Hérnia de disco cervical e dor de cabeça: sintomas e tratamento
A hérnia de disco cervical pode causar cefaleia cervicogênica, dor que nasce no pescoço e sobe ao crânio. Entenda os sintomas, como diferenciar da enxaqueca, os sinais de alerta e o caminho de tratamento.
- A hérnia de disco cervical pode causar dor de cabeça, sobretudo quando acomete os segmentos altos (C2-C3, C3-C4) ou mantém a musculatura suboccipital tensa; a dor costuma começar na nuca e subir de um lado da cabeça.
- Não existe “hérnia na cabeça”: a dor de cabeça da hérnia cervical é referida, e o nome técnico desse padrão é cefaleia cervicogênica.
- Quando a hérnia comprime uma raiz nervosa, somam-se dor, formigamento e às vezes fraqueza que descem para o ombro, braço ou mão (radiculopatia cervical).
- A grande maioria dos casos melhora com tratamento conservador, multimodal e não-cirúrgico; a cirurgia fica reservada a sinais de alerta como a mielopatia.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Como a hérnia cervical vira dor de cabeça

A dúvida que mais aparece no consultório é direta: “hérnia de disco cervical dá dor de cabeça?”. Dá, mas o mecanismo costuma ser mal compreendido. Quem digita “hérnia na cabeça” imagina algo dentro do crânio; na prática, a origem está no pescoço, e a cabeça apenas recebe a dor.
A explicação está numa central de processamento da dor chamada núcleo trigêmino-cervical, no tronco encefálico. Nesse ponto, os sinais que chegam das três primeiras raízes cervicais (C1, C2 e C3) convergem para os mesmos neurônios que recebem os sinais do nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade da face e da cabeça. Quando uma estrutura cervical alta é irritada, o cérebro tem dificuldade para localizar a origem exata e interpreta parte daquele estímulo como se viesse da cabeça. É a chamada dor referida, e é por isso que a hérnia cervical da dor de cabeça é sentida na testa, na têmpora ou atrás do olho, e não onde de fato começa.
Existem dois caminhos práticos pelos quais a hérnia leva à cefaleia. O primeiro é direto: uma hérnia ou um abaulamento nos discos altos (entre C2-C3 e C3-C4) irrita as articulações e as raízes desses segmentos, que projetam dor para a região occipital e para o vértice do crânio. O segundo é indireto e muito mais comum: a dor cervical de qualquer nível mantém a musculatura da nuca, em especial os músculos suboccipitais e o trapézio superior, em contração defensiva constante.
Esses músculos desenvolvem pontos-gatilho que, por si só, referem dor para a cabeça. Na maioria das pessoas, os dois mecanismos coexistem: há um disco alterado no pescoço e uma musculatura suboccipital cronicamente tensa alimentando a dor de cabeça.
Convergência cervical-trigeminal
Os sinais de C1 a C3 e os do nervo trigêmeo chegam aos mesmos neurônios no tronco encefálico. Por isso uma irritação no pescoço alto é “lida” pelo cérebro como dor de cabeça.
Discos C2-C3 e C3-C4
Tensão suboccipital
Dores de cabeça que começam na nuca, ficam de um lado só e pioram ao fim de um dia de trabalho sentado, ou quando se gira o pescoço, costumam ter um componente cervical relevante. Esse detalhe da história orienta o exame mais do que qualquer achado isolado da ressonância.

Os sintomas: da nuca à cabeça e ao braço

A hérnia de disco cervical sintomática quase nunca se apresenta com um sintoma só. O quadro costuma combinar dor local no pescoço, dor referida para a cabeça e, quando há compressão de raiz, sintomas que descem pelo membro superior. Reconhecer esse conjunto é o que diferencia uma cefaleia cervicogênica de outras dores de cabeça.
- Começa na nuca. A dor sobe da base do crânio para a testa ou para trás do olho, em geral de um lado, e raramente troca de lado dentro da mesma crise.
- Piora com o pescoço. Manter a cabeça projetada à frente, girar ou inclinar o pescoço e a postura mantida ao computador intensificam a dor.
- Mobilidade reduzida. Nos dias de crise, virar a cabeça para o lado fica limitado e doloroso.
