Hérnia de disco cervical e dor de cabeça: sintomas e tratamento
A hérnia de disco cervical pode causar dor de cabeça, a cefaleia cervicogênica, dor que nasce no pescoço e sobe ao crânio. Entenda os sintomas, como diferenciar da enxaqueca, os sinais de alerta e o caminho de tratamento.
- Sim, a hérnia de disco cervical pode causar dor de cabeça, sobretudo quando acomete os segmentos altos (C2-C3, C3-C4) ou mantém a musculatura suboccipital tensa. A dor costuma começar na nuca e subir de um lado da cabeça até a testa ou atrás do olho, e piora ao virar o pescoço ou depois de horas no computador. Na nuca, há dor e rigidez.
- Não existe “hérnia na cabeça”: a dor de cabeça da hérnia cervical é referida, e o nome técnico desse padrão é cefaleia cervicogênica.
- Quando a hérnia comprime uma raiz nervosa, somam-se dor, formigamento e às vezes fraqueza que descem para o ombro, braço ou mão (radiculopatia cervical).
- A grande maioria dos casos melhora sem cirurgia. Hoje: mantenha-se ativo, faça uma pausa a cada 45 minutos no computador e use calor na nuca por 15 a 20 minutos. Sem melhora em 1 a 2 semanas, marque uma avaliação.
- Mão desajeitada ou andar inseguro pedem consulta nesta semana. Fraqueza que piora de um dia para o outro, dor de cabeça súbita e muito forte, ou febre com nuca rígida: pronto-socorro.
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Como a hérnia cervical vira dor de cabeça

A dúvida que mais aparece no consultório é direta: “hérnia de disco cervical dá dor de cabeça?”. Dá, mas o mecanismo costuma ser mal compreendido. Quem digita “hérnia na cabeça” imagina algo dentro do crânio; na prática, a origem está no pescoço, e a cabeça apenas recebe a dor.
A explicação está numa central de processamento da dor chamada núcleo trigêmino-cervical, no tronco encefálico. Nesse ponto, os sinais que chegam das três primeiras raízes cervicais (C1, C2 e C3) convergem para os mesmos neurônios que recebem os sinais do nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade da face e da cabeça. Quando uma estrutura cervical alta é irritada, o cérebro tem dificuldade para localizar a origem exata e interpreta parte daquele estímulo como se viesse da cabeça. É a chamada dor referida, e é por isso que a hérnia cervical dá dor de cabeça sentida na testa, na têmpora ou atrás do olho, longe do ponto onde ela começa.
Existem dois caminhos práticos pelos quais a hérnia leva à cefaleia. O primeiro é direto: uma hérnia ou um abaulamento nos discos altos (entre C2-C3 e C3-C4) irrita as articulações e as raízes desses segmentos, que projetam dor para a região occipital e para o vértice do crânio. O segundo é indireto e muito mais comum: a dor cervical de qualquer nível mantém a musculatura da nuca, em especial os músculos suboccipitais e o trapézio superior, em contração defensiva constante.
Esses músculos desenvolvem pontos-gatilho que, por si só, referem dor para a cabeça. Na maioria das pessoas, os dois mecanismos coexistem: há um disco alterado no pescoço e uma musculatura suboccipital cronicamente tensa alimentando a dor de cabeça.
Convergência cervical-trigeminal
Discos C2-C3 e C3-C4
Tensão suboccipital
Dores de cabeça que começam na nuca, ficam de um lado só e pioram ao fim de um dia de trabalho sentado, ou quando se gira o pescoço, costumam ter um componente cervical relevante.
Sintomas: onde dói a hérnia cervical

A hérnia de disco cervical sintomática quase nunca se apresenta com um sintoma só. O quadro costuma combinar dor local no pescoço, dor referida para a cabeça e, quando há compressão de raiz, sintomas que descem pelo membro superior. Reconhecer esse conjunto é o que diferencia uma cefaleia cervicogênica de outras dores de cabeça.
- Começa na nuca. A dor sobe da base do crânio para a testa ou para trás do olho, em geral de um lado, e raramente troca de lado dentro da mesma crise.
- Piora com o pescoço. Manter a cabeça projetada à frente, girar ou inclinar o pescoço e a postura mantida ao computador intensificam a dor.
