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Livre Mercado: Saúde no fim da picada

Acupuntura ganhou status de especialidade médica
em 1995 e é utilizada no tratamento de várias doenças

ARQUIMEDES PESSONI

A agulha é pequena — varia de 0,20 a 0,30 milímetro de diâmetro e de 15 a 70 milímetros de comprimento. Mas quando colocada no ponto certo, a picada tem efeitos gigantescos para a saúde. Técnica praticada há mais de quatro mil anos na China, a acupuntura é cada vez mais aceita e utilizada no Brasil para tratar doenças diversas.

Inicialmente vista como terapia alternativa, ganhou status de especialidade médica em 1995 ao ser reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e, em 1998, pela Associação Médica Brasileira. Desde 2006 passou a fazer parte da rede pública custeada pelo SUS, pela portaria 971 do Ministério da Saúde. A acupuntura é definida como um conjunto de procedimentos e técnicas que induzem a estimulação de pontos específicos na pele com finalidade terapêutica. Explica-se a partir do nome: é a fusão de acum, que em latim significa agulha, e punctum, que quer dizer picada ou punção.

A técnica tem sido utilizada no tratamento de várias doenças ou sintomas em razão dos efeitos analgésicos, antiinflamatórios ou de relaxamento muscular, além de promover imunidade e agir na reabilitação das sequelas de derrame cerebral. Pode causar também efeitos calmantes, antidepressivos leves e cicatrizantes. “O uso da acupuntura se faz muitas vezes junto a outros tratamentos convencionais que utilizam medicamentos. O que notamos é que em vários casos o paciente que usa a acupuntura tem menos necessidade de remédios, entre os quais antiinflamatórios e analgésicos” — conta o médico Nelson Bellotto Júnior, da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC. Prova dos efeitos positivos pode ser medida em Campinas, interior paulista — desde o começo do ano passado 95 médicos foram treinados para aplicar a acupuntura na rede pública de saúde. O resultado parcial foi a diminuição em 12,5% no consumo mensal de medicamentos utilizados para tratamento de dores crônicas.

De acordo com o médico Hong Jin Pai, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e autor do livro “Acupuntura: De Terapia Alternativa a Especialidade Médica” (Ceimec, 2005), a introdução da acupuntura no Brasil começa em 1810 com a chegada dos primeiros imigrantes chineses trazendo as técnicas da MTC (Medicina Tradicional Chinesa).

Em 1908 os imigrantes japoneses também dão contribuição à área. Outros marcos da técnica no País foram a fundação da ABA (Associação Brasileira de Acupuntura) em 1972, a introdução da acupuntura Ryodoraku em 1973 na Divisão de Medicina Física do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP e, em 1984, a fundação da SMBA (Sociedade Brasileira de Acupuntura).

Segundo Hong Jin Pai, em 2005 existiam cerca de 8,5 mil médicos praticantes da modalidade, dos quais 2,5 mil com título de especialista emitido pela Associação Médica Brasileira. A esse contingente somam-se 35 mil profissionais não-médicos que também trabalham com agulhas.



O médico Nelson Bellotto faz parte do time do jaleco branco que elegeu as agulhas como parceiras de trabalho desde quando aluno de medicina. Com formação primeira em pediatria, Bellotto optou pela acupuntura ao ver o resultado no tratamento da mãe contra enxaqueca. “Estava no terceiro ano da faculdade, em 1986, e isso me deixou muito curioso. Logo que me formei iniciei estudo juntamente com a residência em pediatria” — conta ele, que foi buscar especialização no Centro de Estudos e Pesquisa da Medicina Chinesa do Prof. Dr. Ysao Yamamura. Para Bellotto, a quantidade de médicos que aderem à acupuntura aumenta devido ao respeito científico obtido pela técnica: “A aceitação é cada vez maior respaldada pelos trabalhos científicos não só em quantidade, mas em qualidade, o que gera confiança no tratamento. Vários colegas procuram a acupuntura para benefícios próprios” — observa.