- Reproduz à pressão. Pressionar a musculatura suboccipital e o trapézio costuma reproduzir a dor de cabeça que a pessoa conhece.
Quando a hérnia comprime ou inflama uma raiz nervosa, instala-se a radiculopatia cervical: além da dor cervical, surgem dor em queimação, formigamento (parestesia) e, em parte dos casos, perda de força, seguindo o trajeto da raiz afetada. Cada raiz tem um território razoavelmente previsível, o que ajuda o médico a localizar o nível da hérnia já no exame, antes mesmo da imagem.
| Raiz / nível do disco | Para onde irradia | Fraqueza possível |
|---|---|---|
| C5 (disco C4-C5) | Ombro e face lateral do braço | Elevar o braço (deltoide) |
| C6 (disco C5-C6) | Braço lateral até o polegar e o indicador | Dobrar o cotovelo e estender o punho |
| C7 (disco C6-C7) | Parte de trás do braço até o dedo médio | Estender o cotovelo (tríceps) |
| C8 (disco C7-T1) | Antebraço medial até os dedos anelar e mínimo | Força de preensão e movimentos finos da mão |
Vale um aviso de calibração: a maior parte das hérnias cervicais sintomáticas afeta os níveis baixos (C5-C6 e C6-C7) e produz dor no braço, não dor de cabeça. A cefaleia entra em cena sobretudo quando há acometimento alto (C2-C3, C3-C4) ou quando a tensão muscular reativa domina o quadro. Por isso a mesma pessoa pode ter, ao mesmo tempo, dor de cabeça pela via suboccipital e formigamento na mão por uma raiz baixa: são andares diferentes do mesmo pescoço.
Padrões recorrentes no consultório:
- A dor de cabeça quase nunca vem sozinha na queixa. Quem chega por cefaleia que “começa na nuca” costuma minimizar o pescoço, mas, perguntando direito, descreve rigidez ao acordar, dor que piora ao fim de um dia ao computador e dificuldade de virar a cabeça ao dar ré no carro. É o conjunto, e não a dor de cabeça isolada, que aponta para a origem cervical.
- A história separa do que a imagem não separa. Cervicogênica costuma fixar-se de um lado e ser reproduzida ao pressionar os suboccipitais; a enxaqueca lateja, traz náusea e fotofobia e troca de lado entre as crises; a tensional aperta os dois lados em faixa. Com frequência os três coexistem na mesma pessoa, e tratar o componente cervical reduz a carga total de dor mesmo quando há enxaqueca verdadeira por trás.
- O formigamento no braço tende a assustar mais do que deveria. Uma dor que desce até o polegar e o indicador costuma ser interpretada como “circulação” ou início de AVC; mapear o trajeto no dermátomo (C6, neste exemplo) localiza o nível e, na ausência de bandeira vermelha, tranquiliza, porque a radiculopatia isolada tem bom prognóstico.
- O que liga o alerta não é a intensidade da dor, e sim a perda de função. A mielopatia raramente dói muito; o que aparece é a mão que deixa cair objetos, o botão da camisa que ficou difícil e o andar que ficou inseguro. Por isso vale perguntar ativamente sobre destreza e equilíbrio, mesmo quando a queixa principal é dor de cabeça.
Não é enxaqueca: como diferenciar

A cefaleia cervicogênica é confundida com enxaqueca e com cefaleia tensional, e essa confusão atrasa o tratamento certo, porque a pessoa passa anos tomando analgésico para uma dor cuja origem está no pescoço. As três têm pistas próprias. A diferenciação é clínica, feita pela história e pelo exame, e não por um exame de imagem.
| Tipo | Onde começa e como é | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Cervicogênica (origem cervical) | Nuca, sobe para um lado da cabeça; em peso/pressão | Sempre o mesmo lado; piora com a postura e o movimento do pescoço; reproduz à palpação |
| Enxaqueca | Pulsátil, latejante, em geral de um lado | Náusea, sensibilidade à luz e ao som, crises bem definidas; pode ter aura |
| Tensional | Em faixa, aperto dos dois lados | Bilateral, sem náusea importante e sem piora clara com o pescoço |
A distinção raramente é absoluta. Muita gente com enxaqueca também tem um gatilho cervical, e tratar o pescoço pode reduzir a frequência das crises mesmo em quem tem enxaqueca verdadeira. O ponto prático é não assumir que toda dor de cabeça recorrente é enxaqueca: vale examinar o pescoço. Quando a dúvida envolve a enxaqueca propriamente dita, a abordagem está detalhada no nosso guia sobre enxaqueca: causas e tratamentos, e o padrão cervical específico, no texto sobre cefaleia cervicogênica.