- Mobilidade reduzida. Nos dias de crise, virar a cabeça para o lado fica limitado e doloroso.
- Reproduz à pressão. Pressionar a musculatura suboccipital e o trapézio costuma reproduzir a dor de cabeça que a pessoa conhece.
Quando a hérnia comprime ou inflama uma raiz nervosa, instala-se a radiculopatia cervical: além da dor cervical, surgem dor em queimação, formigamento (parestesia) e, em parte dos casos, perda de força, seguindo o trajeto da raiz afetada. Cada raiz tem um território razoavelmente previsível, o que ajuda o médico a localizar o nível da hérnia já no exame, antes mesmo da imagem. O mapa completo de qual dedo formiga em cada raiz está no texto sobre dormência no braço.
| Raiz / nível do disco | Para onde irradia | Fraqueza possível |
|---|---|---|
| C3 e C4 (discos C2-C3 e C3-C4) | Nuca, base do crânio e alto do ombro; dor de cabeça | Fraqueza no braço é rara |
| C5 (disco C4-C5) | Ombro e face lateral do braço | Elevar o braço (deltoide) |
| C6 (disco C5-C6) | Braço lateral até o polegar e o indicador | Dobrar o cotovelo e estender o punho |
| C7 (disco C6-C7) | Parte de trás do braço até o dedo médio | Estender o cotovelo (tríceps) |
| C8 (disco C7-T1) | Antebraço medial até os dedos anelar e mínimo | Força de preensão e movimentos finos da mão |
Vale um aviso de calibração: a maior parte das hérnias cervicais sintomáticas afeta os níveis baixos (C5-C6 e C6-C7) e produz sobretudo dor no braço. A cefaleia entra em cena sobretudo quando há acometimento alto (C2-C3, C3-C4) ou quando a tensão muscular reativa domina o quadro. Por isso a mesma pessoa pode ter, ao mesmo tempo, dor de cabeça pela via suboccipital e formigamento na mão por uma raiz baixa: são andares diferentes do mesmo pescoço.
Padrões recorrentes no consultório:
- A dor de cabeça quase nunca vem sozinha na queixa. Quem chega por cefaleia que “começa na nuca” costuma minimizar o pescoço, mas, perguntando direito, descreve rigidez ao acordar, dor que piora ao fim de um dia ao computador e dificuldade de virar a cabeça ao dar ré no carro. É o conjunto que aponta para a origem cervical.
- O formigamento no braço tende a assustar mais do que deveria. Uma dor que desce até o polegar e o indicador costuma ser interpretada como “circulação” ou início de derrame (AVC); mapear o trajeto da raiz (C6, neste exemplo) localiza o nível e, na ausência de sinal de alerta, tranquiliza, porque a radiculopatia isolada tem bom prognóstico.
Dor de cabeça da hérnia, enxaqueca ou tensional: como diferenciar

A cefaleia cervicogênica é confundida com enxaqueca e com cefaleia tensional, e essa confusão atrasa o tratamento certo, porque a pessoa passa anos tomando analgésico para uma dor cuja origem está no pescoço. As três têm pistas próprias. A diferenciação é clínica, feita pela história e pelo exame do pescoço.
| Tipo | Onde começa e como é | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Cervicogênica (origem cervical) | Nuca, sobe para um lado da cabeça; em peso/pressão | Sempre o mesmo lado; piora com a postura e o movimento do pescoço; reproduz à palpação |
| Enxaqueca | Pulsátil, latejante, em geral de um lado | Náusea, sensibilidade à luz e ao som, crises bem definidas; pode ter aura |
| Tensional | Em faixa, aperto dos dois lados | Bilateral, sem náusea importante e sem piora clara com o pescoço |
A distinção raramente é absoluta. Muita gente com enxaqueca também tem um gatilho cervical, e tratar o pescoço pode reduzir a frequência das crises mesmo em quem tem enxaqueca verdadeira. O ponto prático é não assumir que toda dor de cabeça recorrente é enxaqueca: vale examinar o pescoço. Quando a dúvida envolve a enxaqueca propriamente dita, a abordagem está detalhada no nosso guia sobre enxaqueca: causas e tratamentos, e o padrão cervical específico, no texto sobre cefaleia cervicogênica.
