Ginkgo biloba: benefícios reais, mitos e o que a ciência mostra
Os benefícios do ginkgo biloba são modestos: a evidência é fraca para memória, zumbido e circulação, e não há boa evidência de que trate dor. Veja para que serve, o risco de sangramento e o que a evidência mostra sobre dor.
- O ginkgo biloba é um suplemento de origem vegetal, não um medicamento para dor. Os benefícios alegados (memória, circulação das pernas, zumbido, tontura) têm evidência fraca e mista: alguns estudos mostram efeito pequeno, outros não mostram diferença do placebo.
- Tem risco real de sangramento. Ele inibe a agregação das plaquetas e interage com anticoagulantes e antiagregantes (varfarina, AAS, clopidogrel), aumentando o risco de hemorragia. Deve ser suspenso antes de cirurgia.
- Se a sua queixa é dor (coluna, nervo, articulação, enxaqueca), o ginkgo não é o caminho. O que funciona é um plano multimodal: exercício, técnicas em clínica e medicação com indicação, descritos na seção de tratamento.
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O que é o ginkgo biloba e para que serve
O ginkgo biloba é um extrato feito das folhas de uma das árvores mais antigas do planeta. Na forma de suplemento, é vendido em cápsulas, comprimidos e na forma de chá de ginkgo biloba, sobretudo com a promessa de melhorar memória, concentração e circulação.
O extrato mais estudado nas pesquisas sérias é o EGb 761, padronizado para conter cerca de 24% de flavonoides (glicosídeos de flavonol) e 6% de terpeno-lactonas (ginkgolídeos e bilobalídeo). Essa padronização importa: a maior parte da evidência disponível usou esse extrato específico, em doses de 120 a 240 mg por dia, e não um chá caseiro de concentração desconhecida. Os mecanismos propostos são três: ação antioxidante (sequestro de radicais livres), discreta vasodilatação com melhora da microcirculação, e inibição do fator de ativação plaquetária. Esse último ponto, repare, é exatamente o que cria o risco de sangramento que discuto adiante.
É aqui que muita gente se confunde com o nome. “Ginkgo biloba” não tem nada a ver com chá de guariroba nem com chá de guabiroba, duas plantas brasileiras de nomes parecidos e usos populares completamente diferentes (a guariroba é o palmito amargo; a guabiroba, uma fruta nativa). Se a sua dúvida era o chá de guariroba para que serve, ou o chá de guabiroba, saiba que são outras plantas, sem relação com o ginkgo. Já o chá de ginkgo biloba para que serve de fato é uma pergunta legítima, e a resposta prática decepciona: a infusão caseira entrega uma dose imprecisa e bem menor de princípios ativos do que o extrato padronizado dos estudos. Por isso, mesmo o benefício modesto descrito nas pesquisas não pode ser presumido para ela.
Extrato de folha
Suplemento das folhas do ginkgo; o extrato padronizado de pesquisa é o EGb 761.
Cápsula, comprimido, chá
O chá de ginkgo tem dose imprecisa; os estudos usaram extrato padronizado, 120 a 240 mg/dia.
Guariroba, guabiroba
Plantas brasileiras de nomes parecidos, sem relação com o ginkgo.
Não é tratamento
Não há boa evidência de ginkgo como analgésico; a dor pede outro caminho.
Os benefícios do ginkgo biloba: o que a evidência mostra
Os benefícios do ginkgo biloba, quando existem, são pequenos e inconstantes. Para quase todas as indicações populares, os ensaios clínicos de melhor qualidade ou mostram um efeito modesto que não se repete em outros estudos, ou não encontram diferença em relação ao placebo. Não é um veneno, mas também está longe do “remédio natural para o cérebro” que a embalagem promete. Veja o panorama, indicação por indicação.
| Indicação alegada | O que a evidência mostra | Leitura prática |
|---|---|---|
| Demência / Alzheimer | Estudos heterogêneos; em doses de 240 mg/dia, benefício pequeno e inconsistente. O grande estudo de prevenção (GEM) não reduziu a incidência de demência | Não previne demência; eventual ganho sintomático é modesto e incerto |
| Memória em pessoa saudável | Ensaios em adultos sadios não mostram melhora confiável de memória ou concentração | Não “turbina” a memória de quem não tem doença |
| Zumbido (tinnitus) | Revisões sistemáticas: sem benefício consistente sobre o zumbido | Evidência fraca; não é tratamento estabelecido |
| Tontura / vertigem | Alguns estudos pequenos sugerem efeito; qualidade limitada | Investigar a causa da tontura vale mais que suplementar |
| Claudicação (dor nas pernas ao andar) | Ganho muito pequeno na distância de caminhada, clinicamente discutível | Exercício supervisionado e controle de risco vascular pesam muito mais |
| Dor (coluna, nervo, articular, enxaqueca) | Sem boa evidência de efeito analgésico | Não é tratamento de dor; ver a seção de tratamento |
A indicação mais estudada é a cognitiva. Mesmo nela, o resultado é decepcionante: o maior ensaio de prevenção, com milhares de idosos acompanhados por anos, não reduziu o aparecimento de demência com ginkgo comparado ao placebo. Para o tratamento de demência já instalada, algumas metanálises descrevem ganho pequeno em dose alta, mas os estudos divergem tanto entre si que diretrizes não recomendam o ginkgo como terapia padrão. Em pessoa saudável, querendo “melhorar a memória”, os ensaios são consistentes em não mostrar efeito.