“Tenho dor de cabeça quase todo dia, então é enxaqueca e só passa com remédio para enxaqueca.”
Parte das dores de cabeça recorrentes tem origem cervical e responde ao tratamento do pescoço. Por isso o exame físico do pescoço é parte da investigação.
Há uma inversão prática que vale registrar. Uma dor de cabeça teimosa, sempre do mesmo lado e que começa na nuca, pode ser o primeiro e único sinal de um problema cervical, antes de qualquer dor no braço ou achado de imagem. Na rotina, isso vira uma regra simples: a cefaleia de um lado só, presa ao pescoço e que piora com a postura merece um exame físico do pescoço antes de virar mais um caso tratado por anos só como enxaqueca. Dois detalhes reforçam a ideia. Primeiro, a ressonância engana nos dois sentidos: ela mostra hérnias em gente sem dor nenhuma, e pode ser normal quando o gerador da dor é o ponto-gatilho suboccipital, que não aparece em imagem alguma; quem reproduz a sua dor de cabeça é o dedo do examinador sobre o músculo, não o laudo. Segundo, “tratar o pescoço” costuma ser entendido como manipular ou estalar a coluna, quando o que muda o quadro é treinar os flexores profundos e desativar os pontos-gatilho. Em resumo: a dor de cabeça pode ser a porta de entrada da hérnia cervical, o diagnóstico se faz pela história e pela palpação, e o tratamento principal está no controle motor do pescoço.
Sinais de alerta: a mielopatia
A imensa maioria das hérnias cervicais é benigna e melhora sem cirurgia. O cenário que muda tudo é a mielopatia cervical: quando a compressão atinge não uma raiz, mas a própria medula espinhal dentro do canal. Diferente da radiculopatia (que dói e formiga no braço), a mielopatia é com frequência pouco dolorosa e se manifesta por perda de função. É a principal bandeira vermelha deste tema e exige avaliação sem demora.
Procure avaliação sem demora se houver
- Perda de destreza nas mãos: dificuldade para abotoar a camisa, escrever, segurar objetos pequenos ou pegar moedas.
- Alteração da marcha: sensação de andar desequilibrado, “como bêbado”, ou quedas sem explicação.
- Formigamento ou choque que desce pela coluna ao flexionar o pescoço (sinal de Lhermitte).
- Fraqueza progressiva em braços ou pernas, sobretudo nos dois lados.
- Perda do controle da urina ou das fezes.
- Dor após trauma cervical, ou febre, perda de peso e história de câncer associadas.
Esses sinais apontam para compressão medular ou para causas que fogem do quadro muscular comum, e cada um deles antecipa a investigação e pode indicar cirurgia. A presença de fraqueza, alteração da marcha ou perda do controle de esfíncteres nunca deve ser observada em casa. Na ausência desses sinais, a dor de cabeça e a dor no pescoço de fundo cervical costumam responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas. A leitura ampla da compressão de nervos na coluna está no texto sobre nervos comprimidos na coluna e no pescoço.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico é clínico antes de ser de imagem. A regra que vale para toda a coluna vale aqui: trata-se o paciente, com a imagem como apoio ao exame. Hérnias e abaulamentos cervicais são achados muito comuns em pessoas sem nenhuma dor, e a frequência aumenta com a idade, de modo que encontrar uma hérnia na ressonância não significa, por si só, que ela seja a causa da sua dor de cabeça. Uma hérnia na imagem só ganha valor quando o nível, o lado e o trajeto da dor coincidem com a história e com o exame físico.
Pergunta-chave
A imagem vai mudar a conduta?
Ressonância da coluna cervical quando há radiculopatia que não melhora, suspeita de mielopatia ou qualquer bandeira vermelha.