“Tenho dor de cabeça quase todo dia, então é enxaqueca e só passa com remédio para enxaqueca.”
Parte das dores de cabeça recorrentes tem origem cervical e responde ao tratamento do pescoço. Por isso o exame físico do pescoço é parte da investigação.
Uma dor de cabeça teimosa, sempre do mesmo lado e que começa na nuca, pode ser o primeiro sinal de um problema cervical, antes de qualquer dor no braço. O que muda o quadro é treinar os flexores profundos e desativar os pontos-gatilho (veja Tratamento).
Sinais de alerta
A imensa maioria das hérnias cervicais é benigna e melhora sem cirurgia. O cenário que muda tudo é a mielopatia cervical: quando a compressão atinge a própria medula espinhal dentro do canal. Diferente da radiculopatia (que dói e formiga no braço), a mielopatia é com frequência pouco dolorosa e se manifesta por perda de função.
É o principal sinal de alerta deste tema. Na dor de cabeça, alguns sinais apontam para causas fora do pescoço, como sangramento ou infecção, e pedem pronto-socorro.
Marque o que você sente
- Dor de cabeça súbita e explosiva, a pior da vida
- Febre com nuca rígida
- Perda de destreza nas mãos: dificuldade para abotoar a camisa, escrever, segurar objetos pequenos ou pegar moedas.
- Alteração da marcha: sensação de andar desequilibrado, “como bêbado”, ou quedas sem explicação.
- Formigamento ou choque que desce pela coluna ao flexionar o pescoço.
- Fraqueza progressiva em braços ou pernas, sobretudo nos dois lados, que piora de um dia para o outro.
- Perda do controle da urina ou das fezes.
- Dor após trauma cervical: queda, batida ou acidente.
- Febre, perda de peso e história de câncer associadas à dor.
- Dor de cabeça nova depois dos 50 anos.
- Formigamento no braço que não cede em 2 semanas.
Nada marcado? Cuide em casa por 1 a 2 semanas, com as medidas de O que fazer em casa. Sem melhora nesse prazo, marque consulta.
Marcou um ou dois? Marque consulta nas próximas 1 a 2 semanas; mão desajeitada ou andar inseguro, nesta semana.
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Na ausência desses sinais, a dor de cabeça e a dor no pescoço de fundo cervical costumam responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas. A leitura ampla da compressão de nervos na coluna está no texto sobre nervos comprimidos na coluna e no pescoço.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico é clínico antes de ser de imagem. Hérnias e abaulamentos cervicais são achados muito comuns em pessoas sem nenhuma dor, e a frequência aumenta com a idade. Uma hérnia na imagem só ganha valor quando o nível, o lado e o trajeto da dor coincidem com a história e com o exame físico.
Pergunta-chave
A imagem vai mudar a conduta?
Ressonância da coluna cervical quando há dor no braço (radiculopatia) que não melhora após 6 semanas de tratamento, suspeita de mielopatia ou qualquer sinal de alerta.
Nas primeiras semanas de dor cervical comum, sem sinais de alerta, a imagem não é exame de rotina: pedi-la cedo só faz tratar achados que aparecem também em quem não sente dor.
Como avaliamos esta dor aqui
Na consulta, o médico pergunta onde a dor começa e o que a piora. Depois aperta os músculos da base do crânio e o trapézio para ver se reproduzem a sua dor de cabeça, testa força, reflexos e sensibilidade dos braços e faz um teste que inclina a cabeça para ver se a dor desce para o braço. Também observa o andar e a destreza das mãos, para afastar compressão da medula. Muitas vezes você sai com o diagnóstico e o plano sem precisar de ressonância.
Quando há ponto-gatilho ativo ou dor no nervo occipital, o agulhamento seco, a acupuntura, a infiltração ou o bloqueio do nervo occipital podem começar no mesmo dia da consulta. A reabilitação é conduzida pelo fisioterapeuta da equipe, um paciente por sala, e o plano é revisto em 3 a 6 semanas. Se houver indicação de cirurgia, encaminhamos ao cirurgião de coluna.