Agulha ou remédio? — Erra quem pensa que as agulhas usadas pelos acupunturistas carregam algum tipo de medicamento. Na verdade, a ação terapêutica das picadas se deve ao estímulo em determinados pontos do corpo humano, chamados de meridionais. O organismo libera substâncias neurotransmissoras que exercem ações analgésicas, aliviando a dor e dando sensação de bem-estar ao paciente.

A agulha é apenas um dos instrumentos desenvolvidos pela Medicina Tradicional Chinesa, que ainda tem como recursos terapêuticos métodos como a eletroacupuntura (utilização da eletricidade para estimular alguns pontos), a acupuntura a laser (mais usada em crianças e em alguns casos de dor nas mãos ou nos pés de pacientes avessos às agulhas) e a ventosa — um recipiente de vidro ou plástico que exerce efeito relaxante muscular ou analgésico. Há ainda a moxibustão, mecha de fibras secas de artemísia, em forma de bastão que, ao queimar-se, aquece os pontos de acupuntura.

Crianças também podem ser tratadas com agulhas, mas sob certas restrições, lembra o pediatra Nelson Bellotto: “A acupuntura pode ser utilizada por crianças acima de sete anos de idade. Os cuidados dependem muito da abordagem do profissional em ganhar a confiança da criança que, então, adere ao tratamento. Temos casos de crianças com deficiências neurológicas mostrando resultados positivos”.

Uma das utilizações da acupuntura que estão em alta refere-se a obesos. Não que a técnica por si só emagreça, lembra o médico Hong Jin Pai, mas contribui, uma vez que diminui a ansiedade, a sensação de fome e, desse modo, controla a compulsão alimentar, principalmente por doces. Isso favorece a reeducação alimentar sem necessidade de inibidores de apetite.

De boca aberta — Outras áreas da saúde já fazem uso da acupuntura. Em 1994 foi realizado o primeiro Simpósio Brasileiro de Acupuntura Veterinária, difundindo a técnica para ser aplicada em animais de pequeno e grande porte. Em 2002 foi a vez dos odontólogos da Universidade de São Paulo promoverem o primeiro curso de tratamento, com acupuntura, de dor facial. Com 23 anos de profissão, 18 dos quais como especialista, mestre em cirurgia buco-maxilo-facial e doutora em diagnóstico bucal, a dentista Marina Cléia Palo Prado frequenta desde 2006 o curso de acupuntura para aplicação em pacientes. “Não tenho dúvidas de que a acupuntura, ciência que antecedeu as técnicas modernas de tratamentos médicos e odontológicos, está aí para somar” — avalia.

O estudo científico da acupuntura já mostra resultados na odontologia. No ano passado, a dissertação de mestrado do cirurgião dentista Fábio de Prado Florence Braga, também da USP, apontou que quem sofre de xerostomia (ou secura bucal) pode ter a qualidade de vida aumentada com a acupuntura. O pesquisador verificou que o grupo que usava acupuntura no tratamento da doença teve aumento de 142,2% na quantidade de saliva produzida, sentindo melhora de 192,4% nos sintomas.

Independentemente de ser médico, dentista ou outro profissional da saúde quem faz uso da acupuntura, a técnica contribui para que o paciente seja visto como um todo na hora do tratamento e o que passa a ser cuidado não é o órgão doente, mas sim a pessoa.

Trata-se de mudança de paradigma para profissionais de saúde com visão ocidental de tratamento de doenças. Não há mais enfermidades a serem curadas, mas sim pacientes a serem tratados. “Sinto que mudando o foco de meu refletor e deixando de imaginar que os problemas de meus pacientes se resolvem com o motorzinho, através de procedimentos simples ou complexos, deixarei de ver o dente isoladamente, certa de que esse elemento, parte da saúde bucal e, assim, de todo o corpo, é significativo no bem-estar do paciente” — filosofa a dentista Marina Prado, com seu novo modo zen de pensar.

Matéria publicada na revista LivreMercado de fevereiro/2007