Nas primeiras semanas de dor cervical comum, sem sinais de alerta, a imagem não é exame de rotina: pedi-la cedo só faz tratar achados que aparecem também em quem não sente dor.
A regra prática, alinhada às diretrizes, é não pedir imagem de imediato na dor cervical comum sem bandeiras vermelhas, justamente para não tratar achados que aparecem em quem não sente dor.
Tratamento: multimodal e não-cirúrgico
O tratamento da hérnia cervical com dor de cabeça é multimodal, individualizado e não-cirúrgico na grande maioria dos casos. O objetivo não é “fazer a hérnia sumir” da imagem, e sim reduzir a dor, recuperar a mobilidade e a força e desligar o ciclo que mantém a musculatura suboccipital tensa e a cabeça doendo. A base é ativa, com exercício orientado, e as demais técnicas se somam a ela conforme a apresentação e a resposta.
A cirurgia é exceção, reservada às situações descritas no fim desta seção. Boa parte das hérnias, inclusive, reabsorve espontaneamente ao longo de meses, o que reforça a estratégia de controlar a dor enquanto o corpo trabalha.
Reabilitação cervical
Ativação dos flexores profundos do pescoço, estabilização escapular e fortalecimento progressivo. É a base do plano e o eixo de todo o resto.
Educação e ajuste de rotina
Organizar o posto de trabalho, reduzir a cabeça projetada à frente, ajustar sono e uso do celular; o repouso prolongado piora o quadro.
Acupuntura e eletroacupuntura
Agulhamento no território de C2-C3 e suboccipitais, onde a via cervical e a trigeminal convergem; reduz a frequência da cefaleia.
Agulhamento seco e infiltração do ponto-gatilho
Desativa os pontos-gatilho suboccipitais e do trapézio superior que referem a dor à cabeça. Ataca a via indireta.
Bloqueio do nervo occipital e PENS
Bloqueio occipital abre janela para a reabilitação quando a dor não cede; PENS para componentes neuropáticos ou miofasciais selecionados.
Toxina botulínica
Reservada a casos refratários com espasmo e dor miofascial mantidos, ou enxaqueca crônica coexistente. Não trata a hérnia em si.
Manejo farmacológico
Analgésicos e anti-inflamatórios por períodos curtos; neuromoduladores no componente neuropático. Adjuvante, ver «Tratamento medicamentoso».
Reabilitação e exercício cervical: a base
- O que é
- Trabalho ativo de controle motor do pescoço: ativação dos flexores profundos cervicais (flexão craniocervical, o discreto “aceno de sim” sem levantar a cabeça), estabilização escapulotorácica e fortalecimento progressivo da cadeia posterior, com terapia manual como adjuvante.
- Mecanismo
- Tira a carga de sustentação dos músculos suboccipitais, que param de compensar e relaxam, reduzindo tanto a dor cervical quanto a dor de cabeça referida.
- Evidência
- Moderada Melhor relação entre evidência e segurança e o eixo de todo o resto. Revisões mostram benefício de terapia manual associada a exercício na cefaleia cervicogênica, com magnitude variável entre estudos; o exercício de controle motor é o componente mais consistente.
- O que esperar
- Resposta gradual, ao longo de semanas. Atendimento individual. O programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências.
- Limitações
- Exige adesão e regularidade; na fase muito aguda a carga é reduzida e progride conforme a tolerância. Qualquer bandeira vermelha muda a conduta.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- Mecanismo
- Modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Agulhar no território de C2-C3 e na musculatura suboccipital atua onde a via cervical e a trigeminal convergem.
- Evidência
- Moderada Para a dor cervical crônica e para a cefaleia e a enxaqueca, com recomendação de diretrizes (como o NICE) em contextos selecionados. Útil para reduzir o uso de analgésicos sem deixar a dor sem cobertura.
- O que esperar
- Efeito cumulativo, depende da regularidade, medido pela queda na frequência da dor de cabeça. Primeiro bloco com reavaliação por volta da terceira a quarta sessão: se a frequência não começou a ceder e a palpação suboccipital ainda reproduz a dor, revê-se os pontos e o nível trabalhado em vez de repetir o protocolo.