Tratamento
O tratamento da hérnia cervical com dor de cabeça é conservador, sem cirurgia, na grande maioria dos casos. O objetivo é reduzir a dor, recuperar a mobilidade e a força e desligar o ciclo que mantém a musculatura suboccipital tensa e a cabeça doendo. A base é ativa, com exercício orientado, e as demais técnicas se somam a ela conforme a apresentação e a resposta.
A cirurgia é exceção, reservada às situações descritas em Tratamento cirúrgico. Boa parte das hérnias, inclusive, reabsorve espontaneamente ao longo de meses, o que reforça a estratégia de controlar a dor enquanto o corpo trabalha.
Primeira linha, semanas 1 a 2: educação e ajuste de rotina
Em casa, com as medidas em casa. Subir se a dor não melhorar em 1 a 2 semanas.
Reabilitação cervical ativa, 4 a 8 semanas
Controle motor dos flexores profundos e das escápulas com o fisioterapeuta, 1 a 2 vezes por semana. Acupuntura, agulhamento seco suboccipital ou infiltração de ponto-gatilho podem começar no dia da consulta. Subir se, na reavaliação em 3 a 6 semanas, a dor de cabeça ainda aparece mais de 2 dias por semana.
Se persistir: bloqueio do nervo occipital
Para a dor de cabeça que resiste. O alívio de dias a semanas abre espaço para avançar o exercício. Medicação adjuvante por tempo definido, se preciso.
Casos selecionados: toxina botulínica
Dor miofascial que volta, ou enxaqueca crônica junto. Efeito em 2 a 4 semanas, dura 3 a 4 meses.
Encaminhamento ao cirurgião de coluna
Mielopatia, fraqueza que avança ou dor no braço incapacitante depois de 6 a 12 semanas de tratamento bem conduzido (veja Tratamento cirúrgico).
O que fazer em casa nas primeiras semanas
- Mantenha-se ativo. Repouso na cama e colar cervical deixam o pescoço mais rígido; siga com as tarefas do dia, sem movimentos bruscos.
- Calor na nuca. Bolsa morna por 15 a 20 minutos, 3 a 4 vezes ao dia. Quando o frio faz sentido: compressa quente ou fria no pescoço.
- Pausa a cada 45 minutos no computador ou no celular: levante, solte os ombros e traga o queixo para trás. Tela na altura dos olhos.
- Flexão craniocervical. Deitado de barriga para cima, faça um “sim” discreto com a cabeça apoiada, sem levantá-la; segure 5 a 10 segundos, 8 a 12 repetições, 1 a 3 vezes ao dia. O fisioterapeuta ajusta na consulta.
- Travesseiro na altura do ombro, que mantenha o pescoço alinhado: veja como dormir com dor no pescoço.
- Analgésico por poucos dias. Na dor de cabeça, evite usar analgésico mais de 2 a 3 dias por semana.
Sem melhora clara em 1 a 2 semanas, ou com qualquer item do quadro de sinais de alerta, marque uma avaliação.
Reabilitação e exercício cervical: a base
- O que é
- Trabalho ativo de controle motor do pescoço: ativação dos flexores profundos cervicais (flexão craniocervical, o discreto “aceno de sim” sem levantar a cabeça), estabilização escapulotorácica e fortalecimento progressivo da cadeia posterior, com terapia manual como adjuvante.
- Mecanismo
- Tira a carga de sustentação dos músculos suboccipitais, que param de compensar e relaxam, reduzindo tanto a dor cervical quanto a dor de cabeça referida.
- Evidência
- É o eixo de todo o resto: o exercício de controle motor é o componente mais consistente.
- O que esperar
- Resposta gradual, em 4 a 8 semanas, com sessões 1 a 2 vezes por semana e exercício diário em casa. Atendimento individual. O programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências.
- Dose
- Veja as medidas em casa; o fisioterapeuta ajusta a carga na consulta.
- Limitações
- Exige adesão e regularidade; na fase muito aguda a carga é reduzida e progride conforme a tolerância. Qualquer sinal de alerta muda a conduta.
Acupuntura e eletroacupuntura
Agulhar no território de C2-C3 e na musculatura suboccipital atua onde a via cervical e a trigeminal convergem, ativando os sistemas que o próprio corpo usa para frear a dor; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Pode reduzir a frequência da dor de cabeça e o uso de analgésicos, com baixo risco. Efeito cumulativo, depende da regularidade, medido pela queda na frequência da dor de cabeça.
