerca de 6 a 12 semanas, apesar de tratamento conservador completo: acelera o alívio da dor da perna.
Os procedimentos têm nomes e propósitos distintos. A lista abaixo resume as principais opções, quando são consideradas e o que esperar de cada uma.
A cirurgia bem indicada costuma aliviar a dor irradiada para a perna de forma mais rápida do que o tratamento conservador, mas não é isenta de riscos, como infecção, fístula liquórica, recidiva da hérnia no mesmo nível e, raramente, lesão neurológica. A reabilitação após a cirurgia segue os mesmos princípios de fortalecimento e controle motor descritos acima. A decisão é compartilhada entre paciente e equipe e pesa a intensidade e a duração da dor, o exame neurológico, a resposta ao tratamento conservador e as preferências de cada pessoa, acima da aparência da hérnia na ressonância.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na hérnia de disco: ajuda a controlar a dor da fase aguda para que a pessoa volte a se mover e a reabilitação avance, mas não reabsorve a hérnia nem corrige a função, e não substitui o exercício. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / limites |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno) | Dor inflamatória da fase aguda que acompanha a irritação da raiz, em ciclos curtos por via oral. | Moderada | Atenção aos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos e em quem tem comorbidades. |
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Compõem o esquema de alívio na fase aguda. | Limitada | Efeito analgésico mais modesto, mas boa tolerância. |
| Relaxantes musculares | Espasmo importante associado, por poucos dias. | Limitada | Papel limitado; causam sonolência e não atuam sobre a causa. |
| Opioides | Dor intensa, uso pontual e por curtíssimo prazo. | Limitada | Restritos pelo risco de efeitos adversos e dependência. |
| Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Componente neuropático irradiado (queimação, choque, formigamento no trajeto da raiz), em casos selecionados. | Limitada | Reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios; exigem titulação gradual e podem causar tontura, sonolência e edema. Evidência específica para a dor radicular é modesta; uso individualizado e reavaliado. |
| Antidepressivos (duloxetina, tricíclicos em dose baixa) | Componente neuropático e qualidade do sono; amitriptilina, nortriptilina, duloxetina. | Moderada | Modulam vias inibitórias descendentes; exigem titulação e atenção a boca seca e sonolência. |
| Corticoide oral (ciclo curto) | Dor radicular aguda. | Limitada | Benefício limitado e inconsistente; não é rotina, pesando os efeitos adversos. |
| Corticoide epidural (bloqueio guiado) | Dor radicular intensa da fase aguda refratária; abre janela para a reabilitação. | Moderada | Pode reduzir a dor por algumas semanas; recurso pontual, não tratamento de manutenção. |
Na fase aguda, os anti-inflamatórios não esteroidais por via oral em ciclos curtos ajudam a controlar a dor inflamatória; paracetamol e dipirona compõem o esquema pela boa tolerância; os relaxantes musculares têm papel limitado e por poucos dias. Quando há forte componente de dor neuropática irradiada, o médico pode considerar neuromoduladores em situações selecionadas, sempre com titulação e reavaliação. O corticoide é recurso à parte: ciclos orais curtos têm benefício limitado e não são rotina, enquanto o corticoide epidural, no bloqueio guiado por imagem descrito na seção de tratamento, é recurso pontual da fase aguda refratária. Nenhuma medicação isolada resolve o quadro: o melhor resultado vem da combinação criteriosa de controle da dor com reabilitação ativa, respeitando a história natural favorável da hérnia.
Sinais de alerta: a cauda equina é urgência
A imensa maioria das hérnias de disco evolui de forma benigna e melhora sem cirurgia. Existe, porém, uma emergência que não pode esperar: a síndrome da cauda equina, quando uma hérnia grande comprime o feixe de raízes no final do canal. Reconhecê-la cedo é decisivo, porque o atraso pode deixar sequelas permanentes. Procure atendimento de urgência diante de qualquer um destes sinais:
Procure atendimento imediato se houver
- Dificuldade ou incapacidade de urinar, ou perda do controle da urina ou das fezes.