- Indicações
- A localização dos pontos é guiada pelo exame neurológico e pela palpação dos músculos que referem dor para a cabeça neste caso específico.
Agulhamento seco e infiltração do ponto-gatilho suboccipital
- O que é
- A técnica mais direcionada à dor de cabeça da hérnia cervical, porque ataca a via indireta. O trapézio superior projeta dor que sobe pela nuca e contorna a têmpora; os suboccipitais referem uma dor profunda atrás do olho e na lateral da cabeça, justamente o território que a pessoa descreve.
- Mecanismo
- No agulhamento seco, a agulha é dirigida à banda tensa e busca a contração reflexa do ponto-gatilho, um pequeno espasmo que costuma vir com redução imediata da tensão e queda da atividade elétrica espontânea da placa motora; efeito analgésico local e segmentar. Quando o ponto é resistente, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) interrompe o ciclo de forma mais direta.
- O que esperar
- Parte das pessoas sente alívio ainda na maca; em outras, a cabeça começa a doer menos só no dia seguinte ou no segundo dia, e é comum uma dor muscular leve no ponto agulhado por um ou dois dias.
- Limitações
- A região suboccipital é vizinha da artéria vertebral e do forame magno, de modo que a profundidade e a direção da agulha exigem domínio anatômico, com a cabeça apoiada.
Bloqueio do nervo occipital e neuromodulação (PENS)
Quando a dor de cabeça não cede ao plano de base, ou quando há um padrão de neuralgia occipital somado à hérnia, o bloqueio do nervo occipital maior (injeção de anestésico, por vezes com corticoide, ao redor do nervo na base do crânio) interrompe temporariamente a condução nociceptiva e abre uma janela para avançar a reabilitação. O alívio pode durar de dias a semanas. O PENS (estimulação elétrica percutânea) é uma opção de neuromodulação para componentes neuropáticos ou miofasciais selecionados, aplicada em ciclos com resposta reavaliada.
Na radiculopatia cervical que não melhora, bloqueios guiados na coluna podem ser considerados. São recursos pontuais, e não substituem o tratamento ativo.
Toxina botulínica para casos refratários
Reservada a quadros que não respondem ao tratamento inicial, sobretudo quando há forte componente de espasmo e dor miofascial mantendo a queixa, ou quando coexiste uma enxaqueca crônica. A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (como CGRP, substância P e glutamato), com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular. Tem evidência consolidada na enxaqueca crônica e não é primeira linha para a cervicalgia comum; também não trata a hérnia em si. O efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Manejo farmacológico e a dor neuropática
A medicação tem papel adjuvante: alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não substitui a base ativa. Analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos ajudam na fase de dor; relaxantes musculares têm papel limitado e causam sonolência. Atenção a um ponto importante da dor de cabeça: o uso frequente de analgésicos pode gerar cefaleia por abuso de medicação, que piora justamente o que se queria tratar.
Quando há componente neuropático claro da radiculopatia (dor em queimação ou choque no braço), podem-se considerar antidepressivos tricíclicos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina), duloxetina ou gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico, com atenção a efeitos adversos e comorbidades. O detalhamento por classe está em «Tratamento medicamentoso»; as opções estão reunidas no guia de remédios para dor.
Controle inicial
Reduzir a sobrecarga, ajustar postura no trabalho e no sono, iniciar mobilidade suave e a ativação dos flexores profundos, mantendo-se ativo.
Progressão
Fortalecimento progressivo, estabilização e técnicas em clínica; a dor cervical e a frequência da dor de cabeça costumam começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, ou diante de qualquer bandeira vermelha, revê-se o diagnóstico e consideram-se procedimentos guiados ou investigação adicional.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
O tratamento ativo é a coluna vertebral do plano e é tudo o que se faz com o corpo, sem agulha e sem remédio: fisioterapia e cinesioterapia, reeducação postural global (RPG), estabilização cervical profunda, Pilates clínico e terapia manual. Não é uma alternativa “mais fraca” às outras técnicas. É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na dor cervical e na cefaleia cervicogênica, e é o que sustenta o resultado depois que a dor aguda cede.