Sobre o zumbido, as revisões sistemáticas não sustentam benefício. Nenhuma dessas indicações tem evidência forte o bastante para justificar a expectativa que se vende.
Por que “tem estudo” não é o mesmo que “funciona”
Existem muitos estudos com ginkgo, mas a qualidade média é baixa: amostras pequenas, métodos frágeis e resultados que não se repetem. Quando se aplica uma classificação que pesa a confiança no resultado, a maioria das indicações fica em evidência baixa a muito baixa. Na prática, isso significa que estudos futuros bem feitos podem facilmente mudar a conclusão, e que não se deve apostar alívio em cima disso.
Ver referências →“Ginkgo biloba é natural, então é seguro e só faz bem para a memória e a circulação.”
“Natural” não quer dizer inofensivo. O ginkgo afina o sangue, interage com vários remédios e tem benefício pequeno e incerto. Para a maioria das pessoas, o custo e o risco superam o ganho esperado.
Os textos vendem o ginkgo pela memória e pela circulação, mas é aí que a evidência é mais frágil. O dado mais sólido e mais reprodutível sobre essa planta não é um benefício: é uma interação. A inibição do fator de ativação plaquetária, o tal efeito de “afinar o sangue”, aparece de forma consistente nos estudos farmacológicos, enquanto o ganho de memória aparece e some conforme o ensaio. Em outras palavras, o efeito mais bem documentado do ginkgo é justamente o que faz dele um problema antes de uma cirurgia ou somado a um anticoagulante, não a promessa cognitiva da embalagem. Inverter essa leitura, tratar o risco como detalhe e o benefício como certeza, é o erro que mais vejo ser repetido.
Segurança, sangramento e interações
Esta é a parte que a propaganda omite e que mais me preocupa no consultório. O ginkgo inibe o fator de ativação plaquetária, ou seja, dificulta a agregação das plaquetas e afina o sangue. Em quem usa sozinho e é saudável, costuma ser bem tolerado, com efeitos leves como dor de cabeça, tontura e desconforto gástrico. O risco aparece nas combinações e em situações específicas.
Converse com o médico antes de usar ginkgo se você
- Usa anticoagulante (varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana) ou antiagregante (AAS, clopidogrel): o risco de hemorragia aumenta.
- Vai passar por qualquer cirurgia ou procedimento: suspenda o ginkgo cerca de 3 a 4 dias antes, e avise a equipe.
- Toma anti-inflamatórios com frequência, ou tem doença que predispõe a sangramento.
- Usa antidepressivos, antipsicóticos ou anticonvulsivantes: há relatos de interação e relatos raros de convulsão.
- Está grávida ou amamentando: a segurança não está estabelecida, então não é recomendado.
Há relatos de sangramentos espontâneos associados ao uso de ginkgo, incluindo hemorragias dentro do olho e do crânio, principalmente em quem já usava antiagregantes ou anticoagulantes. São eventos raros, mas sérios, e justificam a cautela. Para quem tem dor crônica, esse ponto é ainda mais relevante: muitos desses pacientes já tomam AAS, anti-inflamatórios ou anticoagulantes por outras condições, e somar ginkgo a esse cenário é trocar um benefício duvidoso por um risco concreto. Um detalhe que confunde: a semente crua do ginkgo é tóxica e pode causar convulsões; o suplemento de folha é outra coisa, mas o nome igual gera medo desnecessário, e por isso vale esclarecer.
Se você usa qualquer remédio que “afina o sangue” ou vai operar, o ginkgo deixa de ser uma escolha inocente. Leve a embalagem à consulta e decida com o seu médico, não pela bula da farmácia natural.
Por que tanta gente com dor procura o ginkgo
Recebo no consultório pessoas que chegaram ao ginkgo por um caminho compreensível. Quem tem dor neuropática, com formigamento, queimação e dormência nas mãos ou nos pés, ouve que o ginkgo “melhora a circulação” e imagina que vai irrigar o nervo. Quem tem tontura ou zumbido associado à dor cervical procura algo “para o labirinto”.
Quem tem dor crônica e a névoa mental que vem junto (a chamada “fibrofog”) quer recuperar a concentração. A lógica é humana, mas o alvo está errado.
A dor neuropática não é um problema de circulação que se resolve dilatando vaso: é uma disfunção da própria fibra nervosa e das vias de dor, que responde a medicamentos específicos e à neuromodulação, não a um vasodilatador fraco. A explicação completa desse mecanismo está na página sobre dor neuropática: causas, sintomas e tratamentos. A tontura associada à cervical pede diagnóstico da origem, não suplemento.