Ciclo de 6 a 10 sessões, 1 a 2 por semana, com reavaliação por volta da terceira a quarta sessão: se a frequência não começou a ceder e a palpação suboccipital ainda reproduz a dor, revemos os pontos e o nível trabalhado em vez de repetir o protocolo. A localização dos pontos é definida pelo exame neurológico e pela palpação dos músculos que referem dor para a cabeça neste caso específico.
Agulhamento seco e infiltração do ponto-gatilho suboccipital
- O que é
- A técnica direcionada à dor de cabeça da hérnia cervical, porque ataca a via indireta. O trapézio superior projeta dor que sobe pela nuca e contorna a têmpora; os suboccipitais referem uma dor profunda atrás do olho e na lateral da cabeça, justamente o território que a pessoa descreve.
- Mecanismo
- No agulhamento seco, a agulha é dirigida à banda tensa e busca a contração reflexa do ponto-gatilho, um pequeno espasmo que costuma vir com redução imediata da tensão e queda da atividade elétrica espontânea da placa motora; efeito analgésico local e segmentar. Quando o ponto é resistente, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) interrompe o ciclo de forma mais direta.
- O que esperar
- Parte das pessoas sente alívio ainda na maca; em outras, a cabeça começa a doer menos só no dia seguinte ou no segundo dia, e é comum uma dor muscular leve no ponto agulhado por um ou dois dias. Em geral 1 a 2 sessões por semana, com reavaliação após 3 a 4 sessões.
- Limitações
- A região suboccipital é vizinha da artéria vertebral e do forame magno; por isso a agulha é dirigida com a cabeça apoiada, em ângulo e profundidade seguros para a região.
Bloqueio do nervo occipital
Quando a dor de cabeça não cede ao plano de base, ou quando há um padrão de neuralgia occipital somado à hérnia, o bloqueio do nervo occipital maior (injeção de anestésico, por vezes com corticoide, ao redor do nervo na base do crânio) interrompe temporariamente a condução nociceptiva e abre uma janela para avançar a reabilitação. O alívio pode durar de dias a semanas. Na radiculopatia cervical que não melhora, a clínica também faz bloqueios na coluna (facetário ou radicular), quando indicados na avaliação. São recursos pontuais, que se somam ao tratamento ativo.
Outras opções conforme a resposta
Laser de alta intensidade: o laser entra quando a dor no pescoço ou no braço atrapalha o exercício, em séries de sessões junto da reabilitação.
Toxina botulínica para casos refratários. Reservada a quadros que não respondem ao tratamento inicial, sobretudo quando há forte componente de espasmo e dor miofascial mantendo a queixa, ou quando coexiste uma enxaqueca crônica. A toxina botulínica tipo A relaxa o músculo contraído e diminui os sinais de dor que ele envia, num efeito que vai além do relaxamento muscular. Tem evidência consolidada na enxaqueca crônica e não é primeira linha para a cervicalgia comum; também não trata a hérnia em si. O efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Manejo farmacológico e a dor neuropática. A medicação tem papel adjuvante: alivia por um período definido e abre espaço para a reabilitação. As classes, inclusive as da dor em queimação ou choque no braço, estão em Tratamento medicamentoso e no guia de remédios para dor.
Controle inicial
Reduzir a sobrecarga, ajustar postura no trabalho e no sono, iniciar mobilidade suave e a ativação dos flexores profundos, mantendo-se ativo.
Progressão
Fortalecimento progressivo, estabilização e técnicas em clínica; a dor cervical e a frequência da dor de cabeça costumam começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, ou diante de qualquer sinal de alerta, revê-se o diagnóstico e consideram-se procedimentos ou investigação adicional.
Tratamento não farmacológico: fisioterapia, reeducação postural (RPG) e Pilates
O tratamento ativo é a coluna vertebral do plano e é tudo o que se faz com o corpo, sem agulha e sem remédio: fisioterapia e cinesioterapia, reeducação postural global (RPG), estabilização cervical profunda, Pilates clínico e terapia manual. É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na dor cervical e na cefaleia cervicogênica, e é o que sustenta o resultado depois que a dor aguda cede. As demais técnicas em clínica abrem janela; o exercício é o que mantém o pescoço capaz de tolerar o dia a dia e reduz a recorrência. Na clínica, a reabilitação é individual, um paciente por sala, com progressão conforme a resposta.