As demais técnicas em clínica abrem janela; o exercício é o que mantém o pescoço capaz de tolerar o dia a dia e reduz a recorrência. Na clínica, a reabilitação é individual, um paciente por sala, com progressão guiada pela resposta.
Fisioterapia e cinesioterapia cervical
Reabilitação ativa individualizada com exercício terapêutico graduado, conduzida por fisioterapeuta: ganho de controle motor, força e mobilidade, dessensibilização ao movimento (a dor cervical instala um medo de mover o pescoço que perpetua a rigidez) e correção dos fatores posturais que sobrecarregam os segmentos altos e a musculatura suboccipital. Indicada em praticamente todo quadro de hérnia cervical sintomática, incluindo a radiculopatia em fase de melhora. Na fase muito aguda, a carga é reduzida e progride conforme a tolerância; qualquer bandeira vermelha muda a conduta.
Estabilização cervical profunda e controle motor
O componente mais específico e consistente. Foco na ativação dos flexores profundos cervicais (longo do pescoço e longo da cabeça) pela flexão craniocervical, o discreto “aceno de sim” feito sem levantar a cabeça do apoio nem acionar os superficiais. Quando esses estabilizadores finos falham, os superficiais (esternocleidomastóideo, escalenos, trapézio superior e suboccipitais) assumem a sustentação e entram em sobrecarga crônica, exatamente a musculatura que refere dor para a cabeça. Soma estabilização escapulotorácica (serrátil anterior e trapézio inferior) e fortalecimento da cadeia posterior. O ganho aparece ao longo de semanas e depende da constância.
RPG (reeducação postural global)
Método que trata o corpo por cadeias musculares em vez de músculos isolados, com posturas mantidas de alongamento ativo. A cabeça projetada à frente encurta a cadeia posterior do pescoço (suboccipitais, extensores cervicais) e os peitorais, mantendo a sobrecarga sobre os segmentos altos. A RPG trabalha o alongamento global dessas cadeias com contração isométrica em posição alongada, reequilibrando a tensão entre a frente e a parte de trás do tronco e do pescoço. Útil no componente postural e na tensão suboccipital mantida, integrada ao fortalecimento, não como substituta dele.
Pilates clínico
Exercício de controle motor que treina estabilidade do tronco, respiração e movimento consciente, adaptado ao quadro e supervisionado. Melhora o controle postural global e a estabilização do tronco e da cintura escapular, criando uma base estável a partir da qual o pescoço trabalha com menos sobrecarga; a consciência corporal ajuda a corrigir a postura mantida ao computador e ao celular. Indicado na manutenção e progressão depois da fase inicial e na prevenção de recorrência. Deve ser clínico e individualizado; exercícios genéricos de grupo, sem adaptação, podem sobrecarregar o pescoço, e não substitui o trabalho específico dos flexores profundos.
Terapia manual
Técnicas manuais de mobilização articular e de tecidos moles aplicadas pelo fisioterapeuta: ganho de mobilidade dos segmentos cervicais, redução do tônus muscular e modulação da dor, abrindo janela para o paciente exercitar com menos dor. O benefício é maior quando associada ao exercício, e não usada isoladamente — essa combinação é a que aparece nas revisões sobre cefaleia cervicogênica. É adjuvante; a manipulação de alta velocidade na coluna cervical exige critério e cautela, e qualquer suspeita de mielopatia ou instabilidade a contraindica. Por isso a avaliação que afasta bandeiras vermelhas vem sempre antes.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia tem papel restrito na hérnia cervical e quase nunca é indicada por dor de cabeça isolada. Para a imensa maioria das pessoas que chegam com hérnia cervical e cefaleia, o caminho é o oposto da cirurgia: identificar o componente cervical e o miofascial, fortalecer o pescoço, modular a dor e recuperar a função. Ainda assim, a cirurgia é parte real do espectro de tratamento e existem situações em que ela muda o prognóstico. Estes procedimentos não são realizados em nossa clínica, que é de tratamento não cirúrgico da dor; quando há indicação, o paciente é encaminhado ao cirurgião de coluna (neurocirurgião ou ortopedista) e o acompanhamento é compartilhado.