E a névoa mental da dor crônica melhora ao tratar a dor, o sono e o condicionamento, como detalho no tratamento da fibromialgia. O ginkgo, nesses cenários, costuma ser dinheiro e tempo perdidos, adiando o tratamento que de fato muda o quadro.
Algumas observações recorrentes do consultório:
- É comum a pessoa começar o ginkgo por conta própria, por causa de um esquecimento que a assusta, e não contar isso ao médico por considerar “só um natural”. Quando pergunto de forma aberta o que mais a pessoa toma, o ginkgo costuma aparecer só no fim da lista, depois dos remédios “de verdade”.
- A pergunta que mais reposiciona a conversa é simples: “você usa alguma coisa para afinar o sangue, ou tem cirurgia marcada?”. É aí que o suplemento deixa de ser inofensivo, e nem sempre o paciente tinha feito essa ligação.
- Surpreende muita gente saber que o ginkgo não é tratamento de dor e que o efeito dele mais bem documentado é o de aumentar o risco de sangramento. A expectativa que chega é quase sempre a oposta: a de um reforço seguro para a cabeça e a circulação.
- “Natural” raramente significa, ao mesmo tempo, inofensivo e eficaz. No caso do ginkgo, o que observo é o pior dos cruzamentos para quem tem dor: benefício que não se confirma e um risco que é real e somável ao que a pessoa já toma.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Quais são os benefícios do ginkgo biloba?
Os benefícios ginkgo biloba mais divulgados (memória, concentração, circulação das pernas, zumbido, tontura) têm evidência fraca e inconsistente. Em algumas indicações os estudos mostram um efeito pequeno; em outras, nenhuma diferença do placebo. Não há boa evidência de que ele trate dor. Para a maioria das pessoas, o benefício esperado é modesto e incerto, e precisa ser pesado contra o risco de sangramento.
Chá de ginkgo biloba: para que serve e funciona?
O chá de ginkgo biloba é usado popularmente com a promessa de melhorar memória e circulação, mas a infusão entrega uma dose imprecisa e bem menor de princípios ativos do que o extrato padronizado (EGb 761) usado nos estudos. Ou seja, mesmo o benefício modesto descrito na pesquisa não pode ser presumido para o chá. Atenção: ginkgo não é a mesma coisa que chá de guariroba nem chá de guabiroba, que são outras plantas, sem relação com o ginkgo.
Ginkgo biloba ajuda na dor ou na neuropatia?
Não há boa evidência de que o ginkgo trate dor, inclusive a dor neuropática. A ideia de que ele “melhora a circulação do nervo” não corresponde ao mecanismo da neuropatia, que é uma disfunção da fibra nervosa e das vias de dor. O tratamento da dor neuropática usa medicamentos específicos, neuromodulação e reabilitação, não suplementos vasodilatadores.
Ginkgo biloba melhora a memória de quem é saudável?
Os ensaios clínicos em adultos saudáveis não mostram melhora confiável de memória ou concentração com ginkgo. E o maior estudo de prevenção em idosos não reduziu o aparecimento de demência. Se há queixa real de memória, o caminho é investigar a causa com um médico, não suplementar por conta própria.
Quem toma anticoagulante pode usar ginkgo?
Não sem orientação médica. O ginkgo afina o sangue (inibe a agregação plaquetária) e aumenta o risco de hemorragia quando combinado com anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana e outros) ou antiagregantes (AAS, clopidogrel). Também deve ser suspenso cerca de 3 a 4 dias antes de cirurgias. Converse com o médico antes de iniciar.
Vale a pena gastar com ginkgo biloba?
Para a maioria das pessoas, e em especial para quem busca alívio de dor, não. O benefício é pequeno e incerto, há risco de sangramento e interações, e o dinheiro tende a ser melhor investido no que tem evidência: avaliação médica, exercício orientado e tratamento dirigido à causa. Se ainda assim quiser tentar para uma indicação específica, faça isso com acompanhamento, não no lugar do tratamento.
Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Wieland LS, Ludeman E, Chi Y, et al. Ginkgo biloba for cognitive impairment and dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2026;(2):CD013661. doi:10.1002/14651858.CD013661.pub2 acessar
- Sereda M, Xia J, Scutt P, et al. Ginkgo biloba for tinnitus. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2022;(11):CD013514. doi:10.1002/14651858.CD013514.pub2 acessar
- Nicolaï SPA, Kruidenier LM, Bendermacher BLW, et al. Ginkgo biloba for intermittent claudication. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2013;(6):CD006888. doi:10.1002/14651858.CD006888.pub3 acessar
- Kellermann AJ, Kloft C. Is there a risk of bleeding associated with standardized Ginkgo biloba extract therapy? A systematic review and meta-analysis. Pharmacotherapy. 2011;31(5):490 a 502. doi:10.1592/phco.31.5.490 acessar
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Suplementos como o ginkgo não são isentos de risco e podem interagir com medicamentos. A decisão de usar ou não o ginkgo, e qualquer conduta para dor, precisa ser individualizada caso a caso na consulta.