- Dormência na região da sela (entre as pernas, ao sentar), sugerindo síndrome da cauda equina.
- Fraqueza nas pernas que piora de forma progressiva, ou que afeta os dois lados.
- Febre, perda de peso sem explicação, ou história de câncer.
- Dor após trauma significativo, ou em pessoa imunossuprimida ou em uso de corticoide.
Na ausência desses sinais, a hérnia de disco quase sempre segue o curso favorável descrito aqui, com reabsorção ao longo de semanas a meses e melhora com tratamento conservador. Os sinais de alerta não servem para alarmar, mas para garantir que as poucas situações que mudam a conduta sejam identificadas a tempo.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Quais são as fases da hérnia de disco?
Há dois sentidos. As fases anatômicas, que descrevem o quanto o material do disco se deslocou, vão de degeneração discal a abaulamento, protrusão, extrusão e sequestro. As fases clínicas, que descrevem o momento da doença, são a aguda inflamatória (até cerca de 6 semanas), a subaguda (cerca de 6 a 12 semanas) e a crônica (além de 3 meses). O tratamento se decide pela fase clínica.
Qual a diferença entre abaulamento, protrusão e extrusão do disco?
O abaulamento do disco intervertebral é uma projeção difusa e simétrica, com o ânulo íntegro; é dos achados mais comuns do laudo e raramente explica a dor sozinho. A protrusão é um deslocamento focal ainda contido pelo ânulo. A extrusão é quando o material rompe o ânulo e se projeta para fora, com a parte herniada mais larga do que a abertura por onde passou. O sequestro é um fragmento totalmente solto no canal.
A hérnia de disco reabsorve sozinha?
Sim, e isso é a regra, não a exceção. O corpo reconhece o fragmento herniado e o reabsorve por um processo inflamatório. Curiosamente, as hérnias extrusas e sequestradas, que soam mais graves, são as que mais regridem espontaneamente. Por isso a imagem de controle costuma mostrar menos material com o tempo, acompanhando a melhora dos sintomas.
Tenho 4 ou 5 hérnias na coluna, em L4-L5 e L5-S1, é grave?
Ver vários níveis descritos, como abaulamentos em L4-L5 e L5-S1, costuma refletir o desgaste difuso da idade, e não vários geradores ativos de dor. L4-L5 e L5-S1 são os segmentos mais acometidos por receberem mais carga. O que importa é qual achado, se algum, corresponde ao lado e ao trajeto do seu sintoma; isso se define no exame, não pelo número de níveis no laudo.
Qual o melhor anti-inflamatório para hérnia de disco?
Não existe um “melhor” universal. Os anti-inflamatórios não esteroidais, em nomes genéricos, ajudam a controlar a dor da fase aguda por períodos curtos, mas têm contraindicações (estômago, rins, pressão, interações) que variam de pessoa para pessoa. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico: o que serve para um caso pode ser contraindicado para outro.
Preciso operar a hérnia de disco?
Na maioria das vezes, não. A cirurgia é reservada à síndrome da cauda equina (urgência), ao déficit motor progressivo ou grave, e à dor radicular incapacitante que persiste apesar de tratamento conservador completo. Como a hérnia tende a reabsorver, dar tempo com um tratamento ativo bem conduzido costuma ser a melhor estratégia. A decisão é sempre compartilhada com a equipe.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Li Y; Fredrickson V; Resnick DK. How should we grade lumbar disc herniation and nerve root compression? A systematic review. Clinical orthopaedics and related research. 2015. doi:10.1007/s11999-014-3674-y. PMID:24825130.
- Chiu CC; Chuang TY; Chang KH; Wu CH; Lin PW; Hsu WY. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clinical rehabilitation. 2015. doi:10.1177/0269215514540919. PMID:25009200.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Em que fase está a sua hérnia, com que velocidade ela tende a reabsorver e qual conduta cabe a cada momento são decisões que só podem ser individualizadas em consulta, com exame e imagem.