Conservador · 1ª escolha
Tratamento multimodal não-cirúrgico
- Indicado na imensa maioria dos casos de hérnia cervical com cefaleia.
- Exercício de controle motor do pescoço como base, técnicas em clínica somadas conforme a resposta.
- Alvo: reduzir a dor, recuperar mobilidade e força e desligar o ciclo miofascial; a dor de cabeça responde ao componente cervical e miofascial.
- Boa parte das hérnias reabsorve sozinha ao longo de meses.
Cirúrgico · exceção
Cirurgia de coluna cervical
- Considerada na mielopatia cervical (compressão da medula com perda de destreza, alteração da marcha ou comprometimento de esfíncteres), em que a descompressão precoce protege a função.
- Déficit motor progressivo por compressão de raiz (fraqueza que avança).
- Radiculopatia com dor incapacitante que persiste apesar de tratamento conservador completo e bem conduzido, em geral por 6 a 12 semanas.
- A imagem precisa concordar com o quadro clínico (nível, lado e trajeto); hérnias assintomáticas são achados comuns. Decisão sempre compartilhada.
As duas operações mais comuns para a hérnia cervical abordam a coluna pela frente do pescoço, e a escolha entre elas e os demais procedimentos depende do número de níveis acometidos, da idade, da mobilidade e da presença de mielopatia.
Os resultados têm um alvo definido. A cirurgia é boa para aliviar a dor radicular no braço e para estabilizar ou frear a mielopatia, mas raramente tem como alvo a dor de cabeça, que costuma responder ao tratamento do componente cervical e miofascial. Como toda operação de coluna, traz riscos próprios (infecção, rouquidão ou dificuldade temporária para engolir na via anterior, lesão neural, necessidade de reabordagem e sobrecarga dos níveis adjacentes a longo prazo), e a recuperação envolve semanas de proteção e retorno gradual à reabilitação. Por isso a decisão pesa o benefício esperado contra esses riscos, e a reabilitação ativa continua sendo parte do cuidado mesmo depois de operar.
Fora do espectro cirúrgico, há ainda recursos conduzidos por outras especialidades que podem entrar no plano conforme o quadro: a infiltração epidural cervical guiada por imagem, realizada em serviço especializado de dor intervencionista para a radiculopatia que não cede, e o acompanhamento neurológico quando coexiste uma enxaqueca verdadeira de difícil controle. A leitura ampla da compressão de nervos na coluna está no texto sobre nervos comprimidos na coluna e no pescoço, e a abordagem completa da dor cervical, no pilar sobre dor no pescoço: quando se preocupar e no guia sobre cervicalgia: causas, sintomas e tratamento.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante na hérnia cervical com dor de cabeça: alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não trata a hérnia em si nem substitui a base ativa. A escolha depende de qual componente domina (a dor cervical e miofascial, a dor neuropática da radiculopatia, ou a própria cefaleia) e toda prescrição, dose e duração cabem ao médico, que pondera efeitos adversos e comorbidades. Há um cuidado específico nesta condição: o uso frequente de analgésicos para a dor de cabeça pode gerar cefaleia por abuso de medicação, que piora justamente o que se queria tratar, de modo que a estratégia é usar o remédio por períodos definidos enquanto o tratamento ativo faz efeito. As classes a seguir são.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / cuidados |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios — ibuprofeno, naproxeno | Componente inflamatório e nociceptivo na fase de dor aguda | Moderada | Por períodos curtos; não para uso contínuo. Atenção aos efeitos gastrointestinais, renais e cardiovasculares, sobretudo em uso prolongado ou com comorbidades. |
| Analgésicos simples — paracetamol, dipirona | Alívio sintomático pontual da dor | Moderada | Perfil de segurança em geral mais favorável que o dos anti-inflamatórios. Não cronificar o uso, para não induzir cefaleia por abuso de medicação. |
| Neuromoduladores — gabapentina, pregabalina | Componente neuropático claro da radiculopatia (queimação ou choque descendo pelo braço) | Moderada | Reduzem a hiperexcitabilidade neuronal; dose titulada de forma gradual. Efeitos adversos mais comuns: sonolência, tontura e edema. |
| Relaxantes musculares | Quadros com espasmo muscular importante | Limitada | Papel limitado e por tempo curto. A sonolência é o efeito mais frequente e limita o uso diurno; não são solução de fundo nem substituem o tratamento ativo. |
| Corticoide em curso curto | Radiculopatia aguda com dor intensa selecionada | Limitada | Ciclo oral curto e em dose decrescente, pelo efeito anti-inflamatório sobre a raiz. Uso pontual, pelos efeitos adversos do corticoide; decisão individualizada. |
| Antidepressivos em dose analgésica — tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), duloxetina | Componente neuropático persistente | Moderada | Com indicação e acompanhamento médicos. |
Quando a investigação aponta uma enxaqueca verdadeira coexistindo com o gatilho cervical, o tratamento específico da enxaqueca é conduzido à parte, em geral com o neurologista, e foge do escopo da medicação para a dor cervical. As opções de medicação para a dor estão reunidas no guia de remédios para dor, e a abordagem da enxaqueca, no guia sobre enxaqueca: causas e tratamentos.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Hérnia de disco cervical pode causar dor de cabeça?