Fisioterapia e cinesioterapia cervical
Reabilitação ativa individualizada com exercício terapêutico graduado, conduzida por fisioterapeuta: ganho de controle motor, força e mobilidade, dessensibilização ao movimento (a dor cervical instala um medo de mover o pescoço que perpetua a rigidez) e correção dos fatores posturais que sobrecarregam os segmentos altos e a musculatura suboccipital. Indicada em praticamente todo quadro de hérnia cervical sintomática, incluindo a radiculopatia em fase de melhora. Na fase muito aguda, a carga é reduzida e progride conforme a tolerância; qualquer sinal de alerta muda a conduta.
Estabilização cervical profunda e controle motor
O componente mais específico e consistente. Foco na ativação dos flexores profundos cervicais (longo do pescoço e longo da cabeça) pela flexão craniocervical (dose na ficha de exercício em casa). Quando esses estabilizadores finos falham, os superficiais (esternocleidomastóideo, escalenos, trapézio superior e suboccipitais) assumem a sustentação e entram em sobrecarga crônica, exatamente a musculatura que refere dor para a cabeça. Soma estabilização escapulotorácica (serrátil anterior e trapézio inferior) e fortalecimento da cadeia posterior.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trata o corpo por cadeias musculares em vez de músculos isolados, com posturas mantidas de alongamento ativo. A cabeça projetada à frente encurta a cadeia posterior do pescoço (suboccipitais, extensores cervicais) e os peitorais, mantendo a sobrecarga sobre os segmentos altos. A RPG trabalha o alongamento global dessas cadeias com contração isométrica em posição alongada, reequilibrando a tensão entre a frente e a parte de trás do tronco e do pescoço. Útil no componente postural e na tensão suboccipital mantida, integrada ao fortalecimento.
Pilates clínico
Exercício de controle motor que treina estabilidade do tronco, respiração e movimento consciente, adaptado ao quadro e supervisionado. Melhora o controle postural global e a estabilização do tronco e da cintura escapular, criando uma base estável a partir da qual o pescoço trabalha com menos sobrecarga; a consciência corporal ajuda a corrigir a postura mantida ao computador e ao celular. Indicado na manutenção e progressão depois da fase inicial e na prevenção de recorrência. Deve ser clínico e individualizado; exercícios genéricos de grupo, sem adaptação, podem sobrecarregar o pescoço. Soma-se ao trabalho específico dos flexores profundos.
Terapia manual
Técnicas manuais de mobilização articular e de tecidos moles aplicadas pelo fisioterapeuta: ganho de mobilidade dos segmentos cervicais, redução do tônus muscular e modulação da dor, abrindo janela para o paciente exercitar com menos dor. O benefício é maior quando associada ao exercício, combinação que aparece nas revisões sobre cefaleia cervicogênica. É adjuvante; a manipulação de alta velocidade na coluna cervical exige critério e cautela, e qualquer suspeita de mielopatia ou instabilidade a contraindica (riscos em estalos no pescoço). Por isso a avaliação que afasta sinais de alerta vem sempre antes.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia tem papel restrito na hérnia cervical e quase nunca é indicada por dor de cabeça isolada. Para a imensa maioria das pessoas que chegam com hérnia cervical e cefaleia, o caminho é o oposto da cirurgia: identificar o componente cervical e o miofascial, fortalecer o pescoço, modular a dor e recuperar a função. Ainda assim, a cirurgia é parte real do espectro de tratamento e existem situações em que ela muda o prognóstico. Estes procedimentos não são realizados em nossa clínica, que é de tratamento não cirúrgico da dor; quando há indicação, o paciente é encaminhado ao cirurgião de coluna (neurocirurgião ou ortopedista) e o acompanhamento é compartilhado.
Conservador · 1ª escolha
Tratamento conservador
- Indicado na imensa maioria dos casos de hérnia cervical com cefaleia.