Pode. A hérnia cervical causa dor de cabeça sobretudo quando atinge os segmentos altos (C2-C3, C3-C4) ou quando mantém a musculatura suboccipital em tensão crônica. A dor costuma começar na nuca e subir para um lado da cabeça. Esse padrão se chama cefaleia cervicogênica.
Existe “hérnia na cabeça”?
Não como muita gente imagina. A hérnia de disco fica na coluna cervical, no pescoço, não dentro do crânio. O que ocorre é uma dor referida: a irritação no pescoço alto é interpretada pelo cérebro como se viesse da cabeça, por causa da convergência dos nervos cervicais com o trigêmeo no tronco encefálico.
Como diferenciar a dor de cabeça da hérnia cervical de uma enxaqueca?
A cefaleia cervicogênica começa na nuca, fica do mesmo lado, piora com a postura e o movimento do pescoço e pode ser reproduzida ao pressionar a musculatura suboccipital. A enxaqueca costuma ser pulsátil, com náusea e sensibilidade à luz e ao som. O exame do pescoço ajuda a distinguir, e os quadros podem coexistir.
A hérnia cervical pode dar formigamento e fraqueza no braço?
Sim. Quando a hérnia comprime uma raiz nervosa, surge a radiculopatia cervical: dor, formigamento e às vezes fraqueza que descem para o ombro, o braço ou a mão, seguindo o trajeto da raiz afetada (mais comum em C6 e C7). É diferente da dor de cabeça e indica avaliação para localizar o nível.
Quando a hérnia cervical é perigosa?
O cenário de alerta é a mielopatia cervical, quando a compressão atinge a medula. Sinais como perda de destreza nas mãos, dificuldade para andar, fraqueza progressiva ou perda do controle de urina e fezes pedem avaliação sem demora. Na ausência desses sinais, a hérnia costuma ser benigna e tratada sem cirurgia.
Quanto tempo leva para a dor de cabeça da hérnia cervical melhorar?
Varia entre pessoas. Muitos quadros começam a responder em 4 a 6 semanas de tratamento consistente, com exercício de controle motor do pescoço como base e técnicas em clínica somadas conforme a resposta. A evolução não é linear e o plano é reavaliado ao longo do caminho.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Yang L; Li Y; Dai C; Pang X; Li D; Wu Y; Chen X; Peng B. Anterior cervical decompression and fusion surgery for cervicogenic headache: A multicenter prospective cohort study. Frontiers in neurology. 2022. doi:10.3389/fneur.2022.1064976. PMID:36504652.
- Jellad A; Kalai A; Chaabeni A; Nasrallah CB; Nsir AB; Jguirim M; Sriha AB; Frih ZBS; Bedoui MH. Effect of cervical traction on cervicogenic headache in patients with cervical radiculopathy: a preliminary randomized controlled trial. BMC musculoskeletal disorders. 2024. doi:10.1186/s12891-024-07930-z. PMID:39448969.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Distinguir uma cefaleia cervicogênica de uma enxaqueca, definir o nível da hérnia e decidir entre tratamento conservador e bandeira vermelha são passos que dependem de exame presencial: o plano precisa ser individualizado para o seu caso.