- Exercício de controle motor do pescoço como base, técnicas em clínica somadas conforme a resposta.
- Alvo: reduzir a dor, recuperar mobilidade e força e desligar o ciclo miofascial; a dor de cabeça responde ao componente cervical e miofascial.
- Boa parte das hérnias reabsorve sozinha ao longo de meses.
Cirúrgico · exceção
Cirurgia de coluna cervical
- Considerada na mielopatia cervical (compressão da medula com perda de destreza, alteração da marcha ou comprometimento de esfíncteres), em que a descompressão precoce protege a função.
- Déficit motor progressivo por compressão de raiz (fraqueza que avança).
- Radiculopatia com dor incapacitante que persiste apesar de tratamento conservador completo e bem conduzido, em geral por 6 a 12 semanas.
- A imagem precisa concordar com o quadro clínico (nível, lado e trajeto); hérnias assintomáticas são achados comuns. Decisão sempre compartilhada.
As duas operações mais comuns para a hérnia cervical abordam a coluna pela frente do pescoço, e a escolha entre elas e os demais procedimentos depende do número de níveis acometidos, da idade, da mobilidade e da presença de mielopatia.
Os resultados têm um alvo definido. A cirurgia é boa para aliviar a dor radicular no braço e para estabilizar ou frear a mielopatia, mas raramente tem como alvo a dor de cabeça, que costuma responder ao tratamento do componente cervical e miofascial. Como toda operação de coluna, traz riscos próprios (infecção, rouquidão ou dificuldade temporária para engolir na via anterior, lesão neural, necessidade de reabordagem e sobrecarga dos níveis adjacentes a longo prazo), e a recuperação envolve semanas de proteção e retorno gradual à reabilitação. Por isso a decisão pesa o benefício esperado contra esses riscos, e a reabilitação ativa continua sendo parte do cuidado mesmo depois de operar.
Fora do espectro cirúrgico, há ainda recursos conduzidos por outras especialidades que podem entrar no plano conforme o quadro: a infiltração epidural (peridural) cervical, realizada em outro serviço especializado para a radiculopatia que não cede, e o acompanhamento neurológico quando coexiste uma enxaqueca verdadeira de difícil controle. A leitura ampla da compressão de nervos na coluna está no texto sobre nervos comprimidos na coluna e no pescoço, e a abordagem completa da dor cervical, no pilar sobre dor no pescoço: quando se preocupar e no guia sobre cervicalgia: causas, sintomas e tratamento.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante na hérnia cervical com dor de cabeça: alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não trata a hérnia em si nem substitui a base ativa. A escolha depende de qual componente domina (a dor cervical e miofascial, a dor neuropática da radiculopatia, ou a própria cefaleia) e toda prescrição, dose e duração cabem ao médico, que pondera efeitos adversos e comorbidades. Há um cuidado específico nesta condição: o uso frequente de analgésicos para a dor de cabeça pode gerar cefaleia por abuso de medicação, que piora justamente o que se queria tratar, de modo que a estratégia é usar o remédio por períodos definidos enquanto o tratamento ativo faz efeito. As principais classes estão na tabela.
| Classe | Para quê | O que esperar / cuidados |
|---|---|---|
| Anti-inflamatórios: ibuprofeno, naproxeno | Componente inflamatório e nociceptivo na fase de dor aguda | Por períodos curtos; não para uso contínuo. Atenção aos efeitos gastrointestinais, renais e cardiovasculares, sobretudo em uso prolongado ou com comorbidades. |
| Analgésicos simples: paracetamol, dipirona | Alívio sintomático pontual da dor | Perfil de segurança em geral mais favorável que o dos anti-inflamatórios. Não cronificar o uso, para não induzir cefaleia por abuso de medicação. |
| Neuromoduladores: gabapentina, pregabalina | Componente neuropático claro da radiculopatia (queimação ou choque descendo pelo braço) | Reduzem a hiperexcitabilidade neuronal; dose titulada de forma gradual. Efeitos adversos mais comuns: sonolência, tontura e edema. |
| Relaxantes musculares | Quadros com espasmo muscular importante | Papel limitado e por tempo curto. A sonolência é o efeito mais frequente e limita o uso diurno; não são solução de fundo nem substituem o tratamento ativo. |
| Corticoide em curso curto | Radiculopatia aguda com dor intensa selecionada | Ciclo oral curto e em dose decrescente, pelo efeito anti-inflamatório sobre a raiz. Uso pontual, pelos efeitos adversos do corticoide; decisão individualizada. |
| Antidepressivos em dose analgésica: tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), duloxetina | Componente neuropático persistente | Com indicação e acompanhamento médicos. |
Quando a investigação aponta uma enxaqueca verdadeira coexistindo com o gatilho cervical, o tratamento específico da enxaqueca é conduzido à parte, em geral com o neurologista, e foge do escopo da medicação para a dor cervical. As opções de medicação para a dor estão reunidas no guia de remédios para dor, e a abordagem da enxaqueca, no guia sobre enxaqueca: causas e tratamentos.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica


Perguntas frequentes
Hérnia de disco cervical pode causar dor de cabeça?
Pode. A hérnia cervical causa dor de cabeça sobretudo quando atinge os segmentos altos (C2-C3, C3-C4) ou quando mantém a musculatura suboccipital em tensão crônica. A dor costuma começar na nuca e subir para um lado da cabeça. Esse padrão se chama cefaleia cervicogênica.
Existe “hérnia na cabeça”?
Não como muita gente imagina. A hérnia de disco fica na coluna cervical, no pescoço. O que ocorre é uma dor referida: a irritação no pescoço alto é interpretada pelo cérebro como se viesse da cabeça, por causa da convergência dos nervos cervicais com o trigêmeo no tronco encefálico.
Como diferenciar a dor de cabeça da hérnia cervical de uma enxaqueca?
A cefaleia cervicogênica começa na nuca, fica do mesmo lado, piora com a postura e o movimento do pescoço e pode ser reproduzida ao pressionar a musculatura suboccipital. A enxaqueca costuma ser pulsátil, com náusea e sensibilidade à luz e ao som. O exame do pescoço ajuda a distinguir, e os quadros podem coexistir.
A hérnia cervical pode dar formigamento e fraqueza no braço?
Sim. Quando a hérnia comprime uma raiz nervosa, surge a radiculopatia cervical: dor, formigamento e às vezes fraqueza que descem para o ombro, o braço ou a mão, seguindo o trajeto da raiz afetada (mais comum em C6 e C7). É diferente da dor de cabeça e indica avaliação para localizar o nível.
Quando a hérnia cervical é perigosa?
O cenário de alerta é a mielopatia cervical, quando a compressão atinge a medula. Sinais como perda de destreza nas mãos, dificuldade para andar, fraqueza progressiva ou perda do controle de urina e fezes pedem avaliação sem demora. Na ausência desses sinais, a hérnia costuma ser benigna e tratada sem cirurgia.
Hérnia cervical dá tontura?
Pode dar uma sensação de instabilidade ligada ao pescoço, que piora ao virar a cabeça ou depois de horas na mesma postura e melhora com o tratamento da nuca. O exame afasta antes as causas do ouvido interno e da circulação. Tontura com visão dupla, fala enrolada, fraqueza de um lado ou dificuldade para andar é pronto-socorro.
Quanto tempo leva para a dor de cabeça da hérnia cervical melhorar?
Muitos quadros começam a responder em 4 a 6 semanas de tratamento consistente, com exercício de controle motor do pescoço como base e técnicas em clínica somadas conforme a resposta. A evolução não é linear e o plano é reavaliado em 3 a 6 semanas.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Yang L; Li Y; Dai C; Pang X; Li D; Wu Y; Chen X; Peng B. Anterior cervical decompression and fusion surgery for cervicogenic headache: A multicenter prospective cohort study. Frontiers in neurology. 2022. doi:10.3389/fneur.2022.1064976. PMID:36504652.
- Jellad A; Kalai A; Chaabeni A; Nasrallah CB; Nsir AB; Jguirim M; Sriha AB; Frih ZBS; Bedoui MH. Effect of cervical traction on cervicogenic headache in patients with cervical radiculopathy: a preliminary randomized controlled trial. BMC musculoskeletal disorders. 2024. doi:10.1186/s12891-024-07930-z. PMID:39448969.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual.









